8 de Março de 2010

Próxima parada

Arquivado sob: Cotidiano, Viagens — Marta @ 16:28

“A senhora já está no Rio”, me informa com um meio sorriso o atendente do check-in. Pela expressão simpática e condescendente, percebo o quanto é comum um passageiro chegar ao balcão da companhia aérea trocando o destino da ida com a volta. Será o estresse? A vontade de voltar? Sim, porque estamos falando aqui de quem viaja a trabalho, a cabeça nos afazeres, o corpo buscando pequenas compensações - a bordo, nos rituais de embarque e desembarque. A estes passageiros, o funcionário reserva seu sorriso mais cúmplice: estamos no mesmo barco, no mesmo avião, em atitude glamurosa mas revelando a cada gesto cansado a nossa humanidade.

Lembro-me da época de crise no setor aéreo, os atrasos constantes mandando para as cucuias os resquícios de glamour do passado. O fato é que mesmo assim, apesar do finger que não funciona e mantém os passageiros presos no avião por dez minutos, apesar da comida gordurosa e do taxista mal encarado, apesar da fila no banheiro, mesmo assim adoro estar em um aeroporto. Partindo, chegando, esperando.

Talvez tenha gostado do filme “Amor sem escalas” – que não ganhou nem um oscarzinho ontem – só por causa da cena inicial, em que George Clooney revela toda a sua intimidade com os esdrúxulos rituais das viagens de avião (especialmente nos Estados Unidos…). E é assim, dentro de um filme, que me sinto com a personagem que me aborda na sala de embarque. Trata-se de uma senhora com alguma idade, visivelmente deslocada, e me prontifico a ajudá-la quando me estende o cartão com o número do voo.

Se o portão de embarque ainda pode ser alterado? Sim, com certeza, respondo, já que o seu voo só partirá dali a três horas e meia. A senhora deveria se distrair um pouco, porque tão cedo o número não aparecerá no painel, é o que lhe digo, e ela parece compreender. Mas mantém-se ereta na cadeira, olhando o nada, aparentemente conformada. Quem se distrai sou eu, colocando os e-mails em dia, até perceber que a tal senhora está abordando outra pessoa, com a mesma pergunta. O portão de embarque ainda pode mudar?

Sempre pode. Podemos embarcar em muitos portões, e cada um deles nos levará a um destino diferente, todos eles fora da nossa rotina. Aquela senhora resistia – odeia sair da rotina. Quer a previsibilidade. Não vou fazer gênero e dizer que não gosto da rotina, logo eu que como sempre a mesma coisa no café da manhã. É o momento do dia em que sou mais resistente, e mesmo em um hotel distante tento achar uma opção parecida de desjejum.

Mas é só o começo do meu dia. No decorrer dele, uma luta interna se travará: a busca do familiar versus o anseio pela novidade, pelo acontecimento que mudará tudo o que planejei durante anos. Numa viagem – especialmente a de lazer, para um lugar desconhecido – sei que serei arrancada das minhas certezas emboloradas. Se o hábito é a morte em vida (experimentar é viver), finalmente entendo o meu comichão por planejar (um pouco) a próxima viagem. Qual será o portão de embarque? Não sei. Graças a deus.

16 de Setembro de 2009

Outro olhar

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 19:50

Meu primeiro emprego foi em um shopping center, aos 17 anos. No BarraShopping, como vendedora de butique, antes de começar a faculdade de Jornalismo (havia passado para o segundo semestre na UFRJ), descobri como a vida podia ser diferente para quem passa e para quem fica.

Do outro lado da vitrine, me sentia como os mineiros que viam o trem passar, observando “encontros e despedidas” que se repetiam na estação. A vida era acelerada e cheia de emoção para os adolescentes que iam passear no shopping, mas o ponteiro do meu relógio não saía do lugar. Os bastidores da alegria eram tristes, tristes. Depois que os olhos se acostumavam ao neon dos letreiros, a rotina se instalava cheia de imperfeições. Notava-se a lâmpada queimada, a roupa torta na vitrine, a fiação aparente, a maquiagem borrada da vendedora.

Foi nessa época que percebi que não existiam lugares felizes, apenas pessoas alegres. Mesmo assim, continuei o faz-de-conta de buscar lugares assim para garantir a minha felicidade, em bares, shoppings, aeroportos.

Aeroporto. Sempre gostei, como todo viajante que se preze. Com o frisson da viagem iminente para um país desconhecido, encarei as três horas de aeroporto em São Paulo sem conseguir disfarçar a minha satisfação. “Que horror não existir mais voo direto do Rio”, era a minha fala, embora internamente já tivesse planejado comprar uns óculos escuros e saborear uma cerveja repassando o roteiro da viagem. Não deveríamos ter reservado mais um dia para Barcelona? Não, Madri tinha o Museu do Prado, ponderamos.

O free shop estava lotado – vários voos internacionais partiriam naquela noite, repletos de brasileiros que também aproveitavam o feriadão. Filas, burburinho, excitação. Luzes, cerveja gelada, ofertas imperdíveis, passaporte na mão.

Naquele momento eu não tinha como lembrar da minha remota experiência como vendedora de shopping center. Apenas na volta ao Brasil, quando passava a bolsa pelo mesmo Raio X em Cumbica, às 5h da madrugada, percebi o quanto aquele lugar era triste sem as pessoas que passam. Como nos shoppings, para as pessoas que ficam. No aeroporto deserto, as imperfeições se revelavam por inteiro. Os assentos tinha ficado duros e frios. Arrependida de ter dispensado o café da manhã do avião, tentei achar algo para comer na mesma loja dos óculos escuros, a única aberta. Nada. A lanchonete da cerveja abriria somente às 6h.

Não me deixei abater. Estava cansada, mas não triste. Pelo menos para mim, uma das melhores partes da viagem é poder voltar. Com um novo olhar.

29 de Maio de 2009

Catedral

Arquivado sob: Comportamento, Viagens — Marta @ 17:20

Entrei na catedral, belíssima, pensando numa forma de guardar aquele momento na lembrança. A máquina fotográfica na bolsa, eu sabia, seria completamente inútil. Já havia tentado, em outra ocasiões, registrar detalhes, ângulos diferentes, mas o clique apenas se somava a outros tantos, digitalizados. Outras fotos de igreja. Nada que traduzisse, mesmo que remotamente, o ambiente silencioso e escuro, refúgio perfeito para meus sentimentos exaustos.

Se ao menos houvesse um concerto de órgão, como aconteceu em uma igreja de luzes amarelas que jamais se apagará de minha memória. Ou aquele casamento estranho (húngaro!), cuja celebração ecoava no templo grande demais para o número de convidados, com mulheres sentadas em seus vestidos espalhafatosos e homens enfileirados no altar.

Mas aquela catedral, em Santiago, seria apenas mais uma, mesmo linda e me deixando de olhos marejados. Minha memória me trairia, apegada a curiosidades mundanas, e não a sentimentos profundos.

Em uma última tentativa, fixei-me em uma mulher de cabelos compridos e rosto largo, que chorava baixinho em frente à imagem de Santa Teresa, na lateral da nau. De longe, fiquei observando-a, disfarçando a minha condição de turista. Mas percebi que também ela não seria suficiente. Não lembraria delas, catedral e mulher, daqui a dez anos, quando estiver contando a alguém que, sim, já fui a Santiago, e gostei muito - ou não tanto assim.

Já resignada com a lembrança perdida para sempre, flagrei-me pensando nos motivos que levavam aquela mulher às lágrimas. Talvez a morte de alguém querido, a vontade de ir embora também, depois de uma vida curta e cheia de tragédias. Ou, nada disso, ela enfrentava sua primeira adversidade, depois de uma vida de paparicos, e não sabia o que fazer com um sentimento de amor contrariado.

Foi então que descobri, de repente, que a catedral chilena não me escapuliria tão fácil assim. Em alguma daquelas gavetas secretas da memória, ela ficaria guardada, junto com a mulher sofrida, se fazendo de esquecida numa mente ocupada demais e repleta de preocupações. Mas um dia, diante do computador, ela estaria numa história, entrelaçada com outras lembranças, igualmente reservadas por emoções inconfessáveis. Inconfessáveis para mim. Mas não para a mulher de cabelos compridos e rosto largo, que finalmente contará tudo o que sentia.

14 de Maio de 2009

Sem história para contar

Arquivado sob: Viagens, Crônicas — Marta @ 17:59

Foi por pouco. Eu estava em Puerto Varas, no Sul do Chile, quando a terra tremeu na capital Santiago, de onde tinha saído na véspera. Que azar. Quase tenho uma boa história para contar na volta.

O motorista só comentou sobre o terremoto por acaso, pois o nosso destino era um vulcão e os passageiros pareciam estar atrás de alguma emoção. “Quando há um tremor, a gente logo identifica quem é brasileiro”, zombou. “São os que saem correndo.” Depois do susto, quase emendei, eles retornam ao Brasil com uma ponta de orgulho. Afinal, viveram uma dessas aventuras internacionais, daquelas de espalhar para a vizinhança.

O chileno tem certa razão, o brasileiro é mesmo engraçado. Vive reclamando das próprias mazelas, mas quando o assunto é nevasca, furacão, terremoto, a tragédia é tratada com solenidade, como se, nesse caso, pairassem ali os desígnios de deus. Ou seja, bem diferente da enchente provocada por bueiro entupido, culpa das autoridades e dos mal-educados que jogam lixo no meio da rua, ô povinho.

Claro que não é bem assim, mas já que estamos falando do tal brasileiro típico em viagens… “Na nossa última vez em Nova York levamos uma mala vazia só para as compras, não é, benhê?”, diz a brasileira no banco de trás. É a senha para o marido dar pormenores sobre a configuração do Mac, que dividiria espaço com as roupas de grife, na tal mala extra. Caramba, será que sou a única brasileira que não gosta de fazer compras quando viaja?

Sem histórias de compras para compartilhar, fixei-me no vulcão, que se aproximava. Pelo menos era o que o motorista nos garantia, já que uma imensa nuvem persistia em seu topo, alcançável apenas por escalada. “Um casal de brasileiros já morreu tentando chegar lá”, ele avisa. Será que continuava zombando?

O fato é que teríamos que nos contentar com as histórias das lavas no caminho – essas sim, visíveis, no relevo bastante exótico aos nossos olhos tupiniquins. Acabamos retornando ao hotel sem grandes histórias para contar. Nenhum tremorzinho, uma erupçãozinha, nada…

***

Em tempo: o tal vulcão era o Osorno, e não recomendo o passeio em maio!

11 de Maio de 2009

Um hotel para chamar de seu

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 18:33

Os hotéis, como tudo mais, estão cada vez mais globalizados e padronizados. O lado bom é não ter maiores aborrecimentos com a água que não esquenta, a cama que range, o cheiro de mofo. O lado ruim é que não há qualquer resquício da cultura local no quarto, na recepção ou no serviço prestado por funcionários invisíveis e bem treinados.

Sempre se pode optar por um hotelzinho no centro histórico em vez de procurar uma bandeira conhecida (de Ibis a Marriot, algum caberá no orçamento da viagem). Os hotéis com o dono no balcão ainda resistem, apesar da concorrência. Mas se você é o típico turista acidental, que busca o ambiente mais familiar possível enquanto tira fotos iguais às do guia de viagem, não há o que pensar: hospede-se sempre em hotéis da mesma rede, e as novidades se restringirão às frutas no café da manhã.

Mas se você busca um turismo mais verdadeiro, vem o dilema na hora da reserva: arriscar-se a ser brindado com um quarto sujo? Ter que reclamar por um apartamento melhor depois de horas e horas de viagem? Sim, porque nestes pequenos hotéis, muitas vezes recomendados por amigos, os quartos variam de tamanho e de qualidade de forma aburda. Minha melhor hospedagem em Paris, por exemplo, aconteceu depois que reclamei de um quarto de quina, mínimo e emparedado. Fui transferida para um quarto duplo, de frente, pela mesma tarifa.

Conheço muito viajante de carteirinha que, como eu, tem se rendido às bandeiras de redes hoteleiras internacionais, muitas vezes afastadas do centro. Só não vale sair do hotel para entrar em ônibus de excursão, com guia e turistas brasileiros. Aí já é demais.

No Chile, fiquei hospedada em hotéis de redes locais, com o tal padrão internacional. Em Santiago, especialmente, tratava-se de um típico hotel para executivos, com serviço eficiente e absolutamente seco. As provas da padronização? Cobertas presas à cama e papel higiênico cuidadosamente dobrado em “V” na ponta. Um dia ainda descubro como coisas assim se tornaram padrão

3 de Maio de 2009

Viajar para poder voltar

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 23:01

A mala está pronta e o destino é deconhecido. Melhor, impossível. É gostoso revisitar um lugar, mas a experiência ganha outra intensidade quando se vai pisar em um aeroporto pela primeira vez. Para compartilhar a minha excitação (estarei no Chile esta semana), deixo aqui algumas frases selecionadas pelo escritor Moacyr Scliar no delicioso “Dicionário do viajante insólito”.

“Viajar expande a nossa capacidade de simpatia, redemindo-nos da reclusão e da modorra dos limites da nossa personalidade.” (José E. Rodo)

“Viajamos para nos livrarmos de nós mesmos, mais do que para nos livrarmos dos outros.” (William Hazlitt)

“Quem viajou muito pode mentir com impunidade.”(provérbio francês)

“Viajo para voltar.” (William Trevor)

“Só começamos a gostar de uma viagem três semanas depois de ter voltado.” (George Ade)

“A Patagônia convém à minha imensa tristeza. A Patagônia e os Mares do Sul.” (Blaise Cendrars)

“Viajar é uma coisa brutal. Perdemos o conforto do lar e dos amigos, somos forçados a confiar em estranhos. Estamos sempre fora do nosso equilíbrio.” (Cesar Pavese)

“A viagem é uma sequência de desaparecimentos irreparáveis.” (Paul Nizan)

“Viajar é conversar com os séculos.”

“Viajar não é necessário, a não ser para as imaginações limitadas.” (Colette)

“Viajou. Conheceu a melancolia dos navios, o aturdimento das paisagens e das ruínas, a amargura das simpatias interrompidas. Voltou.” (Gustave Flaubert)

“Partir é morrer um pouco.” (E. Haraucourt)

“Se é terça-feira, isto deve ser a Bélgica.” (título de filme)

“Todos os caminhos levam a Roma, mas cada dia o engarrafamento é pior.” (Millôr Fernandes)

“Quem viaja por terras estranhas vê o que quer - e o que não quer.” (Guimarães Rosa)

“Não viajamos só pelo prazer de ver, mas pelo prazer de contar.” (G. K. Chesterton)

“O viajante vê o que vê, o turista vê o que veio ver. (G.K. Chesterton)

“Como todos os grandes viajantes, vi mais do que lembro e lembro mais do que vi.” (Benjamin Disraeli)

“O mundo é um livro. Quem não viaja só lê uma página.” (Santo Agostinho)

“Viajar instrui - afirmam. Basta olhar para o turista para verificar a extensão dessa balela.” (Mário da Silva Brito)

“Existem duas categorias principais de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar.” (Érico Veríssimo)

“O homem não precisa viajar para crescer; ele traz consigo a imensidão.” (François-René de Chateaubriand)

Escolha a sua frase, planeje a próxima viagem e tenha uma boa semana.

1 de Agosto de 2008

Rescaldo de NYC

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 17:41

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Baixando as fotos da viagem, lembrei do dia em que presenciamos os famosos bombeiros de Nova York em ação. De verdade. O acidente não era grandes coisas: uma caminhonete adentrou a portaria de um prédio na Little Brazil Street, esquina com Fifth Avenue, aparentemente sem feridos. Foi o suficiente para uma pequena multidão se instalar ao redor, com celulares em punho para a foto do dia.

Os homens do FDNY (Fire Department New York) tornaram-se exemplo maior de heroísmo depois do 11 de setembro, quando 200 deles morreram tentando resgatar as vítimas do atentado. Continuam brilhando nas manchetes por motivos mais prosaicos, como o calendário que estrelam anualmente e causa alvoroço entre a mulherada. No ano passado, um vídeo erótico com um deles foi divulgado na internet, e o calendário chegou a ser suspenso.

Eu confesso que entrei no clima da tietagem. Descia a pé a Quinta Avenida quando percebi a confusão. Entrei na multidão e tirei minha foto. Parecia parte do tour.

26 de Julho de 2008

Filosofadas de viajante

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 09:48

Conheço pessoas que não gostam de viajar. Trata-se de gente quieta, que não alardeia por aí sua preferência pelo abrigo familiar, e talvez nem admita para si própria o desconforto em dormir fora de casa. Mas eles são muitos, e em geral justificam as poucas viagens do currículo com motivos verossímeis - falta de tempo, de dinheiro.

Ok, mas sabemos que quem gosta mesmo de viajar dá um jeito. O viajante apaixonado, mesmo duro, põe mochila nas costas, economiza, deixa de comprar ou trocar de carro. Se tem filhos, abre mão da casa de praia, uma espécie de âncora no pé do viajante, e acostuma os pimpolhos desde cedo com a canseira da estrada ou dos aeroportos lotados, nas férias escolares.

Viajar é a aventura que nos resta. Adoro. Sofro também, e gosto de voltar para casa. Mas logo estou programando a próxima. Não consigo imaginar um futuro sem viagens a lugares novos, desconhecidos. A sensação de ser estrangeira é inquietante, quase angustiante, e ao mesmo tempo libertadora. Vicia.

A idéia de ser intruso e voyer de outras culturas, sob a fachada consentida de turista, é excitante. Às vezes, caminhando sozinha numa rua estrangeira, tenho a fantasia de que serei descoberta: “Ei, você aí. Deleitando-se com a diversidade da natureza humana, hein? Aproveitando para esquecer da sua vida, enquanto investiga a nossa… Peguei você, minha cara.”

Essa quase culpa pelo prazer de viajar talvez revele uma outra faceta minha: não sou a turista mais desencanada do mundo, como gostaria. Preocupo-me um pouco; canso, muito. Sempre planejo que relaxarei, e dormirei, mais na próxima viagem. Mas, em geral, volto exausta, com sono atrasado. Desfaço as malas e preciso ficar um, dois dias me refazendo.

Mas a vida é mesmo assim - aprendemos na escola e na nossa cultura cristã. Vivências emocionantes e realizações verdadeiras parecem cobrar sempre uma taxa em sofrimento, em concessões. Viajar, assim como criar um filho, exige dedicação. E também está no rol das coisas que dão sentido à vida, sabe-se lá por quê.

24 de Julho de 2008

Melhor foto da viagem

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 18:15

NY Central Park - NY Central Park

Como faz tempo que não dou de mãe coruja por aqui, aí vai: a melhor foto da viagem a Nova York foi tirada pela minha filhota, de 8 anos. A menina tem futuro, não?

O clique foi no Central Park, depois do almoço no Boathouse - que vale a fila.

22 de Julho de 2008

Turismo na Europa ou nos EUA?

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 08:57

De um americano, comparando fazer turismo nos Estados Unidos e na Europa: no velho continente, paga-se para ir ao banheiro; aqui, não. Lá, todas as gorjetas são obrigatórias e vêm expressas na conta. Aqui, só nos restaurantes. No caso de outros serviços, a “tip” só deve ser paga se o cliente ficou realmente satisfeito. Ainda segundo ele, nos hotéis americanos sempre há máquinas de gelo, e o hóspede pode se servir à vontade, enquanto na Europa é preciso pedi-lo no quarto, o que gera burocracia e gorjeta.

Tive que concordar com a história dos banheiros. De fato, ir distraída e apertada ao toilette e se deparar com uma roleta na porta é bem desagradável. Sem contar que, invariavelmente, estamos sem moedas nessa hora. Quanto ao resto, sei não. As gorjetas obrigatórias dos restaurantes americanos compensam qualquer outra situaçào em que são espontâneas: variam de 15% a 20%, mesmo que o serviço tenha sido grosseiro (ou falsamente simpático, o que é mais comum por aqui).

Quanto ao gelo… Por que mesmo os americanos acham-no tão essencial? Vou tentar descobrir na próxima viagem. Agora, estou voltando.

19 de Julho de 2008

Pedalcab no Central Park

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 19:00

Tinha prometido para minha filha que faríamos um passeio de charrete no Central Park. Todo mundo que vem a NY tem algumas cenas de filmes na cabeça, passeios e lugares que gostaria de visitar para se sentir como na tela do cinema. Com ela nao é diferente: seu “filme NYC” é “Encantada”, uma fantasia bem bacana da Disney que estava em cartaz até pouco tempo atrás.

Pois chegamos no parque e não achamos as charretes. Descobrimos que, quando a temperatura atinge os 90 graus Fahrenheit (32 Celsius), a prefeitura proíbe o passeio, para não judiar dos cavalos.

Mas não há tantas leis protetoras do trabalho de gente por aqui. Se o calor é demasiado para os cavalos, não faltam imigrantes de pernas fortes para substitui-los. Assim, os “pedalcabs” ralam sem parar no verão infernal da cidade. São táxis puxados por ciclistas, que têm serviço garantido o ano inteiro graças ao congestionado trânsito nova-iorquino. Nesta época do ano, ganham um extra no lugar dos animais.

Creio que minha filha imaginava algo mais romântico, como tinha visto no seu filme preferido. Mas fomos de pedalcab mesmo. Com as pernas doendo de tantas caminhadas (por enquanto, mais compras do que museus…), apelamos para o estranho transporte. Com algum constrangimento, é verdade.

17 de Julho de 2008

Suando em NY

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 10:46

Verãozão em Nova York. Vim com as meninas (uma de 8, outra de 26), que não conheciam a cidade, e em poucas horas elas já se deixaram envolver pela urgência das compras. Todos aqui parecem querer a mesma coisa: consumir, consumir, consumir.

Faz parte do programa, claro. Ainda mais com o dólar tão baratinho. Mas eu canso. Vamos ver se hoje, segundo dia, consigo dar um tom mais cultural para esta viagem.

Quanto ao calor, serviu para confirmar como a moda anda globalizada. Impressionante como isso mudou. Nas minhas primeiras viagens, roupas da estação no Brasil chamavam a atenção no exterior (não sei em NY, onde nada parece chamar a atenção). Quem quisesse se misturar na multidão tinha que colocar na mala as roupinhas mais básicas ou clássicas do armário.

Agora, todas as mulheres usam os mesmos vestidos soltinhos, chinelos de dedo, sandálias rasteiras - novidades das últimas coleções. Bem prático, mas um pouco sem emoção.

27 de Março de 2008

Unidos pelo (fim do) acento

Arquivado sob: Viagens, Crônicas — Marta @ 17:10

- Que doce é esse? – perguntei, apontando para uma saborosa vitrine em Lisboa.

- Queijada de senhora – respondeu a balconista, com a entonação e a rispidez típicas do português de Portugal.

Fiquei interessada. Já tinha provado pastel de Belém, barriga de freira e, agora, descobrira a queijada de senhora…

- Parece gostoso. É feito de quê?

- É uma queijada de senhora – repetiu, sem paciência.

- Sim – arrisquei novamente – Mas é feita com ovos? Qual o ingrediente principal?

Achei que a portuguesa ia voar por cima do balcão.

- SENHORA!!!!

Naquele momento de pressão máxima, o Tico conectou-se com o Teco, observei a tonalidade do doce e percebi que tinha cor de … cenoura!

- Ah, cenoura…

Ela achou que eu era burra ou surda, mas nem desconfiou que, involuntariamente, eu tentava corrigir a sua pronúncia. Achei melhor sair dali e nem experimentei o doce. Consolei-me com o fato de que vivera a minha história particular de falta de comunicação em Portugal.

Lembrei disso outro dia ao ler a enésima matéria sobre a reforma ortográfica que vai uniformizar o português escrito no planeta. O assunto mobiliza editoras, filólogos e patriotas, não só em torno de aspectos práticos, mas também de questões culturais e de identidade do idioma que nunca haviam me ocorrido antes.

De forma objetiva, porém, achei importante descobrir o que mudará para nós, escribas do dia-a-dia. A resposta é: muito pouco. Com exceção de um trema extinto aqui e um acento acolá, nossa vida continuará como antes. Para os brasileiros, bastará decorar um par de regras - tarefa razoavelmente tranqüila (ops, olha o trema aí) para quem está disposto a se adaptar e encontra-se afinado com a ortografia vigente.

Para aqueles que já tinham problemas com o idioma escrito, talvez as notícias não sejam tão ruins. Afinal, a “Nova Reforma Ortográfica”, com sua aparente imponência, poderá ser uma boa desculpa para os erros de quem nunca aprendeu a escrever direito…

Até hoje ouço, de pessoas atrapalhadas com acentos, que a culpa é da reforma ortográfica, realizada em… 1971!!! Isso mesmo. Trinta e sete anos se passaram e alguns ainda perguntam se tal acento “caiu”, como se tivesse despencado ontem. Ok, devemos ser pacientes. Mas vamos combinar que essas pessoas precisam estar acima dos 45 anos, para terem sido alfabetizadas antes da reforma.

Da minha parte, prometo não integrar o time de saudosistas da nova “antiga ortografia”. Admito que gostava do trema, até porque me incluía entre a meia dúzia de pessoas que sabia usá-lo e não aderiu à polêmica (e pelo visto visionária) extinção do acento decretada anos atrás pela Folha de São Paulo.

Juro que não vou falar, para os meus netos, sobre os bons tempos do trema. Isso soaria como os lamentos que ouvíamos sobre o fim do ensino de latim nas escolas - tão chato e tão importante… Por que mesmo? Você se lembra?

Ih, lá vamos nós novamente…

14 de Fevereiro de 2008

Mistérios de uma viagem

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 15:06

Questões que sempre intrigam os viajantes atentos:

Por que em TODOS os hotéis as camareiras cismam em tranformar as camas em vigorosos sacos de dormir - eliminando qualquer possibilidade de soltar as cobertas de cima sem desprender também os lençóis de baixo?

Por que as outras pessoas demoram séculos no check-in das companhias aéreas, formando filas enormes, se na nossa vez o atendimento leva apenas dois minutos?

Por que em cada lugar as tomadas elétricas são tão diferentes, em formatos e voltagens?

13 de Fevereiro de 2008

O verdadeiro tango portenho

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 09:32

Viagem de fim de semana para Buenos Aires. Tudo de bom e de barato, ainda mais com passagem de milhagem (a mesmíssima quantidade de milhas de uma ponte-aérea, por sinal).

Foi ali, no início da noite de domingo, que tive uma de minhas experiências de viagem mais, digamos, autênticas, graças a uma preciosa dica da amiga Janes - que, depois de um ano e meio morando por lá, está parecendo uma argentina, no bom sentido. Bonita e serena.

Escondido por um corredor comprido, o Salón Canning já estava bem cheio quando chegamos. Parecia que tínhamos entrado em “O baile”, de Ettore Scola. Éramos os únicos turistas. Mas como fomos, sim, com a pretensão de dançar tango, nossa roupa e nossos modos não chegavam a destoar.

O Zé ficou chateado porque, pela primeira vez na vida, eu não queria dançar. Nossos passos de bolero gritavam, de tão espaçosos. O tango dançado por todos era comedido, elegante, em passos curtos - bem diferentes daquele das apresentações. Imagino que o mais importante era não esbarrar nos outros casais, no salão lotado.

Eu poderia ficar ali por horas, só olhando as sandálias de salto bem alto, impecáveis. Um dois três quatro, e então os pezinhos se juntavam, cruzados, ou unidos pelos calcanhares. Mas a parte do ritual mais fascinante era quando a música começava. Sabe aqueles olhares e gestos dos leilões, quase imperceptíveis, mas que na verdade são lances decisivos? Era assim que os cavalheiros convidavam suas damas, sentadas do outro lado do salão.

Não queria dançar porque não me julgava no direito. Como intrusa, cabia-me no máximo observar. Além disso, qualquer tentativa de participar quebraria o encanto, ou estragaria a obra de arte - como se eu quisesse dar uma pincelada em um quadro impressionista alheio, só para ver como o autor se sentia a respeito.

Mas mesmo como expectadora, foi inesquecível. E custou módicos 12 pesos, o equivalente a 7 reais…

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