26 de Dezembro de 2009

A indústria do que não tem preço

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:10

Sabe o sonho de ter uma pousada? A maioria já acalentou: ser dono do próprio negócio, viver longe do estresse da cidade, ter uma espécie de casa ampliada, aconchegante, para receber os amigos e fazer outros (os hóspedes, que serão sempre simpáticos). Algo assim não tem preço, não é mesmo?

Se o voo solo assusta, há outra alternativa para poder finalmente dar uma banana para o chefe e ser dono do próprio nariz. É só pegar as economias e investir numa franquia, negócio já formatado e sem riscos, pelo menos é o que dizem por aí.

Mas se você não se julga um sonhador, nem empreendedor nato, talvez tenha outra espécie de plano: passar em um concurso público e ter um salário garantido para o resto da vida, sem medo do amanhã. Verdade que passar na prova é difícil, mas estabilidade não tem preço…

Esses são apenas alguns sonhos na esfera do trabalho. Enquanto pensamos neles, nos contentamos com os pequenos, que cabem na inevitável gastança de fim de ano. Por exemplo, a sua filha, sua princesinha, fazendo parte de um grande espetáculo de dança, depois de um ano inteiro de aulas numa escola de prestígio. Ela, linda em seu figurino; perfeita em sua coreografia.

É justo no momento em que você se sente dentro de uma campanha da Mastercard que vem a facada. Sim, tem preço. Depois de pagar um absurdo pelo figurino, outro tanto pelo aluguel do teatro, sem falar na sapatilha – uma pechincha perto disso tudo, mas o fato é que você ainda teve que bater perna e gastar por fora –, alguém lhe oferece um DVD com todos os momentos “não tem preço” gravados - com qualidade profissional, claro.

Você acabou de comprar um buquê de flores providencialmente à venda na porta do teatro (se as outras meninas vão ganhar, como a sua princesinha vai ficar sem?), e aí finalmente percebe: foi fisgado pela indústria do não tem preço.

A rigor, ninguém o enganou, e capitalismo eficiente é isso aí. O crescimento do mercado de serviços e produtos infantis só comprova a culpa crescente dos pais que trabalham muito, sem falar na possibilidade de realização por meio do sucesso dos filhos. Quanto vale o sorriso do seu filho diante do brinquedo tão sonhado, desembrulhado embaixo da árvore de Natal? Ah, não tem preço, você aprendeu com a campanha publicitária.

É verdade que a criança tem vários brinquedos parecidos e vai se desinteressar do novo rapidamente, como aconteceu com os anteriores. Mas… e o sorriso? E o Natal? Só um insensível acharia que algo assim tem preço. Um insensível ou alguém com um bom senso de oportunidade, para filmar o tal espetáculo da escola de balé e cobrar R$ 90 pelo DVD.

“É meio tabelado, paguei a mesma coisa pela apresentação da minha filha”, tentou me conformar uma amiga. Eu me rendi, mas depois fiquei pensando nas outras indústrias, que exploram (no bom sentido) sonhos menos realizáveis, como aquelas relacionados ao trabalho que mencionei lá no começo.

Recentemente descobri uma bela estrutura montada para, digamos, ajudar uma pessoa a se tornar um escritor. Como no caso dos que almejam passar em concursos públicos, alguns poucos podem, de fato, chegar lá. A arrasadora maioria, porém, vai apenas injetar dinheiro na indústria que se formou em torno do sonho.

Mas é complicado julgar os que “exploram” e alimentam o sonho alheio, mesmo sabendo quando ele é absolutamente inalcançável. Será que o professor do curso “Como se tornar dono de uma pousada” deveria alertar os alunos sem a menor chance de sucesso na empreitada? Quem negocia uma franquia deveria confessar que a maioria dos franqueados se esfalfa de tanto trabalhar em troca de uma remuneração menor que o antigo salário?

Muitas vezes, paga-se para sonhar, para dar um sentido à vida, para ter o status de quem está ambicionando algo grandioso.

21 de Dezembro de 2009

Viva a Cacau Show

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:51

A Conferência de Copenhague fracassou, então na próxima deviam fazer na Cacau Show, que é mais popular e o chocolate também é ótimo. Essa eu li hoje na coluna Gente Boa, do Globo, e dei umas boas risadas, porque estava com raivinha.

Na sexta-feira tinha ido tomar um café na Kopenhagen, como fiz sistematicamente ao longo de 2009, e… a mocinha não quis me servir. “Perto do Natal a gente só vende café se estiver vazio”. Havia duas pessoas comprando caixas de chocolates, enquanto a máquina de expresso permanecia ligada sem ser ativada.

Fiquei tão desconcertada que não reagi. Imagina você pedir um copo dágua e a pessoa responder: hoje não. Recusar-se a servir um cafezinho, porque dá para faturar mais vendendo bombom, é uma grosseria semelhante, fiquei pensando depois. Era o fim da picada.

Fiquei pensando depois porque sou do tipo que nunca tem a resposta na ponta da língua, e fica remoendo o que devia ter dito na hora. Abatida, rumei para o Armazém do Café (com alguma convicção de que lá seria bem atendida, apesar do tumulto natalino) e na volta fui obrigada a passar novamente pelo quiosque da Kopenhagen, para subir a escada rolante que dá acesso ao escritório.

Olhei de soslaio e percebi que serviam café - pelo visto, os chocolates carésimos não estavam vendendo tanto assim. A mocinha do caixa me viu e explicou: agora estamos servindo. Desfiz o beicinho e finalmente as palavras - já postas na ponta da língua - saíram: era o fim da picada.

15 de Dezembro de 2009

Flores de plástico não morrem

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:14

Eu precisava comprar flores. Queria chegar com um lindo buquê de rosas vermelhas na mão, e pensei que não seria problema conseguir um na efervescência comercial de Ipanema. Foi aí que descobri que as floriculturas estão em extinção.

Não, eu não sabia. Elas foram substituídas pela venda de flores nas esquinas, em vasos plantados, ou por quiosques chiques com orquídeas nos shopping centers. A velha e boa floricultura, na qual escolhíamos os botões de rosa com conhecimento de causa – prever quais deles desabrochariam era uma arte -, deixou de ser um bom negócio faz tempo.

Flores são perecíveis, os pontos comerciais de Ipanema são uma fortuna e a especialização não vale a pena, me explica o vendedor da única floricultura que resiste em Ipanema (depois de muito bater perna, descobri uma, na Rua Farme de Amoedo).

Às floriculturas, o mesmo destino dos açougues. Onde foram parar os açougues?

10 de Dezembro de 2009

Tuvalu e nós

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:16

As chances de sabermos da existência de Tuvalu eram mínimas. Digamos que você tivesse uma oportunidade de ir à Austrália. Teria que ficar lá tempo o suficiente para alguém sugerir: por que não dá um pulo no arquipélago de Tuvalu? Ok, mas ninguém faz turismo naquelas ilhas, onde só existe um hotel chinfrim, apesar da paisagem paradisíaca igual a milhares de outras ilhas na região. Então a sugestão viria por conta do seu interesse por… história!

Isso, você é um historiador, atrás de um novo ponto de vista sobre os conflitos no Pacífico durante a Segunda Guerra, depois do ataque à base militar de Pearl Harbor. Sim, Tuvalu, pertinho do Havaí, foi um estratégico campo de batalha em 1943, e os japoneses chegaram a atacar nove vezes o arquipélago ocupado por americanos.

Mas essa história já foi contada, e, convenhamos, os custos de uma viagem assim não são cobertos por um interesse acadêmico. Mais factível seria o seu interesse econômico pelo país, que produz… bem, Tuvalu não produz nada. Alguns barcos de pesca, um cultivo rudimentar de cocos, e nada mais. No entanto, você é representante de um poderoso grupo de comunicações, que desde o crescimento da internet ficou intrigado com o domínio dado de mão beijada à pequena nação perdida no oceano.

Os endereços da internet em Tuvalu podem usar a terminação “.tv”, embora os poucos sites locais, iniciativa de alguns dos 12 mil habitantes, sejam escritos em tuvaluano. Que desperdício, comentou um marketeiro em uma reunião, e lá foi você, com a pastinha debaixo do braço, negociar com o primeiro-ministro de Tuvalu. Pensou em levar uns espelhinhos, mas achou melhor chegar com uns US$ 50 milhões, o que foi suficiente para fechar o acordo de cessão do domínio por dez anos, e dobrar o PIB do estado tuvaluense na década.

Talvez esta fosse sua única chance de descobrir a existência de Tuvalu. No entanto, desde ontem, eu, você e o mundo fomos apresentados ao minúsculo arquipélago (26 quilômetros quadrados!) que será o primeiro a sumir do mapa por causa do aquecimento global. Quem tem vertigem de altura não corre riscos em Tuvalu: o seu “cume” fica a 5 metros de altitude. Coube ao destino dar fama à nação às vésperas de sua extinção. Caberá ao mundo, na Conferência de Copenhague, mudar a triste sina de Tuvalu – agora, tão próximo de nós.

9 de Dezembro de 2009

Má educação

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:44

Pode ser o mês de dezembro, a desculpa da pressa, mas o fato é que os mal educados parecem ter se multiplicado nos últimos dias. A observação rolou numa rodinha, onde houve unanimidade a respeito do assunto. Uma das pessoas, que precisou usar muletas, contou ter passado sufoco nas ruas do Leblon: era atropelada pelos passantes. “Só faltava me darem uma rasteira por eu estar atrapalhando a passagem.”

No trânsito, nas filas e nas lojas, parece que todos estão crescendo nos cascos, com o pavio curto, como se a farinha fosse pouca, meu pirão primeiro. As expressões do tempo da vovó me ocorrem agora, provavelmente, porque lembro dos tempos de menina, quando aprendi a respeitar os mais velhos, ceder a vez, ser gentil com quem está me servindo - enfim, essas coisas em desuso.

Tudo bem que o tempo é curto em dezembro, que as chuvas atrapalham horrores a vida da gente, mas e quanto ao espírito natalino? Aquela simpatia toda vale só para o dia do amigo oculto/secreto? Olha que eu gosto de Natal, mas já estou pensando em pular direto para janeiro.

4 de Dezembro de 2009

Palmada

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:26

“Plaft!” A mulher sapeca um tapa no braço do filho, que tentava alcançar uma batata frita antes que o prato pousasse na mesa. A mão espalmada, ou o relativo silêncio da lanchonete, aumenta a percepção do golpe. Imediatamente ela percebe que exagerou na dose - ou na técnica do barulho, que deve funcionar em casa que é uma beleza. Mas, em lugares públicos…

Mesmo vindo de lado, o meu olhar atônito deve ter sido detectado, provavelmente rebatido nos olhos da terceira ocupante da mesa. Os lábios, contraídos na hora do tapa, ficam moles, ela se ajeita na cadeira ao lado do menino em prantos e dá um beijinho. Pede desculpas. As lágrimas do garoto ainda correm, mas ele para de chorar e começa a comer, concentrado. Está com fome. Está acostumado.

Ela passa a acariciá-lo. Parte a carne, bem picadinha, mil vezes. Sinto uma necessidade súbita de ir embora dali, como se a minha plateia não condissesse com o teatro encenado. Melhor deixá-los à vontade, e torcer para o menino crescer rápido e ganhar dinheiro para pagar a própria terapia.

1 de Dezembro de 2009

Sem luz no fim do apagão

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:31

Não sei você, mas ontem foi meu quarto apagão, em 20 dias. O primeiro, aquele pelo qual todos passaram, teve um quê de excitante. Quebrou a rotina, remexeu em memórias da infância, suscitou reflexões sobre nossa dependência da tecnologia.

O segundo apagão, em Ipanema, atrapalhou muuuito o meu trabalho. Morri de calor enquanto o notebook tinha bateria, tentei me virar sem internet, mas acabei atrasando o prazo para entregar um texto.

O de ontem foi no mesmo horário do terceiro, depois das 23h, e o transtorno maior foi ficar sem ar condicionado e dormir cedo. Só que não tinha mais graça. As tais memórias da infância, mais nítidas e menos fantasiosas, me fizeram recordar como era terrível viver sem luz e telefone a cada temporal, nos tempos em que morava no Alto da Boa Vista.

Agora eu moro no Leblon, o bairro que “fala alto”, e não consigo me conformar com a situação. Ontem tentei ler à luz de vela, lembrei de deixar desligados os interruptores, procurei usar a “expertise” adquirida a contragosto nos últimos dias. Mas me recuso a me adaptar. Não, eu não vou comprar um lampião para ler à noite.

27 de Novembro de 2009

Adorável Julia

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 13:56

Enfim estreia hoje o filme “Julie & Julia”, que com certeza dará à atriz Meryl Streep sua 16ª (!) indicação ao Oscar. É um filme delicioso (programe um belo jantar para depois) e eu escrevi sobre ele nesta coluna do Digestivo.

26 de Novembro de 2009

No aeroporto

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:29

Praça de alimentação do Aeroporto de Congonhas. Como vou tomar apenas um refrigerante, o preço me chama a atenção: R$ 4,75, uma latinha. Não estou com pressa, então decido fazer valer os meus direitos de consumidora indignada e suspendo o pedido. Vou no café ao lado. Depois no outro. O preço é exatamente o mesmo. Tabelado? Ah, o dono de todos os estabelecimentos é o mesmo, me informa a mocinha do caixa, com um sorriso cúmplice.

Quase resigno-me, mas aí lembro de uma descoberta do ano passado, numa época em que ia muito a São Paulo no esquema bate-volta. Saturada dos lanchinhos de avião e aeroporto, pensei em almoçar no restaurante do terceiro andar. Já ia entrando no salão vazio, as mesas impecáveis com toalhas brancas e taças de vinho denunciando o preço do buffet, quando dois ou três comissários de bordo passam por mim e seguem em direção a uma entrada ao lado esquerdo do restaurante.

O que haveria ali? Fui xeretar, e acabei descobrindo um restaurante superagradável, ao ar livre, com saladinhas, arroz, feijão, carne ensopada, e preço de quilo honesto. Tudo que um viajante precisa, quando não aguenta mais sanduíches secos, salgados gordurosos e lugares barulhentos. É claramente voltado aos funcionários do aeroporto, e só a eles, daí ser tão escondido. Mas qualquer um pode entrar e até fazer um lanche. Quanto ao refrigerante …

- Custa R$ 4 - me responde o caixa.

- Fiquei curiosa, porque lá embaixo é tabelado a R$ 4,75. Parece que é tudo do mesmo dono.

- Aqui também. Mas mesmo assim é tudo mais barato.

Então está dada a dica do dia, para quem costuma passar por Congonhas. E assim faço valer a linha fina do blog, depois de uma longa temporada sem dicas ou tentativas de conselhos.

22 de Novembro de 2009

Up-grade sem dor

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 20:13

Tinha que resolver isso já, antes do almoço, antes do café pós-almoço. Sorte ter finalmente lembrado na hora certa, em frente a uma loja de bolsas, sapatos e, claro, carteiras. O porta-moeda furado passava o dia esquecido dentro da carteira, até a hora do cafezinho. “Sim, tenho trocado”, garantia. Mas cadê ele? Nada. O tumulto na Kopenhagen aumentando e eu atrasando a fila. Que ideia também, café a R$ 2,90.

A urgência tomou conta de todo o meu ser consumista - que nem precisa de tanto estímulo assim para se manifestar. Entrei na loja decidida a dar um basta naquela situação. Como alguém vive nos dias atuais sem um porta-moeda decente na carteira? Lembrei do Zé, com as moedas soltas nos bolsos e pensei em como o ser humano pode passar uma vida inteira acostumado a pequenos grandes desconfortos.

Todos os modelos de carteira femininos tinham porta-moeda. Huummm. Mas não vou fazer ilações, porque não cheguei a checar as opções masculinas; só desconfio. Fui atraída pela mais bonita. Tá bom, confesso, era pink. Mas assim, moderna, como o rapazinho apressou-se em classificá-la, em um raro caso de acerto entre o discurso do vendedor e os valores do comprador. Da última vez que uma vendedora tentou me convencer a comprar uma blusa porque a coleção era inspirada na Índia da novela, saí correndo da butique.

Mas nem só de aparência vivem as vendas de uma carteira. Há também os compartimentos na parte interior. Eu poderia aproveitar para fazer um up-grade que me proporcionaria uma otimização dos recursos internos, introduzindo novas facilidades na minha vida de consumidora e cidadã-portadora-de-documentos-sempre-válidos. Quem sabe descobriria soluções para problemas que nunca cogitei ter, como os homens que sacolejam moedas nos bolsos de calças.

Up-grade? Ops. Imediatamente lembrei da angustiante jornada travada ao longo da semana com (contra?) o computador novo. A sensação de estranhamento, desamparo, solidão. Se já fico contrariada diante de qualquer alteração no layout de meus portais preferidos, que dirá mudança de sistema operacional, teclado, formato de tela, e-mail, tudo junto. Nada como espaços familiares para práticas antigas, como escrever.

Em instantes, imaginei-me tateando pelo cartão de crédito como quem busca o ponto de interrogação no teclado. Talvez quisesse me livrar daquele porta-cheque como tentei desinstalar a barra de ferramentas inútil, ocupando espaço na preciosa tela – feita para parágrafos, na minha concepção, não para propaganda de antivírus pseudográtis. Sem falar nas divisões da carteira sem uso óbvio, que seriam como os ícones clicados mil vezes em vão, enquanto não encontrava algo tão acessível no meu saudoso e jurássico computador anterior.

Já estava quase surtando e optando por ficar com a carteira antiga, quem sabe com o porta-moeda costurado por um sapateiro, se é que eles ainda existem. Foi então que o paciente vendedor, ainda atordoado com meu desabafo fora de hora sobre arquivos perdidos, abriu uma carteira linda com a divisão interna idêntica à minha. Idêntica, fui conferindo com olhos e mãos, maravilhada.

Por fora, todos me julgariam moderna, mas por dentro eu poderia usufruir da minha inconfessável caretice, da segurança dos espaços dominados, do aconchego das experiências conhecidas. Sim, sei que os avanços tecnológicos são para o meu bem, que em pouco tempo nem recordarei mais a dor dessa transição, mas agora me daria ao direito de resistir um pouco, de admitir minha condição de geração pré-computador e optar pelo antiguinho. Pelo menos na carteira.

Essa mesma!, exclamei, satisfeita. Nada como uma boa compra.

17 de Novembro de 2009

Luiz antes de Lula

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 16:16

Eu chorei. Com o trailer. O lançamento do filme “Lula, o filho do Brasil” está deixando indignados, com certa razão, os adversários políticos do governo, já em clima de eleição. E também a elite que nunca engoliu o presidente. Não por causa do mensalão, dos arroubos autoritários do PT ou da adesão à filosofia de que os fins justificam os meios. Mas justamente por causa da trajetória narrada no filme.

Uma trajetória, reconheçamos, emocionante. E que está no cerne do “fenômeno Lula” e de todos os microfenômenos que o acompanham: o carisma popular, o “teflon” antiescândalos, a liderança internacional.

Quando fui ao cinema assistir “Os dois filhos de Francisco”, com a história da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, talvez eu fosse como essa elite que entrará na sala escura a contragosto, só para depois dar o seu pitaco. Pois lá dentro, diante de um drama real muito bem contado, o nó que se formou em minha garganta foi colossal, porque tinha também o gosto do meu preconceito.

Pode ser que alguém consiga ver o filme atento apenas às omissões históricas ou às cenas apelativas, e assim sair de lá incólume e com o espírito crítico intocado. Mas acho que vai ser difícil.

Impressões

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 15:28

“Você não escreveu sobre suas impressões de Madri”, cobrou-me uma amiga. É verdade. Aí lembrei que tinha achado esquisito quando um conhecido, habitué de viagens exóticas, comentou ter como regra jamais tirar fotografias, e nem mesmo fazer anotações ― e olha que ele escreve bem. Agora, eu me identificava. Além de não escrever sobre, também não imprimi as fotos da Espanha.

Já venho postergando a impressão de fotografias há mais de ano. Sempre acho muito caro, para algo tão disponível no onipresente computador. Aliás, as tais fotos, desta última viagem, mostrei para algumas pessoas no meu netbook-de-um-quilo. Mas fiquei em dúvida com relação ao efeito de abri-lo no restaurante, interrompendo a conversa do grupo: talvez eu estivesse reproduzindo demais a cena de sacar da bolsa aqueles álbuns de fotos pesadões, que assustavam mas pelo menos podiam ser folheados displicentemente pelos amigos. Pior, pode ter ficado parecido com as antigas sessões de slides (nossa, põe antiga nisso).

Mas voltando às impressões de fatos e fotos, nestes tempos em que imperam a concisão e a rapidez, uma frase de impacto tornou-se indispensável para fisgar a atenção da audiência ― o que vale também para narrativas de viagem. A rapidez, confesso, não me atrai tanto como no passado, mas a busca da concisão é sempre um bom desafio. Pois, mais de uma vez, flagrei-me pensando sobre a minha impressão da Espanha. Veja bem, não “as impressões”, mas “a impressão”.

Claro que isso é pretensioso. Mas, quando pisamos pela primeira vez em uma grande cidade europeia, não há meio termo: ou você dá sorte de tropeçar em uma experiência inusitada/emblemática ou cai no lugar comum de uma sessão de slides. A propósito disso, lembro da decepção da minha amiga quando, no último dia da viagem, encontrou uma preciosa lista de “dicas” de Madri esquecida no fundo da mala. Teríamos perdido a oportunidade de conhecer algo sensacional e escondido? Nada disso. A lista, feita com esmero por alguém que acabara de voltar da Espanha, reproduzia ipsis literis os lugares obrigatórios dos guias turísticos.

Aqui é hora de admitir que, sim, tínhamos feito os mesmos programas. De todos os turistas. Mesmo assim, pensei, eu poderia acrescentar o meu olhar para tornar interessante um relato de viagem. Poderia, por exemplo, escrever sobre como fiquei impressionada com o Museu do Prado; sobre a sensação de descobrir que obscuros recantos da alma humana eram acessados somente por artistas do passado; sobre pensar em onde escondemos hoje sentimentos assim tão pungentes; e se a desculpa da rapidez e da necessidade de concisão nos ajudaria a camuflar ou esquecer a nossa sombria natureza em comum com esses antepassados, permitindo-nos apenas alguma emoção diante de uma pintura imponente em um museu.

Mesmo assim, eu corria o risco de parecer óbvia, até pretensiosa, querendo falar de arte, leiga que sou. Além do que, estaria omitindo outras impressões ― dessas que impregnam os sentidos e ficam incutidas na memória ― menos exuberantes. Porque nossos sentidos (visão, audição, olfato, gosto e tato) não querem saber de motivações intelectuais, eles se atêm a banalidades. A verdade é que a primeira palavra que me vem à mente hoje, quando penso em Madri, é: poeira. Comia poeira sempre que saía do meu hotel bem localizado, no Centro, onde a prefeitura promovia imensas obras sem tapumes, com operários quase esbarrando nos pedestres, e o clima seco só tornava a experiência mais penosa.

Foi assim que comparei Madri com a Berlim que conheci como um grande canteiro de obras, poucos anos após a derrubada do Muro. Mas não me recordava de ter sofrido tanto com aquele transtorno, talvez porque o governo local fazia dele um acontecimento, com direito a passeios de barco para apreciar os gigantescos guindastes em ação, mostrando os projetos em andamento, e dessa forma os turistas se sentiam parte da história de reconstrução da “nova” capital alemã.

Novamente meus sentidos cismaram de encontrar semelhança entre Madri e Berlim, tão diferentes na essência, quando ia atravessar uma avenida, e fui atraída por pios de pássaros que vinham do sinal de pedestres, programado para alertar deficientes visuais. Na Berlim pós-Muro, o “homenzinho do semáforo” ― ora verde, ora vermelho, mas sempre de chapéu ― tornava-se então cult, e era adotado na sinalização da parte ocidental, além de enfeitar todo tipo de souvenir. Pelo menos na época, tratava-se de um símbolo da integração, que guardei com encanto em algum lugar da memória, aguçada novamente pelos pios de Madri.

Os barulhos e os cheiros de uma cidade inquietam os visitantes, talvez porque jamais farão parte de um álbum de recordações. Em Madri, era impossível ignorar o forte odor de cigarro nas ruas de pedestres totalmente vazias, à noite, com o comércio já fechado. De Bangcoc, jamais vou esquecer o cheiro nauseante de gordura e temperos vindos de barraquinhas que fritavam quitutes, devidamente listados como temerosos em guias turísticos.

Tudo fica mais fácil (para o viajante atrás de certezas) quando se consegue identificar a origem dos cheiros e barulhos. Em Budapeste, porém, passei quatro dias intrigada com as sirenes ― de ambulâncias e carros de polícia, creio, já que é impossível ler os letreiros em húngaro. Pelo menos para a sensibilidade de meus ouvidos, havia sempre uma viatura apressada pelas ruas. A minha curiosidade, no entanto, não parecia sensibilizar mais ninguém: era como se as sirenes fossem casuais para todos; repetiam-se apenas em minha mente paranoica. Mistério.

Mas nada se compara ao registro deixado por uma experiência extrema com um clima diferente do nosso. Há poucos dias, numa Ipanema surpreendida por uma onda de calor em plena primavera, pude observar gringos saindo da praia com a marca indelével de sua viagem. Com certeza, jamais esquecerão o dia em que pegaram uma queimadura daquelas, na cidade maravilhosa e escaldante, e mesmo assim contarão essa história com saudades, depois que a pele estiver branquinha novamente. Não será diferente dos brasileiros que costumam se gabar de quando tiveram os sapatos enlameados pela neve imprevista, sem disfarçar o prazer de ainda ter uma sensação do passado tão vívida na memória, e poder usufruir dela com os pés quentinhos, plantados em seu país tropical.

Quem sabe, em vez de ignorância, não é o desejo de guardar uma forte impressão que leva os viajantes a desafiarem o clima de um lugar desconhecido. Em Londres, por exemplo, apesar das manjadas histórias sobre suas hostis condições climáticas, consegui amealhar uma recordação assim em um início de outono. O “mico”, não por acaso, envolveu um cartão postal: sem táxi por perto, tive que atravessar a London Bridge depois de um jantar, para pegar o metrô. Claro que eu estava com uma roupa inadequada para a chuva que começaria a me açoitar logo no começo da ponte. Quando finalmente sentei no vagão quentinho, a surpresa: a roupa encharcada tinha secado em questão de minutos. Inesquecível.

(Publicado no Digestivo Cultural em 13/11/2009)

12 de Novembro de 2009

Papo-apagão

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:07

- E o apagão, hein?

- Pois é, que coisa.

Alguns segundos são o tempo suficiente para duas pessoas se lembrarem de que não, ainda não falaram sobre o assunto com ‘aquele’ interlocutor. Aí começa o papo-apagão. Um deles sempre larga em vantagem, por ter lido mais detidamente uma reportagem ou ouvido uma entrevista inteirinha com um “especialista”.

Se na TV qualquer político pode dar entrevista como especialista, que mal há em todos nós virarmos um, não é mesmo? Desde ontem tornamo-nos especialistas em geração e transmissão de energia elétrica, sem falar nos aprofundados conhecimentos meteorológicos exibidos ao menor sinal de arrefecimento da conversa.

Nada como a versatilidade: até outro dia, quando estávamos sob o impacto da queda de um avião, sabíamos tudo sobre controle do espaço aéreo. Ah, e sobre raios também, que derrubam torres de transmissão e aviões – veja você como entender de descargas elétricas pode ser útil socialmente.

Na próxima encarnação, juro que quero nascer assim, sabida e com “opinião formada” sobre tudo.

10 de Novembro de 2009

Concerto sem música

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 21:27

A ideia era ter, em vídeo, o concerto número 2 de Brahms para piano, executado pela Filarmônica de Berlim. No dia seguinte, o arquivo havia sido baixado, inteirinho, para satisfação do fã de música clássica, recém-deslumbrado com as possibilidades gratuitas da internet.

Mas eis que, na hora de assistir à obra… tratava-se de um vídeo pornô. Apesar do título (concerto número 2, Brahms etc), sequer trilha sonora tinha. Só gemidos.

É por essas e outras que a internet paga ainda vai encontrar seu público (o que prefere Brahms à pornografia).

3 de Novembro de 2009

Essa é do Jabor. Mesmo

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:45

Da coluna de hoje de Arnaldo Jabor, irritado (com toda razão) em relação aos textos apócrifos e fakes que se passam por ele na internet:

“O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação ‘em rede’ para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente, os burros eram humildes: se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas on line.”

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