1 de Fevereiro de 2010

Avatar e Invictus no fim de semana

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 15:21

Imagine-se completamente envolvido em uma narrativa de ficção. Pode ser um livro ou um filme, daqueles que te ganham desde o começo, como leitor ou espectador. Há aquela deliciosa mistura de identificação (com os personagens, com a situação) e estranhamento (o que vai acontecer?). A história é tão bem contada (por causa do ritmo rápido; ou pelo contrário, por se deter em detalhes enternecedores), que você esqueceu-se de si próprio, nem percebe imagens ou palavras como intermediárias. Seguir a narrativa é puro deleite até que…

Até que o narrador resolve “aparecer” e explicar melhor o que está contando. Um flashback desnecessário, um personagem explicando o que você já tinha entendido e pronto. Fim da magia. Cortaram o seu barato, o seu tesão. No melhor da festa, alguém desligou o som. Afinal há os vizinhos – aqueles a quem cabe uma trama mais explicadinha, uma fórmula já testada, uma repetiçãozinha que torne tudo mais, digamos, palatável. Você estava no estado da arte, da emoção, e de repente tem que se contentar com algum entretenimento. Volta a ter consciência de si próprio, da sua posição na poltrona, e percebe que, pensando melhor, aquele ator não está tão bem assim no papel ou que o autor poderia ter caprichado mais nos diálogos.

É nessa hora, da mais pura decepção, que me dá vontade de não ler mais o best seller do momento, nem ver o filme candidato ao Oscar. Mas eles são tão bem feitinhos, não é mesmo?

29 de Janeiro de 2010

O verdadeiro motivo para implicar com “Amor sem escalas”

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 14:18

Adorei o filme “Amor sem escalas”, que tem o mesmo tipo de sacadas rápidas e inteligentes dos filmes anteriores do diretor Jason Reitman (”Juno” e “Obrigado por fumar”). Mas não estava entendendo as críticas negativas, com implicâncias bobas, até ler a crônica de Luis Fernando Veríssimo de quarta-feira. Aí vai ela:

“O verdadeiro George Clooney

Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição. É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.

Os dentes são falsos. Ali onde elas veem pomos da face irresistíveis e um queixo decidido, há, obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio no septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftã bordado e sendo borrifado com perfumes florais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.

É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas exilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.

Além de tudo, tem seborreia e é Republicano.”

21 de Janeiro de 2010

Clarice até março

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 17:19

claricebeth 1 2 - claricebeth 1 2

O esforço valeu a pena, e ontem consegui finalmente ver a peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, estrelada pela atriz Beth Goulart. A boa notícia é que o espetáculo, que ameaçava ficar novamente em curtíssima temporada, estará em cartaz no Teatro Sesi do Rio até março.

A minha história com Clarice é curiosa. Descobri e amei a escritora na adolescência. Depois de, digamos, adulta, suficientemente desintoxicada de seu texto (que impregna a alma e explica a devoção de seus fãs), passei a acreditar que aquela tinha sido apenas uma fase adolescente e mulherzinha. Cheguei a considerar pertinente uma crítica que ouvira sobre Clarice ser um pouco repetitiva.

No ano passado, com a volta dela à mídia, retomei seus contos, encantada. Ah, como pode ser nocivo se afastar de Clarice. A coletânea “Clarice na cabeceira”, por sinal, tornou-se o meu título de fim de ano preferido para presentear amigos, desejando assim que eles a mantenham por perto. Os contos são apresentados por fãs célebres, que aparentemente tiveram liberdade para escolhê-los.

Dois deles estão na peça, e a interpretação de Beth Goulart, espantosamente parecida com a escritora em cena, acaba por revelar novas nuances no texto. O resultado final - cenário, iluminação etc - é lindo de morrer, imperdível para fãs de Clarice Lispector.

27 de Novembro de 2009

Adorável Julia

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 13:56

Enfim estreia hoje o filme “Julie & Julia”, que com certeza dará à atriz Meryl Streep sua 16ª (!) indicação ao Oscar. É um filme delicioso (programe um belo jantar para depois) e eu escrevi sobre ele nesta coluna do Digestivo.

17 de Novembro de 2009

Luiz antes de Lula

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 16:16

Eu chorei. Com o trailer. O lançamento do filme “Lula, o filho do Brasil” está deixando indignados, com certa razão, os adversários políticos do governo, já em clima de eleição. E também a elite que nunca engoliu o presidente. Não por causa do mensalão, dos arroubos autoritários do PT ou da adesão à filosofia de que os fins justificam os meios. Mas justamente por causa da trajetória narrada no filme.

Uma trajetória, reconheçamos, emocionante. E que está no cerne do “fenômeno Lula” e de todos os microfenômenos que o acompanham: o carisma popular, o “teflon” antiescândalos, a liderança internacional.

Quando fui ao cinema assistir “Os dois filhos de Francisco”, com a história da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, talvez eu fosse como essa elite que entrará na sala escura a contragosto, só para depois dar o seu pitaco. Pois lá dentro, diante de um drama real muito bem contado, o nó que se formou em minha garganta foi colossal, porque tinha também o gosto do meu preconceito.

Pode ser que alguém consiga ver o filme atento apenas às omissões históricas ou às cenas apelativas, e assim sair de lá incólume e com o espírito crítico intocado. Mas acho que vai ser difícil.

3 de Novembro de 2009

Revolucionários, graças a deus

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 14:16

coco antes vale - coco antes vale

Imagine que você enxerga algo que ninguém vê. Para você, aquela ideia é clara e consistente, mas parece um delírio ou excentricidade para todos os outros. A sua visão privilegiada provavelmente é fruto de algum tipo de exclusão: foi rejeitado pelo grupo por ser nerd, pobre, feio ou simplesmente diferente.

Se permanecer de fora, você continuará sendo um esquisito e não conseguirá fazer a revolução que lhe é óbvia e necessária. Por outro lado, no esforço para se inserir, será tentador abrir mão de suas convicções, e finalmente ser aceito e amado.

O verdadeiro “revolucionário”, no sentido de pessoa que consegue empreender mudanças na sociedade, é aquele que não se deixa “cooptar” pelo antigo e estabelecido, mas sabe negociar com os símbolos do “passado” para ter condições de mudar o futuro (o seu e o dos outros).

São pessoas admiráveis. Eu, por exemplo, consigo no máximo abraçar tendências. Não me vejo segura e desapegada de afetos a ponto de ir contra tudo e todos em nome de algo absolutamente novo. Pensaria: não estou louca? Ou: vale a pena?

Fiquei pensando nisso tudo depois de ver no cinema “Coco antes de Chanel”, a história da estilista que mudou a forma de as mulheres se apresentarem ao mundo. Pelo menos sob a lente da diretora Anne Fontaine, Coco Chanel foi assim, e muitas das negociações às quais se submeteu tiveram relação com o fato de ser mulher numa época em que isso era um absoluto limitador da existência humana (sempre me impressiono ao constatar como essa “pré-história” é recente).

Nos nossos tempos, em que a busca da felicidade vem em primeiro lugar (é tudo o que desejamos aos nossos filhos, não é mesmo?), os revolucionários autênticos tornaram-se raros. A ironia é que, ao mesmo tempo, o marketing da mudança está por toda a parte.

26 de Agosto de 2009

Não por acaso, à deriva

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 19:37

Quando “O ano em que meus pais saíram de férias” entrou em cartaz, três anos atrás, havia uma piada recorrente: era o melhor filme argentino já feito no Brasil. Na época, o cinema argentino ainda bombava.

Adorei o filme (e a sua indicação para nos representar no Oscar, embora ele não tenha chegado à grande final), e percebi, na semana passada, que sou mesmo fã da categoria “filme-argentino-feito-no-Brasil”.

Tudo porque, no mesmo fim de semana, assisti a dois títulos nacionais delicados e comoventes, como convém à categoria. No cinema, fui de “À deriva”. No Telecine, revi “Não por acaso”.

Ainda bem que existe o delicioso assunto “cinema”, quando a gente só tem dez minutos para escrever um post…

15 de Junho de 2009

O último filme sobre o velho e bom jornalismo

Arquivado sob: Diversão e arte, Jornalismo — Marta @ 16:47

intrigas - intrigas

Ele é um veterano jornalista cabeludo, sujo e solitário. Ela é uma jovem blogueira bonita, mal paga e inexperiente. Ambos trabalham para a mesma organização, nas versões papel e online, em tempos de transformações e crise no jornalismo americano. Acabam obrigados a compartilhar a investigação de um crime.

Esse é o ponto de partida de “Intrigas de Estado”, um filme com ares de derradeiro no gênero que abrigou clássicos como “Todos os homens do presidente” e “O jornal”. Parece também uma melancólica homenagem ao bom jornalismo, cuja morte iminente é motivo de ironias destiladas por personagens propositadamente carregados dos estereótipos da profissão.

O mocinho da história é encarnado pelo ator Russell Crowe, que despreza a blogueira e o futuro que ela representa. “Ela é barata e faz uma matéria por hora”, “defende” a diretora da redação, vivida pela ótima Helen Mirren. O velho repórter acaba se rendendo à parceria, depois de deixar claro que estarão atrás de fatos - e não de fofoca ou opinião. Quando os conflitos entre a dupla se dissipam, surgem os verdadeiros vilões: o poder econômico e os interesses políticos, que desdenham da imprensa enfraquecida.

Achei simbólica a estreia desse filme na semana em que a imprensa brasileira precisou se unir para conter os métodos de um blog criado pela maior empresa do país. A Petrobras obteve o apoio maciço da blogosfera, que viu na estatal uma aliada contra o poder dos impressos. Menciono esse apoio de forma intuitiva: como tudo que acontece na rede, a onda de manifestações não se tornou institucional, nem gerou um debate mais aprofundado. O blog corporativo foi identificado como o “David” (Petrobras) contra “Golias” (os jornais), o que gerou simpatia, refletida em posts e comentários com simplificações do conflito que se replicaram pela web.

No final da semana, a imprensa posou de vitoriosa, porque a Petrobras voltou atrás na sua intenção de usar o blog para “furar” os jornais – algo tão estapafúrdio que o desfecho não poderia ser outro. No entanto, o fato de o enfrentamento ter acontecido, e de os jornais precisarem expor argumentos em suas páginas, transformando-se em notícia (algo que a mídia abomina), acabou revelando o processo de enfraquecimento do “quarto poder” também no Brasil.

Ou seja, qualquer semelhança com “Intrigas de Estado” não é mera coincidência.

15 de Abril de 2009

Sobremesa

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 16:37

Adoro pequenos grandes filmes. No ano passado, por exemplo, me deliciei com “A culpa é do Fidel”. Mas é difícil ganhar espaço diante da fartura de bons blockbusters, como os da última safra do Oscar, e por isso alguns desses filmes tendem a ficar para depois, assim mesmo quando ganham o status de cult.

Nem dá para reclamar: como falar mal do empolgante “Milk”, do espetacular “Quem quer ser um milionário” (superprodução, sim), do bem contado “O curioso caso de Benjamim Button”, do ousado “Frost Nixon” ou do delicado “O leitor”? Isso só para falar dos cinco que concorriam à categoria principal (eram também imperdíveis “Dúvida”, “Foi apenas um sonho” e “O lutador”, sem contar o hors concours “Vicky Cristina Barcelona”)

Pois ontem foi dia novamente de prêmio, dessa vez para o cinema brasileiro. O prêmio Vivo é bem mais modesto (bastava ver a cerimônia no Canal Brasil para constatar), mas não vamos falar mal das poucas premiações que ainda estimulam nossa produção cultural…

O fato é que o grande vencedor foi “Estômago“, um pequeno grande filme nacional. Original, surpreendente, cheio de personagens sensacionais e despretensioso - “Estômago” tem tudo que os pequenos notáveis precisam para conquistar quem aprecia o gênero.

Então aí vão as minhas dicas, que já devem estar chegando às locadoras: “A culpa é do Fidel” e “Estômago”. Não deixe de ver, ou rever.

7 de Abril de 2009

Catando a poesia que entornas no chão

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 18:24

leite derramado - leite derramado

Antes de começar, convém me identificar: sou uma dessas mulheres de Chico. Adoro, venero, babo, sei cada verso de trás para frente. Suspeita, sim, sou muitíssimo suspeita para falar de “Leite derramado“. Se você não é do time, ou, pior, não entende o fenômeno mulheres-amam-chico-buarque, melhor parar por aqui.

Até “Budapeste”, que também é um livro maravilhoso, eu conseguia entender a nossa tendência a separar o Chico letrista do Chico escritor. Mas hoje, que estou sorvendo “Leite derramado” lentamente, para aproveitar cada gota, revelou-se claramente para mim o artista único que sempre esteve por trás de tudo.

No novo livro, cada palavra é delicadamente colocada na frase, como se elas precisassem se encaixar na música para estar ali. É uma delícia, também, perceber a mesma ternura, como sempre bem dosada, com que Chico vê os equívocos e o sofrimento de seus personagens. Isso sem falar no show de erudição, que vem de lambuja e não é tão patente nas letras do compositor.

E já que você chegou até aqui (e não parou no time dos insensíveis do primeiro parágrafo), não deixe de (re)ver o vídeo de Chico Buarque lendo o primeiro capítulo, no site do livro.

25 de Março de 2009

Cosquinha

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 15:31

Tenho ido pouco ao teatro, e outro dia me vi confessando o motivo para amigos. Por alguma razão, neste tipo de programa passo com frequência pela situação de toda a plateia rir, menos eu. A cena pode fica ainda mais constrangedora quando acontece de eu soltar uma gargalhada sozinha, me destacando desconfortavelmente da multidão.

O pior é que eu até entendo as supostas piadas, só não acho aquela graça toda, que justifique a efusividade dessas plateias que frequentam comédias no Rio. No máximo consigo esboçar um sorriso. Meu amigos me garantiram que andei assistindo aos espetáculos errados, me deram uma listinha das boas peças em cartaz e juro que vou tentar novamente.

Mas o fato é que nunca achei graça de alguns tipos de humor, nem quando era menina. Por exemplo: o pastelão, em mim, não provoca a menor reação. Claro que se for um bom palhaço, ou o Carlitos, vou achar comovente, alegre, e ponto final. Sem risos histéricos. E os humoristas antigos da TV, tipo Chico Anísio, sempre me entediaram profundamente.

Já aquela tirada genial… Ela pode me tirar do sério, de verdade. Deixar-me com ataque de riso, daqueles de chorar. Posso gargalhar dois dias depois, quando me lembrar dela novamente.

Outro dia ouvi uma boa definição deste tipo de humor, numa entrevista que o Marcelo Tas deu para a TV UOL. Seria como uma cosquinha entre neurônios, como se um dissesse para o outro: ih, acho que caiu uma ficha! Mas a risada só brota quando entendemos alguma coisa que não sabíamos antes. Ou seja, piada velha não funciona.

Pra variar, ser criativo é tudo.

9 de Março de 2009

Explorando crianças

Arquivado sob: Diversão e arte, Jornalismo — Marta @ 20:47

A publicidade há tempos percebeu que colocar um bebê fofo em comercial de inseticida aumenta as vendas do produto. Em outro exemplo extremo, o mendigo da esquina vê as esmolas engordarem quando pede emprestada uma criancinha para embalar na calçada. Acostumamos-nos a este tipo de exploração, algumas mais nocivas do que outras, e deixamos pra lá.

Mas acho que existe um limite aceitável para este tipo de exploração na mídia. Cheguei a pensar que tinha um problema particular - a maternidade havia me tornado sensível demais ao assunto -, mas depois percebi que isso apenas me ajuda a identificar um tipo de apelação baixa e intencional, cada vez mais comum, que abala o nosso senso crítico em relação aos interesses em jogo.

Refiro-me aqui a dois episódios - um deles infinitamente menor, por ser ficcional.

No exemplo menor, estão filmes que ultrapassam o limite do bom gosto ao explorar nossos sentimentos em relação a crianças. Quando fui assistir “Quem quer ser um milionário”, já sabia das supostas influências de “Cidade de deus”, e da discussão sobre a tal estética da miséria. Antes fosse só isso. Na verdade, lá está o mesmo truque de mostrar criancinhas inocentes sendo vítimas de uma violência brutal, tudo bem maniqueísta (homens maus como picapaus aleijando criancinhas puras e ingênuas) e com ar documental, como se não houvesse outra forma de contar aquela história sem dar o devido soco no estômago do espectador.

Os dois filmes (ainda assim) são espetaculares e não precisavam das tais cenas para sensibilizar a plateia.

O segundo caso é mais delicado: o da menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto, grávida de gêmeos e acusada de homicídio pela igreja católica depois do aborto. Miséria humana total, daquelas que embrulham o estômago. A imprensa não especializada em “mundo cão” cumpria seu papel de informar, denunciar, colocar o debate em pauta. Mas aí começaram as apelações: o arcebispo que quer aparecer, e consegue, a necessidade de suitar a qualquer preço, as imagens do corpinho da menina, os especialistas-urubus palpitando.

Apelar para a nossa indignação diante da violência com crianças sempre dá audiência. Mas e o limite, do bom senso e do bom gosto? Será que só eu fico pensando na criança, que precisa ficar em paz, e não na televisão?

Nem dá para acusar só a mídia brasileira de extrapolar. A família do menino Sean parece que resistiu o quanto pôde a expô-lo. Mas a exploração da sua imagem, nos Estados Unidos, levou a um contra-ataque. Sem a tentação de cair no nacionalismo que envolve disputas internacionais (vide o caso da brasileira na Suíça), está claro o pouco interesse do pai no bem-estar do menino. Tomara que apareça um rei Salomão para julgar o caso.

7 de Março de 2009

Vik Muniz

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 20:04

A má notícia é que amanhã é o último dia no Rio. A boa, para os paulistas, é que exposição de Vik Muniz chega ao Masp em abril. É imperdível. Passei a semana toda impactada pelos trabalhos do artista.

Fui ver sem muita expectativa, mais pela curiosidade de saber quem era esse brasileiro que virou queridinho em Nova York. Pois Vik virou celebridade porque desconcerta as pessoas, tira-as do seu lugar e as transporta para dentro do seu processo criativo.

Ao compartilhar conosco esse processo, percebemos o toque do gênio, de alguém que viu o que ninguém viu, de quem consegue extrair poesia do detalhe e chegar a um todo arrebatador. É como se ele desconstruísse o mundo para recontá-lo.
Mas não dá para descrever. Tem que ver, e sentir. Vá lá.

13 de Fevereiro de 2009

Carmen Miranda até dezembro?

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 15:25

carmen miranda 1 - carmen miranda 1

Você cansou de recordar a bossa nova? Não aguentava mais ouvir falar de Capitu? Pois seus problemas não acabaram com a virada do ano. Pelo aperitivo do primeiros dias de 2009, vamos ter uma overdose de Carmen Miranda. É impressão minha ou a indústria cultural está se pautando demais pelas efemérides? Que tal ser mais criativo, pessoal?

3 de Fevereiro de 2009

É a morte, estúpido

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 18:22

curious case benjamin button - curious case benjamin button

Sei que “cool” mesmo é sair do cinema falando dos planos-sequências, das referências a outros diretores, no máximo da interpretação do coadjuvante que rouba a cena. Mas, no caso de “O curioso caso de Benjamin Button”, não tem jeito: é inevitável sair da experiência pensando na “mensagem”. Então, se você acha isso brega, pare por aqui. Eu, pessoalmente, adoro sair da sala escura sob o impacto do que o diretor/autor queria dizer com aquilo, e de preferência ir conversar sobre o assunto no restaurante mais próximo.

Pois vamos lá. Há várias “pequenas mensagens” no filme, algumas bastante poéticas, e por isso gostaria de revê-lo em breve. Em especial, tocou-me a percepção de quanto um dos bordões dos mais velhos - “gostaria de ter a sabedoria de hoje com o vigor físico da juventude” - é uma balela. Ficamos vociferando contra as rugas, a decrepitude física e as doenças apenas para não encarar o que realmente incomoda: a iminência da morte.

Como todo mundo sabe, no filme, baseado em conto de Scott Fitzgerald, Brad Pitt rejuvesce. Vai ficando lindo, másculo, maravilhoso, enfim, virando Brad Pitt. Porém, mesmo vivendo o auge de sua forma física aos 60 ou 70 anos, como todos nós pensamos desejar, ele é tomado pela melancolia. Por conta da vida que ficou para trás, e não voltará jamais, e da certeza de que o fim que se aproxima.

Ao “domar” o “problema” da velhice, mas não o da passagem do tempo, a fábula nos mostra o quanto perdemos tempo (olha eu aqui preocupada com ele) com um falso problema. Afinal, botox não faz ninguém viver para sempre.

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