Montanhas demais, salsichas de menos

Publicado por Marta em 02 Out 2008 | sob: Cotidiano

Tente explicar a crise no mercado financeiro para uma criança de 9 anos e você verá o absurdo que é essa história toda. Eu comecei bem, falando dos bancos dos Estados Unidos que emprestaram dinheiro para quem não podia pagar, mas não consegui chegar no ponto em que o papai fica nervoso com as “montanhas” na tela do computador.

A propósito desse abismo entre o mundo real e o das estratégias financeiras, é imperdível (e polêmica, para quem é do mercado) a coluna do Elio Gaspari de ontem, “Nosso negócio é salsicha“, disponível para assinantes do UOL ou da Folha.

O artigo usa como gancho o rombo que apareceu na Sadia, pega no contrapé em uma operação com dólares, para falar da velha conhecida “ciranda financeira”, que não produz riqueza e tem perna curta. Com todo o risco que implica a simplificação de algo tão complexo e sofisticado como é hoje o mercado de capitais, tendo a concordar com ele.

Quando li, pensei: puxa vida, é mais fácil explicar para uma criança como se faz salsicha (argh) do que que diabos está acontece com o dinheiro das pessoas numa crise financeira.

Viva Sampa

Publicado por Marta em 28 Set 2008 | sob: Cotidiano

Estive em São Paulo esta semana, tipo vapt-vupt, naquela correria que combina bem com a cidade. Sempre me impressiono com a mistura de caos e organização, com o equililíbrio prestes a ser quebrado e com o final feliz, ufa, quando tudo dá certo, funciona e você pode voltar para casa. É muita gente, muito carro, muita cidade para transpor, dirigir, digerir, aproveitar.

São Paulo só funciona por conta de um esforço coletivo louvável. A cordialidade das pessoas sempre me encanta, já que estou acostumada à, digamos, espontaneidade do atendimento e dos serviços cariocas, se é que você me entende. A eficiência se impõe quase que por falta de opção, afinal, São Paulo não pode parar. Além disso, é preciso compensar o gigantismo com alguma gentileza.

Mas esse pacto coletivo também tem outro motor: a oportunidade. Em meio à confusão, elas pululam. Agora, mais do que antes. Essa é a grande diferença de hoje para os anos em que vivi ali. O motorista do táxi conta a história do colega que abandonou o carro de praça para voltar ao ramo de seguros. Ao celular, no saguão do aeroporto, um rapaz diz ao seu interlocutor que está recusando trabalho, de tanta fartura.

São Paulo sempre foi a terra das oportunidades, democráticas, para quem quer trabalhar e tem talento. Mas, nos anos 90, a coisa estava preta. Lembro-me das coletivas de imprensa no Dieese, em que era divulgada a pesquisa mensal de emprego, que eu cobria todo mês. Sempre saía de lá com um recorde, uma matéria candidata à manchete, ou pelo menos um alto de página.

O que mais me impressionava era o chamado, tecnicamente, desemprego pelo desalento. Ao contrário da pesquisa do IBGE, mais “chapa branca”, aquela conseguia captar o número de pessoas que sequer buscavam as vagas, porque sabiam que encontrariam as portas fechadas. Ficava imaginando o sujeito desanimado, sem conseguir sair da cama, com a carteira de trabalho na mão.

O desalento, somado à confusão, fazia de São Paulo uma cidade hostil. Mesmo assim, eu gostava. Agora, para quem quiser encarar, deve estar melhor ainda.

E o peixe, como será embrulhado?

Publicado por Marta em 22 Set 2008 | sob: Jornalismo

Globo e Estadão estão se esforçando, como mostram suas novas campanhas publicitárias. A idéia é levar levar o prestígio e a credibilidade de suas marcas para a internet, antes que seja tarde. Quanto ao papel… Bem, como vou dizer isso?

É tão difícil para mim. Trabalhei exatos 16 anos em jornal diário, fazendo piada sobre embulhar peixe, mas achando aquilo o máximo. Não consigo me imaginar, até o fim dos meus dias, sem tomar o café da manhã lendo jornal. Sujando a mão de tinta preta, fazendo contorcionismo para não besuntar o jornal de manteiga.

Mesmo assim, tenho que reconhecer: ler jornal já é coisa de velho. Pronto, falei.

Mas a sua voz…

Publicado por Marta em 22 Set 2008 | sob: Comportamento

- Ele é inteligente, alto, carinhoso, apaixonado pelo que faz, gosta de literatura e cinema. Mas tem um problema: a voz.

Na mesma hora entendi o ponto de vista da minha amiga. Sei que a lista de exigências femininas anda um absurdo, e costumo ser a primeira a apontar o exagero para as amigas solteiras. Mas, eu própria, por pouco não descartei o Zé nos primeiros dias de namoro por causa da forma como ele falava ao telefone, monossilábico e com a voz pouco impostada.

No meu caso, a razão falou mais forte, e parei de tentar esticar os papos por telefone. Vai ver por isso juntamos logo os trapinhos, para poder falar ao vivo. Hoje em dia, ele compensa, sendo ótimo para teclar pelo MSN. Mas, no caso do pretendente da minha amiga, a voz é horrível mesmo. Por telefone, ao vivo, no barzinho, ao pé do ouvido… Poderia até ter conserto (se mulher conseguisse “consertar” homem), mas, nessas alturas, o problema já cortou o seu, digamos, barato.

Já ouvi de amigos homens comentários parecidos sobre mulheres com voz esganiçada ou melosa demais. Para eles, é insuportável. Ou seja, se você tem um amigo (a) com esse problema, vale sugerir um curso de impostação de voz, fonoaudiólogo ou coisa parecida. É como o sujeito que tem mau hálito e não percebe. Se não houver uma alma caridosa, para dar um toque…

Pito de ladrão

Publicado por Marta em 18 Set 2008 | sob: Cotidiano

Saiu em todos os jornais, mas vale o repeteco: o sujeito roubou o carro de madrugada, estacionado numa rua de Passo Fundo (RS). Logo depois descobriu que um menino de cinco anos dormia no banco de trás. Deixou o carro nos fundos de um posto e avisou a polícia, que gravou tudo:

- Roubei um carro que tinha um piazinho dentro e eu não vi. Manda uma viatura lá pegar o guri e avisa ao filho da puta do pai dele para não fazer mais isso.

A mãe, que deixou o menino no carro dormindo, estava em um barzinho. O garoto, apesar da confusão, não acordou. Ainda bem.

Vendo a história passar

Publicado por Marta em 18 Set 2008 | sob: Cotidiano

Quebradeira, estatização, contágio. Como será que esse “11 de setembro” no mercado financeiro americano entrará para a história? Talvez os meus netos aprendam na escola que essa crise foi um dos marcos do fim de uma era, na qual os Estados Unidos eram o único país que importava (nos dois sentidos), a China não existia e a Europa parecia adormecida. Que novo jogo de forças global sairá disso tudo, depois que a poeira baixar?

Antes e depois

Publicado por Marta em 15 Set 2008 | sob: Comportamento

A evolu    o da TV 1 1 - A evolu    o da TV 1 1

Domingão de chuva. Depois de zapear por alguns minutos, me dei conta de quanto é inglória a tarefa de tentar, na sorte, casar o meu (raro) tempo livre com a (pobre) programação televisiva. E a gente precisou da internet, para se dar conta disso…

Qual não foi a minha surpresa…

Publicado por Marta em 10 Set 2008 | sob: Cotidiano

Não é à toa que reclamações de consumidores povoam a internet. Diante do transtorno de ter sido enganado, maltratado, passado para trás, atire a primeira pedra o blogueiro que nunca usou o seu modesto espaço para tentar aliviar a raiva. Tentar, eu digo, porque a raiva de ter sido ludibriado é coisa que só passa com o tempo. Não sei os budistas, mas qualquer um que não tenha o tal sangue de barata fica espumando por um bom tempo – olhos vidrados, coração acelerado, só faltando a espuminha no canto da boca.

Depois desse narigão de cera, vamos aos fatos. Eu queria comprar a blusa. Meio cara, mas como já tinha uma igual, de outra cor, que uso sem parar, me pareceu uma boa compra. Não havia na loja o tamanho médio, só o pequeno. “Mas eu consigo em outra loja”, disse a mocinha, dirigindo-se ao telefone. Diante da demora, propus que ela me telefonasse, se conseguisse, porque eu queria tomar um expresso ali ao lado, com espuminha, claro. No meio do café, o celular tocou. “A blusa já está aqui.” Fui lá e comprei.

Cheguei em casa, feliz da vida, e fui checar se a cor combinava com a minha atual calça preferida. Qual não foi a minha surpresa (para usar a frase de dez entre dez reclamações de consumidores que chegam aos jornais) quando percebi que a blusa estava apertada. Eu teria engordado? Nada disso. Era tamanho pequeno. A etiqueta havia sido cortada, como pude verificar ao comparar com a blusa antiga no armário.

Veja bem, eu não havia feito compras no Saara (ou na 25 de Março). Estava em Ipanema. Só não digo aqui o preço da blusinha porque tenho vergonha. Mas a loja era a Shop 126, bem cotada no circuito fashion carioca (ops). Tive que ir dormir com aquilo, e fiquei imaginando a vendedora da loja cortando, bem rentinho, a etiqueta. Ou teria sido sugestão da gerente? Na certa, com a loja vazia, todas as meninas participaram da operação, entre risinhos cúmplices. Tudo por uma venda, em um dia de chuva.

Mas não iria ficar barato. Eu faria um discurso sobre a ética. Ou talvez devesse comparar a loja com o Saara, em alto e bom som, para todas as clientes ouvirem, criando uma cena constrangedora. Não, não era muito o meu estilo. Mas seria firme, olharia nos olhos das mocinhas e a verdadeira culpada também iria perder alguns minutos de sono em sua cama, à noite.

Nada disso aconteceu, claro. Ficaram sem graça quando voltei, e rapidamente prometeram levar a blusa ao meu escritório, no tamanho certo. Vamos ver. A espuma já saiu do canto da minha boca, e espero resumir a minha vingança a este post. Agora é esperar a raiva passar, e voltar a considerar o budismo na minha vida. Brincadeirinha.

Pequenos e grandes absurdos

Publicado por Marta em 09 Set 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

Li que a peça em cartaz é sobre o absurdo da condição humana. Eu, que nem sou muito de teatro (pelo menos não tanto quanto de cinema), fiquei morrendo de vontade de assistir. Depois me vi pensando que qualquer história, no fundo, pode ser sobre o absurdo da condição humana. Especialmente quando uma trajetória pessoal é observada em retrospecto.

Pela segunda vez tenho me dedicado a entrevistas com pessoas de idade, estimuladas a falar sobre suas vidas. No livro anterior, algumas tinham um passado bastante brilhante, e suas atuais limitações físicas e intelectuais me deixavam deprimida. Depois de esbanjar tanta capacidade de realização, tanto pioneirismo nas idéias, aquelas pessoas pareciam se resumir a dois tipos de velhinho.

Havia os ranzinzas, reclamões que não aceitavam sua condição e davam trabalho para quem estivesse em volta; e os bonzinhos, que despertavam piedade nos outros e tratamentos quase infantis. Ou seja, uma humilhação só. Lá estava a tal condição humana, para lá de absurda, esfregada na minha cara.

Agora, em contato com gente mais simples, voltei a ficar deprimida por perceber como as pessoas podem ser reféns de suas vidas. Gente que se meteu no meio do mato, e nem sabe por que, que não gostava do lugar onde estava, ou do que fazia, mas foi se acostumando. De repente, vupt, a vida havia passado, como se tudo fosse um grande acaso.

Tudo indica que a velhice nos obriga a ser humildes, para aceitar o absurdo da condição humana…

***

A propósito da tal peça, encenada por Sérgio Brito (85 anos) no teatro Oi Futuro, fui tentar comprar ingresso e… surpresa! O teatro, que tem “futuro” no nome, não vende entradas pela internet. A piada estava tão pronta que não me contive ao falar com a bilheteria, pelo telefone: Isso não é “Oi, Passado”?

Ache o cabo eleitoral

Publicado por Marta em 05 Set 2008 | sob: Cotidiano

Passei agora há pouco pela Avenida Atlântica e fiquei impressionada com a paisagem, repleta de estandartes e painéis de candidatos. O mais curioso é procurar, ao lado, atrás, embaixo, onde está o pobre coitado - mas (sub)empregado - que precisa dar um ar de portabilidade (palavra da moda) à propaganda, na prática irregular.

Viva o povo brasileiro

Publicado por Marta em 02 Set 2008 | sob: Cotidiano

Jornalistas e publicitários costumam cultivar o bate-papo com motoristas de táxis, como uma espécie de termômetro do senso comum sobre temas políticos, econômicos etc. Nós, mulherzinhas que fazemos as unhas (quase) toda semana, contamos também com as manicures.

Em vez de começarmos comentando o trânsito ou o tempo, iniciamos a conversa falando de nossas crianças. As craques do alicate costumam ter algumas em casa, vigiadas por uma vizinha, enquanto trabalham duro no salão e chacoalham por horas no trem ou no ônibus.

Mas a minha manicure não sofria com esse transtorno. Morava pertinho, na Rocinha. Perguntei se tinha filho sem muita convicção, porque ela aparentava uns vinte e poucos anos. “Tenho quatro”. Pronto, logo eu teria que disfarçar meu desalento diante de mais um caso perdido, pensei.

Mãe aos 15, dez anos depois ela já tinha dois meninos e duas meninas. “Do mesmo pai?” “Claro. Comecei a namorar meu marido aos 12 anos. Digo sempre para a minha mais velha, de 10 anos, não seguir o meu exemplo, porque comecei cedo demais. Mas agora liguei as trompas.”

Por via das dúvidas, a mãe zelosa enche os filhos de atividades e evita que fiquem à toa na favela. “Atividades?”, estranhei. Sim, a maior faz curso de inglês e de informática, na Rocinha mesmo. Depois da escola, tem balé, no Clube do Flamengo, junto com a irmã menor. Os meninos também fazem aulas de natação no clube.

Fiquei com a impressão de que as aulas eram gratuitas ou subsidiadas, porque dinheiro parecia não ser problema. Alguns minutos e unhas depois, eu já estava achando que aquela mulata bonita, de sobrancelhas bem feitas e cabelo impecável, era a mulher-maravilha dos comerciais de internet banking. Só que, em vez de executiva, é manicure e mora na Rocinha.

Tinha batido a meta do mês, graças aos muitos tratamentos de “esfoliação e embelezamento das mãos”; conseguia gerenciar pelo celular a vida dos quatro filhos e ainda cuidava do casamento, seguindo as dicas das revistas femininas espalhadas pelo salão. Bacana, não? Viva a ascensão da classe C brasileira.

Desculpa perguntar, mas…

Publicado por Marta em 29 Ago 2008 | sob: Cotidiano

Estou em fase de adaptação. Mudei há duas semanas de escritório, para um prédio no mesmo quarteirão de Ipanema. A recepção foi estranha. No meu primeiro dia, subindo no elevador quase lotado, o ascensorista conseguiu falar, no percurso de quatro andares:

- Então foi a senhora que comprou aquela sala? A senhora deve ser dentista, não? Desculpa perguntar, mas quanto a senhora pagou?

Andei evitando o elevador, só para não me expor à indiscrição absurda do sujeito. Mas eis que ontem, antes que eu pudesse chispar pela escada, uma vizinha de andar resolve me abordar, depois de se apresentar rapidamente:

- Desculpa perguntar, mas quanto você pagou por essa sala? É que um amigo meu, que também é dentista, está interessado em se mudar para o prédio…

Pelo visto, começando a frase com “desculpa perguntar”, pode-se matar a curiosidade sobre qualquer assunto. Desculpa perguntar, mas você é gay? Perdão, mas qual é o seu salário? Não sei você, mas eu fico totalmente desconcertada nessas horas.

Aliás, desculpa perguntar, mas ascensorista e dentista não são as piores profissões do mundo? Depois, fico com fama de antipática.

Rapidinhas sobre gentileza

Publicado por Marta em 28 Ago 2008 | sob: Comportamento

A pressa é inimiga da gentileza. Como todo mundo hoje vive na correria…

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Mulher vive reclamando da falta de gentileza dos homens. Ontem, observei como elas podem ficar abusadas diante de um homem sempre gentil, tratando-o como se fosse seu empregado. Depois, vem a fama de gostar de cafajeste.

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Pior que mulher abusada, só mesmo mulher abusada com pressa. Elas são capazes de furar fila, avançar o carro sobre os pedestres, destratar o garçon. Mas não eram os homens, os grosseirões?

Falsas lembranças

Publicado por Marta em 25 Ago 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

brilho eterno 1 - brilho eterno 1

Uma das curiosidades sobre ultrapassar a barreira dos 40 é que começamos a ter outra percepção da importância e da relatividade da memória. Conversando com pessoas da mesma faixa etária, percebo que as lembranças, com o tempo, não só ficam seletivas como podem ser recriadas. Essa reconstrução do passado acontece a partir de uma mistura de materiais - sentimentos, fotos, relatos e, vá lá, lembranças.

Na medida em que a memória vai falhando, os buracos são preenchidos por fantasias e suposições - cimentados cada vez que recontamos a tal história. Os vôos da imaginação costumam ser contidos por registros, como fotos e cartas, além de relatos de outras pessoas que viveram o mesmo momento. Ainda assim, não é incomum duas pessoas recontarem a mesma história, de 20 anos atrás, de forma completamente diferente.

Estou trabalhando numa pesquisa que remete a memórias de 30, 40, até 50 anos atrás, e tenho me deparado com situações inusitadas, como a de uma senhora que jurava ter acontecido, no dia de seu casamento, um fato importante na sua cidade, que na realidade só ocorreu dois dias depois. Ela não estava mentindo, simplesmente havia juntado, na sua lembrança, dois acontecimentos tão marcantes que talvez devessem ter sido simultâneos. Mas não foram. Sinto-me quase constrangida de não poder endossar sua fantasia.

Uma matéria do New York Times, publicada hoje no caderno Digital do Globo, mostra pessoas que estão optando, conscientemente, por recriar a própria memória, manipulando os registros do passado e sendo feliz para sempre. Sim, é a cara do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Só que pra valer.

Você insere na foto do seu casamento o primo que não pôde ir, tira a sirigaita que namorava o tio na época, e que hoje não tem a menor importância, aproveita para afinar a própria silhueta e pronto: lá está a data memorável, do jeito que você vai imaginar no futuro. Daqui a dez anos, quem se lembrará dos retoques? E você ainda vai jurar que seu primo estava lá, veio do Canadá especialmente para a cerimônia.

***

Essa reflexão toda é útil para a gente tentar criar, de verdade, os tais momentos inesquecíveis nas nossas vidas. Aqueles que não precisarão de foto para serem lembrados, e ficarão a salvo da tentação do photoshop. Talvez a dica esteja nas cenas difíceis de serem apagadas de “Brilho eterno”, filme que merece ser visto e (por via das dúvidas) revisto.

Livros e martelos

Publicado por Marta em 21 Ago 2008 | sob: Comportamento

Você já comprou uma roupa que nunca usou? E um livro que nunca leu? Não sei você, mas, a mim, dá uma culpa enorme. Nada mais constrangedor do que, depois de um piti por “estar sem roupa”, encontrar uma blusinha com a etiqueta no armário.

Em relação a roupas, guardo o nome da loja e fico atenta se não rola alguma armadilha. Provavelmente eles têm algum truque para você levar o que não precisa ou jamais ficará bem. A outra hipótese é você ter tido um surto consumista, e nessa hora é bom aprender a lição.

Mas, no caso do livro, a culpa sempre é sua, que não arrumou tempo para algo importante (ler um livro sempre é mais importante do que a maioria das coisas banais que você faz). Começar um livro e parar no comecinho dá uma sensação terrível de falta de persistência. Afinal, quantos deles só ficam maravilhosos lá pela metade?

Então a pilha de livros na mesinha de cabeceira vai aumentando, porque me nego a colocá-los na estante, não lidos, onde ficarão semi-esquecidos.

Fiquei curiosa sobre como as pessoas se sentem a respeito disso quando soube, entrevistando uma agente literária para uma matéria, que o mercado editorial não se importa tanto se os livros são lidos, contanto que sejam comprados. “Como assim?”, perguntei. Ela me explicou que já existem pesquisas lá fora, não muito conclusivas, sobre títulos com boas vendas, mas que não são lidos por seus compradores. Não é estranho? Será que as pessoas não se sentem mal a respeito?

Certamente tudo isso tem a ver com o tal consumismo desenfreado. A melhor definição que já ouvi sobre o assunto foi a da “síndrome dos dez martelos”, diagnosticada, claro, nos Estados Unidos. Trata-se do comportamento do sujeito que, quando precisa fincar um prego na parede, vai feliz da vida numa loja comprar um martelo. Quando termina o trabalho e precisa guardar a ferramenta na garagem, encontra lá nove martelos igualzinhos.

A esquisitice foi detectada a alguns anos, o que me leva a crer que hoje já deva ser chamada de “síndrome das dez furadeiras”. Ou seja, são coisas que compramos apenas pelo prazer, ou pela compulsão, de comprar. Feio, né? Acho que vou fazer um esforço para baixar a pilha na minha cabeceira, antes de comprar mais livros.

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