Nos meus tempos de jornal diário, confesso que eu tinha um certo desprezo por repórter dependente de gravador. Diante de entrevistados surpresos com a minha destreza em anotar sem olhar o bloquinho, e desconfiados do resultado daquilo, eu explicava: “Tenho uma memória ótima, mal preciso consultar as anotações.” Na verdade eu confiava mesmo era na minha capacidade de já ir editando mentalmente a matéria, que seria redigida pouco tempo depois.
O resultado costumava ser bom, mais interessante do que quando as matérias tinham foco nas declarações, e por isso dependiam do gravador - como é o caso de entrevistas com “autoridades”. É difícil ir muito além, quando se perde tempo interpretando cada vírgula de uma gravação… Transcrever entrevistas é chato e demorado: os profissionais disso (eles existem) estimam em cinco horas o tempo para “tirar” uma hora de áudio de boa qualidade. Mas a minha implicância com o gravador, provavelmente, também estava relacionada ao meu cansaço em relação às “hard news”, o que é outra história.
Voltando ao gravador, a novidade agora é que aprendi a respeitá-lo, depois destes últimos anos fazendo entrevistas mais aprofundadas, tanto para os livros como para os perfis que escrevo para a revista Capital Aberto. Quando há tempo (como é bom haver tempo), é possível descobrir coisas incríveis numa entrevista que, de forma apressada, passariam completamente despercebidas.
Por exemplo: é comum, na hora em que está finalizando um longo raciocínio (provavelmente repetido à exaustão para outros interlocutores), o entrevistado concluir com uma frase que “entrega” tudo o que ele não falou. A “alma” daquela história, o que ele gostaria de dizer e não disse, está tudo ali, já quase sumindo do gravador, porque o tom de voz foi se reduzindo e alguma parte menos consciente do cérebro dele precisou colocar um ponto final naquilo. Aliás, nesta hora, aprendi, é importante não interromper nem “ajudar” a completar a frase. Quanto menos audível aquele finalzinho, mais interessante pode ser.
Outra coisa bárbara é que, de tanto ouvir a sua própria performance de entrevistadora, você vai se aprimorando. Hoje percebo o quanto eu “me achava”, só porque conseguia um ou outro furo deixando o entrevistado à vontade. Na verdade eu tinha dificuldade de ouvir algo que fosse realmente novo; conduzia as perguntas para o que eu já sabia, os assuntos que dominava. Mais uma vez, a técnica a serviço da pressa…
Mas o melhor de fazer a transcrição de uma entrevista é se dar ao luxo de usar bem pouco dela. Pinçar só o que interessa. O que é verdadeiro, o que fez sentido para você e fará a diferença para os que vão lê-lo.
Dito isso, ressalto que continuo achando muito chata (de escrever e de ler) a maioria dos pingue-pongues “ipsis-litteris”, em geral feitos com “autoridades” que costumam valer o esforço da transcrição de entrevistas inteiras. Uma boa edição, pelo menos, é fundamental.
Fazer transcrição é mesmo enjoado, e para isto não arrumei solução. Raramente terceirizar a tarefa vale a pena: dependendo do assunto, e de quem fez o trabalho, as chances de você precisar ouvir a gravação para tirar dúvidas são grandes. Sem falar no risco de ficar sem o tal finzinho da frase, ao qual só dão atenção os psicanalistas (e os jornalistas mais atentos).