Não é à toa que reclamações de consumidores povoam a internet. Diante do transtorno de ter sido enganado, maltratado, passado para trás, atire a primeira pedra o blogueiro que nunca usou o seu modesto espaço para tentar aliviar a raiva. Tentar, eu digo, porque a raiva de ter sido ludibriado é coisa que só passa com o tempo. Não sei os budistas, mas qualquer um que não tenha o tal sangue de barata fica espumando por um bom tempo – olhos vidrados, coração acelerado, só faltando a espuminha no canto da boca.
Depois desse narigão de cera, vamos aos fatos. Eu queria comprar a blusa. Meio cara, mas como já tinha uma igual, de outra cor, que uso sem parar, me pareceu uma boa compra. Não havia na loja o tamanho médio, só o pequeno. “Mas eu consigo em outra loja”, disse a mocinha, dirigindo-se ao telefone. Diante da demora, propus que ela me telefonasse, se conseguisse, porque eu queria tomar um expresso ali ao lado, com espuminha, claro. No meio do café, o celular tocou. “A blusa já está aqui.” Fui lá e comprei.
Cheguei em casa, feliz da vida, e fui checar se a cor combinava com a minha atual calça preferida. Qual não foi a minha surpresa (para usar a frase de dez entre dez reclamações de consumidores que chegam aos jornais) quando percebi que a blusa estava apertada. Eu teria engordado? Nada disso. Era tamanho pequeno. A etiqueta havia sido cortada, como pude verificar ao comparar com a blusa antiga no armário.
Veja bem, eu não havia feito compras no Saara (ou na 25 de Março). Estava em Ipanema. Só não digo aqui o preço da blusinha porque tenho vergonha. Mas a loja era a Shop 126, bem cotada no circuito fashion carioca (ops). Tive que ir dormir com aquilo, e fiquei imaginando a vendedora da loja cortando, bem rentinho, a etiqueta. Ou teria sido sugestão da gerente? Na certa, com a loja vazia, todas as meninas participaram da operação, entre risinhos cúmplices. Tudo por uma venda, em um dia de chuva.
Mas não iria ficar barato. Eu faria um discurso sobre a ética. Ou talvez devesse comparar a loja com o Saara, em alto e bom som, para todas as clientes ouvirem, criando uma cena constrangedora. Não, não era muito o meu estilo. Mas seria firme, olharia nos olhos das mocinhas e a verdadeira culpada também iria perder alguns minutos de sono em sua cama, à noite.
Nada disso aconteceu, claro. Ficaram sem graça quando voltei, e rapidamente prometeram levar a blusa ao meu escritório, no tamanho certo. Vamos ver. A espuma já saiu do canto da minha boca, e espero resumir a minha vingança a este post. Agora é esperar a raiva passar, e voltar a considerar o budismo na minha vida. Brincadeirinha.
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