Diversão e arte
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Dicas, atualidades e assuntos para o café
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Publicado por Marta em 12 Out 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

Toda mulher já encontrou em sua vida o homem-que-não-quer-se-comprometer. Eu tinha até me esquecido do tipo, quando vi o filme “Fatal”, na sexta-feira. Ele está lá, inteirinho, interpretado pelo ator Ben Kingsley (o eterno Gandhi) mas revelado de fato pelo escritor Philip Roth, autor do romance que inspirou o filme e conhecido por seus livros obviamente autobiográficos.
Pois bem, sabe aquela história difundida pela literatura de auto-ajuda mulherzinha, de que o tal cafajeste simplesmente não está a fim de você, sua tonta, que fica inventando que o sujeito é imaturo, inseguro ou tem medo de amar? Esqueça. Segundo ele próprio, o homem-que-não-quer-se-comprometer, a velha intuição feminina, mesmo que abalada por uma paixão, está certa. O solteirão convicto e charmoso chega a parecer patético no filme, até porque esnoba ninguém menos do que a Penélope Cruz.
O filme vai além e aborda também com algum interesse o tema da velhice. Não chega a ser fenomenal, mas eu recomendaria para as mulheres que ficaram intrigadas com aquele rompimento sem-pé-nem-cabeça do passado. Elas vão ver que se livraram de uma boa.
Publicado por Marta em 09 Set 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento
Li que a peça em cartaz é sobre o absurdo da condição humana. Eu, que nem sou muito de teatro (pelo menos não tanto quanto de cinema), fiquei morrendo de vontade de assistir. Depois me vi pensando que qualquer história, no fundo, pode ser sobre o absurdo da condição humana. Especialmente quando uma trajetória pessoal é observada em retrospecto.
Pela segunda vez tenho me dedicado a entrevistas com pessoas de idade, estimuladas a falar sobre suas vidas. No livro anterior, algumas tinham um passado bastante brilhante, e suas atuais limitações físicas e intelectuais me deixavam deprimida. Depois de esbanjar tanta capacidade de realização, tanto pioneirismo nas idéias, aquelas pessoas pareciam se resumir a dois tipos de velhinho.
Havia os ranzinzas, reclamões que não aceitavam sua condição e davam trabalho para quem estivesse em volta; e os bonzinhos, que despertavam piedade nos outros e tratamentos quase infantis. Ou seja, uma humilhação só. Lá estava a tal condição humana, para lá de absurda, esfregada na minha cara.
Agora, em contato com gente mais simples, voltei a ficar deprimida por perceber como as pessoas podem ser reféns de suas vidas. Gente que se meteu no meio do mato, e nem sabe por que, que não gostava do lugar onde estava, ou do que fazia, mas foi se acostumando. De repente, vupt, a vida havia passado, como se tudo fosse um grande acaso.
Tudo indica que a velhice nos obriga a ser humildes, para aceitar o absurdo da condição humana…
***
A propósito da tal peça, encenada por Sérgio Brito (85 anos) no teatro Oi Futuro, fui tentar comprar ingresso e… surpresa! O teatro, que tem “futuro” no nome, não vende entradas pela internet. A piada estava tão pronta que não me contive ao falar com a bilheteria, pelo telefone: Isso não é “Oi, Passado”?
Publicado por Marta em 25 Ago 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

Uma das curiosidades sobre ultrapassar a barreira dos 40 é que começamos a ter outra percepção da importância e da relatividade da memória. Conversando com pessoas da mesma faixa etária, percebo que as lembranças, com o tempo, não só ficam seletivas como podem ser recriadas. Essa reconstrução do passado acontece a partir de uma mistura de materiais - sentimentos, fotos, relatos e, vá lá, lembranças.
Na medida em que a memória vai falhando, os buracos são preenchidos por fantasias e suposições - cimentados cada vez que recontamos a tal história. Os vôos da imaginação costumam ser contidos por registros, como fotos e cartas, além de relatos de outras pessoas que viveram o mesmo momento. Ainda assim, não é incomum duas pessoas recontarem a mesma história, de 20 anos atrás, de forma completamente diferente.
Estou trabalhando numa pesquisa que remete a memórias de 30, 40, até 50 anos atrás, e tenho me deparado com situações inusitadas, como a de uma senhora que jurava ter acontecido, no dia de seu casamento, um fato importante na sua cidade, que na realidade só ocorreu dois dias depois. Ela não estava mentindo, simplesmente havia juntado, na sua lembrança, dois acontecimentos tão marcantes que talvez devessem ter sido simultâneos. Mas não foram. Sinto-me quase constrangida de não poder endossar sua fantasia.
Uma matéria do New York Times, publicada hoje no caderno Digital do Globo, mostra pessoas que estão optando, conscientemente, por recriar a própria memória, manipulando os registros do passado e sendo feliz para sempre. Sim, é a cara do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Só que pra valer.
Você insere na foto do seu casamento o primo que não pôde ir, tira a sirigaita que namorava o tio na época, e que hoje não tem a menor importância, aproveita para afinar a própria silhueta e pronto: lá está a data memorável, do jeito que você vai imaginar no futuro. Daqui a dez anos, quem se lembrará dos retoques? E você ainda vai jurar que seu primo estava lá, veio do Canadá especialmente para a cerimônia.
***
Essa reflexão toda é útil para a gente tentar criar, de verdade, os tais momentos inesquecíveis nas nossas vidas. Aqueles que não precisarão de foto para serem lembrados, e ficarão a salvo da tentação do photoshop. Talvez a dica esteja nas cenas difíceis de serem apagadas de “Brilho eterno”, filme que merece ser visto e (por via das dúvidas) revisto.
Publicado por Marta em 30 Jun 2008 | sob: Diversão e arte
Não sou muito de desenho animado, mas costumo encarar alguns por conta da agenda infantil. Foi assim, meio por acaso, que assisti a um filme surpreendente e cativante neste fim de semana: Wall-E, uma animação da Pixar que estreou mundialmente na sexta-feira.
Ao contrário de outros infantis, o filme não substima a inteligência das crianças, nem apela para um ritmo frenético com o objetivo de entretê-las a qualquer custo. Sim, crianças gostam de sutilezas. Conseguem entender e se emocionar com suas próprias descobertas.
A mensagem ecológica e o tom político (que fantástico a fábula política voltar ao universo infantil) não são forçados ou gratuitos. Aparecem naturalmente na história, uma ficção científica, que tem o ponto de vista de um robozinho solitário e sensível, esquecido em um devastado planeta Terra.
Ainda é cedo para ter certeza, mas talvez a ousadia faça de Wall-E um novo clássico. O certo é que se trata de uma animação infantil diferente, que abre mão dos recursos de sempre, das piadinhas particulares para adultos misturadas com algum pastelão para crianças. Lembra ET, ao conseguir unir esses dois mundos com uma fórmula original e envolvente.
Publicado por Marta em 25 Jun 2008 | sob: Diversão e arte
Descobri recentemente um universo que cismava em ignorar: o das oficinas e grupos de estudos formados por gente madura com novos interesses, vontade de aprender e de compartilhar essa aventura. Confesso que, no auge da minha vida-profissional-sem-tempo-para-nada, tinha um certo preconceito com o que, imaginava, seria algo como pintura em porcelana para senhoras abonadas passarem o tempo livre.
Não é bem assim. Muita gente economiza o dinheirinho curto para aprender ou finalmente se dedicar a alguma paixão, bem longe das instituições acadêmicas, mais voltadas para a garotada. Trata-se, aliás, de um mercado interessante para investir, que o diga a Casa do Saber e os muitos similares pipocando por aí.
Foi pela Casa do Saber que entrei no circuito. Depois de uma rápida oficina com o jovem escritor João Paulo Cuenca, soube de um workshop com o veterano Moacir Scliar na Estação das Letras, onde também conheci um maestro, Ricardo Prado, que dá aulas sobre música clássica. Convidada pelo maestro, assisti a uma de suas palestras. Contabilizando todo o percurso, em poucos dias havia travado contato com um heterogêneo grupo de pessoas encantadas por literatura e música clássica.
Muito bacana. Tem de tudo, claro. Alunos com diferentes tipos de formação e níveis de interesse. Mas o que mais me chamou a atenção foram duas senhorinhas, que anotavam tudo em um caderninho, na primeira fila da sala onde o maestro contava, empolgado, como Brahms compôs sua primeira sinfonia com a ajuda de Clara, esposa do mestre Schumann e sua paixão platônica. Será que as duas estudam em casa? Uma sabatina a outra? Eu, pela primeira vez, entendi uma sinfonia, apesar da minha dificuldade com artes que não contam uma história.
Estou entrando em uma fase mais pesada de trabalho, mas fiquei com gostinho de quero mais. Quem sabe até pintura em porcelana pode ser divertido no futuro. Se você está com um tempinho (ou dinheirinho) livre, aventure-se também. Melhor do que ver novela (tema que vem rendendo, depois que expliquei aqui Por que você deve parar de ver novela). Bem melhor, garanto.
Publicado por Marta em 18 Jun 2008 | sob: Diversão e arte
O CD (ou qualquer forma em que se paga para “ter” uma música) vai acabar? O livro vai acabar? O direito autoral vai acabar?
Tudo indica que, na forma massificada, essa é a tendência. Os futurologistas debruçam-se sobre o comportamento dos jovens e as peculiaridades da era digital, para encontrar as respostas mais precisas. É óbvio que ninguém vai deixar de ler ou ouvir música, muito pelo contrário.
Depois de me deliciar com uma palestra do escritor Moacyr Scliar, na qual ele comentou como a compulsão por ouvir e contar histórias é muito mais antiga do que os livros, fiquei pensando sobre a falta de análises históricas para esta transformação cultural que alarma tanta gente.
O fato é que, antes que fosse possível “armazenar” histórias e músicas em livros e CDs, essas duas artes já existiam. Eram produzidas de graça, sem direito autoral? Sim. Os autores encontravam motivação, e alguma remuneração, que viabilizasse a sua dedicação.
Talvez os mecenas do passado estejam sendo substituídos pelas empresas. Ah, mas elas vão querer interferir nas obras de arte, direcioná-las, torná-las comerciais. Verdade, mas não é diferente do que a Igreja fazia com os mestres da pintura de séculos atrás. Hoje, compreendemos o contexto e mesmo assim babamos com o retrato de uma obscura mulher, mera esposa do mecenas de uma época.
Trata-se de uma longa discussão, claro. O que seria a “arte pura”, não panfletária, imaculada de interesses econômicos, políticos, governamentais? O fato é que o artista sempre encontrou o caminho para a sua arte possível. E é isso que escritores e músicos provavelmente farão.
Estamos na era da experiência, já detectada com eficiência pelas empresas de consumo e suas marcas. As pessoas não pagam um centavo a mais por um produto que pareça comum a todos (commodity), mas despendem uma pequena fortuna por uma experimentação que considerem original e única.
Esse caminho já está sendo seguido pelos criadores/produtores de música. A garotada não aceita pagar para armazenar a música no seu Ipod, mas mete a mão na mesada para ver seus ídolos de perto, em um show que eles próprios registrarão, do seu jeito, no celular. O show é patrocinado por uma marca, que espalhará o nome da banda junto com o seu em produtos “exclusivos”, colecionáveis, ou seja lá qual for a tendência de consumo do momento.
Moacyr Scliar falou que não existem mais escritores escondidos por trás de pseudônimos. Com raras exceções (Rubem Fonseca e Dalton Trevisan), eles sequer podem se esconder: lançam livros em festivais, fazem palestras, participam de eventos e ganham dinheiro de patrocinadores por isso. Os livros tornaram-se objeto, agora são bonitos, funcionam como brinde e recordação da experiência de leitura (que estará disponível de graça na internet, como as músicas).
Voltando ao contexto histórico, talvez estejamos simplesmente retornando a um tempo em que a arte, patrocinada por mecenas lá com seus interesses, tinha seu ápice em um acontecimento social - como um concerto, um espetáculo teatral, um sarau. Aquele estágio em que pagávamos para “possuir” solitariamente coisas (ou ter a ilusão de possuí-las) ficou para trás. Hoje, emoção e conhecimento se guardam na mente, não na estante.
Essa reflexão tem sido importante para mim, porque tem tudo a ver com o trabalho do jornalista. A vida toda trabalhei em jornal diário, uma dessas mídias de futuro incerto (mais do que o livro). Muita gente, por exemplo, questiona o sentido de escrever textos em um blog e não ganhar um tostão de direito autoral por isso. Intuitivamente, acho que o caminho está sendo feito, enquanto é percorrido. Afinal, como os contadores de histórias de antigamente, eu queria muito escrever isso aqui. E você, que se interessou até o fim do texto, já deu sentido para esta jornada.
Publicado por Marta em 09 Jun 2008 | sob: Femininas, Diversão e arte
Não imaginava que a série Sex and the City fosse tão levada a sério. Claro que já me diverti com alguns episódios, que provavelmente vi pela primeira vez na enésima reprise, mas não percebia ali a pretensão de resumir Nova York, muito menos a mulher contemporânea.
Já que fãs ou marketeiros convenceram a imprensa do fenômeno, vamos lá: NY não é a “cidade do amor e das grifes”!!! Não sou exatamente a maior conhecedora do lugar (para chegar perto disso, existe o blog Só em Nova York, de Tania Menai), mas se tivesse que listar características marcantes de lá começaria com diversidade, modernidade, cultura… Incluiria, sim, o luxo e o consumo, mas colocaria o amor lá no finzinho.
Quanto à mulher moderna, céus!!! Quem suportaria conviver com aquelas peruas mais do que a meia hora diária da televisão? Está bem, o filme passa de duas horas e deve ser pura diversão. Mas presta-se a teses sociológicas tanto quanto um Indiana Jones ou qualquer outro blockbuster americano. Além do mais, esse oba-oba tem ar de assunto requentado, porque as personagens deixaram de ser novidade há alguns bons anos.
Publicado por Marta em 03 Jun 2008 | sob: Diversão e arte
Programa imperdível é conhecer o novo teatro Casa Grande e assistir à espetacular encenação de “A noviça rebelde”. A produção, caprichadíssima, deixa crianças e adultos de boca aberta. Na minha frente, uma fila de senhorinhas não podia estar mais feliz.
Claro, a peça é igualzinha ao filme - e com ótimas versões das músicas em português. Adultos ficam com olhos marejados. Com cenários deslumbrantes, atores-cantores de primeira e teatro tinindo de moderno e confortável, o preço salgado do ingresso se justifica.
E olha que nem sou muito de musicais…
Publicado por Marta em 19 Mai 2008 | sob: Diversão e arte
Eles viveram uma ardente paixão na juventude. Eram lindos, como no cinema. Ela parecia a Brigitte Bardot. Tiveram problemas - ele foi infiel, ela se magoou profundamente. Na maturidade, se acertaram e resolveram envelhecer juntos. Tornaram-se velhinhos e companheiros, quase reclusos em meio a livros, num chalé no meio da neve. Passavam dos 70, mas continuavam lindos e com vida sexual.
Reconheço que tenho dificuldades com romances na terceira idade no cinema. Na literatura, o amor na maturidade é sempre tão maravilhoso, os sentimentos dos personagens são tão maiores do que rugas e expressões flácidas. Mas, na telona, algo parece forçado. Talvez seja meu senso estético, deformado por tantas campanhas publicitárias com fotoshop e peles de bebê…
Mas nada disso aconteceu em “Longe dela”, que entrou em cartaz semana passada. O casal formado por Gordon Pinsent e Julie Christie me convenceu totalmente. Os dois estão lindos no filme. Quando começa a perdê-la, ele recorda-se da intensa paixão dos tempos da juventude e diz: “Hoje aquilo parece tão superficial, perto do que tivemos nos últimos anos.”
***
Não deixe de ver o filme por conta do que já contei aqui. Esta não é a história, é apenas o pano de fundo. Se o fundo é assim, imagine o primeiro plano…
Publicado por Marta em 09 Mai 2008 | sob: Diversão e arte
O que Gianecchini queria dizer hoje com a expressão “Models Wanted”, estampada em letras garrafais na sua camiseta rosa choque? Essa vida de suar ao lado de Giane, na academia, me traz à mente questões assim, bem tolinhas…
Depois do furo sobre a separação de Bernardinho e Fernanda Venturini, ninguém segura a nova editoria do Espuminha, de fofocas de celebridades!
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Por falar em cor de rosa choque e celebridade, neste fim de semana Rita Lee volta ao Canecão, com seu show Picnic. Quem puder, vá. O espetáculo é ótimo, delicioso, cheio de tiradas geniais e músicas dos bons tempos.
Aos 60 anos, para lá de bem vividos, Rita chegou naquela fase em que alguns artistas parecem ser geniais sem qualquer esforço, desfrutando da maior liberdade, e ainda por cima com aquele imprescindível talento para fazer piada sobre si próprio. Se isso é a maturidade, viva as rugas!
Publicado por Marta em 24 Abr 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento
Há algum tempo venho tentando mudar minha postura no cinema. Como percebi que os mal-educados se lixavam para os meus “psius”, enquanto euzinha acabava transtornada com a situação, resolvi ficar zen. Respiro fundo, dou uma olhada para checar se a dupla vai tagarelar a sessão inteira, e tento mudar de lugar. Antes a primeira fila, com pescoço doendo, do que ficar irritada e distraída durante o filme.
A estratégia, porém, foi para as cucuias no feriado. Nos primeiros minutos do filme (”Estômago”, excelente, apesar de tudo), eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. Numa platéia formada basicamente por casais, simplemente TODOS comentavam cada cena do filme. Como se estivessem em suas salas de estar. Era impossível ouvir os diálogos sem acompanhar simultaneamente o ponto de vista de pelo menos três pessoas próximas - fora os cochichos mais distantes.
Não havia como soltar um “psiu” ali. Era capaz de me olharem com espanto, de tão à vontade que estavam. Saí do cinema, em um shopping na Barra da Tijuca, tentada a buscar uma explicação no balaio de preconceitos comumente reservado aos moradores do bairro. Ah, na zona sul não aconteceria, pensei alto. Será que não?
Talvez seja hora de se render. Jogar a toalha. Os tempos são outros, o ritual do cinema mudou. Aliás, nao é mais ritual. Comentando o fato com uma amiga recém chegada de Portugal, ela me garantiu que lá está pior, as pessoas falam no “telemóvel” sem pudor, no meio da sessão.
Com sempre resta uma esperança, vou ficar atenta às platéias que freqüentam cada sala de cinema no Rio. Quem sabe descubro algumas mais educadas que outras.
Publicado por Marta em 09 Abr 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento
Lembro-me bem do último dia em que vi novela. A adolescente Mel, interpretada pela atriz Débora Falabella (até hoje com carinha de anjo), gritava ensandecida, debatia-se, enquanto era obrigada a entrar em uma ambulância.
Foi então que raparei na expressão de terror da minha filha, prestes a completar 3 anos. Grudada em mim depois que eu chegava do trabalho, ela punha-se sempre a brincar por perto. Não ligava para a TV, exceto quando a angelical Mel aparecia na telinha.
“Mamãe, o que está acontecendo?”
Percebi que, dali para frente, não poderia apenas dizer que era tudo de mentirinha. Teria que explicar, por exemplo, uma crise de abstinência de drogas, para uma criança de 3 anos. E sabe-se lá o que apareceria adiante, no vale-tudo por audiência. Decidi não ver novela no dia seguinte. E nunca mais vi.
Passaram-se seis anos e o efeito da “desintoxicação” das novelas, para mim, foi revelador. Às vezes tento ver um pedaço de capítulo, saber ao menos que atores estão no horário nobre, mas não consigo. Nossa, como aquilo é ruim. Diálogos, personagens, enredo, tudo. A sensação é semelhante à que eu sentia quando, do alto da minha posição de expectadora do “padrão Globo de qualidade”, deparava-me com uma novela mexicana no SBT. Ah, como a empregada conseguia ver “aquilo”? Acho que este tipo de repulsa tende a se repetir em relação à TV aberta, depois que nos acostumamos aos canais por assinatura.
Mas antes que me julguem pedante, preciso fazer um parênteses: entendo perfeitamente o sentimento de quem se acostumou a ver sua novelinha das oito. No fim de um dia cheio, chegamos em casa cansados, ligamos a televisão e imediatamente somos invadidos pelo conforto de uma trama já conhecida, despretensiosa, que eventualmente nos oferece momentos divertidos. No pacote, nem reparamos nas apelações, nas péssimas atuações, nos anúncios de supermercado, nas chamadas do Big Brother.
Temos até justificativas intelectuais para o ritual da novela. Trata-se do grande produto cultural de massas brasileiro, que une um país de dimensões continentais. Nossas novelas são exportadas, consideradas as melhores do mundo, e têm a participação de grandes atores nacionais, até da Fernanda Montenegro. E por aí vai.
Mas creia: não é nada disso. Apenas somos habituados, culturalmente, a um entretenimento de baixíssimo nível. Em alguns países, crianças e adultos são naturalmente estimulados a ler livros, e podemos vê-los nos parques, nos transportes públicos. Aqui, desde sempre fomos compelidos a ver novelas. E novelas são muito ruins, simplesmente não valem o tempo gasto com elas.
Veja bem, você não precisa ler Shakespeare no original ao invés de ver novelas. Simplesmente mude de canal, ou tente desligar a TV. Jantar batendo papo, ouvir música, quem sabe ler um bom blog no computador… No início, “perder a novelinha” poderá parecer um sacrifício. Mas você precisa apenas se distanciar um pouco, se libertar do vício, para perceber o ganho de qualidade na sua vida.
Precisamos ter a consciência de que os hábitos culturais do nosso país nos nivelam por baixo. Eu e você somos, sim, uma elite, temos acesso e formação para consumir produtos culturais de melhor qualidade, mais interessantes e estimulantes. Não é fácil mudar, porque precisamos sair do automático - mas temos a segmentação cultural, fruto das novas tecnologias, a nosso favor.
Aqui, na verdade, já não me refiro apenas a novelas. Uma pesquisa encomendada pela Fecomércio-RJ ao instituto Ipsos (no clipping, “Choque cultural”) revelou que 55% dos brasileiros não tinham participado de sequer uma atividade cultural no ano passado, como ler um livro, ver uma exposição, um show de música, um espetáculo teatral ou mesmo ir ao cinema. Apenas 31% dos brasileiros leram um livro. Se você acha que o problema é o preço, está muito enganado. A falta de hábito foi o principal motivo apresentado tanto pelas classes A e B (58%) quanto pelas D e E (59%). Nestas classes mais baixas, apenas 5% alegaram não poder pagar por um livro.
Outro dia, neste blog, demonstrei minha indignação diante de uma pesquisa que indicava um baixíssimo índice de leitura entre os universitários. Agora, imagino que o desinteresse desses jovens apenas reflete a falta de hábitos culturais de suas famílias – que têm poder aquisitivo, bom nível de escolaridade e televisores ligados noite e dia.
A elite brasileira é tão peculiar que só vai a exposições e museus quando viaja para o exterior. O mote já foi inclusive alvo de uma propaganda do Museu Casa do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, bairro afastado do Rio. Era qualquer coisa como: “Você só vai a museus quando viaja? Então viaje até o Recreio!”
Ok, reconheço que ainda não visitei esse museu. Mas pelo menos parei de ver novela, faustão, fantástico e tudo mais que venha embalado junto com dança do créu, big brother e outras pobrezas que acreditamos ser a nossa cultura popular.
O fato de tudo isso ter começado com o intuito de proteger a minha filha, ainda bebê, agora parece simbólico. Afinal, ela fará parte da elite brasileira de amanhã. Uma elite, espero, com hábitos culturais melhores que os nossos.
Publicado por Marta em 31 Mar 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento
Crises na maturidade costumam ser relacionadas a dificuldades pessoais ou sociais, mas raramente aos problemas que tivemos quando crianças. Atribuímos uma adolescência tumultuada a pais descuidados, por exemplo, mas esquecemos que todo marmanjo já foi uma criança frágil e desprotegida.
Ok, você não acredita em psicanálise, muito menos em crise da meia idade. Então assista a dois ótimos filmes em cartaz (um nos cinemas, outro nas locadoras), antes de achar tudo bobagem.
Em “A família Savage”, irmã e irmão quarentões, inteligentes e batalhadores, são obrigados a revisitar sua infância dolorosa quando o pai reaparece doente, depois de 20 anos. Já em “Inferno”, o passado soturno é representado por um trauma que marcou a infância de três irmãs.
Nos dois casos, o expectador é apresentado a personagens maduros mas incapazes de buscar sua felicidade ou assumir relacionamentos saudáveis. Pior, parecem atraídos pelo sofrimento, de tanto que boicotam suas possibilidades de realização amorosa.
A explicação está no passado. Quase sempre está.
Para início de conversa, toda criança é frágil e desprotegida – pelo menos em relação ao poder absoluto de seus pais. “A infância é uma época de terror”, constatou outro dia a filósofa Márcia Tiburi, no programa “Saia justa”. Minha xará Martha Medeiros lembrou, numa coluna recente, que “só o fato de termos sido criados em cativeiro numa família com suas próprias regras, valores e manias já faz de cada um de nós uma aposta arriscada na hora de ter que negociar com uma espécie nascida em um cativeiro diferente.”
Achei perfeita a imagem da criança como um ser criado em cativeiro. Muitas vezes, por trás de um quarentão complicado, pode estar apenas um “animalzinho” que aprendeu a sobreviver sem afeto, condicionado por regras cruéis que pareciam ser as únicas existentes.
Na agitação do mundo adulto, tudo parece ter ficado para trás. Fora do cativeiro, é preciso ganhar a vida, conquistar um espaço, uma identidade social. Mas eis que, no meio do caminho - lá pelos 40… - essas pessoas começam insistentemente a repetir seus erros, em vez de aprender com eles. Podem fazer dessa repetição a sua existência. Ou encarar o passado, e perceber que seu futuro está em suas mãos.
Em tempo: “A família Savage” é uma produção americana, dirigida por Tamara Jenkins, com os excelentes Laura Linney e Philip Seymour Hoffman no elenco. “Inferno” é um filme francês, dirigido por Danis Tanovic, com Emanuelle Béart, Karin Viard e Marie Gillian.
Publicado por Marta em 23 Fev 2008 | sob: Diversão e arte
Ok, podem me chamar de brega, mas adoro ver todos os filmes candidatos ao Oscar e depois acompanhar a cerimônia pela TV, com uma cervejinha ao lado.
É o tipo do programa que só tem graça se o pacote for completo: é preciso estar por dentro dos indicados e favoritos, reparar na roupa dos artistas no tapete vermelho, comer pipoca, criticar a tradução e, principalmente, ter preferidos para torcer e vibrar durante aqueles segundos em que aparecem as carinhas dos indicados na platéia.
Eu fiz o dever de casa: assisti quase tudo que está em cartaz. Vi tanto filme bom que nem por onde começar.
Antes, duas ressalvas: alguns dos melhores filmes do Oscar - como “Onde os fracos não tem vez”, “Sangue negro”, “Senhores do crime” - são violentíssimos (tapei os olhos várias vezes, que nem criança) e não têm exatamente um final, daqueles que a gente se acostumou a ver no cinema. Devem ser as novas tendências da temporada…
Para melhor filme, estou torcendo por “Desejo e reparação”. Por conta da ousadia dos outros concorrentes, ele vai passar por “o careta” entre os candidatos. Mas é um filmaço, uma tragédia repleta de emoção, que enche os olhos e já estou doida para rever.
Claro que seria o máximo “Juno” ganhar. Ele tem aquele lado simpático de filme independente, simples, inteligente. É mesmo ótimo, mas confesso que vi com um certo distanciamento, com dificuldade de acreditar que uma gravidez possa ser encarada daquela forma por uma família razoavelmente normal.
Para ator, claro, Daniel Day Lewis. E não é porque está todo mundo falando. Sou tiete dele desde “A insustentável leveza do ser”, meu filme de cabeceira. Não dá nem para adjetivar essa última atuação do cara. Tem que ver.
Para atriz, não vi todos os filmes. Cate Blanchett está fantástica em “Elizabeth”. Mas quando descobri que a atriz que faz “Piaf”, perfeita, era a mesma de um outro simpático filme que tinha visto há pouco tempo (”Um bom ano”), tive certeza de que ela é a mais próxima de um “Daniel Day Lewis de saias”. É minha favorita.
Para atriz coadjuvante também vou torcer pra valer. Antes mesmo que se falasse em Oscar, saí do filme “Conduta de risco” (aliás, outro que adoro e também podia levar uma estatueta) querendo saber o nome daquela atriz com uma atuação espetacular. O nome dela é Tilda Swinton.
Para ator coadjuvante, Javier Barden - pelo conjunto da obra (Sombras de Goya, Amor nos tempos do cólera), pelo penteado e sei lá mais o quê. Ele é o ator que faltava para os irmãos Coen, que também deveriam ganhar por melhor direção. Os irmãos Coen, por sinal, são um post à parte. São como Woody Allen, começamos admirando e acabamos nos viciando na genialidade deles.
E isso aí. Bom Oscar, ou bom guia para os filmes do Oscar!
Publicado por Marta em 18 Fev 2008 | sob: Diversão e arte
Não é uma leitura fácil. As primeiras 70 páginas são um pouco arrastadas, as 400 seguintes, perturbadoras. Há muito tempo um livro não me impressionava tanto. Além disso, é muito, muito bem escrito.
“Precisamos falar sobre o Kevin” (de Lionel Shriver) é a história de uma mulher por trás de um acontecimento estúpido: seu filho torna-se um desses adolescentes que matam uma pequena multidão numa escola americana.
Mas o livro vai muito além. Disseca, na primeira pessoa (ela conta sua versão dos fatos em cartas para o marido), os sentimentos de uma mulher em relação a seu filho impenetrável, a suas escolhas e suas renúncias. É um tratado sincero - mais do que costumamos suportar - sobre (falta de) amor e culpa.
Os valores tortos da sociedade americana e seus personagens pitorescos são uma espécie de pano de fundo que torna a história ainda mais interessante. Mas é na questão da maternidade/paternidade que o bicho pega. Impossível quem tem, ou pretende ter, filhos sair incólume da leitura.
Pensando bem, não sei se recomendo minhas amigas que estão pensando em engravidar (por acaso, agora, são algumas) a ler este livro. Quem sabe um pouco depois, quando a relação com o bebê já estiver mais bem estabelecida.
Não imagino muitos Kevins por aí, mas a idéia de tê-lo como filho é aterradora.