12 de Fevereiro de 2010

Cuide de você

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 14:52

“Prezada Marta,

A idéia da matéria me parece bastante oportuna e as suas perguntas muito bem formuladas. Respondê-las com a seriedade que merecem, contudo, exigiria um tempo de que não disponho no momento e ocuparia um espaço que (o veículo) não pode ceder. Assim, lamento não atendê-la nesta oportunidade, mas desejando sucesso em sua tarefa.”

Já tinha ouvido muitos nãos na minha vida de jornalista, mas confesso que fiquei entretida com a retórica deste. Deve ser porque ando zen, culpa do relaxante muscular. Mesmo assim, tentei lembrar: quando foi que começaram a nos pedir perguntas por e-mail? O que fazer quando, depois de nos curvarmos à exigência, nosso trabalho é desprezado com elogios?

Pensando bem, não parece a carta do namorado da Sophie Calle, que acabou virando arte? Ou as respostas de editoras aos originais de um escritor, que acabaram virando livro? Agora só falta compilar as rejeições sofridas por jornalistas…

29 de Setembro de 2009

E o Juruna tinha razão…

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 19:49

Nos meus tempos de jornal diário, confesso que eu tinha um certo desprezo por repórter dependente de gravador. Diante de entrevistados surpresos com a minha destreza em anotar sem olhar o bloquinho, e desconfiados do resultado daquilo, eu explicava: “Tenho uma memória ótima, mal preciso consultar as anotações.” Na verdade eu confiava mesmo era na minha capacidade de já ir editando mentalmente a matéria, que seria redigida pouco tempo depois.

O resultado costumava ser bom, mais interessante do que quando as matérias tinham foco nas declarações, e por isso dependiam do gravador - como é o caso de entrevistas com “autoridades”. É difícil ir muito além, quando se perde tempo interpretando cada vírgula de uma gravação… Transcrever entrevistas é chato e demorado: os profissionais disso (eles existem) estimam em cinco horas o tempo para “tirar” uma hora de áudio de boa qualidade. Mas a minha implicância com o gravador, provavelmente, também estava relacionada ao meu cansaço em relação às “hard news”, o que é outra história.

Voltando ao gravador, a novidade agora é que aprendi a respeitá-lo, depois destes últimos anos fazendo entrevistas mais aprofundadas, tanto para os livros como para os perfis que escrevo para a revista Capital Aberto. Quando há tempo (como é bom haver tempo), é possível descobrir coisas incríveis numa entrevista que, de forma apressada, passariam completamente despercebidas.

Por exemplo: é comum, na hora em que está finalizando um longo raciocínio (provavelmente repetido à exaustão para outros interlocutores), o entrevistado concluir com uma frase que “entrega” tudo o que ele não falou. A “alma” daquela história, o que ele gostaria de dizer e não disse, está tudo ali, já quase sumindo do gravador, porque o tom de voz foi se reduzindo e alguma parte menos consciente do cérebro dele precisou colocar um ponto final naquilo. Aliás, nesta hora, aprendi, é importante não interromper nem “ajudar” a completar a frase. Quanto menos audível aquele finalzinho, mais interessante pode ser.

Outra coisa bárbara é que, de tanto ouvir a sua própria performance de entrevistadora, você vai se aprimorando. Hoje percebo o quanto eu “me achava”, só porque conseguia um ou outro furo deixando o entrevistado à vontade. Na verdade eu tinha dificuldade de ouvir algo que fosse realmente novo; conduzia as perguntas para o que eu já sabia, os assuntos que dominava. Mais uma vez, a técnica a serviço da pressa…

Mas o melhor de fazer a transcrição de uma entrevista é se dar ao luxo de usar bem pouco dela. Pinçar só o que interessa. O que é verdadeiro, o que fez sentido para você e fará a diferença para os que vão lê-lo.

Dito isso, ressalto que continuo achando muito chata (de escrever e de ler) a maioria dos pingue-pongues “ipsis-litteris”, em geral feitos com “autoridades” que costumam valer o esforço da transcrição de entrevistas inteiras. Uma boa edição, pelo menos, é fundamental.

Fazer transcrição é mesmo enjoado, e para isto não arrumei solução. Raramente terceirizar a tarefa vale a pena: dependendo do assunto, e de quem fez o trabalho, as chances de você precisar ouvir a gravação para tirar dúvidas são grandes. Sem falar no risco de ficar sem o tal finzinho da frase, ao qual só dão atenção os psicanalistas (e os jornalistas mais atentos).

30 de Julho de 2009

Colega

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 16:24

coleguinha001 1 2 - coleguinha001 1 2

Como já não conheço metade das celebridades das revistas, não me perguntem de quem se trata. Só sei que a pérola acima, da “Veja”, está passando de e-mail em e-mail entre coleguinhas.

O melhor comentário que li a respeito foi: quem sabe ela desiste quando souber que o diploma não é mais obrigatório?

18 de Junho de 2009

Sem canudo

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 17:06

Assim, de supetão, fui invadida por dois sentimentos quando soube do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo.

1) Medinho (em relação à imagem da profissão). Será que vão começar a pipocar por aí peruas se intitulando “atriz, modelo e jornalista”? Céus!

2) Alívio. O fantasma do corporativismo pesava demais sobre a profissão. Agora bastará mostrar quem é bom, e constatar se a faculdade é importante (ou não).

***

Para os jovens que “investiram” no diploma e estão chateados (podiam ter feito faculdade de economia, por exemplo, se tinham foco em jornalismo econômico), vou contar uma historinha. Tenho uma amiga que precisa editar, todo mês, reportagens especializadas, escritas por jovens jornalistas que ainda estão se familiarizando com aquele assunto. Ao mesmo tempo, ela também recebe, para a edição, colunas e artigos escritos por profissionais especializados, que não são jornalistas.

Um dia perguntei a ela o que era mais fácil: ensinar jornalistas a escrever sobre um assunto difícil ou ensinar os articulistas especializados a elaborar um texto mais claro e palatável. Ela não hesitou. Era muito mais fácil editar o texto de um jornalista. Sempre. Moral da história: só se torna jornalista de fato quem tem o dom (ou a técnica) de se comunicar.

15 de Junho de 2009

O último filme sobre o velho e bom jornalismo

Arquivado sob: Diversão e arte, Jornalismo — Marta @ 16:47

intrigas - intrigas

Ele é um veterano jornalista cabeludo, sujo e solitário. Ela é uma jovem blogueira bonita, mal paga e inexperiente. Ambos trabalham para a mesma organização, nas versões papel e online, em tempos de transformações e crise no jornalismo americano. Acabam obrigados a compartilhar a investigação de um crime.

Esse é o ponto de partida de “Intrigas de Estado”, um filme com ares de derradeiro no gênero que abrigou clássicos como “Todos os homens do presidente” e “O jornal”. Parece também uma melancólica homenagem ao bom jornalismo, cuja morte iminente é motivo de ironias destiladas por personagens propositadamente carregados dos estereótipos da profissão.

O mocinho da história é encarnado pelo ator Russell Crowe, que despreza a blogueira e o futuro que ela representa. “Ela é barata e faz uma matéria por hora”, “defende” a diretora da redação, vivida pela ótima Helen Mirren. O velho repórter acaba se rendendo à parceria, depois de deixar claro que estarão atrás de fatos - e não de fofoca ou opinião. Quando os conflitos entre a dupla se dissipam, surgem os verdadeiros vilões: o poder econômico e os interesses políticos, que desdenham da imprensa enfraquecida.

Achei simbólica a estreia desse filme na semana em que a imprensa brasileira precisou se unir para conter os métodos de um blog criado pela maior empresa do país. A Petrobras obteve o apoio maciço da blogosfera, que viu na estatal uma aliada contra o poder dos impressos. Menciono esse apoio de forma intuitiva: como tudo que acontece na rede, a onda de manifestações não se tornou institucional, nem gerou um debate mais aprofundado. O blog corporativo foi identificado como o “David” (Petrobras) contra “Golias” (os jornais), o que gerou simpatia, refletida em posts e comentários com simplificações do conflito que se replicaram pela web.

No final da semana, a imprensa posou de vitoriosa, porque a Petrobras voltou atrás na sua intenção de usar o blog para “furar” os jornais – algo tão estapafúrdio que o desfecho não poderia ser outro. No entanto, o fato de o enfrentamento ter acontecido, e de os jornais precisarem expor argumentos em suas páginas, transformando-se em notícia (algo que a mídia abomina), acabou revelando o processo de enfraquecimento do “quarto poder” também no Brasil.

Ou seja, qualquer semelhança com “Intrigas de Estado” não é mera coincidência.

8 de Junho de 2009

O “outro lado”? Só no dia seguinte

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 18:47

Os blogueiros escolheram o lado errado. Afoitos que andam em criticar a imprensa, e sem muito conhecimento de como se faz jornalismo investigativo, resolveram apoiar a Petrobras, que oficializou uma nova conduta no seu relacionamento com jornalistas: vai responder em um blog corporativo qualquer solicitação da imprensa, antes que a reportagem seja veiculada.

É muita ingenuidade acreditar que isso está relacionado apenas a uma busca de transparência por parte da estatal, alvo de uma CPI no Congresso. Parece ser esse o caso dos blogueiros que correram para defender a estatal, se posicionando contra os jornalistas das redações, que estão indignados.

Quando uma reportagem é exclusiva, fruto de uma investigação, o espaço destinado a ela é muito maior. É o velho e bom furo, daqueles que escreveram a história de muitas democracias. Se a notícia for bombástica, os outros veículos são obrigados a “ir atrás”, como se diz no jargão das redações. Tudo que empresas e governos não querem quando a matéria afeta a sua imagem.

Durante uma investigação, um jornalista (ou blogueiro!) precisa manter em sigilo a sua apuração, até porque ela ainda não foi concluída. Não é de hoje que organizações e pessoas atingidas por denúncias verdadeiras usam artifícios como o “vazamento” para tentar esvaziar o “furo” antes de sua veiculação, e diminuir a sua repercussão.

A novidade é a oficialização dessa estratégia - que, se for mantida, vai azedar uma relação muito mais delicada do que a de jornalistas e blogueiros, que é a entre jornalistas e assessores de imprensa.

Se a moda pega, teremos o fim dos “furos” (e das investigações). Ou, o que é mais provável, uma briga feia. Jornalistas passarão a não ouvir mais o “outro lado”, para garantir que as assessorias não divulguem sua pauta para veículos concorrentes. O direito de resposta será oficializado como uma “suite”, para prejuízo do leitor e da qualidade da reportagem.

Como isso ficará juridicamente? Boa pergunta, já que vivemos hoje um vazio jurídico sobre o assunto. E o que isso tudo tem a ver com a briga entre blogueiros e jornalistas? Rigorosamente nada.

1 de Junho de 2009

Junho com jeito de agosto

Arquivado sob: Cotidiano, Jornalismo — Marta @ 19:36

O dia começou sinistro. Logo cedo, uma chuva forte caiu sobre o Rio, apagando qualquer vestígio da incensada luminosidade de maio. Nas bancas, nada de Gazeta Mercantil: o fim do jornal se confirmava. Nos Estados Unidos, outra GM, a dos carros, oficializava a sua derrocada, com pedido de concordata.

Se faltava alguma notícia para provar que junho chegou com ares de agosto, ela apareceu de forma contundente, para nos lembrar da única coisa realmente irreversível na vida. Um avião jazia no mar, com 228 pessoas que haviam embarcado no Rio.

A ideia de que duzentas famílias, naquele instante, experimentavam a pior das sensações humanas fez o dia cinza e sinistro parecer adequado. Não gosto especialmente de pensar na morte, tampouco de fugir desse pensamento, mas em um dia como hoje nos sentimos unidos no luto, por mais que isso pareça um clichê.

De tempos em tempos, por conta de uma tragédia próxima, ou nem tão próxima assim, somos arrastados para uma reflexão sobre a morte. Isso acontece comigo desde o dia em que descobri que não era imortal, 13 anos atrás. Passei a temer os acidentes e a morte, ou pelo menos ter consciência desse temor.

Os próximos dias serão difíceis. Ficaremos obcecados pelo noticiário, vamos tentar pensar em outra coisa, buscaremos os culpados. A vida logo vai nos arrastar para longe dessa reflexão/aceitação, e respiraremos aliviados. Os que perderam parentes, amigos e amores sofrerão mais e por mais tempo.

A estes, não há o que dizer. Sempre achei que a única expressão de condolência, com algum efeito, é abraço apertado. Mas outro dia vi uma expressão de pêsames on line que pode chegar perto. Um amigo teclou ao outro: putz, que merda. Então, na falta de outra, fiquemos com essa. Putz, que merda.

***

Trabalhei na Gazeta Mercantil apenas quatro anos, bem menos do que no Globo, por exemplo, onde foram nove. Mas muita gente me identifica como “gazeteana”. De fato, vivi ali os meus melhores anos de jornalismo, em vários sentidos. A “morte” da Gazeta mexeu muito comigo, mas tudo que eu pudesse falar sobre ela está neste texto perfeito do jornalista Thales Guaracy.

9 de Março de 2009

Explorando crianças

Arquivado sob: Diversão e arte, Jornalismo — Marta @ 20:47

A publicidade há tempos percebeu que colocar um bebê fofo em comercial de inseticida aumenta as vendas do produto. Em outro exemplo extremo, o mendigo da esquina vê as esmolas engordarem quando pede emprestada uma criancinha para embalar na calçada. Acostumamos-nos a este tipo de exploração, algumas mais nocivas do que outras, e deixamos pra lá.

Mas acho que existe um limite aceitável para este tipo de exploração na mídia. Cheguei a pensar que tinha um problema particular - a maternidade havia me tornado sensível demais ao assunto -, mas depois percebi que isso apenas me ajuda a identificar um tipo de apelação baixa e intencional, cada vez mais comum, que abala o nosso senso crítico em relação aos interesses em jogo.

Refiro-me aqui a dois episódios - um deles infinitamente menor, por ser ficcional.

No exemplo menor, estão filmes que ultrapassam o limite do bom gosto ao explorar nossos sentimentos em relação a crianças. Quando fui assistir “Quem quer ser um milionário”, já sabia das supostas influências de “Cidade de deus”, e da discussão sobre a tal estética da miséria. Antes fosse só isso. Na verdade, lá está o mesmo truque de mostrar criancinhas inocentes sendo vítimas de uma violência brutal, tudo bem maniqueísta (homens maus como picapaus aleijando criancinhas puras e ingênuas) e com ar documental, como se não houvesse outra forma de contar aquela história sem dar o devido soco no estômago do espectador.

Os dois filmes (ainda assim) são espetaculares e não precisavam das tais cenas para sensibilizar a plateia.

O segundo caso é mais delicado: o da menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto, grávida de gêmeos e acusada de homicídio pela igreja católica depois do aborto. Miséria humana total, daquelas que embrulham o estômago. A imprensa não especializada em “mundo cão” cumpria seu papel de informar, denunciar, colocar o debate em pauta. Mas aí começaram as apelações: o arcebispo que quer aparecer, e consegue, a necessidade de suitar a qualquer preço, as imagens do corpinho da menina, os especialistas-urubus palpitando.

Apelar para a nossa indignação diante da violência com crianças sempre dá audiência. Mas e o limite, do bom senso e do bom gosto? Será que só eu fico pensando na criança, que precisa ficar em paz, e não na televisão?

Nem dá para acusar só a mídia brasileira de extrapolar. A família do menino Sean parece que resistiu o quanto pôde a expô-lo. Mas a exploração da sua imagem, nos Estados Unidos, levou a um contra-ataque. Sem a tentação de cair no nacionalismo que envolve disputas internacionais (vide o caso da brasileira na Suíça), está claro o pouco interesse do pai no bem-estar do menino. Tomara que apareça um rei Salomão para julgar o caso.

22 de Setembro de 2008

E o peixe, como será embrulhado?

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 18:15

Globo e Estadão estão se esforçando, como mostram suas novas campanhas publicitárias. A idéia é levar levar o prestígio e a credibilidade de suas marcas para a internet, antes que seja tarde. Quanto ao papel… Bem, como vou dizer isso?

É tão difícil para mim. Trabalhei exatos 16 anos em jornal diário, fazendo piada sobre embulhar peixe, mas achando aquilo o máximo. Não consigo me imaginar, até o fim dos meus dias, sem tomar o café da manhã lendo jornal. Sujando a mão de tinta preta, fazendo contorcionismo para não besuntar o jornal de manteiga.

Mesmo assim, tenho que reconhecer: ler jornal já é coisa de velho. Pronto, falei.

11 de Agosto de 2008

Sozinho no pódio?

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 15:28

Adoramos rankings. Já existem até rankings de rankings, tão grande é o nosso fascínio por este tipo de hierarquização. Por isso não me conformo quando leio que alguém já é o terceiro lugar em alguma coisa, e ponto final. Ultrapassou quem? Quais são o primeiro e o segundo colocados? Neca de pitibiriba de informação, porque afinal não era esse o tema principal da matéria.

Juro que tento não usar este espaço para fazer uma crítica da imprensa, porque já tem gente boa fazendo isso por aí. Mas, nesse caso, me senti perseguida, quase punida, por ser mais curiosa que os repórteres de plantão.

Está no Globo de hoje: “Veja como o capitalismo por aqui cresceu e se multiplicou. O Brasil é hoje o terceiro país do mundo com maior número de empresas de capital aberto nas Bolsas de Nova York e da Europa.” E no de ontem: “O país já é o terceiro maior consumidor mundial de produtos para alisamento de cabelo.”

Ok, dá para imaginar que os Estados Unidos lideram os dois rankings. Digamos que a informação foi omitida para não subestimar os conhecimentos do leitor. Mas os segundos colocados não são tão óbvios assim. Além disso, nestes tempos de olimpíadas, não dá uma vontadezinha de conhecer o quarto lugar, para saber quem ficou para trás e gritar “Brasil-il-il”?

Pior é que não achei as respostas no Google, para dar o fecho certo para este post. Também, quem manda ter interesse pelo mercado de capitais e pela indústria de cosméticos ao mesmo tempo?

7 de Maio de 2008

Na contramão

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 19:34

Imaginem que finalmente, nós, do planeta Terra, descobrimos uma civilização mais avançada, em outro planeta. Acreditamos que estes seres terão as respostas para nossos dilemas e nos mostrarão o caminho da evolução da humanidade. Mas eis que, quando aprofundamos o contato, descobrimos que o sonho deles é ser como nós, terráqueos! Que decepção, não?

Pois foi assim que me senti quando soube da secreta aspiração dos blogueiros – pelo menos de um punhado organizado em torno da tal blogosfera – de transformar seus posts em reportagens e editá-los … numa revista! De papel! Para isso, eles estão tentando aprender as mais elementares regras do jornalismo: o que é uma matéria, como apurá-la, como editar uma revista, como tentar ganhar dinheiro com ela…

Depois de ver o primeiro resultado, a revista Feed-se, e a orientação para quem quer participar da segunda revista, que se chamará Vox Blog, não posso evitar um conselho aos novos coleguinhas: estudem jornalismo. Juro que não se trata de corporativismo. Não acho necessário um diploma (de papel), mas se a idéia é fazer jornalismo tradicional (em papel), responsável, com um mínimo de qualidade, vamos reconhecer que há muito o que estudar, aprender, praticar.

Afinal, estamos falando agora de uma tecnologia do passado, e já existe todo um conhecimento em torno dela. Os blogueiros, acostumados com os experimentalismos e a agilidade da internet, não percebem o risco do vexame. Pessoal, depois que vai para o papel, não tem como deletar, interagir, consertar! Os erros de português ficam lá, para sempre! Se ninguém entende de pauta ou edição, pelo menos arrumem um bom revisor…

Bem, vou parar por aqui, antes que alguém se sinta ofendido. Espero me recuperar do baque e voltar a achar que tenho muito a aprender com os blogueiros – e não eles comigo.

7 de Abril de 2008

Chovendo no molhado

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 19:45

Entendo que, para quem cobre ou acompanha de perto a política nacional, supostos dossiês e vazamentos de informações tenham lá a sua importância. Quem é PT ou PSDB de carteirinha (?) deve mesmo vibrar com o palpitante noticiário.

Mas é curioso que a imprensa destine tanto espaço para esse tipo de escândalo político – sobre as próprias práticas políticas –, enquanto a opinião pública se distancia cada vez mais do noticiário (vide os índices de popularidade do presidente).

Uma coisa é revelar que um político está gastando dinheiro público para benefício pessoal. É algo que gera – ou deveria gerar – indignação. Outra é dar destaque ao intrincado jogo de vazamentos de informações que envolvem interesses do governo, dos congressistas e da própria imprensa (hummmmm…).

Para o povão, escândalo sobre a forma como os políticos fazem política deve parecer, no mínimo, redundância.

4 de Janeiro de 2008

A inteligência em 2008

Arquivado sob: Jornalismo, Comportamento — Marta @ 17:05

“A influência da telefonia nas artes plásticas”. Quando bati os olhos no tema da palestra, cheguei a achar que era piada, ou erro do jornal.

Depois fui percebendo que, no contexto do evento, sobre arte e tecnologia, aquilo podia fazer sentido. Havia, ainda, um case sobre estudantes da Baixada que tiraram fotos com celulares: aquilo foi para a internet e virou arte.

Ah, bom.

Há pouco tempo, li uma entrevista com um pesquisador que formulou uma nova concepção sobre a inteligência. Não, não se tratava daquela história de QE (quociente emocional) nem da separação por competência (inteligência musical, lingüística, matemática, interpessoal etc). Pelo visto, essas caíram por terra, junto com a margarina, quando a manteiga foi reabilitada.

A inteligência, especialmente no futuro, estará relacionada à capacidade de associar idéias – retiradas de diferentes contextos, e não necessariamente originais. Seria algo como “nada se cria, tudo se associa”.

Confesso que me identifiquei um pouco – não por me julgar excepcionalmente inteligente, mas porque percebi ali a essência da prática jornalística. Somos treinados, no dia-a-dia, para selecionar as idéias alheias mais interessantes e relacioná-las numa matéria – às vezes forçando a barra um pouquinho, como no caso da telefonia e das artes plásticas…

Nessas horas, fico pensando que o jornalismo deveria ser a profissão do futuro. É verdade que os veículos de comunicação estão se esfacelando no mundo todo, ninguém sabe o que ficará no lugar (os blogs?) e o mercado de trabalho nunca esteve tão ruim.

Em tese, porém, o bom senso e a expressão jornalística teriam tudo para se espalhar pelo mundo e pelas outras profissões (que o digam as empresas interessadas em contratar essa mão de obra para a área de comunicação corporativa, que está bombando).

O fato é que o antigo conceito de inteligência ainda está por aí, rondando a vida escolar dos pobres dos nossos filhos. Isso apesar de ter sido desmistificado nas primeiras reportagens (sempre elas) que mostraram os geninhos do vestibular, algumas décadas depois de terem sido manchete de jornal.

Há duas semanas, tive uma experiência semelhante: festa dos 25 anos dos formandos do Colégio Santo Inácio. Conversando com os antigos colegas, foi fácil perceber que os décimos de nota tão importantes na época do colégio em nada influenciaram as vidas profissionais e pessoais que se seguiram.

Já a rede de relacionamentos e o suporte financeiro das famílias… Bem, mas essa é outra história. Tem a ver com o outro “QI”, tão antigo quanto o da inteligência, e que ainda desafia os tempos modernos…

28 de Dezembro de 2007

Toda unanimidade…

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 15:30

Uma vez cismei de fazer uma matéria desmascarando o McDia Feliz. Para mim estava claro que aquilo era uma caridade interesseira, em causa própria.

Quer dizer, crianças doentes de fato eram ajudadas com o dinheiro do evento, mas o McDonald’s parecia ser quem mais lucrava: além da mídia espontânea e dos ganhos de imagem, aumentava seu faturamento com refrigerantes e outros lanches, na medida em que apenas o dinheiro dos Big Macs ia para projetos sociais.

Pauta na cabeça, fui provar a minha tese. Logo na primeira fonte - um executivo com perfil crítico e independente, que falava em off - percebi que teria dificuldades com a matéria. Ele já tinha um discurso pronto sobre o quanto a iniciativa da rede de fast food era louvável, e se surpreendeu quando comecei a especular sobre números e lucros.

Com a assessoria da empresa, não foi diferente. Eles pareciam não acreditar quando perguntei sobre o percentual de aumento na venda de refrigerantes. Não, esse não era o número que interessava aos jornalistas! Os dados disponíveis eram os de Big Macs vendidos, dinheiro arrecadado, crianças beneficiadas!

Não consegui qualquer número e nem mesmo uma fonte que se dispusesse a derrubar a minha pauta, me explicar o meu equívoco em relação ao assunto. Fiquei confusa. O meu raciocínio era bem claro: ninguém come um Big Mac a seco e as lanchonetes ficavam lotadas naquele dia, então recordes de refrigerantes também deviam ser batidos. Por que tanto estranhamento?

Simples: eu estava entrando no terreno do politicamente correto. Era como se eu fosse contra as criancinhas com câncer.

Desisti da matéria e me lembrei dessa história outro dia, quando ousei, em uma roda, pisar em outro terreno igualmente dogmático nos tempos atuais, o do ecologicamente correto.

Faça o teste: tente argumentar publicamente que há exageros e interesses por trás das defesas do ecologicamente correto, e prontamente olhares o acusarão de querer degradar o meio ambiente e acabar com a camada de ozônio.

Não sei como estão se virando os repórteres na área ambiental, ou o quanto conseguem se manter críticos e lúcidos. Mas o fato é que os indícios de que tem alguma coisa muito errada estão por todos os lados.

Leio numa revista sobre o esforço de Xuxa para tomar banhos mais curtos. Sim, a apresentadora abraçou a causa ecológica e está empenhadíssima em preservar a água do planeta.

Na sala de espera do aeroporto, encontro em outra revista dicas de como as pessoas podem minimizar o impacto ambiental dos aviões, que seria imenso. Entre os conselhos, estão desde “evite viajar” até a sugestão de não dar descarga no banheiro do avião, já que cada uma delas gasta um litro de combustível!

Quer dizer, Xuxa virou exemplo, alguém acha razoável não dar descarga em banheiro de avião e eu é que sou a politicamente incorreta??? Sei não, mas acho que está todo mundo ficando maluco…

6 de Dezembro de 2007

Blog no POP

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 15:48

Se não teve foto na web, então não teve festa. A frase é de uma adolescente e foi citada por Juliana Jabor, antropóloga que deu um curso sobre “blogs e narrativas de si” no POP (Pólo de Pensamento Contemporâneo, um lugar bem mais simpático do que a Casa do Saber).

Professora e alunos compartilharam naquele espaço, meio perplexos, a confusão que existe hoje entre mundo real e virtual. Já proliferam livros e teses sobre blogs e os impactos das novas tecnologias - e dá vontade de devorar todos.

Mesmo sem tê-los lido (ainda), euzinha, que só assisti duas aulas, sinto que minhas impressões precisam ficar registradas aqui, para não se perderem (ou seria para existirem?).

Então vamos lá. Acho que a necessidade de registrar e exibir para os outros a própria felicidade sempre existiu. Com a internet e sua mobilidade, isso ficou tão ágil que a validação deste “real”, por meio de registros, se tornou obrigatória.

As experiências e os conhecimentos PRECISAM ser compartilhados para terem sentido.

É bacana que seja assim. Não é fácil para mim, que sempre prezei a discrição, reconhecer que instantâneos da vida podem ser editados e exibidos por aí. Mas a verdade é que este é um processo transformador da realidade, está mudando hábitos e pessoas, e por isso é muuuuuito interessante.

Seria fácil criticar aqui o exibicionismo dos adolescentes, dizer que não tenho paciência para reality shows e ignorar que estamos diante de um fenômeno definitivamente novo – que só por isso vale a pena aceitar sem preconceitos.

Em relação ao meu blog, o curso me deixou embatucada. Seria o Espuminha “endo” ou “ex” orientado? Sim, porque aprendi que, a grosso modo, os blogs são identificados como confessionais ou voltados para fora, como os especializados.

Ao mesmo tempo, surpreendi-me com as comparações entre blogs e diários. Quem costuma escrever sabe que sempre pensamos em quem vai ler. Às vezes nos flagramos querendo agradar, ou passar uma imagem nossa, para alguém em especial – e isso é um problema no jornalismo, quando o repórter pensa na fonte ou no editor, em vez do leitor.

Mas quer dizer que as pessoas não fazem mais diários íntimos e realmente secretos, imaginando que só serão lidos depois de sua morte? Que pena. É uma experiência muito rica. E completamente diferente de escrever um blog, posso assegurar do alto de uma pilha de caderninhos bem escondidos no armário. Ih, acho que estou confessional hoje…

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