Jornalista e empreendedor?
Em setembro de 2007, completarei quatro anos fora de uma redação de jornal. Antes disso, foram 18 anos ininterruptos, quase todos com carteira assinada e alguma estabilidade. Quando resolvi sair do meu último Emprego, desses com caixa alta, muita gente se espantou.
Aos poucos, porém, comecei a observar o interesse dos amigos e conhecidos pelos meus novos caminhos. Eu não ia mesmo para assessoria de imprensa? Não tinha mesmo virado mãe e dondoca? Então - perguntavam discretamente, olhos brilhando -, me explica: como é essa “coisa”, de ser jornalista e empreendedora???
Apesar de ter estudado cuidadosamente o meu plano B, antes do tal primeiro passo, ficava receosa de me celebrar como exemplo. Mas isso fugia um pouco do meu controle, quando começava a falar sobre o assunto, de tão empolgada e convicta que estava.
Além disso, acredito que, se houvesse mais jornalistas produzindo conteúdo fora das redações, esse mercado se consolidaria, se tornaria mais profissional. Claramente existe uma demanda crescente, tanto dos veículos como das empresas.
Mas em geral os jornalistas freelam dois, três meses, reclamam da instabilidade e logo sucumbem aos apelos do agitado mercado da “comunicação corporativa”.
Hoje, apesar de feliz e adaptada, tento segurar a minha vontade de convencer os amigos a sair de redação e não ir para assessoria de imprensa. Lembro que cada caso é um caso, e que os jornalistas não costumam se notabilizar pelas características consideradas fundamentais para um empreendedor ou profissional autônomo – tipo disciplina, automotivação e algum espírito sonhador.
Ao contrário, o estereótipo do jornalista, pelo menos o da minha geração, era o de um sujeito tão crítico que se tornou cético (o oposto do sonhador/crédulo), um tanto desorganizado, e que precisa de uma boa pauta, ou um bom chefe, para sair da depressão e revelar todo o seu talento.
Mas o fato é que muitos desses jornalistas da antiga, quando vão para assessorias, se revelam grandes empreendedores ou executivos. Ou seja, o estereótipo é apenas isso mesmo, um estereótipo.
Além disso, o mundo do trabalho está mudando (não, coleguinhas, a crise de Empregos não atinge só as redações). Os especialistas no assunto garantem que, no futuro, a maior parte das pessoas trabalhará como prestadora de serviços, outros se revelarão empreendedores e montarão pequenos negócios, e só uma minoria continuará nas grandes empresas.
No caso dos jornalistas, acredito que o futuro já começou. É fácil se adaptar? Nem sempre. Não seria melhor, ou mais seguro, continuar batalhando espaço no conhecido ambiente dos Empregados, que podem reclamar dos chefes ou patrões? Depende.
Da última vez que uma amiga, de redação, me sondou sobre o sucesso da minha empreitada, acabei fazendo uma lista de prós e contras, seguindo os tópicos que ela mandou por e-mail. Reproduzo abaixo o tal roteiro – minha modesta contribuição para ajudar os interessados no assunto. E, claro, continuo disponível para os bate-papos, inclusive os sigilosos.
“Vamos lá, amiga
Sobre solidão: Ela realmente existe. A internet ajuda a aliviar, e, sempre que não estou com um prazo no pescoço, faço o máximo de social possível, combino almoços com os amigos. Tenho também uma estagiária, que é uma gracinha, então a gente leva aqueles papos mulherzinha, fundamentais no dia-a-dia. Agora que tenho um computador extra, convido os eventuais prestadores de serviços para ficarem comigo no escritório, mas nem sempre eles topam.
Quantidade de trabalho: Não falta. Para quem tem talento, e alguns relacionamentos, os clientes ou freelas estão sempre aparecendo. Comecei fazendo muitos freelas, alguns meio mal pagos, e agora tenho pego projetos grandes, tipo livro e relatório anual. Mas às vezes sinto falta de fazer matérias, e aceito freelas novamente, mesmo que a grana não seja lá essas coisas.
Na verdade, o problema é selecionar, saber dizer não com jeitinho, ir montando uma carteira de clientes que seja interessante, descobrir o que pode ser terceirizado ou não. A minha estratégia é diversificar, para não trocar patrão por um clientão, ou seja, ficar na mão de alguém. Cliente às vezes torra o saco, que nem chefe… Então tem que pesar a grana e a realização, antes de dizer sim.
Qualidade de vida: É relativa. Tem época de muuuuita ralação. Nos dois últimos meses do livro, eu simplesmente não vivi. A melhor parte é a liberdade de planejamento. Eu ralei à beça com o livro, mas pensava: com essa grana fico um tempo sem pegar projetos grandes, vou ao cabeleireiro no meio da tarde. É como se eu escolhesse o meu plantão, como e quando quero fazer. Mas o que realmente faz a qualidade de vida é o seguinte: a gente não tem que engolir coisas com as quais não concorda – se aceita o trabalho, se compromete e pronto.
Empreendedorismo: Não dá para ter aquela postura de jornalista, meio arrogante, querer que os outros se adaptem ao “nosso jeito de ser”. A postura é mais próxima de um assessor, eu acho. Tem que fazer média com o cliente, controlar custos (juro que isso passa a ser prazeroso), respeitar prazos, anotar tudo, fazer proposta, cobrar custos extras do cliente, planejar, planejar, planejar. Isso tudo além das tarefas de antes: sair, entrevistar, escrever, fazer tudo que um jornalista faz normalmente, só que para o freela ou para o projeto do cliente.
Burocracia: É um saco, mas vale a pena ter tudo certinho, abrir empresa, conta jurídica, pagar impostos, vigiar o contador, entender o que muda com o Supersimples… E tem que trabalhar o suficiente para isso se pagar.
Realização: Tenho aprendido muito mais agora do que na minha fase final em redação, quando tudo parecia se repetir, e de forma superficial. De repente, você se percebe muito mais versátil do que imaginava, vê um mundo de possibilidades e aprendizados. Mas talvez isso tenha a ver com perfil, com a possibilidade de descobrir novos interesses. No meu caso, apesar de gostar de jornalismo diário, eu me ressentia de não ir mais fundo nos assuntos. Em um livro, isso chega ao cúmulo. Acho que a maioria dos jornalistas não teria saco de ir tão fundo em alguns assuntos. Com o texto é a mesma coisa. Tem que gostar de burilar, reescrever, não se importar com aquelas fases de edição/revisão intermináveis, mais comuns em revista.
Agora, tem muito jornalista, principalmente aí em São Paulo, que consegue viver só de freela mesmo, pingadinho, porque cada vez mais os jornais e revistas investem em projetos especiais e precisam de colaboradores, sem vínculo. Este tipo de relação, entre o freelancer e os editores desses cadernos, é bem bacana, moderna, boa para os dois lados. Mas só funciona se você tiver consciência de que ele é um “cliente”. Ou seja, tem que caprichar, respeitar o prazo, o que foi combinado. Lembre-se: você não tem mais carteira assinada e não deve ficar esperando que essa seja uma relação paternalista, ficar falando dos seus problemas pessoais para justificar um atraso, por exemplo.
Grana: Quem tem um bom salário e carteira assinada certamente terá uma redução salarial, pelo menos nos primeiros anos. Mas se houver o tal espírito empreendedor, acredito que dá para ganhar dinheiro, sim, montando um bom plano de negócios e fazendo jornalismo. Eu, até hoje, não tenho certeza se tenho o tal espírito empreendedor que faz ganhar muito dinheiro (outro dia um amigo me garantiu que não existe empresa que não quer crescer muito, como eu defini a minha). Mas até o prestador de serviços, o autônomo, é um empreendedor e precisa pensar como um, para se viabilizar.
Automotivação: Não é fácil. Quando voltei das minhas últimas férias prolongadas (agora não consigo mais, só posso tirar alguns dias e emendar feriados), deu uma preguiça… Eu precisava retomar contatos e projetos, e não conseguia pegar no telefone. Claro que se eu tivesse uma pauta para cumprir ou um chefe me motivando/pentelhando, teria voltado ao pique rapidinho. Reclamando, é claro.”
Marta,
Só dá certo para quem tem MUITA competência. Parabéns!
Comentário de Márcia — 3 de Agosto de 2007 @ 20:38
É isso aí, Marta… vc esqueceu de mencionar o quanto é disciplinada!! rsrs
bj
Comentário de Claudia — 14 de Agosto de 2007 @ 15:05
É Ma, a decisão de ser empreendedor não é das mais fáceis, principalmente para quem está bem no trabalho, recebendo direitinho, como foi o seu caso. Mas é corajosa e recompensada com o tempo. Que surjam novos jornalistas empreendedores!
Comentário de Simone Azevedo — 14 de Agosto de 2007 @ 21:48
Muito bom o seu roteiro, Marta. É tudo isso, sem tirar uma vírgula. Sinto falta de ser mais disciplinada, o que é fundamental para tocar as coisas mesmo estando sem o menor saco. Mas estou melhorando: um dia, quem sabe, chego lá!
Comentário de Matilde — 30 de Agosto de 2007 @ 12:34
É isso aí, Marta, ser jornalista e empreendedor pode ser uma boa. Mas além da disciplina também acho que é preciso muita determinação. Coisa que você e a Simone tem de sobra. Daí o sucesso das duas. A parte burocrática também é um pé, mas quando você vê que consegue tocar tudo direitinho, fica até orgulhosa. Enfim, sair da redação e como entrar num terreno perigoso, sempre dá um frio na barriga. Mas depois de um tempo percebemos que há vida fora do jornalismo de carteira assinada. Você é um exemplo. Parabéns. e bjos
Comentário de Anna Lucia França — 27 de Setembro de 2007 @ 19:02
Oi Martinha,
Muito legal essa observação de que os jornalistas, de tão críticos, se tornam céticos e incapazes de sonhar. Realmente para empreender é preciso, mais que tudo, tocar em frente um sonho. E isso inclui conseguir se automotivar diariamente, como você diz, e não deixar a peteca cair (pelo menos não por muito tempo - por um tempinho faz parte). Fico contente de ser uma das que a incentivaram a seguir esse caminho, que também é o meu e do qual não me arrependo nem um pouco. Realmente me encontrei, ainda que às vezes bata uma saudadezinha de redação. Parabéns pelo blog, que está uma delícia. Beijos.
Comentário de Paula Quental — 29 de Agosto de 2008 @ 18:12
sou jornalista e acredito que a assessoria de imprensa é um ótimo trabalho.além de trabalhar em uma redação também trabalho como assessor.
Comentário de anderson — 15 de Outubro de 2008 @ 21:24
Anderson, claro que assessoria é um ótimo trabalho, e nessa área estamos cheios de exemplos de jornalistas empreendedores. Quanto a conciliar com redação, acredito que todo cuidado é pouco para não haver conflito de interesses. Obrigada pelo comentário.
Comentário de Marta — 16 de Outubro de 2008 @ 10:59
Olá Marta,
Acabei de conhecer seu blog (através do Digestivo Cultural) e adorei, gostei do seu estilo e do conteúdo!
Parei para comentar aqui porque meu dia-a-dia é semelhante ao que você descreve no seu roteiro (ótimo!); sou tradutora freelancer e me identifiquei com os prós e contras de trabalhar por conta própria.
Descobri que gosto de trabalhar sozinha, talvez por isso tenha me dado tão bem sendo autônoma. Isso não é para todo mundo, claro que algumas pessoas simplesmente não suportam essa rotina, mas para mim está ótimo.
Outro ponto importante que você levanta é a auto disciplina; impossível ser freela sem ela, seja para cumprir prazos, o *seu* horário, e manter um bom planejamento financeiro.
Bom, queria dizer que gostei muito daqui, e voltarei mais vezes.
Um grande abraço.
Comentário de Cristine — 21 de Janeiro de 2009 @ 20:12
Bem vinda, Cristine. É interessante pensar nas similaridades entre o seu trabalho e o de um jornalista, existem mesmo muitos pontos em comum. Abraços!
Comentário de Marta — 22 de Janeiro de 2009 @ 10:17
Olá, Marta
Cheguei aqui pelo Digestivo Cultural e, coincidência ou não, tudo isso sobre jornalista empreendedor veio em boa hora.
Sou formada há apenas três anos, mas nesse tempo já trabalhei contratada em redação de jornal diário, fui colaboradora de revista e hoje estou em um escritório de assessoria de imprensa e faço um freela bimestral.
O que quero? Ser jornalista de cultura e viagem, freela, como a Cris Berger …é o primeiro exemplo que me vem à mente.
E nesse vou-não vou — há o projeto e uns tantos obstáculos que eu mesma coloco no caminho –, sua experência descrita acima me trouxe um pouco de BOA realidade.
Obrigada e parabéns pelo Espuminha.
Abraço
Comentário de Carol Garcez — 30 de Janeiro de 2009 @ 17:31
Obrigada pela leitura e boa sorte, Carol!
Comentário de Marta — 2 de Fevereiro de 2009 @ 15:53
É Marta, acredito que este será o futuro mesmo. E quanto mais “jornalistas empreendedores” existirem, mais profissional e respeitada ficará nossa área! Boa Sorte pra nós!
Comentário de Fabiana Schiavon — 3 de Fevereiro de 2009 @ 18:15
[…] @ A blogosfera abriu um novo campo de trabalho para jornalistas que atuavam na agora chamada mídia convencional. A jornalista Marta Barcellos trabalhou em redação por quase 20 anos e decidiu partir para uma “carreira solo” atuando como freela. Ela conduz de forma muito inteligente o blog Espuminha de Leite. A autora escreve sobre sua vida de jornalista empreendedora que leva, além de nos brindar com crônicas maravilhosas. Vale a pena ler. […]
Pingback de Política com Pimenta » Notas blogosféricas nº 04 — 5 de Fevereiro de 2009 @ 14:55
Querida Marta,
parabens pelo empenho e obrigado pelo roteiro.
Estou no 6 periodo da faculdade e com disciplina e Empreendedorismo… Desde cedo tenho o desejo de trabalhar para mim, ter o proprio negocio jornalistico… Mas como e dura essa tarefa…
Nossa missao na turma de empreendedorismo em jornalismo e montar todo o plano de negocios de uma empresa, estamos ainda no campus das ideias e elas simplismente nao surgem mesmo sendo todos os 20 alunos conscientes da importancia de ser empreendedor.
Abracos
(desculpe a falta de acentos, problemas no pc)
Comentário de Josua — 16 de Março de 2009 @ 15:56
Sou freelancer há um tempinho e tava prestes a mandar um email pra um lugar que já trabalhei pra voltar ao tal ‘mercado de trabalho’. Seu texto me fez recuar: todas as vantagens que vc citou fazem parte da minha rotina,mas acho que precisei te ler pra ter certeza de que é isso que eu quero pra mim. Obrigada e parabéns!
beijos, sucesso,
Val
Comentário de Val Prochnow — 18 de Maio de 2009 @ 12:43
[…] Espuminha de Leite -Dicas, atualidades e assuntos para o café: Conheci por causa do Digestivo e virei leitora compulsiva e fã imediata da Marta, principalmente por causa desse texto aqui. […]
Pingback de Seu histórico te condena? « Papos de Cozinha — 19 de Maio de 2009 @ 00:21
Nossa! Achei seu blog por acaso fazendo uma pesquisa sobre “empreendedorismo e jornalismo” para a facudade. Faço jornalismo, estou no 5º periodo e no inicio do curso queria ser um desses “leoes” do mercado de trabalho. Agora estou me sentindo completamente perdida pois percebi que nao é isso que quero para a minha vida. Eu deveria ter lido apenas uns trechos do seu texto mas quando comecei, so consegui parar mesmo no fim! Voce me ajudou a enxergar outro caminho…obrigada.
Comentário de Suelen — 2 de Junho de 2009 @ 20:18
Boa sorte, Suelen! Você já está encontrando os seus próprios caminhos!
Comentário de Marta — 3 de Junho de 2009 @ 11:07
Que bacana saber da sua experiência. Apesar do que não sei se isso funcinaria pra mim, acho que preciso ter um chefe me pentelhando. Mas foi ótimo saber que existe vida inteligente fora das redações e assessorias.
Sucesso pra você.
Comentário de Larissa — 7 de Junho de 2009 @ 15:48
mto bom o post
estou saindo do meu trabalho e pensando em viver como freela, suas dicas foram preciosas
abraços
Comentário de Alessandra — 6 de Novembro de 2009 @ 13:51
Abração, Alessandra!
Comentário de Marta — 6 de Novembro de 2009 @ 13:59
Oiii!
Seu blog é maravilhoso!
Já estamos linkados, viu?
Vc está na sessão ‘mistão’.
Em breve publicarei um texto seu, desses de empreendedorismo na comunicação, pode ser?
Abraço!
Comentário de Val — 19 de Novembro de 2009 @ 21:36
Olá Marta!! Acabo de ler sobre a sua nova experiência, confesso que é tudo que eu queria.Também sou jornalista, já trabalhei em jornal impresso e tv. Atualmente, estou desempregada e morando numa cidadezinha pequena no interior de Minas, as possibilidades de trabalho e crescimento profissional são muito pequenas. Estou aqui matutando um jeito de trabalhar por conta, mas me falta esse tal “espírito empreendedor”. Poderia até criar um jornalzinho na cidade, que ainda não tem, mas não é isso que quero. Na verdade queria alguma coisa ligada à assessoria, mas ando muito insegura e sem idéias.
Gostei muito do seu blog. Se tiver uma boa idéia pro meu caso, tô aceitando.
Abraços. Regina.
Comentário de Regina — 21 de Novembro de 2009 @ 16:44