22 de Novembro de 2007

Esses coleguinhas…

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 16:14

Uns anos atrás escrevi um artigo para o Comunique-se, site de comunicação e jornalismo, sobre os efeitos do enfraquecimento das redações, enquanto as assessorias de imprensa se fortaleciam. Não sei como, mas um assessor conseguiu achar, naquele texto, uma grave ofensa ao trabalho das assessorias.

O que se seguiu foi uma baixaria sem fim nos comentários. Alguém, que eu não conheço, tentou me defender, retrucar que ele não havia entendido o artigo. O sujeito ficou ainda mais ensandecido.

Acompanhei tudo perplexa, e completamente arrependida daquela minha primeira incursão na internet. Mas aprendi uma lição: todo cuidado é pouco quando se trata da relação entre jornalistas e assessores.

Por isso, depois que escrevi o post abaixo, fiquei pensando: alguém pode ficar ofendido por eu ter citado um assessor incompetente? Achariam que é uma generalização?

Hummm, todo cuidado é pouco… Além disso, tenho uma penca de amigos em assessoria – a maioria, na verdade, já que depois dos 40 poucos agüentam ficar em redação.

Por isso, agora vou falar mal dos jornalistas. Sim, aquelas figuras odiosas e sem coração, capazes de tudo por um furo – chegaram até a matar a Lady Diana!

Brincadeirinha…

Mas de fato existem boas histórias de maus jornalistas. Hoje, na coluna Gente Boa, do Globo, tem uma: no lançamento do livro do Nelson Motta, uma repórter encontra Marília Pera na fila dos autógrafos e dispara: há quanto tempo conhece o autor? Ela responde: “Fui casada com ele, temos duas filhas…”

Mas quem espinafrou mesmo a categoria recentemente foi a ginasta Jade Barbosa. Ela contou ser perseguida há anos por repórteres que cochicham em seu ouvido, quando sobe ao pódio: “Você pensou em ganhar essa medalha para a sua mãe?”

A mãe de Jade, que tem 16 anos, morreu quando ela tinha 11. “Eles sempre tentam me fazer chorar”, desabafou a menina.

Em mesa de bar, os jornalistas sempre têm histórias terríveis de coleguinhas, algumas bem mais próximas. Quem quiser saber de alguma, é só puxar a cadeira.

29 de Outubro de 2007

Mimos inocentes

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 11:22

O valor do mimo foi o mesmo: R$ 200.

Em São Paulo, jornalistas presentes numa coletiva da Mattel (com a imagem arranhadíssima por conta de consecutivos recalls de brinquedos) ganharam um boneco da Vila Sésamo na saída. No dia seguinte, o fato era relatado na coluna de Daniel Castro, da Folha, com o título “Jabaculê”.

Em Brasília, no mesmo dia, um grupo de senadores foi assistir ao espetáculo “Alegría”, do Cirque du Soleil, por conta da TAM (com uma penca de interesses na pauta do Congresso). Rendeu notinha no Correio Brasiliense, com o título “Alegria, alegria!”

Não adianta um código de ética estabelecer parâmetros para separar brindes inocentes de jabás mal-intencionados. Podemos ficar horas discutindo se R$ 200 influenciam um jornalista ou senador. O fato é que, depois que sai no jornal, fica tudo com cara de escândalo.

Como diz o ditado, “à mulher de César não basta ser honesta; tem que parecer honesta”…

Em tempo, coleguinhas: perdoem-me a comparação entre senador e jornalista. Mas estava quicando na área…

22 de Outubro de 2007

Novo mico no ar

Arquivado sob: Jornalismo, Opinião — Marta @ 17:23

A Airbus está lançando o maior avião da história, com capacidade para 853 passageiros. A imprensa em peso deu a notícia, com direito à foto de uma das quatro suítes disponíveis no jumbo, com cama de casal salpicada de pétalas de rosas.

Para completar a divulgação glamourosa, arrumaram como personagem um britânico excêntrico que pagou US$ 100 mil para ser reconhecido como o passageiro número 1, na viagem inaugural de Cingapura a Sidney.

Tudo muito curioso, interessante e … providencial, para que viajantes do mundo inteiro não percebam a incompetência do setor aéreo em resolver os problemas que de fato infernizam suas vidas.

Sim, porque nem eu nem você vamos pernoitar naquela cama de casal da foto. Mas, talvez, daqui a alguns anos, estejamos na fila do check in que vai embarcar… 853 passageiros!

Alguém consegue imaginar que, junto com o superjumbo, algo vai mudar na estrutura dos aeroportos ou na qualidade dos serviços das companhias aéreas? Com que antecedência um passageiro da classe econômica precisará chegar ao aeroporto? Qual o tamanho das filas (check in, polícia federal, embarque) que vai enfrentar?

Mas, claro, se o destino é Paris, releva-se a espera, o desconforto, o cheiro ruim dos banheiros. Pensaremos no glamour de viajar no maior avião do mundo e tentaremos relaxar e gozar, como diria a outra Marta. Além disso, na classe econômica, será oferecido um videogame em três dimensões!

Então, já sabe: nada de se estressar quando o piloto informar que o avião ficará dando voltas em cima da cidade, por causa do tráfego aéreo. Quando o A380 aterrissar, tenha paciência para esperar que umas 800 pessoas desembarquem na sua frente. Não esqueça que eles ainda serão acomodados em ônibus (quantos?), para então começar a peregrinação do desembarque propriamente dito, incluindo a megafila da imigração.

Ah, você perdeu a conexão depois de tantos atrasos e teme ficar sem a mala? Humm, que azar, né? Mas, não querendo ser chata, olhe bem a expressão dos funcionários diante do seu desespero: isso acontece o tempo todo! E, sinto informar, a crise não é só no Brasil…

A verdade é que a tecnologia da aviação estacionou há décadas. Continuamos levando o mesmo tempo para atravessar o Atlântico – em poltronas cada vez mais apertadas, para dar conta da explosão da demanda por viagens longas.

Enquanto as comunicações ganhavam a velocidade da internet e os trens passavam a deslizar como balas, nos acostumamos ao desconforto das viagens aéreas. Às companhias, diante dos poucos avanços no setor, restou o caminho da massificação, e do nivelamento por baixo dos serviços prestados.

Mas quem ama viajar, como eu, vai fazer o quê? Bem, pelo menos vamos reclamar, ou mostrar que não somos tão bobos.

Na próxima divulgação, menos pétalas de rosas, por favor.

8 de Outubro de 2007

O trabalho de não fazer nada

Arquivado sob: Femininas, Jornalismo — Marta @ 17:02

Educar um filho é uma experiência rica e interessante – mas não é para distraídos nem preguiçosos. Adorei a frase, da psicoterapeuta Lidia Aratangy, que assisti ontem no programa da Marília Gabriela, no GNT.

Inteligente e articulada, a entrevistada (e não a entrevistadora, por mais que esta quisesse transparecer as mesmas qualidades) tocou em um ponto extremamente sensível para mim: a dificuldade de ver o filho sofrer e se frustrar.

Uma mãe atenta, quando o filho tosse a noite inteira, descabela-se no dia seguinte para vê-lo curado; leva ao pediatra, faz até simpatia. Agora, o que fazer se aquele serzinho amado, tão despreparado para as relações humanas quanto para a tosse, chega da escola relatando que foi rejeitado pelos amigos?

Até onde uma mãe deve ir, para ajudar o fiho? Deve correr para marcar uma reunião com a professora? E que tal sugerir que ele leve um brinquedo novo para a escola, para atrair a amizade dos amiguinhos interesseiros?

Provavelmente a resposta certa é: deixe o seu filho se virar sozinho. Como você fez com os talheres ou o cadarço do tênis.

Só que não vale ter chegado a esta “solução” por preguiça ou distração. Educar não é para preguiçosos nem distraídos, lembra Lídia, com pertinência. Educar dá trabalho. Ou seja, tem que ter sofrido com o sofrimento do filho, perdido tempo com esse e outros problemas que de fato exigiam ação e, finalmente, se segurado para não fazer nada a respeito da sua frustração.

Irrita-me profundamente quando a mãe relapsa, desligada ou autocentrada torna-se exemplo por ter criado um filho independente e autônomo. Ela é considerada o contraponto da mãe superprotetora, que estraga a criança.

Nada mais injusto. A distraída, ou preguiçosa, pode até ter acertado (sem querer) em alguns pontos, mas em quantos outros o filho precisou de uma mãe sintonizada, para orientá-lo, e não encontrou ninguém? Que abismo existe hoje entre os dois?

Prefiro correr o risco de ser superprotetora (me policiando para não ser) e continuar compreendendo (quase) tudo o que se passa na cabecinha da minha filha…

***

Sobre Marília Gabriela, depois do programa fiquei pensando por que cargas d’água todo jornalista de TV, com o tempo, fica competindo com o entrevistado no quesito atenção. Mas aí me lembrei do Roberto D’Ávila (por onde andará?), um dos poucos jornalistas da telinha sinceramente mais interessado em seu entrevistado do que na própria performance.

5 de Setembro de 2007

Jornalismo “em conta”

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 12:52

O destaque do Jornalistas & Cia de hoje (link ao lado) é a notícia de que a Forbes brasileira foi “descontinuada”. Parece que pegou a mania de falar em “descontinuação”, quando uma publicação é fechada e todo mundo vai para o olho da rua…

O eufemismo, claro, é dos patrões. Já imaginou alguém chegando em casa e dizendo: “Meu bem, a revista em que trabalho foi descontinuada”. Só faltava a esposa responder: “Oh, então você terá seus serviços dispensados e irá em busca de novos desafios!”

Em matéria de eufemismos, sempre me lembro da arquiteta que fez uma obra lá em casa, que jamais usava o termo “barato” para distingüir um produto. Com ela aprendi que o chique é dizer “em conta”. Então já sabe: se estiver comprando em um lugar sofisticado, você pode até pedir uma opção barata, mas jamais use este termo. Pergunte se tem algo mais em conta…

Mas voltando à nova proeza do mega-empresário das comunicações Nelson Tanure (céus, onde fomos parar?), uma espécie de Midas ao contrário (o que seria o extremo oposto de ouro? Hummmm…), não sei o que é mais triste: a notícia do fim da Forbes ou a de que a revista Domingo, do JB, será editada em São Paulo.

Nada contra os jornalistas (muito competentes, por sinal) que migrarão da Forbes para a Domingo. Mas, caramba, alguém lembra o que era a Domingo, nos bons tempos do JB? Carioquíssima, descobria e ditava modismos, escolhia a musa do verão, parecia nascer das areias de Ipanema…

Tomara que os assessores de imprensa do Rio pelo menos consigam emplacar pautas cariocas na revista. Aliás, viva os assessores, que estão mesmo substituindo os jornalistas das redações!

22 de Agosto de 2007

Pagando para ver

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 12:58

Mais um jornal vai fechar o seu conteúdo na internet. A partir de 29 de agosto, é a vez de O Globo ficar restrito aos assinantes. Quantas assinaturas a mídia impressa ganha com esse tipo de atitude?

Essa história de obrigar o internauta a comprar conteúdo me lembra os primeiros shopping centers. Nessa indústria, a regra era colocar pisos escorregadios e jamais oferecer um lugar para sentar. Assim, o consumidor seria obrigado a andar sem parar e devagar, olhando as vitrines, e acabaria entrando nas lojas para comprar.

Hoje o varejo sabe que ninguém compra nada obrigado – mas compra quando está feliz. Daí o esforço para fazer do “programa shopping center” uma experiência agradável, com direito a lounges (leia-se sofás) confortáveis no meio do caminho.

Como os jornais vão colocar lounges em seus sites, e transformar a felicidade dos visitantes em dinheiro, eu não sei. O fato é que os grandes jornais estão perdendo a oportunidade de usar um conteúdo de qualidade como diferencial na internet - com um potencial infinitamente maior que o papel.

É claro que alguém, com uma visão menos imediatista, vai ocupar o lugar que seria deles. E, depois, encontrará uma forma de ganhar dinheiro, como fizeram os meninos do Google.

15 de Agosto de 2007

Redação partida

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 16:36

É estranho. Estamos distantes das eleições e há muito tempo não vejo os coleguinhas tão divididos politicamente.

De um lado, estão os revoltados com a oposição que os grandes veículos fazem ao governo Lula. De outro, os enojados com tudo o que diz respeito a Lula e PT, e que acreditam (e escrevem) piamente em qualquer notícia turbinada contra o governo.

Não querendo ser tucana (meu passado atesta que não é minha praia), mas apenas libriana (rimou…), não dá para ficar no meio do caminho? Ou seja: criticar os absurdos do governo e também a manipulação das notícias?

Afinal, não tem eleição amanhã. Ninguém precisa escolher um lado e sair por aí fazendo boca-de-urna.

A propósito: como estará a cabeça do povão, que se informa pelos grandes veículos e gosta do governo Lula? O que pensa sobre o caos aéreo, o caso dos boxeadores cubanos etc?

8 de Agosto de 2007

Ligeiramente por fora

Arquivado sob: Jornalismo, Comportamento — Marta @ 17:46

Não sei o que é a dança do siri. Demorei um tempo para descobrir que a tal Grazi é uma ex-BBB e morro de preguiça diante da idéia de gastar o meu tempo com um Alemão que começou a ser citado por aí. Ainda dá para passar batida ou ele já ultrapassou os 15 minutos de fama?

Meu problema é não querer ficar totalmente por fora. Tento folhear alguma “Caras” no salão e dar uma zapeada nos canais abertos de vez em quando, nem que seja para assistir os comerciais – que de fato eu curto ver. Talvez devesse colocar uns cinco minutos de Faustão no meu domingão. O duro é lembrar, e perder meu precioso tempo com isso.

Não acompanhar a novela das oito já não parece tão grave quanto antigamente. Se alguém ou algo relacionado à novela for realmente notícia, acabo esbarrando com o assunto numa revista semanal, ou na internet. Ultimamente, a notícia tem sido a queda na audiência… Ou seja, com a segmentação das mídias, talvez eu possa ficar um pouquinho por fora. Agora não sou a única.

Guardo um trauma de ter ignorado completamente o fenômeno dos Mamonas Assassinas. Nunca vou esquecer quando fui acordada pelo meu chefe, de madrugada, porque o avião do grupo tinha caído em São Paulo. “O que é mamonas assassinas?”, perguntei sonolenta, tentando entender o motivo da convocação. No meio da comoção do velório, jurei que nunca mais ficaria tão alheia aos fenômenos populares.

7 de Agosto de 2007

Meu primeiro encontro BLS

Arquivado sob: Jornalismo, Comportamento — Marta @ 16:47

Estava morrendo de curiosidade. Três meses depois de iniciar este blog, sem entender bulhufas do assunto, descobri que haveria o “Primeiro Encontro de BLS (Blogueiros, Leitores e Simpatizantes)” no meio do meu caminho, no Armazém Digital do Leblon, exatamente no horário em que passo por ali. Ou seja, não tinha motivos para não dar uma passadinha.

Fantasiei que encontraria meia dúzia de esquisitões batendo papo num canto – e fingiria procurar um livro nas prateleiras ao lado. Que nada. Os blogueiros são bem normais e o encontro estava bombando. Pessoas razoavelmente articuladas e interessantes davam suas opiniões ao microfone, que ia passando de mão em mão.

Tirando os “profissionais” que participavam da mesa – os recordistas de audiência da chamada blogosfera -, a maioria confessava, ao se apresentar, que mantinha um blog há poucos meses, ou que já teve um e parou de atualizar, por falta de tempo ou de saco. Huuuummm…

Entre uma exposição e outra, fui descobrindo um pouco daquele universo: o sonho de ganhar dinheiro blogando, os artifícios para conseguir audiência, o deslumbramento e as preocupações com o poder conferido aos blogs, o predomínio de pessoas ligadas à área de tecnologia.

Hoje fui ler nos blogs sobre o encontro, porque tive que sair cedo, e senti falta de uma cobertura mais jornalística sobre o assunto. Puxa, ninguém anotou tudo num caderninho e fez uma matéria, com um lead e alguma objetividade? Quantas pessoas foram ao evento? Sei não, acho que falta jornalista tradicional na tal blogosfera…

A dicotomia entre mídia tradicional e blogs, por sinal, permeava todas as questões debatidas. Parece haver uma rixa antiga, pelo que entendi. Para piorar, nos últimos dias, Folha e Época publicaram entrevistas com um historiador britânico, Andrew Keen, que anda causando alvoroço na internet.

Em seu livro “O culto ao amador”, o escritor faz uma crítica contundente aos blogs e sites interativos (a chamada Web 2.0), que seriam dominados por uma nova e obscura oligarquia, menos transparente que a mídia tradicional e formada por jornalistas fracassados, gente raivosa e com sede de poder. Forte, não?

Meus parcos conhecimentos sobre a Web 2.0 não me permitem ainda chegar a alguma conclusão. Mas um pitaco já posso dar, do alto das minhas duas décadas de jornalismo e três meses de blog: a mídia tradicional tem muito o que aprender com os blogs. E vice-versa.

27 de Julho de 2007

A espera em tempos de cólera

Arquivado sob: Jornalismo, Comportamento — Marta @ 17:14

Estamos na era do excesso da informação. Ela está por todo lado, acessível a um clique. Só não é mais democrática porque às vezes nos falta quem ajude a organizá-la e editá-la.

Isso é o que acontece no mundo real, sem o controle de burocratas ou cartéis. Mas em algumas realidades paralelas - como a dos aeroportos, do telemarketing, dos planos de saúde -, a informação é tratada com a solenidade de antigamente. E nada irrita tanto – porque não estamos mais acostumados, porque sabemos que por trás da estratégia está a tentativa de exercer poder e manipulação.

Para não fluir, a informação hoje precisa ser bloqueada artificialmente, propositadamente. Com a tecnologia, o natural é que ela esteja disponível. O sistema de telemarketing tem todas as condições de informar, no início da ligação, o tempo estimado de espera para o atendimento, assim como as companhias aéreas sabem perfeitamente que os passageiros de determinado vôo atrasado perderão suas conexões.

Mas fingem que não sabem. Depois que percebemos essa intervenção maldosa, de bloqueio da informação, o tempo ganha uma outra rotação. É a tortura dos novos tempos. Ficamos transtornados. Segundos transformam-se em minutos e minutos são percebidos como horas, enquanto somos invadidos por um sentimento crescente de desconfiança e impotência.

É mais ou menos nesse momento que o passageiro voa no pescoço da mocinha do check-in, e a cena é documentada em cadeia nacional.

Uma vez li que mediram o nível de estresse (não me perguntem como) de pessoas que esperavam por um elevador. Um daqueles que não tem a informação – sempre ela – do andar em que se encontra. O tempo médio até que o sujeito esmurrar a porta do elevador era ridículo – não para ele, mas para quem mediu ou leu a pesquisa.

Seguindo o conselho de um amigo, tasquei o meu relógio de pulso no braço da minha filha na última viagem de carro que fizemos. Ela agora sabe ver as horas e o efeito calmante do relógio foi surpreendente. De posse da informação de quantas horas teríamos pela frente, ela conseguiu administrar sua ansiedade e ocupar o seu tempo, sem nos infernizar com os “tá chegando?”.

Tenho certeza de que, informado sobre um atraso de quatro horas em seu vôo, logo que chegasse ao aeroporto, o passageiro ficaria irritado, mas não voaria na jugular de ninguém – como é capaz de fazer na quarta vez que lhe informarem sobre um atraso de mais uma “horinha”.

Todo mundo hoje tem uma história de estresse absurda em aeroporto, e em geral elas são variações sobre o mesmo tema. A mais inusitada que vivi foi dentro de um avião da TAM posicionado para ser o primeiro a decolar no Santos Dumont quando o aeroporto reabrisse.

Parecia “A noite dos desesperados”. A cada hora que passava, limites humanos eram colocados à prova. Restos de lanche e pedaços de jornal eram disputados, baterias de celular chegavam ao fim. Alguns passageiros desistiam, exasperados, depois de desmarcar suas reuniões em São Paulo, e saíam derrotados. Imediatamente entravam outros em seus lugares, gratos por terem uma chance de serem os primeiros na fila de decolagens, embora ninguém soubesse quando isso iria acontecer.

Éramos todos reféns da “grande informação”, a reabertura do aeroporto, a qual somente o piloto teria acesso. Finalmente, com a voz solene e calma daqueles que detém em suas mãos o destino dos outros, ele anunciou a nossa partida. O alívio foi geral. E olha que nós estávamos indo para Congonhas…

24 de Julho de 2007

Dá para gerenciar arrogância?

Arquivado sob: Cotidiano, Jornalismo — Marta @ 15:07

Tenho dó dos coleguinhas de assessoria que se esforçam, usam o bom senso jornalístico, a experiência acumulada em redação e estudam as mais modernas técnicas de gerenciamento de crise, mas têm a dura missão de orientar a comunicação de organizações que padecem de um mal sem cura: a arrogância.

Uma crise como a causada pelo acidente da TAM está prevista nos manuais das empresas e do governo. Estão ali, por exemplo, que as autoridades devem se deslocar imediatamente para o local da tragédia e que a transparência deve pautar cada pronunciamento da companhia aérea.

Mas este passo-a-passo, por mais decorado e treinado, não funciona sem uma dose sincera de humildade e alteridade. Alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro – uma qualidade que se desenvolve na infância e não quando um avião se espatifa no chão.

Quem tem a soberba de se achar melhor que os outros vai seguir o manual como quem se protege de um grande complô montado por invejosos – a mídia que quer atacar o governo, os concorrentes que tentam se aproveitar da situação.

Deu no que deu. No dia em que finalmente o manual foi seguido pelo governo – do pronunciamento do presidente em cadeia nacional a um pacote de medidas efetivas –, escapou uma condecoração (!) ao presidente da Anac por bons serviços prestados ao setor. A postura da TAM é sempre tão arrogante que nem as lágrimas do presidente em uma missa pareciam sinceras.

Quem vê tudo de fora, com os olhos no drama humano que efetivamente se desenrola, mal pode acreditar em tanta incompetência, tanta trapalhada. Quem está dentro, imagino, tenta aprender com os erros, para aperfeiçoar o próximo manual de gerenciamento de crise…

18 de Julho de 2007

Perto da tragédia

Arquivado sob: Jornalismo, Comportamento — Marta @ 12:38

Nunca fui medrosa ou impressionada, e achava que acidente era algo terrível que só acontecia aos outros. Tudo isso mudou na época do acidente da TAM de 1996, muito semelhante ao que ocorreu ontem em São Paulo.

Por pouco o Zé não embarcou naquela ponte-aérea, acompanhando o colega de Ambev que acabou sendo uma das 99 vítimas. Como acontece em sucursal nessas ocasiões, todos os repórteres do Globo trabalharam intensamente na cobertura, inclusive eu. Mas acho que fui poupada, porque tinha passado maus bocados exatamente duas semanas antes, no Salão do Automóvel.

Era uma coletiva de imprensa, dessas que as empresas marcam durante as feiras de negócios para vender seu peixe. Os jornalistas estavam sentados, distribuídos em mesas espalhadas pelo estande da Volkswagen, esperando o início da coletiva, quando o chão faltou. Literalmente. Na hora em que escrevo isso fico toda arrepiada, porque me lembro exatamente da sensação.

O chão caía, tudo em volta despencava junto, inclusive as mesas com tampos de vidro, e não havia onde segurar. Nada fazia sentido. A luz se apagou junto com o estrondo, as pessoas gritavam e eu só conseguia sentir que estava vivendo uma tragédia. Daquelas que aconteciam com os outros.

Quando os destroços pareciam ter se acomodado, um coro de “calma!”, liderado por vozes masculinas, tomou conta do ambiente, iluminado por faíscas. Alguém me ajudou a tirar uma câmera de TV de cima do meu pescoço e eu só conseguia pensar em achar a minha bolsa. Por que cargas d’água alguém que achava que ia morrer procura uma bolsa?

A calma extrema das pessoas que evitaram uma situação de pânico, a minha preocupação com a bolsa e com o celular (um tijolão emprestado da agência) e o fato de ninguém ter morrido naquele acidente são partes dessa história que até hoje não entendo direito.

Como sempre acontece depois dos acidentes, fomos tomados pelo sentimento de revolta e pela busca de culpados. Estava cheia de hematomas, mas fiquei ali, passando flashes indignados, enquanto o Miguel Jorge - atual ministro do Desenvolvimento e então diretor da Volks - tentava minimizar o ocorrido e culpar a empresa terceirizada que montou o estande.

Muita gente se machucou feio e minha camisa estava cheia de sangue que não era meu. Mas por sorte não havia ninguém no primeiro piso, embaixo do chão que cedeu, então o acidente logo foi esquecido.

Por quase todos, mas não por mim. Quando o avião da TAM caiu, duas semanas depois, eu andava sobressaltada. Tremia com qualquer barulho forte e até hoje não suporto o ruído que essas divisórias de escritório fazem, quando são chacoalhadas.

A primeira vez que tive medo de avião na minha vida foi numa ponte-aérea pouco depois do acidente da TAM. Contei no relógio os segundos após a decolagem, tentando reproduzir o tempo que os passageiros tiveram antes de a aeronave se espatifar. Imaginei-os percebendo que estavam vivendo uma tragédia.

Pensei no amigo do Zé que morrera, deixando filhos, e em como o destino nos livrara da tragédia. Concluí que morrer de doença, devagar, talvez fosse melhor do que morrer rápido em um acidente, tomada pelo pânico e pela ânsia de sobreviver. Eu tinha me tornado uma pessoa impressionada e impressionável, de uma forma que nunca imaginei ser.

Com o passar dos anos recuperei meu otimismo prevalecente. Mas deixei de ser aquela pessoa despreocupada de antes. Descobri que ia morrer um dia, que a morte pode ser bem idiota e que às vezes acontece em tragédias de grande escala - como tsunamis, atentados terroristas e acidentes aéreos.

Nos resta torcer para estar longe delas e nos solidarizar com quem sofre por seus mortos queridos.

19 de Junho de 2007

Imprensa, volver!

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 16:49

Aparentemente um general da ativa encomendou editoriais raivosos a grandes veículos da imprensa contra a concessão da patente de coronel ao guerrilheiro Carlos Lamarca. Na Veja, o editorial saiu como se fosse matéria e sequer houve preocupação em dar aparência jornalística à versão ditada pelo militar: “Em 1969, o capitão Carlos Lamarca traiu seus companheiros de farda, roubou armas e munição do quartel onde servia, desertou do Exército e, a soldo de uma potência estrangeira, matou inocentes a sangue frio com o objetivo de implantar no Brasil uma ditadura comunista.” Juro que esse é o lead da “matéria”.

Preocupa a facilidade com que os militares conseguem, hoje, recontar na grande imprensa a história do país…

Basta de indignação

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 15:02

As pessoas estão perdendo a capacidade de se indignar. Que bom. O noticiário anda tão negativo que começa a haver um descolamento entre a realidade e o que a gente lê no jornal ou vê na televisão. Um belo dia, você deixa de ler os detalhes sórdidos no jornal (ou pára de ver o Jornal Nacional) e percebe que aquilo não fez falta. Ao contrário, como que por mágica, aquele dia normal que você levou – o trânsito não estava tão ruim, fez um sol bonito, alguém teve um bebê – passa a fazer sentido.

Ok, você vai continuar cruzando com alguém indignado com a corrupção e a violência, no cafezinho ou no elevador. Para não repetir o noticiário que se repete, essa pessoa vai acrescentar uma história pessoal – que aconteceu com a sogra do Fonseca, você se lembra dele, não é? Mas, estranhamente, não dá vontade de continuar aquela conversa. Você demonstra estar razoavelmente por dentro do noticiário, mas não precisa mais se transtornar, se exaltar, estragar o seu dia. Afinal, o dia está bonito e o trânsito nem estava tão ruim assim…

24 de Maio de 2007

Políticos mimados

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 12:42

A palavra é … mimo. Que pena ter parado no noticiário politico-policial, porque é uma palavra fofa. O Aurélio diz que mimo é coisa delicada, fina, que se oferece para alguém. Ou uma delicadeza, gentileza. Na política, parece ser sinônimo para o velho jabá - um assunto sempre difícil para jornalista. Mas vamos lá.

Já devolvi jabás contrangedores. Mas também ficaria constrangida em devolver jabás inocentes. Não peço convites ou favores para assessores de imprensa, mas prefiro não julgar quem faz. Na verdade, pedi sim, uma vez, no início da carreira, e o trauma foi tão grande que passei a fugir da situação. Era um show imperdível, a fila para comprar ingresso dava voltas no quarteirão. Eu falava sempre com o assessor do artista e resolvi pedir os tais ingressos. Tempos depois, ele tentou me “cobrar” o favor. Foi baixaria mesmo. O pior é que esse assessor (na época a gente falava divulgador) agora é figurinha conhecida. Por essa, e para evitar outras, adoro o conforto de pagar tudo com meu dinheirinho, embora muito jornalista considere os jabás uma espécie de salário indireto (pago pelo outro lado…)

Voltando ao noticiário, é engraçado ver os políticos admitirem com naturalidade que recebem presentes de empreiteiras. Imagina, se vão ser comprados por uma gravata! Agora, quando o mimo vem em cash…

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