De vez em quando uma amiga fica em crise, dividida entre a idéia de investir na carreira ou no filhote. No mês passado, uma matéria de capa da Época mostrou mulheres que estão parando de trabalhar para cuidar dos filhos, numa boa, sem o drama de terem se tornado “do lar”, à moda antiga.
Achei interessante, mas penso que essas mulheres, que ficam bem só em casa, cuidando de filho (não é o meu caso), deveriam ter um “plano B”, para o futuro. Aliás, desenvolver mentalmente um plano B é bom para tudo na vida, inclusive para a própria carreira.
No caso de quem aposta em uma realização mais plena como mãe, sem o tormento que de fato é conciliar esse papel com um trabalho estressante, é preciso lembrar que os filhos crescem. Parece óbvio, lugar comum, mas quem está com um bebê no colo, especialmente se for o primeiro, não consegue visualizar isso com clareza.
Ultimamente ando deslumbrada (ou seria assombrada?) diante da possibilidade de que vamos todos viver 100 anos. Fico imaginando a vida dessas senhorinhas, ou senhorinhos, que, 40 anos atrás, ao completaram seus 60, se conformaram em ser velhos e começaram a contagem regressiva para morrer. Aí se passaram dez anos, e depois mais dez. Aos 80, pensaram: “Puxa, já estou na prorrogação.” Mas então se passam mais 20 anos! O que teriam feito, aos 50, se soubessem que ainda iam viver outros 50?
Uma mulher de 30 e poucos anos pode estar meio cansada de trabalhar, porque começou cedo e já experimentou o sucesso na profissão, e passa a ver na maternidade uma nova forma de realização. (As mulheres são assim, diferentes do homem, e se realizam de várias formas, não apenas com aquilo que dá dinheiro, status e poder.) Se a renda do casal permite, parar de trabalhar parece tentador.
Mas, vem cá, e quando o filho expulsá-la do quarto, porque ela está invadindo o seu espaço e atrapalhando o videogame? E quando a filha adolescente disser “eu te odeio” e for fazer intercâmbio no exterior? Essa mulher pode ter uns 50 anos de vida pela frente, e se esqueceu de ter fazer um plano para essa “etapa”, que está longe de ser apenas uma prorrogação.
Vai dar para retomar o trabalho? Ser bem sucedida a ponto de aquilo voltar a ser uma fonte de realização? Talvez sim, talvez não. Talvez tivesse sido mais fácil, de alguma forma, conciliar os dois papéis, de mãe e profissional, naquela fase mais crítica da maternidade – esta sim, uma etapa relativamente curta, de dez ou 15 anos.
O que os filhos pensariam sobre isso? Bem, a mãe vai ser culpada de qualquer jeito. Por ter sido negligente, e priorizado a carreira, ou ter superprotegido os pimpolhos, cobrados depois por todo o seu “sacrifício”. Outro dia li, na “Vida Simples”, uma definição ótima sobre como a gente sabe que foi um bom pai (ou mãe): é quando os filhos conseguem pagar sozinhos a própria análise.