31 de Dezembro de 2009

Previsões

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:31

Nada é mais previsível do que o Natal. Sabemos exatamente qual será o cardápio da ceia, que o assado estará cheiroso, mas um pouco seco; que vamos encontrar aquele parente chato, mas pelo menos dará pra falar mal dele depois; que falta de assunto se resolve com um vinho gelado, ou cerveja mesmo; que alguém nos oferecerá panetone, mas já que é para enfiar o pé na jaca, melhor optar pela rabanada; que no fim do dia teremos a sensação de dever cumprido e pança cheia, típica da data, e então será hora de pensar no réveillon.

Você bem que tentou antecipar as compras de Natal, mas faltou tempo ― sabe como é o mês de dezembro… Nos telejornais, imagens de shoppings lotados mostraram o sufoco que você passou, meia hora para conseguir uma vaga, fila até nas escadas rolantes e mesas compartilhadas com estranhos na praça de alimentação, enquanto o esforço para ser criativo e econômico nas lembrancinhas ia por água abaixo. Quando as liquidações começaram, no dia 26 de dezembro, tudo pela metade do preço, você jurou que no ano que vem fará diferente, pretende sumir do mapa natalino e reaparecer depois ― com alguns óleos relaxantes, do spa onde se refugiou, para eventuais trocas de presentes tardias.

Pensando melhor, você não é mais um adolescente rebelde, e nesta época do ano convém admitir que, vá lá, família não é tão ruim assim. Então lembrará que as crianças se divertiram, que o parente chato, no fundo, bem lá no fundo, até que é gente boa, e o problema agora é decidir o que fazer com os presentes inúteis que ganhou e jurou ter gostado. Pode tentar trocar na loja, aproveitar para comprar uma roupa branca para o ano novo e para isso precisará… encarar o shopping! Pois é, nem mudou o ano e está fazendo tudo o que mais odeia, de novo.

Ok, você reconhece a recaída, mas jura que em 2010 será diferente. Para garantir, faz (ou atualiza?) a sua lista de resoluções. A vida passa rápido, é preciso ser feliz já, focar no que vale a pena, e essas mensagens de Natal que odiou responder acabaram deixando-o meio meloso. Seria 2010 o ano de sua guinada? Pensar de forma mágica ajuda, por isso você vai entremear a sua lista de obrigações chatas, que não serão cumpridas (perder três quilos, poupar 20% do salário), com iniciativas mais exóticas (conhecer um país, tocar um instrumento). Afinal, fazer essas listas é como jogar na Mega-Sena; a única serventia é poder sonhar um pouco.

Confesso que, entre as listas obrigatórias de fim de ano, tive dificuldades com a sugerida pelo Especial do Digestivo, com “melhores de 2009″, já que meu retrovisor anda um tanto embaçado. Como a bola de cristal está tinindo, vamos às minhas previsões para o ano novo, outra lista deliciosa de fazer:

Em 2010, meia dúzia de celebridades vai dar mancada no Twitter e ficará um pouco mais célebre por causa disso.

Em 2010, famoso deixará definitivamente de ser adjetivo para ser considerado um substantivo.

Em 2010, a audiência da Globo terá novo recorde negativo, e ainda assim todo mundo à sua volta saberá o nome do protagonista da novela das oito, e achará pedante você fingir que não sabe.

Em 2010, a morte do livro será decretada 57 vezes por especialistas em mídias digitais.

Em 2010, o cinema alternativo vai tentar ser mais comercial, mas sem fazer concessões à arte, e o cinema comercial com pinta de alternativo vai ganhar o Oscar.

Em 2010, você vai assistir ao filme sobre a vida de Lula.

Em 2010, uma nova rede social vai substituir o Facebook, invadido pelos pobres do Orkut.

Em 2010, a política vai tomar conta da sua caixa postal, você vai acabar se envolvendo no assunto apesar de tudo o que disse antes, e defenderá o candidato menos ruim na mesa do bar.

Em 2010, comentários sobre o tempo deixarão de ser (falta de) assunto de elevador para ganhar ares de papo-cabeça-ambientalista-engajado.

No final de 2010, quando os críticos forem fazer as listas de melhores da década, algum espírito de porco lembrará que elas foram feitas um ano antes.

***

Já que a coluna acabou versando sobre os inevitáveis lugares-comuns de fim de ano, não poderia deixar de citar ― e recomendar ― um livro no qual estou viciada: O Pai dos burros ― Dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck. Para quem escreve, é uma diversão tê-lo ao lado do computador. Ao menor sinal de clichê brotando no texto, pego correndo o “dicionário” e fico eufórica ao constatar que, sim, ele está lá, devidamente catalogado.

O maior prazer, porém, não é evitar clichês e perceber a qualidade que o texto ganha sem esses penduricalhos. É poder empregá-los mesmo assim, consciente de sua função de “proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo o tempo a essa exigência, logo estaríamos exaustos” (Hannah Arendt, em A vida do espírito, citada no prefácio).

Já pensou como o Natal seria (mais) exaustivo sem o “Feliz Natal”? Pois então, sem pedir perdão pelo lugar-comum, um feliz Natal e um próspero ano novo para você.

***

Em tempo: encontrei nesta coluna pelo menos quatro “antipérolas” citadas por Werneck em seu livro. São elas: “enfiar o pé na jaca”, “dever cumprido”, “sumir do mapa” e “por água abaixo”. Quem sabe você descobre outras.

(coluna publicada no Digestivo Cultural em 25/12/2009)

10 de Dezembro de 2009

Tuvalu e nós

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:16

As chances de sabermos da existência de Tuvalu eram mínimas. Digamos que você tivesse uma oportunidade de ir à Austrália. Teria que ficar lá tempo o suficiente para alguém sugerir: por que não dá um pulo no arquipélago de Tuvalu? Ok, mas ninguém faz turismo naquelas ilhas, onde só existe um hotel chinfrim, apesar da paisagem paradisíaca igual a milhares de outras ilhas na região. Então a sugestão viria por conta do seu interesse por… história!

Isso, você é um historiador, atrás de um novo ponto de vista sobre os conflitos no Pacífico durante a Segunda Guerra, depois do ataque à base militar de Pearl Harbor. Sim, Tuvalu, pertinho do Havaí, foi um estratégico campo de batalha em 1943, e os japoneses chegaram a atacar nove vezes o arquipélago ocupado por americanos.

Mas essa história já foi contada, e, convenhamos, os custos de uma viagem assim não são cobertos por um interesse acadêmico. Mais factível seria o seu interesse econômico pelo país, que produz… bem, Tuvalu não produz nada. Alguns barcos de pesca, um cultivo rudimentar de cocos, e nada mais. No entanto, você é representante de um poderoso grupo de comunicações, que desde o crescimento da internet ficou intrigado com o domínio dado de mão beijada à pequena nação perdida no oceano.

Os endereços da internet em Tuvalu podem usar a terminação “.tv”, embora os poucos sites locais, iniciativa de alguns dos 12 mil habitantes, sejam escritos em tuvaluano. Que desperdício, comentou um marketeiro em uma reunião, e lá foi você, com a pastinha debaixo do braço, negociar com o primeiro-ministro de Tuvalu. Pensou em levar uns espelhinhos, mas achou melhor chegar com uns US$ 50 milhões, o que foi suficiente para fechar o acordo de cessão do domínio por dez anos, e dobrar o PIB do estado tuvaluense na década.

Talvez esta fosse sua única chance de descobrir a existência de Tuvalu. No entanto, desde ontem, eu, você e o mundo fomos apresentados ao minúsculo arquipélago (26 quilômetros quadrados!) que será o primeiro a sumir do mapa por causa do aquecimento global. Quem tem vertigem de altura não corre riscos em Tuvalu: o seu “cume” fica a 5 metros de altitude. Coube ao destino dar fama à nação às vésperas de sua extinção. Caberá ao mundo, na Conferência de Copenhague, mudar a triste sina de Tuvalu – agora, tão próximo de nós.

22 de Novembro de 2009

Up-grade sem dor

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 20:13

Tinha que resolver isso já, antes do almoço, antes do café pós-almoço. Sorte ter finalmente lembrado na hora certa, em frente a uma loja de bolsas, sapatos e, claro, carteiras. O porta-moeda furado passava o dia esquecido dentro da carteira, até a hora do cafezinho. “Sim, tenho trocado”, garantia. Mas cadê ele? Nada. O tumulto na Kopenhagen aumentando e eu atrasando a fila. Que ideia também, café a R$ 2,90.

A urgência tomou conta de todo o meu ser consumista - que nem precisa de tanto estímulo assim para se manifestar. Entrei na loja decidida a dar um basta naquela situação. Como alguém vive nos dias atuais sem um porta-moeda decente na carteira? Lembrei do Zé, com as moedas soltas nos bolsos e pensei em como o ser humano pode passar uma vida inteira acostumado a pequenos grandes desconfortos.

Todos os modelos de carteira femininos tinham porta-moeda. Huummm. Mas não vou fazer ilações, porque não cheguei a checar as opções masculinas; só desconfio. Fui atraída pela mais bonita. Tá bom, confesso, era pink. Mas assim, moderna, como o rapazinho apressou-se em classificá-la, em um raro caso de acerto entre o discurso do vendedor e os valores do comprador. Da última vez que uma vendedora tentou me convencer a comprar uma blusa porque a coleção era inspirada na Índia da novela, saí correndo da butique.

Mas nem só de aparência vivem as vendas de uma carteira. Há também os compartimentos na parte interior. Eu poderia aproveitar para fazer um up-grade que me proporcionaria uma otimização dos recursos internos, introduzindo novas facilidades na minha vida de consumidora e cidadã-portadora-de-documentos-sempre-válidos. Quem sabe descobriria soluções para problemas que nunca cogitei ter, como os homens que sacolejam moedas nos bolsos de calças.

Up-grade? Ops. Imediatamente lembrei da angustiante jornada travada ao longo da semana com (contra?) o computador novo. A sensação de estranhamento, desamparo, solidão. Se já fico contrariada diante de qualquer alteração no layout de meus portais preferidos, que dirá mudança de sistema operacional, teclado, formato de tela, e-mail, tudo junto. Nada como espaços familiares para práticas antigas, como escrever.

Em instantes, imaginei-me tateando pelo cartão de crédito como quem busca o ponto de interrogação no teclado. Talvez quisesse me livrar daquele porta-cheque como tentei desinstalar a barra de ferramentas inútil, ocupando espaço na preciosa tela – feita para parágrafos, na minha concepção, não para propaganda de antivírus pseudográtis. Sem falar nas divisões da carteira sem uso óbvio, que seriam como os ícones clicados mil vezes em vão, enquanto não encontrava algo tão acessível no meu saudoso e jurássico computador anterior.

Já estava quase surtando e optando por ficar com a carteira antiga, quem sabe com o porta-moeda costurado por um sapateiro, se é que eles ainda existem. Foi então que o paciente vendedor, ainda atordoado com meu desabafo fora de hora sobre arquivos perdidos, abriu uma carteira linda com a divisão interna idêntica à minha. Idêntica, fui conferindo com olhos e mãos, maravilhada.

Por fora, todos me julgariam moderna, mas por dentro eu poderia usufruir da minha inconfessável caretice, da segurança dos espaços dominados, do aconchego das experiências conhecidas. Sim, sei que os avanços tecnológicos são para o meu bem, que em pouco tempo nem recordarei mais a dor dessa transição, mas agora me daria ao direito de resistir um pouco, de admitir minha condição de geração pré-computador e optar pelo antiguinho. Pelo menos na carteira.

Essa mesma!, exclamei, satisfeita. Nada como uma boa compra.

17 de Novembro de 2009

Impressões

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 15:28

“Você não escreveu sobre suas impressões de Madri”, cobrou-me uma amiga. É verdade. Aí lembrei que tinha achado esquisito quando um conhecido, habitué de viagens exóticas, comentou ter como regra jamais tirar fotografias, e nem mesmo fazer anotações ― e olha que ele escreve bem. Agora, eu me identificava. Além de não escrever sobre, também não imprimi as fotos da Espanha.

Já venho postergando a impressão de fotografias há mais de ano. Sempre acho muito caro, para algo tão disponível no onipresente computador. Aliás, as tais fotos, desta última viagem, mostrei para algumas pessoas no meu netbook-de-um-quilo. Mas fiquei em dúvida com relação ao efeito de abri-lo no restaurante, interrompendo a conversa do grupo: talvez eu estivesse reproduzindo demais a cena de sacar da bolsa aqueles álbuns de fotos pesadões, que assustavam mas pelo menos podiam ser folheados displicentemente pelos amigos. Pior, pode ter ficado parecido com as antigas sessões de slides (nossa, põe antiga nisso).

Mas voltando às impressões de fatos e fotos, nestes tempos em que imperam a concisão e a rapidez, uma frase de impacto tornou-se indispensável para fisgar a atenção da audiência ― o que vale também para narrativas de viagem. A rapidez, confesso, não me atrai tanto como no passado, mas a busca da concisão é sempre um bom desafio. Pois, mais de uma vez, flagrei-me pensando sobre a minha impressão da Espanha. Veja bem, não “as impressões”, mas “a impressão”.

Claro que isso é pretensioso. Mas, quando pisamos pela primeira vez em uma grande cidade europeia, não há meio termo: ou você dá sorte de tropeçar em uma experiência inusitada/emblemática ou cai no lugar comum de uma sessão de slides. A propósito disso, lembro da decepção da minha amiga quando, no último dia da viagem, encontrou uma preciosa lista de “dicas” de Madri esquecida no fundo da mala. Teríamos perdido a oportunidade de conhecer algo sensacional e escondido? Nada disso. A lista, feita com esmero por alguém que acabara de voltar da Espanha, reproduzia ipsis literis os lugares obrigatórios dos guias turísticos.

Aqui é hora de admitir que, sim, tínhamos feito os mesmos programas. De todos os turistas. Mesmo assim, pensei, eu poderia acrescentar o meu olhar para tornar interessante um relato de viagem. Poderia, por exemplo, escrever sobre como fiquei impressionada com o Museu do Prado; sobre a sensação de descobrir que obscuros recantos da alma humana eram acessados somente por artistas do passado; sobre pensar em onde escondemos hoje sentimentos assim tão pungentes; e se a desculpa da rapidez e da necessidade de concisão nos ajudaria a camuflar ou esquecer a nossa sombria natureza em comum com esses antepassados, permitindo-nos apenas alguma emoção diante de uma pintura imponente em um museu.

Mesmo assim, eu corria o risco de parecer óbvia, até pretensiosa, querendo falar de arte, leiga que sou. Além do que, estaria omitindo outras impressões ― dessas que impregnam os sentidos e ficam incutidas na memória ― menos exuberantes. Porque nossos sentidos (visão, audição, olfato, gosto e tato) não querem saber de motivações intelectuais, eles se atêm a banalidades. A verdade é que a primeira palavra que me vem à mente hoje, quando penso em Madri, é: poeira. Comia poeira sempre que saía do meu hotel bem localizado, no Centro, onde a prefeitura promovia imensas obras sem tapumes, com operários quase esbarrando nos pedestres, e o clima seco só tornava a experiência mais penosa.

Foi assim que comparei Madri com a Berlim que conheci como um grande canteiro de obras, poucos anos após a derrubada do Muro. Mas não me recordava de ter sofrido tanto com aquele transtorno, talvez porque o governo local fazia dele um acontecimento, com direito a passeios de barco para apreciar os gigantescos guindastes em ação, mostrando os projetos em andamento, e dessa forma os turistas se sentiam parte da história de reconstrução da “nova” capital alemã.

Novamente meus sentidos cismaram de encontrar semelhança entre Madri e Berlim, tão diferentes na essência, quando ia atravessar uma avenida, e fui atraída por pios de pássaros que vinham do sinal de pedestres, programado para alertar deficientes visuais. Na Berlim pós-Muro, o “homenzinho do semáforo” ― ora verde, ora vermelho, mas sempre de chapéu ― tornava-se então cult, e era adotado na sinalização da parte ocidental, além de enfeitar todo tipo de souvenir. Pelo menos na época, tratava-se de um símbolo da integração, que guardei com encanto em algum lugar da memória, aguçada novamente pelos pios de Madri.

Os barulhos e os cheiros de uma cidade inquietam os visitantes, talvez porque jamais farão parte de um álbum de recordações. Em Madri, era impossível ignorar o forte odor de cigarro nas ruas de pedestres totalmente vazias, à noite, com o comércio já fechado. De Bangcoc, jamais vou esquecer o cheiro nauseante de gordura e temperos vindos de barraquinhas que fritavam quitutes, devidamente listados como temerosos em guias turísticos.

Tudo fica mais fácil (para o viajante atrás de certezas) quando se consegue identificar a origem dos cheiros e barulhos. Em Budapeste, porém, passei quatro dias intrigada com as sirenes ― de ambulâncias e carros de polícia, creio, já que é impossível ler os letreiros em húngaro. Pelo menos para a sensibilidade de meus ouvidos, havia sempre uma viatura apressada pelas ruas. A minha curiosidade, no entanto, não parecia sensibilizar mais ninguém: era como se as sirenes fossem casuais para todos; repetiam-se apenas em minha mente paranoica. Mistério.

Mas nada se compara ao registro deixado por uma experiência extrema com um clima diferente do nosso. Há poucos dias, numa Ipanema surpreendida por uma onda de calor em plena primavera, pude observar gringos saindo da praia com a marca indelével de sua viagem. Com certeza, jamais esquecerão o dia em que pegaram uma queimadura daquelas, na cidade maravilhosa e escaldante, e mesmo assim contarão essa história com saudades, depois que a pele estiver branquinha novamente. Não será diferente dos brasileiros que costumam se gabar de quando tiveram os sapatos enlameados pela neve imprevista, sem disfarçar o prazer de ainda ter uma sensação do passado tão vívida na memória, e poder usufruir dela com os pés quentinhos, plantados em seu país tropical.

Quem sabe, em vez de ignorância, não é o desejo de guardar uma forte impressão que leva os viajantes a desafiarem o clima de um lugar desconhecido. Em Londres, por exemplo, apesar das manjadas histórias sobre suas hostis condições climáticas, consegui amealhar uma recordação assim em um início de outono. O “mico”, não por acaso, envolveu um cartão postal: sem táxi por perto, tive que atravessar a London Bridge depois de um jantar, para pegar o metrô. Claro que eu estava com uma roupa inadequada para a chuva que começaria a me açoitar logo no começo da ponte. Quando finalmente sentei no vagão quentinho, a surpresa: a roupa encharcada tinha secado em questão de minutos. Inesquecível.

(Publicado no Digestivo Cultural em 13/11/2009)

8 de Outubro de 2009

Ipanema 2000

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 18:15

Não basta chover para faturar. Dia bom, ele explica para o colega, é quando o tempo engana: sol ameaçando sair, e a mulherada já coloca sandália. Aí vem a chuva, rasgando. Se parar um pouco, e o chão secar, ele nem liga. Aproveita para tomar um lanche. É o intervalo para chegar gente desprevenida, que quando sair toda embecada das lojas, dos consultórios, dos escritórios, vai ficar amontoada na porta da galeria. Pensam que vão esperar a chuva passar, mas esperam nada. Acabam comprando na mão dele, só dez reais para não encharcar o terno, não estragar o penteado, não ficar resfriado à toa.

A roupa dele é tipo uniforme, para sobressair. Vai para a chuva, em frente à marquise, e fica ali, confortável, mostrando que o guarda-chuva protege mesmo. A bermuda e o tênis brancos, além de ficarem bem em negão, combinam com o guarda-chuva prateado, do gosto da freguesia masculina e feminina. Antes, tinha que ter da cor preta e também estampadinhos, e as senhoras ficavam escolhendo a cor, era um problema. Agora, na hora que a chuva aperta, vende três de uma vez, as notas entre os dedos, para dar troco fácil.

Uma mulher já de guarda-chuva o aborda, mas eu não consigo entender o que diz. Aponta para outra, mais nova, de tamanco e short, na porta da farmácia. Que roupa, penso eu, para um dia de chuva. O vendedor vai até lá, resgatá-la. Na hora de abrir o guarda-chuva, nada de sacudir antes, que isso é coisa de mercadoria ruim. Ele abre com vontade, para provar que funciona de primeira, e a jovem sai dali aliviada, driblando as poças, com a sombrinha nova.

Se amanhã fizer tempo bom (ou seria ruim?), ele nem esquenta. Depois de uma chuvarada assim, estará no mesmo posto, com outro produto imprescindível: uma raquete elétrica, última novidade para fulminar os mosquitos.

6 de Agosto de 2009

Sarney me persegue

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 11:03

Não, hoje não quero ser mal-humorada. Gostaria de escrever algo leve, engraçado, curioso. Não sobre o Sarney nem a crise de absurdos no Senado.

Resisto, divago, busco um assunto. Em vão. Só me ocorre Sarney e Sarney. Lembro que é quinta-feira e vou ler a coluna do Luis Fernando Veríssimo. Ele conseguiu, grande Luis Fernando. A crônica, obviamente deliciosa, é sobre bichinhos de estimação.

Penso em imitá-lo, na maior cara-de-pau. Vou falar da Tatá e da Fifi. Não há qualquer indício de que nossos jabuti e peixinho de aquário sejam fêmeas, mas para a minha filha, até prova contundente em contrário, qualquer bichinho fofo é “menina”. Ela bem que faz campanha por um cachorro (provavelmente cadela), mas não sou de fazer todas as suas vontades.

Já o Sarney… Sabe como é, família grande e unida. A família Sarney é dona do Maranhão, do Amapá, do Brasil. Com tantas terras, dá para ajudar todo mundo. Até o namorado da neta, “que recebe elogios dos seus chefes ” (por que será), foi gentilmente contemplado. “Não existe o pedido de uma neta que qualquer um de nós deixe de ajudar”, lembrou ontem o avô bondoso.

Ops, ia esquecendo a minha determinação. Não me deixarei consumir pela indignação e pela ira, não hoje. Quero começar bem o dia, portanto preciso encontrar um assunto banal, seguro, que não desperte sentimentos extremos, como aqueles que buscamos diante do interlocutor desconhecido numa sala de visitas.

Já sei, o tempo. Perfeito. Nada funciona tão bem, nessas ocasiões, como algum comentário em torno do clima. Ainda mais em um inverno tão chuvoso, índices pluviométricos nas alturas, quem sabe reflexo do aquecimento global. Um bom cronista saberia discorrer, por parágrafos, sobre as peças que a meteorologia nos pregava no passado, e como as previsões melhoraram nos últimos anos.

Eu, por exemplo, sempre olho a previsão do tempo no jornal, antes de colocar o guarda-chuva na bolsa. O problema é que, até chegar lá, acabo folheando as páginas de política, e vendo o Sarney se gabar de nunca ter processado jornalistas. Quê? Mas ele já moveu várias ações na Justiça! Na época da ditadura chegou a colocar um deles na cadeia!

Desisto. Não vou conseguir. Quem sabe amanhã tento escrever sobre futebol.

28 de Julho de 2009

Escrever pode ser uma aventura

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 14:21

Eu poderia começar dando uma fórmula para se escrever bem (ler bem), ou contar que nunca tenho “brancos” diante da tela vazia (o impasse vem depois). Seriam boas aberturas para um texto relativamente longo, com mais de 6 mil caracteres, e provavelmente fisgaria leitores no primeiro parágrafo, como aprendi a fazer em muitos anos de jornalismo. Assim seria até pouco tempo atrás, antes da tal crise dos 40 anos me pegar e eu perceber que não conseguia mais me realizar fazendo apenas o que já sabia fazer. Especialmente se tratando de algo tão vital, como o ato de escrever é para mim.

Por isso vou ousar fisgar você, leitor, aqui no segundo parágrafo. Para fazer o que estou aprendendo a fazer agora. Lançarei mão também de algo recente em minha vida de escrevinhadora: contar uma história pessoal. Ela começa com um telefonema de minha filha, às voltas com as primeiras redações na escola.

― Mãe, precisei escrever um texto hoje, mas fiquei concentrada demais, e quando vi era a única da classe que ainda não tinha acabado.

Era um preâmbulo. O fecho viria a seguir:

― No final da aula, a professora chamou a atenção da turma e leu a minha redação lá na frente. Disse que estava ótima, que eu posso ser uma escritora quando crescer.

Imediatamente meus olhos se encheram d’água. Sim, eu também tinha vivido aquela mesma cena, só que com 10 anos, e não com 9. O arrepio foi mais intenso pela forma como ela se descreveu naquele episódio, “concentrada demais”, ainda sem conseguir identificar os sentimentos de engajamento e paixão absolutamente essenciais para um texto ficar “ótimo”.

Na semana seguinte, em um evento na escola, a professora veio elogiar a habilidade de minha filha, e aproveitei para tirar uma dúvida: ela por acaso sabia que eu escrevia, que era jornalista? “Não!”, se surpreendeu. “Então está no sangue!”, emendou.

Só que eu não acredito nisso. Mas posso imaginar, sim, que eu tenha despertado nela alguma paixão pela palavra escrita ao ler em voz alta, empolgada que estava com a redescoberta da literatura infantil, ou quando me esmerei em encontrar significados para a expressão de um livro. “Mãe, o que é estar solitário?” É provável que numa dessas respostas ela tenha vislumbrado a aventura de se embrenhar no universo das letras, e nele identificar e expressar sentimentos recém-descobertos. “Já me senti solitária”, é provável que tenha concluído. “Poderia ter escrito aquilo.”

Não por acaso o impulso de escrever, e desnudar emoções, costuma acontecer com os primeiros versos da adolescência. Os poemas acabam no lixo (quase sempre o lugar certo para eles), e os adultos que continuam no ofício aprimoram seu estilo com a técnica e a sensibilidade de quem sabe amadurecer e ler bons livros. O problema é que o tal impulso primordial, a faísca que provoca todo o processo, muitas vezes é relegado a segundo plano, como se algo adolescente fosse. Nessas horas, uma boa crise da meia-idade (nova adolescência?) pode ajudar a colocar as coisas no lugar.

Percebi, na crise, que dominar a escrita é apenas o começo. A realização está em deixar a sua marca pessoal. E para se escrever algo realmente original é preciso estar com o coração inteiro. Mesmo diante de uma encomenda, tem-se que descobrir uma linha de pensamento própria, um raciocínio baseado na experiência assimilada ― e aí vale ler, pesquisar, trocar ideias no botequim com um amigo inteligente. Deve-se provocar o insight. No jornalismo, existe o grande privilégio de buscar (e conseguir) as melhores fontes, poder submeter suas ideias a quem já domina aquele assunto. Em compensação, haverá as amarras do texto jornalístico tradicional, mais impessoal ― que mesmo assim você poderá aprender a subverter, graças ao domínio da linguagem e das ideias.

Quando escrevo uma reportagem ou um perfil, daqueles em que me engajei de fato, raramente olho minhas anotações. Elas servem no máximo para alguma checagem final, porque o texto já está praticamente estruturado na minha cabeça. Existe um momento em que percebo: cheguei lá, a matéria existe. Tem uma essência, e eu acredito nela. Nessas alturas, fiz alguns links entre parágrafos mentalmente, e é provável que tenha pensado em um lead (abertura) no chuveiro ou correndo na esteira. É sentar e escrever, “concentrada demais”, esquecida da vida, certa de que sairá da melhor forma possível (se o prazo não tiver ficado absurdamente curto).

Passei a observar esse processo interno de criação depois que um colega me perguntou se eu fazia uma estrutura prévia para escrever uma matéria com muitas fontes, já que tudo parecia tão encadeado. Contei que o texto saía pronto, mas talvez tenha passado a falsa impressão de algo fluido e fácil. Raramente é. Há momentos de sofrimento, de cansaço, em que é preciso dar uma parada, tomar um café, se possível continuar no dia seguinte. Um bom lead precisa dormir uma noite no computador para acordar tinindo. No caso dos livros que escrevi sob encomenda, todos jornalísticos, a imersão beirou a loucura na reta final, a ponto de eu sonhar com capítulos inteiros e descobrir soluções de madrugada.

Depois que saí da rotina de jornal diário ― quando momentos de privacidade e prazos mais flexíveis se tornaram possíveis ―, descobri alguns truques para aperfeiçoar a escrita. Ler em voz alta, por exemplo, pode ser de grande ajuda. Outra dica é aprender a valorizar o ato de reescrever. Escrever é reescrever. Escrever é reescrever. E a repetição não é minha, é do escritor Moacyr Scliar, no livro O Texto, ou: A Vida ― Uma trajetória literária. Aliás, o último conselho ― talvez o mais importante ― que sempre dou a estudantes de jornalismo é: leia bons livros. Um romance lapidado por um escritor de primeira, além de ótima companhia, é uma influência fundamental. E ajuda a compensar as leituras triviais do dia-a-dia, como a notícia apressada do jornal e o post coloquial do blog preferido.

Só não vale ficar intimidado pelos gênios, e se deixar bloquear. Já fui muito perseguida pelo terror de estar imitando meus autores preferidos, ou mesmo o escritor que no momento me deslumbrava com sua obra. Abandonei minhas pretensões literárias na adolescência por conta dessa autocrítica acentuada. Hoje percebo que essas influências são sempre benéficas, especialmente quando múltiplas. Desde que o mandamento número 1 seja preservado: escrever com o coração inteiro. Com engajamento, empolgação, paixão. Concentrada demais, mesmo que a turminha em volta jamais compreenda a intensidade de sua aventura.

(Publicado originalmente no Digestivo Cultural, especial “Como se escreve“)

30 de Junho de 2009

Palavras que explodem no chão

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 17:28

O papo on-line corria solto, a partir de um link qualquer sobre “monetização” de blogs. Um participante do grupo, fazendo piada sobre o próprio desempenho como blogueiro empreendedor, revelou ter obtido por meio do AdSense um fabuloso lucro de US$ 0,57, o suficiente para comprar uma carteira de Derby. Um de seus interlocutores, provavelmente não fumante, sentiu a necessidade de uma comparação mais próxima, e lembrou que daria também para adquirir um pacote de estalinhos.

“O que é estalinho?”, perguntou o blogueiro fumante, fazendo desaparecer subitamente o tom jocoso da conversa. Eu, que às vezes me sinto infiltrada no grupo de colaboradores do Digestivo, entre tímida e ocupada demais para participar, percebi a enrascada de quem tinha feito a comparação. Como você, leitor que sabe o que é um estalinho, faria uma descrição rápida e por escrito do que se trata?

No impulso, o não fumante foi explicando: “Ah, é um trem que a gente joga no chão…” Aqui a interrupção é minha. Um mínimo dos vocábulos usados no Rio e em São Paulo eu domino, porque morei nas duas cidades. Em assuntos relacionados ao universo infantil, considero-me quase especialista, já que presenciei a transformação de “bexiga” em “balão”, “escorregador” em “escorrega” e “bolacha” em “biscoito” no ainda parco vocabulário da minha filha, na época da mudança. Estalinho, eu poderia garantir, faz parte de ambos os idiomas, “paulistês” e “carioquês”. Mas nenhum paulista ou carioca se referiria a um artefato do tamanho de uma ervilha como a um “trem”. Pelo visto, os domínios do estalinho eram maiores do que eu imaginava, deviam chegar também a Minas Gerais.

Enquanto eu tentava buscar no cérebro registros de “trens” pequeninos além-Minas, para não rotular precocemente o não fumante de mineiro, um outro participante do grupo colocou mais ruído na conversa. “Acho que estalinho é o mesmo que biriba em São Paulo”, arriscou. Teria saído da festa junina e foi parar no carteado, confundindo as brincadeiras? Ou eu estaria enganada dessa vez? Uma busca rápida no Aurélio confirmaria que o outro nome dado ao biriba é buraco, e não estalinho. Mas acabei fazendo nova descoberta: além do jogo de cartas propriamente dito, biriba é também o nome do morto.

O nome do morto??? Sorte eu não ter entrado na conversa para explicar que biriba pode ser o morto do buraco. Já pensou a confusão, se o jogo só for conhecido assim no Rio? É verdade que o “carioquês” costuma ser bem compreendido em outros estados, provavelmente por conta das novelas da Globo. Mas daí a correr o risco de precisar esclarecer, em poucas palavras, o que é um jogo de buraco ou pacote de estalinho, sem direito a nenhuma mímica… Pois o Aurélio consegue, com pouca concisão. “Biriba: cada um dos montes de cartas que os parceiros que primeiro descartam as suas tomam para continuar o jogo, sem o quê não podem bater. Morto.” Pela primeira vez me dei conta de como deve ser difícil a vida de um dicionarista. Não dava para culpar o provável mineiro por dizer que estalinho era um trem: como é difícil achar as palavras exatas para explicar algo tão simples!

Como ele ia dizendo, estalinho é um trem que a gente joga no chão e, continuou, “…explode, fazendo um estalo. É assim que a gente chama aqui no Amapá.” Outro equívoco desfeito: apesar de recorrer ao “trem”, o não fumante tampouco era mineiro.

Confesso que, nessas alturas, estava deliciada. Sou totalmente fascinada pelos regionalismos que separam e unem o nosso país. Por trás de cada expressão que nos causa estranhamento, está uma riqueza cultural a ser explorada, palavras nada aleatórias que revelam um pouco da história daqueles brasileiros ― tão diferentes, tão parecidos. E a aventura desse encontro dispensa agora longas jornadas de ônibus, passagens caríssimas de avião etc. Está tudo aqui, bem vivo, na internet, em bate-papos de gente que é amiga mas curte os festejos juninos de forma diferente. No final, todo mundo se entende.

O trem, por exemplo, não atrapalhou. A explicação do amapaense foi suficiente para o blogueiro fumante e pouco “monetizado” entender o estalinho. “Saquei. Em Recife é traque de massa e aqui em Brasília eu não me lembro.” Traque de massa. Bárbaro. E eu me achando muito culta com meu limitado vocabulário Rio-São Paulo. No dicionário, finalmente, decifro a charada inteira. Com as festas de São João tão próximas, vale a pena anotar. “Estalo: artefato pirotécnico, assim chamado porque dá um estalo quando arremessado contra um corpo duro.” No Norte, é conhecido também como troque; em Alagoas, traque de chumbo; na Bahia, traque de massa; e no Rio haveria uma segunda denominação, de chumbinho (nunca ouvi falar).

Para quem não se encanta com o assunto, como eu, e acha que os transtornos na comunicação superam a curiosidade de encontrar expressões inusitadas aos nossos ouvidos regionais, vale lembrar que a confusão só vai aumentar. Tudo indica que, com a padronização do português, e seus reflexos em iniciativas editoriais, teremos muito mais contato com expressões lusitanas. Antes de reclamar pela enésima vez da tal unificação, vejamos o lado positivo: com um pouco de paciência, teremos muita diversão pela frente.

(Publicado originalmente no Digestivo Cultural)

10 de Junho de 2009

A mula, o padre e o deus menino

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 19:12

Ela chega da escola com um arzinho triunfante. Dessa vez, iria conseguir impressionar os adultos. Não seria igual ao dia em que exibiu seus conhecimentos sobre os índios tamoios, nem quando revelou saber o nome dos ossos do esqueleto. O desdém dos pais estava com os minutos contados.

O novo assunto, aprendido naquela tarde, parecia ser daqueles totalmente ignorados por adultos. Não iriam fazer correções nem ficar acrescentando coisas.

- Estou fazendo um trabalho de grupo sobre a mula-sem-cabeça, para o dia do folclore – e foi erguendo as sobrancelhas, orgulhosa. - Sabia que a mula solta fogo pelo nariz? Para ela voltar a ser mulher tem que tirar um ferro que fica bem aqui – e arreganhou as narinas.

Pronto. A mãe era toda ouvidos.

- Então a mula é uma mulher?

- É uma mulher que casou com um padre – explica, didaticamente, tentando também atrair a atenção do pai, no computador.

- Mas padre não pode casar, filha.

- Não? Por quê?

- Sei lá, é como se ele já fosse casado com deus, e tem que cuidar do seu rebanho, essas coisas de igreja.

- Mãe: deus é menino, então não pode casar com padre, que também é menino – afirmou a garota.

A mãe suspirou.

- Olha, às vezes meninos casam com meninos, e meninas com meninas. Não é o mais comum, mas acontece, quando homem gosta de homem e mulher gosta de mulher.

A garota arregalou os olhos. Já ouvira falar daquilo, mas tinha esquecido.

- Mas aí não pode ter filho, né?

- Não. Quer dizer, outro dia li que duas mulheres fizeram uma inseminação… Bem, é complicado ter um filho natural, mas o casal pode adotar…

Como aquilo estava ficando chato, ela rapidamente voltou à aula de folclore:

- Sabia que a mula não consegue enxergar direito, e só vê as unhas e os dentes das pessoas? Então, quando tiver uma mula-sem-cabeça por perto, você precisa fazer assim.

A menina grudou os lábios e cerrou os punhos. A mãe deu uma risada. O pai já olhava de soslaio.

14 de Maio de 2009

Sem história para contar

Arquivado sob: Viagens, Crônicas — Marta @ 17:59

Foi por pouco. Eu estava em Puerto Varas, no Sul do Chile, quando a terra tremeu na capital Santiago, de onde tinha saído na véspera. Que azar. Quase tenho uma boa história para contar na volta.

O motorista só comentou sobre o terremoto por acaso, pois o nosso destino era um vulcão e os passageiros pareciam estar atrás de alguma emoção. “Quando há um tremor, a gente logo identifica quem é brasileiro”, zombou. “São os que saem correndo.” Depois do susto, quase emendei, eles retornam ao Brasil com uma ponta de orgulho. Afinal, viveram uma dessas aventuras internacionais, daquelas de espalhar para a vizinhança.

O chileno tem certa razão, o brasileiro é mesmo engraçado. Vive reclamando das próprias mazelas, mas quando o assunto é nevasca, furacão, terremoto, a tragédia é tratada com solenidade, como se, nesse caso, pairassem ali os desígnios de deus. Ou seja, bem diferente da enchente provocada por bueiro entupido, culpa das autoridades e dos mal-educados que jogam lixo no meio da rua, ô povinho.

Claro que não é bem assim, mas já que estamos falando do tal brasileiro típico em viagens… “Na nossa última vez em Nova York levamos uma mala vazia só para as compras, não é, benhê?”, diz a brasileira no banco de trás. É a senha para o marido dar pormenores sobre a configuração do Mac, que dividiria espaço com as roupas de grife, na tal mala extra. Caramba, será que sou a única brasileira que não gosta de fazer compras quando viaja?

Sem histórias de compras para compartilhar, fixei-me no vulcão, que se aproximava. Pelo menos era o que o motorista nos garantia, já que uma imensa nuvem persistia em seu topo, alcançável apenas por escalada. “Um casal de brasileiros já morreu tentando chegar lá”, ele avisa. Será que continuava zombando?

O fato é que teríamos que nos contentar com as histórias das lavas no caminho – essas sim, visíveis, no relevo bastante exótico aos nossos olhos tupiniquins. Acabamos retornando ao hotel sem grandes histórias para contar. Nenhum tremorzinho, uma erupçãozinha, nada…

***

Em tempo: o tal vulcão era o Osorno, e não recomendo o passeio em maio!

29 de Abril de 2009

Amor à última vista

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 19:01

O esbarrão foi de verdade, pois os dois estavam mesmo distraídos. Aliás, eram distraídos. Ele já estava com o sorriso armado para pedir desculpas, antes de perceber o quanto era bonita. Ela não tinha o hábito de ser tão simpática, não sorriu naquele instante, mas algum brilho nos olhos denunciou a taquicardia. Ficaram ali, paralisados, e o fato de ele estar acompanhado de uma criança, e ela ainda fumar naquele tempo, pareceu não importar.

Foi assim, mágico, no começo. Agora ela ficava no computador, noite adentro, escrevendo e-mails intermináveis, imaginando-o a lê-los com uma taça de vinho na mão. Mas as respostas não vinham, as amigas a consolavam e ela ainda precisava conter a vontade de se enfurnar em salas de cinema, com caixas de lenços na mão, para ver comédias românticas e tolas. Logo ela - que patética havia se tornado.

Ele esqueceu mais rápido, pelo menos foi o que todo mundo pensou. Reparava em mulheres parecidas com ela na rua, e por isso recebia olhares de volta, mas acabava desviando a vista - quase um otário. Quem sabe esperasse por outro esbarrão, que colocaria tudo no lugar. Mas isso já não era possível, e ele era um sujeito prático, odiava sentimentalismo e chegou a pensar que ela fosse parecida nisso, antes de começar a receber aqueles e-mails cheios de acusações absurdas.

Aquele amor ficaria esquecido para sempre, exceto por uma ocasião em que ela fez um balanço de suas paixões, conversando com a prima mais nova. E exceto também pela vez em que ele bebeu demais com o seu amigo mais sentimental. Foi quando ambos contaram como deixaram passar o grande amor de suas vidas.

28 de Abril de 2009

Simplesmente feliz

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 18:38

A sensação pode durar segundos. Sim, tudo isso. Do nada, surge um sentimento de plenitude. Você está inteiro, se sente vivo e integrado àquele momento. Ao mesmo tempo, consegue contemplar a si próprio e ao mundo com certo distanciamento, como se estivesse em suspenso. Está cheio de si, mas sem o orgulho bobo das conquistas mundanas ― tanto que nem lhe ocorre exibir aquela emoção para ninguém. Você guarda em segredo: está feliz.

Aproveite a minha modesta tentativa de descrever o tal momento e desencave do fundo da memória o instante fugidio em que se sentiu assim. Passou, é verdade, e nem lembramos como foi. Provavelmente nos distraímos com uma buzina, uma interrupção qualquer, e nem tentamos guardar um resquício daquela emoção, como se tivesse sido um sonho. Não foi. Todos já nos sentimos assim e por isso andamos por aí como se a tal felicidade estivesse à espreita, alcançável por um lance de sorte, acaso ou destino ― a gosto do freguês e das convicções filosóficas.

Uma dessas ocasiões eu guardei bem na memória, porque a sensação veio junto com uma lufada de ar quente. Eu descia do avião no Santos Dumont, no Rio, antes dos abomináveis fingers de hoje. Tratava-se de uma rotina ― o tal instante de felicidade cisma de aparecer em situações banais. A lufada veio junto com o cheiro de maresia, e ainda era dia; talvez fosse horário de verão. Uma entrevista burocrática em São Paulo acabara se transformando em uma conversa instigante, e me ocorreu, naquela viagem de volta, a máxima: “e ainda me pagam pra isso”. (…)

(Continue lendo no Digestivo Cultural)

22 de Abril de 2009

Vida louca vida

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 17:50

Meus próximos dez dias serão uma loucura. Não vou ter tempo para nada nos próximos dez dias. Não me convide para almoçar, nem tomar café, nos próximos dez dias. Não vou me permitir ler um poema curto, que dirá avançar as páginas do meu romance, nos próximos dez dias. Tenho que seguir o cronograma a risca, ter produtividade total, nada poderá dar errado na minha agenda dos próximos dez dias. Não será possível ficar resfriada, torcer o pé, brigar com o marido, fazer cafuné, comprar vestido; até os congestionamentos e uma festa de aniversário terão hora para começar e acabar nos próximos dez dias. Como vocês podem ver, serei a pessoa mais importante do mundo, tão indispensável a mim mesma, que não posso morrer nem viver nos próximos dez dias. E quando eu chegar lá, no décimo dia, poderei enfim descansar, desfrutar da sensação do dever cumprido e ter a certeza de que vivi a vida de outra pessoa, crente que era a minha.

25 de Fevereiro de 2009

O bloco das mijonas

Arquivado sob: Rio, Crônicas — Marta @ 17:21

Muito se falou dos mijões do carnaval carioca. Enfileirados, voltados para muros e árvores, eles foram flagrados às centenas pelos repórteres fotográficos de plantão, com a impossível tarefa de tentar captar o insuportável cheiro de urina deixado pelos blocos nos quatro dias de folia.

(Aqui, um parêntese. Tempos atrás, quando o carnaval do Rio restringia-se a bailes e sambódromo, passei o feriado em Salvador e constatei o mesmo problema fedorento. Só que lá ninguém falava disso. A atual indignação com os nossos mijões só reforça a minha teoria de que no Rio as pessoas exercem mais sua cidadania do que em qualquer outro lugar do país. Mas tem um detalhe: eu posso criticar; você, turista que veio para cá, trate de tapar o nariz e elogiar a paisagem)

Pois bem, os mijões-foliões marcaram seu território, ignoraram banheiros químicos plantados no meio das calçadas e ajudaram a engrossar o bloco dos descontentes com o fenômeno da volta do carnaval de rua ao Rio de Janeiro. Mas, enquanto isso, como se viravam as mulheres, principal atração de qualquer carnaval que se preze?

Errou quem achou que elas, por razões culturais e históricas, aprenderam a conter suas necessidades fisiológicas – e fazer xixi só em casa. Errou também quem apostou que as mulheres bebem menos cerveja que os marmanjos: faz tempo que se igualaram ou até superaram o ritmo etílico masculino. Continuou errando quem imaginou-as ocupando maciçamente os tais banheiros químicos, aproveitando para passar batom, enquanto os pobres coitados tinham que se aliviar na moita.

Nada disso. Longe das lentes dos fotógrafos, o bloco das mijonas se valia de alguns antigos – e novos – artifícios femininos para passar despercebido. Durante a folia, lançavam mão da conhecida capacidade de olhar perifericamente (a mesma para usada para aproximar-se de pretendentes e afastar-se dos inconvenientes) para localizar o provável banheiro limpinho mais próximo. Escolhido o alvo, ajeitavam cabelo e fantasia, adotavam a expressão mais sóbria possível e partiam determinadas, geralmente em duplas.

Foi almoçando em um restaurante com porta fechada e ar condicionado, bem próximo a um bloco, que pude observar as muitas estratégias de uma mulher determinada - e ligeiramente bêbada. A primeira dupla, humilde demais, ou desesperada de menos, foi logo despachada pelo garçom. Não, não podiam usar o banheiro. Mas a regra só valeu até a chegada de uma linda bailarina de collant preto e saia de tule amarela. Estava sozinha. Rosto de boneca, emoldurado por um coque ainda perfeito, olhos vermelhos, abriu um sorriso e jurou que depois sentaria e tomaria uma água. Em vez disso, saiu de lá com uma cerveja long neck na mão, três vezes o preço da latinha vendida pelos ambulantes.

A dupla seguinte não tinha a mesma classe da bailarina, mas era bem simpática. Uma de Branca de Neve, outra de anteninhas, entraram com latinhas na mão e mal conseguiam conter o riso. Hesitaram na porta, diante do ambiente formal, mas miraram o canto oposto e seguiram em passos firmes, sem olhar para os lados. Era o canto errado. Pior que isso, longe o suficiente do banheiro para serem interceptadas pelo garçom. As súplicas não foram convincentes, até porque ambas continuavam com expressão de quem está prestes a cair na gargalhada.

Como eu estava perto da porta, acompanhando a movimentação no até então pacato restaurante, o garçom explicou, sem jeito: “Se a gente deixa entrar, uma avisa para as outras e vira um inferno.” Quase me senti culpada por poder, a qualquer momento, levantar-me e usar o disputado banheiro. E eu nem estava apertada.

Com certeza o bloco carnavalesco começava a se dispersar, já que as investidas tornaram-se mais frequentes. O maitre passou a fazer guarda na porta. Mesmo assim, em um momento de distração, adentrou a mijona mais agressiva da tarde. Peruca “nega maluca” na cor azul, olhos vidrados, tentou localizar o banheiro antes de ser percebida no ambiente, inutilmente. Mesmo contida, continuava procurando o sanitário com os olhos, como uma viciada em crise de abstinência. Saiu falando alto: “Eu sei, eu sei”. O garçom me olhou novamente, como que se desculpando.

Depois tentei lembrar como eu me virava nos meus tempos mais carnavalescos, mas o máximo de recordação que me veio à mente foram os “plantões de porta”, em que as repórteres às vezes tinham que implorar por um banheiro de padaria. O crachá do jornal, no lugar da fantasia, devia ajudar.

18 de Fevereiro de 2009

Desejo

Arquivado sob: Femininas, Crônicas — Marta @ 16:01

Até os homens mais distraídos já notaram. Nos últimos meses, mulheres de todas as idades, credos e profissões têm desfilado por aí com dedinhos iluminados e petulantes, que parecem ter vida própria em mãos e pés comportados. Tudo por causa de Desejo, um esmalte vermelho “bem aberto”, que nem chega a engrossar no vidrinho da manicure, tamanha é a procura. “Só perde para o Renda”, me informa a mocinha do salão. Renda, para quem chegou agora, é um esmalte claro, tipo misturinha, usado há décadas pelas mulheres (nos momentos em) que preferem não chamar a atenção.

“Que horrível, parece cor de abóbora”, reage minha mãe, que no passado usava vermelhão “fechado”, mas com a idade rendeu-se ao Renda, com o perdão do trocadilho. “Que lindo, é Desejo, né?”, perguntam as amigas. Hummm… Quando a mãe censura, as amigas invejam e o carnaval se aproxima… Bem, eu apostaria que o Desejo vai bombar neste carnaval. Quem sabe o início de 2009 não ficará conhecido como o “verão do Desejo”?

Falei de homens desatentos em relação a esmaltes femininos, mas desconfio de sua inexistência. Uma mulher pode tosar o cabelo, usar vestido novo, fazer lipoaspiração, que o sexo oposto parece ignorar. Já unhas compridas e vermelhas, ou curtas e pretas, parecem atrair imediatamente o olhar dos namorados mais autistas e dos maridos mais aborrecidos. Muitos juram não gostar, mas os olhares hipnotizados cismam em trair suas convicções. Afinal, o que eles sentem em relação ao Desejo?

No fundo, pouco importa. Nada mais atraente que uma mulher com a autoestima em dia. E é isso que interessa.

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