Opinião

Publicações arquivadas desta categoria

Hoje é dia de Obama

Publicado por Marta em 05 Nov 2008 | sob: Opinião

Não sei você, mas eu fiquei sinceramente emocionada com a eleição de Barack Obama. Dei-me conta que, nos últimos oito anos, todos nós vínhamos nutrindo uma antipatia profunda por tudo que dissesse respeito aos Estados Unidos, personificados na pele de George W. Bush. Pensando bem, é como julgar os cariocas por César Maia, ou os fluminenses pelo casal Garotinho.

Pois chegou a hora de revermos o nosso anti-americanismo, e darmos uma chance para os pobres (!) americanos, que agora precisam tanto do terceiro mundo (os emergentes) para sair da crise… Viva os novos tempos, viva Obama e, por que não, viva os Estados Unidos da América.

Ressaca

Publicado por Marta em 27 Out 2008 | sob: Opinião

Ontem os cariocas estavam de verde; hoje estão de luto. Doeu porque foi por pouco, porque o outro lado jogou sujo, porque agora é difícil voltar à velha postura resignada.

Esta onda verde que tomou conta do Rio fez lembrar a passeata na orla que deflagrou o movimento pelo impeachment do Collor. Pelo menos no início, essa onda foi assim, espontânea e contagiante, à margem dos caciques políticos e dos marketeiros.

Quando surge algo tão verdadeiro, que tem a adesão empolgada dos jovens, uma semente (!) acaba sendo plantada (!!!). Temos que ter esperanças. Euzinha posso já estar cansada de tantas decepções, mas a garotada deve ter sentido o gostinho - de participar, de mudar, de sonhar.

Vexame olímpico

Publicado por Marta em 18 Ago 2008 | sob: Opinião

Faço minhas as palavras de Marcelo Tas:

“Claro, é emocionante ver Cesar Cielo se tornar campeão olímpico, o homem mais rápido de Pequim nos 50 m. Um grande atleta, patrocinado por sua abnegada e honrada família de Santa Bárbara do Oeste, interior de São Paulo.

Triste demais é ver as patéticas comemorações galvãobuênicas na TV. Como se, de um momento para outro, o Brasil através de Cielo se tornasse uma potência no esporte. A barulheira boboca tenta, mas não esconde, a tragédia que é o esporte brasileiro. Cielo só conseguiu seu feito histórico porque está há três anos treinando nos Estados Unidos. É um talento que se desenvolveu justamente porque se isolou da mediocridade que é a política pública para o esporte olímpico verde-amarelo.

A dura realidade é que antes de Cielo estávamos em 38º, atrás de potências como o Vietnã, no quadro de medalhas. Agora, com esse ouro isolado, estamos em 27º, atrás de “gigantes esportivos” como Mongólia e Romênia. Pessoal, vamos combinar: O Brasil é um vexame olímpico! Cielo, uma exceção e não produto da “pujança esportiva” brasileira, como querem os eufóricos locutores berradores e bobocas.”

Essa foi tirada do Blog do Tas, mas hoje certamente teremos outras boas sacadas diretamente de Pequim no Custe o Que Custar (CQC), às 22h, na TV Band.

Farsa em Pequim

Publicado por Marta em 13 Ago 2008 | sob: Opinião

meninas de pequim - meninas de pequim

A China vai se adaptar ao mundo ou o mundo se renderá à lógica chinesa? Foi o que pensei ao saber dos bastidores da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. A menininha que cantou no estádio era uma farsa, a transmissão ao vivo escondia uma cuidadosa montagem e até torcedores fakes estão sendo colocados em espaços vazios das arquibancadas.

Lá, na China, a revelação não é um escândalo. Afinal, o caminho do crescimento deles passou por copiar, reproduzir, ignorar individualidades (como a da menina que ganhou o concurso de canto, mas foi dublada porque tinha os dentes tortos) em nome do bem coletivo. Nós, nos países democráticos e ocidentais, ficamos espantados. Ou seria falsamente espantados?

Na verdade (ops), estamos nos acostumando a relevar alguma dose de farsa, em nome do entretenimento. Nos reality shows, pessoas representam personagens, fingindo ser elas próprias. Nas revistas, bundas ficam sem celulite e rugas são eliminadas por fotoshop, enquanto celebridades posam em salas decoradas como se estivessem em suas casas. Na nossa internet, tão livre, proliferam perfis falsos e vírus travestidos de mensagens inocentes. Em todas as mídias, departamentos comerciais pressionam as áreas de jornalismo e entretenimento para inserir da forma mais disfarçada possível a publicidade e o interesse do cliente.

Já percebi que a geração mais nova não se importa tanto se algo “é de verdade” ou apenas “parece ser de verdade”. O importante é garantir o show, a diversão, as emoções que rapidamente serão substituídas por outras. A celebridade toma realmente aquele refrigerante ou foi paga para exibi-lo? A foto espetacular é uma montagem? Que importa, dirá um adolescente descolado.

Talvez os chineses, apenas, não tenham percebido as nossas regras para tornar tênue essa fronteira, por desconhecerem o protoloco de falsificação que vigora do lado de cá do planeta. Definitivamente, não precisavam ter distribuído um press-release afirmando que a menina de dentes perfeitos ganhara o concurso de canto, disputado por mil garotas. Mentira assim, deslavada, pega mal por aqui.

Exagerei no gloss

Publicado por Marta em 05 Ago 2008 | sob: Comportamento, Opinião

Kirchner - Kirchner

A foto acima, divulgada hoje pela agência Reuters, me fez lembrar um diálogo que escutei na semana passada.

Ela, infinitamente mais jovem e bonita que a Cristina Kirchner da foto, mas com boca igualmente carnuda, retocava o gloss da Victoria’s Secret, sem ajuda de espelho. No fim, perguntou se tinha ficado ok. No que ele respondeu:

- Está ótimo. Parece que você acabou de comer um javali.

***

Por falar em Cristina Kirchner e Mercosul, que é o assunto dos jornais, convenhamos que dá um certo desânimo acompanhar esse noticiário, depois de páginas e páginas sobre a Rodada de Doha, que não deu em nada.

Consumo consciente ou inconseqüente?

Publicado por Marta em 11 Jul 2008 | sob: Opinião

A caçula da nossa turma, de vinte e pouquinhos anos, saiu ontem apressada, e sua amiga nos explicou:

- Acho que ela vai à Baronetti.

Como assim, alguém ainda vai para a Baronetti???

Para quem é de fora: a danceteria, boate, casa noturna ou sei lá como se chama um lugar assim ultimamente, está sempre nas páginas policiais. Fica em Ipanema, é freqüentada pela garotada rica da zona sul, e parece inabalável diante do noticiário que sempre a relaciona a pancadarias, pitboys e seguranças brutamontes.

Há dez dias, um rapaz de 18 anos morreu baleado na porta da boate. Não faltou divulgação para o caso, porque o criminoso foi ninguém menos que um policial que trabalhava como segurança do filho de uma promotora. Mesmo assim, a Baronetti segue lotada.

Eu poderia apontar para a juventude desmiolada, mas esse não é um caso isolado. Jurava que estabelecimentos como os restaurantes Capricciosa e Satirycon, ou a butique Daslu, respectivamente envolvidos em tráfico de drogas e sonegação de impostos, sucumbiriam a um boicote natural. Que nada.

Enquanto isso, especialistas tentam nos convencer da tendência do “consumo consciente”. Segundo eles, as pessoas deixariam até de comprar produtos que indiretamente agridem o meio ambiente, por serem transportados por caminhões em longas distâncias, por exemplo.

Dá para acreditar nisso, se fazem fila na calçada onde acaba de morrer um rapaz? Em nome do prazer ou do conforto, as pessoas conseguem fazer vista grossa para crimes notórios! Só posso imaginar que o tal “consumo consciente” seja um modismo, ou um novo gancho para uma matéria no jornal.

Para Chico, passou e valeu

Publicado por Marta em 06 Mai 2008 | sob: Opinião

vaipassar 2  1 2 3 - vaipassar 2  1 2 3

“Eu não me posiciono como vítima. A ditadura encheu bastante o meu saco, mas também enchi o saco deles. Nada foi de graça. É claro que pensando hoje eu posso considerar uma injustiça. Porque era uma situação injusta para todos nós, para os artistas, para o Brasil.”

A declaração é de Chico Buarque. Gravada em 2003, está na série de DVDs lançados pelo compositor, e clareou minhas idéias sobre a polêmica em torno das indenizações auferidas pela Justiça a jornalistas que se consideraram prejudicados pela ditadura militar.

Eles foram prejudicados? Certamente. Muitos foram, o Brasil foi. Usar de esperteza e de recursos para obter uma indenização individual dos cofres públicos não parece condizente com o movimento de luta contra a ditadura, que uniu essas pessoas no passado em favor de um ideal coletivo.

Especialmente no caso de pessoas bem sucedidas - como Ziraldo, Jaguar e Cony -, a reparação parecia ter vindo naturalmente, na forma de reconhecimento público às suas ações e seus talentos. Agora fica a dúvida: essas pessoas acharam que não valeu a pena?

Chico, pelo visto, acha que valeu. Quem quiser conferir (ótima desculpa para revê-lo), o depoimento está no início do DVD “Vai Passar”. Entre outras coisas, ele conta que foi preso, precisou se exilar na Itália, mas se arriscou a voltar porque não conseguia sustentar mulher e filha cantando “Mamãe eu quero” nas boates de Roma.

Hipocrisia olímpica

Publicado por Marta em 24 Mar 2008 | sob: Opinião

É uma daquelas situações em que não dá para ficar em cima do muro. O mundo deve fingir que não há nada errado na China durante os Jogos Olímpicos que começam em agosto?

Claro que não. O governo chinês vem massacrando monges tibetanos e qualquer oposição aos seus desmandos, controlando a informação com a mão pesada da censura, e o mundo todo finge que não vê, só por que se trata de uma ditadura economicamente próspera? Essa hipocrisia por acaso combina com o espírito das Olimpíadas?

Não sei se o caminho é fazer algum tipo de boicote, ou se devemos aproveitar a ocasião para denunciar in loco o que acontece por lá. A imprensa e seus colunistas começaram a tomar posição sobre o assunto. Alguns veículos, como a semanal Época, afirmam que o boicote é uma bobagem. Jornalistas e blogueiros também estão se manifestando. Particularmente, gostei da argumentação do Arthur Dapieve, no Globo de sexta-feira (conteúdo fechado para assinantes no site, acredite se puder).

Sempre é bom lembrar, antes de se influenciar pela opinião alheia, que os interesses estão por toda parte. Ou seja, nem todo colunista tem independência suficiente para peitar o departamento comercial da empresa para a qual trabalha…

Época X Medicados sim, graças a deus

Publicado por Marta em 12 Mar 2008 | sob: Comportamento, Opinião

Quando vi a capa da revista Época, na semana passada, tive certeza de que a polêmica iria render. Ao questionar o uso abusivo de antidepressivos, a matéria “O poder da tristeza” certamente seria odiada pelo batalhão de pessoas que toma os medicamentos. Não deu outra.

É um assunto controverso, como percebi ao abordá-lo de leve no post “Vida intensa, noite em claro”. Não demorou muito para que eu recebesse, por e-mail, dicas de remedinhos (que ainda não tomei). Na grande imprensa, o viés pró-tristeza chega a chamar a atenção, porque as reportagens são sempre a favor dos laboratórios e seus fabulosos avanços farmacológicos (por que será?).

Sem querer melindrar os amigos que têm seus motivos para tomar antidepressivos, vou admitir: gostei da matéria. Médicos e pacientes já estão por aí fazendo uma maciça propaganda dos benefícios dos antidepressivos. Quem vai mostrar o outro lado? Bom que seja a imprensa.

Não sei se você, que (ainda) não aderiu aos prozacs da vida, já esbarrou no assunto ao conversar com um amigo medicado. Essas pessoas ficam se justificando, se sentem acusadas, sei lá de quê. Me lembra um pouco às vezes em que comentei, com outra mãe, que o parto da minha filha foi normal. Imediatamente, ouço uma minuciosa explicação para o fato de ela ter precisado fazer uma cesariana. Tudo bem, eu nunca disse o contrário! Não sugeri que ela fugiu do parto normal, assim como não falei que o antidepressivo era desnecessário!

Depois, que mal há em ter medos, fraquezas, precisar de ajuda? Por que temos que ser fortes, decididos e seguros, o tempo todo?

Talvez seja essa a idéia por trás do livro “Eu tomo antidepressivo, graças a deus”, de Cátia Moraes, que está chegando às livrarias. Não li o livro, apenas recebi sua divulgação, repassada pela minha analista (que jurou não ter nada a ver comigo, só com o blog). Mas posso imaginar, pelo título, que assumir sem culpa a condição de “medicado” deva ser importante para muitas dessas pessoas. Se vai além disso, só pagando para ler (Editora BestSeller, R$ 24,90).

Caretice e coerência

Publicado por Marta em 12 Jan 2008 | sob: Opinião

A polêmica foi levantada por “Tropa de elite” e continuou com “Meu nome não é Johnny”, filmes que mostram usuários de drogas como financiadores da violência relacionada ao tráfico.

Agora, discretamente na mídia, e menos discretamente nas rodinhas de pessoas com, digamos, “culpa no cartório”, começa a haver uma reação. Os argumentos vão desde que as drogas sempre existiram na humanidade até a especulação de que o crime seria redirecionado para delitos piores, como seqüestros, na falta de drogas para traficar. Além disso, culpabilizar o usuário acabaria por tirar os holofotes dos verdadeiros responsáveis pelo crime organizado.

Essa é uma daquelas discussões em que todos - e ninguém - têm razão. É claro que comprar um baseado do amigo do amigo não é igual a dar um tiro na cabeça de uma criança vítima da guerra do tráfico. Mas essa pessoa tem, sim, sua parcela de responsabilidade - o que não diminui nem um pouco a das autoridades corruptas e omissas em relação ao assunto.

Tudo é uma questão de informação e consciência. Outro dia ouvi uma menina argumentar que “achado não é roubado, quem perdeu que é relaxado,” para tentar ficar com um brinquedo deixado numa piscina. Quantas vezes ouvimos isso quando éramos pequenos?

Mas os tempos são outros. Hoje sabemos que existem departamentos de achados e perdidos e que outra criança pode estar chorando pelo brinquedo. Depois de adquirir essa consciência, simplesmente não dá para ignorar tudo em nome de uma vantagem imediata.

Sempre vão existir argumentos fajutos e rimados para os que preferem a ignorância. Para os outros, a informação é um caminho sem volta. Não dá para comprar produtos mais baratos se eles são fruto de mão de obra escrava ou infantil, ou para votar em político corrupto porque “rouba mas faz”.

Correndo o risco de parecer radical, acredito que o mesmo raciocínio pode ser levado para quem compra produtos pirateados e até para quem dá esmola a crianças exploradas por adultos nas ruas.

Sei que não é fácil mudar hábitos - alguns até ingênuos e, na aparência, inofensivos - e também que não mudaremos o mundo com esses gestos. É apenas uma questão de garantir o sono tranqüilo e, principalmente, ensinar o que vale a pena aos nossos filhos.

Plebiscito perdido

Publicado por Marta em 03 Jan 2008 | sob: Opinião

Não consigo evitar. Sempre que vejo nos jornais notícias de balas perdidas, pessoas baleadas em brigas de rua etc, fico tentando lembrar por que mesmo a venda de armas não foi proibida, naquele plebiscito de dois anos atrás.

É impressionante como, em sociedade, conseguimos nos perder em discussões sobre medidas ideais, especulamos sobre desdobramentos indesejáveis das providências possíveis e arrumamos mil desculpas para cruzar os braços, não fazer nada e continuar reclamando das autoridades.

Novo mico no ar

Publicado por Marta em 22 Out 2007 | sob: Jornalismo, Opinião

A Airbus está lançando o maior avião da história, com capacidade para 853 passageiros. A imprensa em peso deu a notícia, com direito à foto de uma das quatro suítes disponíveis no jumbo, com cama de casal salpicada de pétalas de rosas.

Para completar a divulgação glamourosa, arrumaram como personagem um britânico excêntrico que pagou US$ 100 mil para ser reconhecido como o passageiro número 1, na viagem inaugural de Cingapura a Sidney.

Tudo muito curioso, interessante e … providencial, para que viajantes do mundo inteiro não percebam a incompetência do setor aéreo em resolver os problemas que de fato infernizam suas vidas.

Sim, porque nem eu nem você vamos pernoitar naquela cama de casal da foto. Mas, talvez, daqui a alguns anos, estejamos na fila do check in que vai embarcar… 853 passageiros!

Alguém consegue imaginar que, junto com o superjumbo, algo vai mudar na estrutura dos aeroportos ou na qualidade dos serviços das companhias aéreas? Com que antecedência um passageiro da classe econômica precisará chegar ao aeroporto? Qual o tamanho das filas (check in, polícia federal, embarque) que vai enfrentar?

Mas, claro, se o destino é Paris, releva-se a espera, o desconforto, o cheiro ruim dos banheiros. Pensaremos no glamour de viajar no maior avião do mundo e tentaremos relaxar e gozar, como diria a outra Marta. Além disso, na classe econômica, será oferecido um videogame em três dimensões!

Então, já sabe: nada de se estressar quando o piloto informar que o avião ficará dando voltas em cima da cidade, por causa do tráfego aéreo. Quando o A380 aterrissar, tenha paciência para esperar que umas 800 pessoas desembarquem na sua frente. Não esqueça que eles ainda serão acomodados em ônibus (quantos?), para então começar a peregrinação do desembarque propriamente dito, incluindo a megafila da imigração.

Ah, você perdeu a conexão depois de tantos atrasos e teme ficar sem a mala? Humm, que azar, né? Mas, não querendo ser chata, olhe bem a expressão dos funcionários diante do seu desespero: isso acontece o tempo todo! E, sinto informar, a crise não é só no Brasil…

A verdade é que a tecnologia da aviação estacionou há décadas. Continuamos levando o mesmo tempo para atravessar o Atlântico – em poltronas cada vez mais apertadas, para dar conta da explosão da demanda por viagens longas.

Enquanto as comunicações ganhavam a velocidade da internet e os trens passavam a deslizar como balas, nos acostumamos ao desconforto das viagens aéreas. Às companhias, diante dos poucos avanços no setor, restou o caminho da massificação, e do nivelamento por baixo dos serviços prestados.

Mas quem ama viajar, como eu, vai fazer o quê? Bem, pelo menos vamos reclamar, ou mostrar que não somos tão bobos.

Na próxima divulgação, menos pétalas de rosas, por favor.

Sobre lucidez e valentia

Publicado por Marta em 18 Out 2007 | sob: Opinião

Antes de ser mãe, quando eu me posicionava contra a palmada, era logo desdenhada pelos pais presentes: “Espere para ver como é.” Esperei, tive a minha filha e passei pela fase das pirraças numa boa – com paciência, autoridade e sem palmada. “Ah, isso é porque você deu sorte”, sou capaz de ouvir agora.

Hoje em dia, quando o assunto é violência, ouço argumentos parecidos. Tudo porque tenho a mania “démodé” de defender os direitos humanos e ser contra tortura, pena de morte, esquadrão etc, em qualquer circunstância.

“Ah, isso é porque você ainda não vítima de algo terrível”, sugerem. Bato na madeira três vezes, no caso de ser praga. A maioria das pessoas também não foi, nem por isso deixa de tomar as dores dos que viveram as tragédias dos jornais, para justificar: “Esse bandido eu matava, devagarinho.” E dá-lhe palmas para o capitão Nascimento.

Entendo que o assunto é delicado – a ponto de dois leitores do Espuminha terem comentado meus posts sobre “Tropa de elite” por email, e não no blog. Um deles afirmou que “não queria ser julgado”. Nessas horas, o racional é atropelado pelo emocional, que depende da vivência e dos temores de cada um.

Mas acredito que convicções pessoais profundas não se alteram nem se flexibilizam com o tempo. Posso ser contra a esmola, por exemplo, e amanhã achar que não é bem assim. Já mudei de opinião muitas vezes. Mas se o assunto é tortura, o buraco é mais embaixo.

Sou contra a tortura – e acho surreal precisar fazer esse tipo de afirmação aqui. É como se a violência urbana tivesse causado uma confusão mental na sociedade – daquelas que só vão ser percebidas daqui a muito tempo, sob uma perspectiva histórica, como foi com o nazismo.

Estamos vivendo um momento de loucura passageira ou as convicções (e os valores) estão mudando? Prefiro acreditar na primeira opção.

De qualquer forma, situações limites são ótimas para a reflexão e está para estrear um filme com este tema. Não vou perder, porque é estrelado pela Jodie Foster e dirigido por Neil Jordan. “Valente” é justamente sobre uma mulher pacata e sensível que se tranforma, depois de uma experiência absurda de violência em Nova York.

Será que mudo de opinião? É pagar (o ingresso) para ver.