Jornalismo
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Dicas, atualidades e assuntos para o café
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Publicado por Marta em 07 Ago 2007 | sob: Jornalismo, Comportamento
Estava morrendo de curiosidade. Três meses depois de iniciar este blog, sem entender bulhufas do assunto, descobri que haveria o “Primeiro Encontro de BLS (Blogueiros, Leitores e Simpatizantes)” no meio do meu caminho, no Armazém Digital do Leblon, exatamente no horário em que passo por ali. Ou seja, não tinha motivos para não dar uma passadinha.
Fantasiei que encontraria meia dúzia de esquisitões batendo papo num canto – e fingiria procurar um livro nas prateleiras ao lado. Que nada. Os blogueiros são bem normais e o encontro estava bombando. Pessoas razoavelmente articuladas e interessantes davam suas opiniões ao microfone, que ia passando de mão em mão.
Tirando os “profissionais” que participavam da mesa – os recordistas de audiência da chamada blogosfera -, a maioria confessava, ao se apresentar, que mantinha um blog há poucos meses, ou que já teve um e parou de atualizar, por falta de tempo ou de saco. Huuuummm…
Entre uma exposição e outra, fui descobrindo um pouco daquele universo: o sonho de ganhar dinheiro blogando, os artifícios para conseguir audiência, o deslumbramento e as preocupações com o poder conferido aos blogs, o predomínio de pessoas ligadas à área de tecnologia.
Hoje fui ler nos blogs sobre o encontro, porque tive que sair cedo, e senti falta de uma cobertura mais jornalística sobre o assunto. Puxa, ninguém anotou tudo num caderninho e fez uma matéria, com um lead e alguma objetividade? Quantas pessoas foram ao evento? Sei não, acho que falta jornalista tradicional na tal blogosfera…
A dicotomia entre mídia tradicional e blogs, por sinal, permeava todas as questões debatidas. Parece haver uma rixa antiga, pelo que entendi. Para piorar, nos últimos dias, Folha e Época publicaram entrevistas com um historiador britânico, Andrew Keen, que anda causando alvoroço na internet.
Em seu livro “O culto ao amador”, o escritor faz uma crítica contundente aos blogs e sites interativos (a chamada Web 2.0), que seriam dominados por uma nova e obscura oligarquia, menos transparente que a mídia tradicional e formada por jornalistas fracassados, gente raivosa e com sede de poder. Forte, não?
Meus parcos conhecimentos sobre a Web 2.0 não me permitem ainda chegar a alguma conclusão. Mas um pitaco já posso dar, do alto das minhas duas décadas de jornalismo e três meses de blog: a mídia tradicional tem muito o que aprender com os blogs. E vice-versa.
Publicado por Marta em 27 Jul 2007 | sob: Jornalismo, Comportamento
Estamos na era do excesso da informação. Ela está por todo lado, acessível a um clique. Só não é mais democrática porque às vezes nos falta quem ajude a organizá-la e editá-la.
Isso é o que acontece no mundo real, sem o controle de burocratas ou cartéis. Mas em algumas realidades paralelas - como a dos aeroportos, do telemarketing, dos planos de saúde -, a informação é tratada com a solenidade de antigamente. E nada irrita tanto – porque não estamos mais acostumados, porque sabemos que por trás da estratégia está a tentativa de exercer poder e manipulação.
Para não fluir, a informação hoje precisa ser bloqueada artificialmente, propositadamente. Com a tecnologia, o natural é que ela esteja disponível. O sistema de telemarketing tem todas as condições de informar, no início da ligação, o tempo estimado de espera para o atendimento, assim como as companhias aéreas sabem perfeitamente que os passageiros de determinado vôo atrasado perderão suas conexões.
Mas fingem que não sabem. Depois que percebemos essa intervenção maldosa, de bloqueio da informação, o tempo ganha uma outra rotação. É a tortura dos novos tempos. Ficamos transtornados. Segundos transformam-se em minutos e minutos são percebidos como horas, enquanto somos invadidos por um sentimento crescente de desconfiança e impotência.
É mais ou menos nesse momento que o passageiro voa no pescoço da mocinha do check-in, e a cena é documentada em cadeia nacional.
Uma vez li que mediram o nível de estresse (não me perguntem como) de pessoas que esperavam por um elevador. Um daqueles que não tem a informação – sempre ela – do andar em que se encontra. O tempo médio até que o sujeito esmurrar a porta do elevador era ridículo – não para ele, mas para quem mediu ou leu a pesquisa.
Seguindo o conselho de um amigo, tasquei o meu relógio de pulso no braço da minha filha na última viagem de carro que fizemos. Ela agora sabe ver as horas e o efeito calmante do relógio foi surpreendente. De posse da informação de quantas horas teríamos pela frente, ela conseguiu administrar sua ansiedade e ocupar o seu tempo, sem nos infernizar com os “tá chegando?”.
Tenho certeza de que, informado sobre um atraso de quatro horas em seu vôo, logo que chegasse ao aeroporto, o passageiro ficaria irritado, mas não voaria na jugular de ninguém – como é capaz de fazer na quarta vez que lhe informarem sobre um atraso de mais uma “horinha”.
Todo mundo hoje tem uma história de estresse absurda em aeroporto, e em geral elas são variações sobre o mesmo tema. A mais inusitada que vivi foi dentro de um avião da TAM posicionado para ser o primeiro a decolar no Santos Dumont quando o aeroporto reabrisse.
Parecia “A noite dos desesperados”. A cada hora que passava, limites humanos eram colocados à prova. Restos de lanche e pedaços de jornal eram disputados, baterias de celular chegavam ao fim. Alguns passageiros desistiam, exasperados, depois de desmarcar suas reuniões em São Paulo, e saíam derrotados. Imediatamente entravam outros em seus lugares, gratos por terem uma chance de serem os primeiros na fila de decolagens, embora ninguém soubesse quando isso iria acontecer.
Éramos todos reféns da “grande informação”, a reabertura do aeroporto, a qual somente o piloto teria acesso. Finalmente, com a voz solene e calma daqueles que detém em suas mãos o destino dos outros, ele anunciou a nossa partida. O alívio foi geral. E olha que nós estávamos indo para Congonhas…
Publicado por Marta em 24 Jul 2007 | sob: Cotidiano, Jornalismo
Tenho dó dos coleguinhas de assessoria que se esforçam, usam o bom senso jornalístico, a experiência acumulada em redação e estudam as mais modernas técnicas de gerenciamento de crise, mas têm a dura missão de orientar a comunicação de organizações que padecem de um mal sem cura: a arrogância.
Uma crise como a causada pelo acidente da TAM está prevista nos manuais das empresas e do governo. Estão ali, por exemplo, que as autoridades devem se deslocar imediatamente para o local da tragédia e que a transparência deve pautar cada pronunciamento da companhia aérea.
Mas este passo-a-passo, por mais decorado e treinado, não funciona sem uma dose sincera de humildade e alteridade. Alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro – uma qualidade que se desenvolve na infância e não quando um avião se espatifa no chão.
Quem tem a soberba de se achar melhor que os outros vai seguir o manual como quem se protege de um grande complô montado por invejosos – a mídia que quer atacar o governo, os concorrentes que tentam se aproveitar da situação.
Deu no que deu. No dia em que finalmente o manual foi seguido pelo governo – do pronunciamento do presidente em cadeia nacional a um pacote de medidas efetivas –, escapou uma condecoração (!) ao presidente da Anac por bons serviços prestados ao setor. A postura da TAM é sempre tão arrogante que nem as lágrimas do presidente em uma missa pareciam sinceras.
Quem vê tudo de fora, com os olhos no drama humano que efetivamente se desenrola, mal pode acreditar em tanta incompetência, tanta trapalhada. Quem está dentro, imagino, tenta aprender com os erros, para aperfeiçoar o próximo manual de gerenciamento de crise…
Publicado por Marta em 18 Jul 2007 | sob: Jornalismo, Comportamento
Nunca fui medrosa ou impressionada, e achava que acidente era algo terrível que só acontecia aos outros. Tudo isso mudou na época do acidente da TAM de 1996, muito semelhante ao que ocorreu ontem em São Paulo.
Por pouco o Zé não embarcou naquela ponte-aérea, acompanhando o colega de Ambev que acabou sendo uma das 99 vítimas. Como acontece em sucursal nessas ocasiões, todos os repórteres do Globo trabalharam intensamente na cobertura, inclusive eu. Mas acho que fui poupada, porque tinha passado maus bocados exatamente duas semanas antes, no Salão do Automóvel.
Era uma coletiva de imprensa, dessas que as empresas marcam durante as feiras de negócios para vender seu peixe. Os jornalistas estavam sentados, distribuídos em mesas espalhadas pelo estande da Volkswagen, esperando o início da coletiva, quando o chão faltou. Literalmente. Na hora em que escrevo isso fico toda arrepiada, porque me lembro exatamente da sensação.
O chão caía, tudo em volta despencava junto, inclusive as mesas com tampos de vidro, e não havia onde segurar. Nada fazia sentido. A luz se apagou junto com o estrondo, as pessoas gritavam e eu só conseguia sentir que estava vivendo uma tragédia. Daquelas que aconteciam com os outros.
Quando os destroços pareciam ter se acomodado, um coro de “calma!”, liderado por vozes masculinas, tomou conta do ambiente, iluminado por faíscas. Alguém me ajudou a tirar uma câmera de TV de cima do meu pescoço e eu só conseguia pensar em achar a minha bolsa. Por que cargas d’água alguém que achava que ia morrer procura uma bolsa?
A calma extrema das pessoas que evitaram uma situação de pânico, a minha preocupação com a bolsa e com o celular (um tijolão emprestado da agência) e o fato de ninguém ter morrido naquele acidente são partes dessa história que até hoje não entendo direito.
Como sempre acontece depois dos acidentes, fomos tomados pelo sentimento de revolta e pela busca de culpados. Estava cheia de hematomas, mas fiquei ali, passando flashes indignados, enquanto o Miguel Jorge - atual ministro do Desenvolvimento e então diretor da Volks - tentava minimizar o ocorrido e culpar a empresa terceirizada que montou o estande.
Muita gente se machucou feio e minha camisa estava cheia de sangue que não era meu. Mas por sorte não havia ninguém no primeiro piso, embaixo do chão que cedeu, então o acidente logo foi esquecido.
Por quase todos, mas não por mim. Quando o avião da TAM caiu, duas semanas depois, eu andava sobressaltada. Tremia com qualquer barulho forte e até hoje não suporto o ruído que essas divisórias de escritório fazem, quando são chacoalhadas.
A primeira vez que tive medo de avião na minha vida foi numa ponte-aérea pouco depois do acidente da TAM. Contei no relógio os segundos após a decolagem, tentando reproduzir o tempo que os passageiros tiveram antes de a aeronave se espatifar. Imaginei-os percebendo que estavam vivendo uma tragédia.
Pensei no amigo do Zé que morrera, deixando filhos, e em como o destino nos livrara da tragédia. Concluí que morrer de doença, devagar, talvez fosse melhor do que morrer rápido em um acidente, tomada pelo pânico e pela ânsia de sobreviver. Eu tinha me tornado uma pessoa impressionada e impressionável, de uma forma que nunca imaginei ser.
Com o passar dos anos recuperei meu otimismo prevalecente. Mas deixei de ser aquela pessoa despreocupada de antes. Descobri que ia morrer um dia, que a morte pode ser bem idiota e que às vezes acontece em tragédias de grande escala - como tsunamis, atentados terroristas e acidentes aéreos.
Nos resta torcer para estar longe delas e nos solidarizar com quem sofre por seus mortos queridos.
Publicado por Marta em 19 Jun 2007 | sob: Jornalismo
Aparentemente um general da ativa encomendou editoriais raivosos a grandes veículos da imprensa contra a concessão da patente de coronel ao guerrilheiro Carlos Lamarca. Na Veja, o editorial saiu como se fosse matéria e sequer houve preocupação em dar aparência jornalística à versão ditada pelo militar: “Em 1969, o capitão Carlos Lamarca traiu seus companheiros de farda, roubou armas e munição do quartel onde servia, desertou do Exército e, a soldo de uma potência estrangeira, matou inocentes a sangue frio com o objetivo de implantar no Brasil uma ditadura comunista.” Juro que esse é o lead da “matéria”.
Preocupa a facilidade com que os militares conseguem, hoje, recontar na grande imprensa a história do país…
Publicado por Marta em 19 Jun 2007 | sob: Jornalismo
As pessoas estão perdendo a capacidade de se indignar. Que bom. O noticiário anda tão negativo que começa a haver um descolamento entre a realidade e o que a gente lê no jornal ou vê na televisão. Um belo dia, você deixa de ler os detalhes sórdidos no jornal (ou pára de ver o Jornal Nacional) e percebe que aquilo não fez falta. Ao contrário, como que por mágica, aquele dia normal que você levou – o trânsito não estava tão ruim, fez um sol bonito, alguém teve um bebê – passa a fazer sentido.
Ok, você vai continuar cruzando com alguém indignado com a corrupção e a violência, no cafezinho ou no elevador. Para não repetir o noticiário que se repete, essa pessoa vai acrescentar uma história pessoal – que aconteceu com a sogra do Fonseca, você se lembra dele, não é? Mas, estranhamente, não dá vontade de continuar aquela conversa. Você demonstra estar razoavelmente por dentro do noticiário, mas não precisa mais se transtornar, se exaltar, estragar o seu dia. Afinal, o dia está bonito e o trânsito nem estava tão ruim assim…
Publicado por Marta em 24 Mai 2007 | sob: Jornalismo
A palavra é … mimo. Que pena ter parado no noticiário politico-policial, porque é uma palavra fofa. O Aurélio diz que mimo é coisa delicada, fina, que se oferece para alguém. Ou uma delicadeza, gentileza. Na política, parece ser sinônimo para o velho jabá - um assunto sempre difícil para jornalista. Mas vamos lá.
Já devolvi jabás contrangedores. Mas também ficaria constrangida em devolver jabás inocentes. Não peço convites ou favores para assessores de imprensa, mas prefiro não julgar quem faz. Na verdade, pedi sim, uma vez, no início da carreira, e o trauma foi tão grande que passei a fugir da situação. Era um show imperdível, a fila para comprar ingresso dava voltas no quarteirão. Eu falava sempre com o assessor do artista e resolvi pedir os tais ingressos. Tempos depois, ele tentou me “cobrar” o favor. Foi baixaria mesmo. O pior é que esse assessor (na época a gente falava divulgador) agora é figurinha conhecida. Por essa, e para evitar outras, adoro o conforto de pagar tudo com meu dinheirinho, embora muito jornalista considere os jabás uma espécie de salário indireto (pago pelo outro lado…)
Voltando ao noticiário, é engraçado ver os políticos admitirem com naturalidade que recebem presentes de empreiteiras. Imagina, se vão ser comprados por uma gravata! Agora, quando o mimo vem em cash…