8 de Abril de 2010

Estamos todos bem

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 23:26

É tudo verdade. Dessa vez, tia, não foi como aquele arrastão que a senhora viu na televisão, e que eu jurei que era um ângulo malicioso da emissora de oposição. A chuva desabou impiedosa mesmo, na praia dos ricos e no morro dos pobres.

O céu continua a inspirar respeito até nos menos crédulos. Não tenho lembrança de tempo tão instável. Como se os deuses estivessem a brigar, ou quem sabe a se divertir, temos o azul turquesa num minuto, sem sombra de nuvem, e no seguinte nossos guarda-chuvas são arrastados pelas rajadas que trazem chuva forte.

Mas estamos todos bem. Agradeço aos amigos pela preocupação, pelos e-mails carinhosos. Na primeira noite, quando tudo começou, eu saía de Laranjeiras, às oito da noite, e a chuva já caía há mais de hora. Quando alcancei o Rebouças, entre um túnel e outro, a pista estava vazia. Desde então, aprendi a suspeitar de trânsito bom: quando a poça não está à frente, é porque ficou para trás.

Naquela noite, imagino ter sido uma das últimas a conseguir passar pela Lagoa. Já em casa, todos os meus foram logo localizados por telefone. Tirando algum transtorno até chegar são e salvo em casa, nada grave se deu, e a saúde reina por aqui, muito obrigada.

Se hoje cato lençóis velhos no armário, meu primo, não é para uso próprio, mas para desabrigados que não conheço. Só a faculdade continua sem aula, por falta de energia. O estrago foi grande por lá. Não tinha falado da pós? Bem, bobagem falar disso numa hora assim, depois conto com calma.

É que há uma tristeza no ar. Sem falar no temor de mais chuva. Foi-se o tempo em que o sol no dia seguinte anunciava o fim da tempestade. E ainda há quem espere por ondas gigantescas vindas do mar. Os pessimistas de sempre se comprazem – parecem se sentir mais vivos. Nós, os otimistas, temos que ficar quietos, dar o braço a torcer, concordar que tudo pode acontecer neste Rio de Janeiro.

Mas não fique preocupada conosco, amiga. Não imaginava que essas trágicas imagens tivessem chegado tão longe, mas pensando bem o Rio sempre é notícia na Europa. A cidade vai se recuperar, e logo nos sentiremos seguros novamente. Se estamos seguros? Bem, nunca estamos totalmente, não é mesmo? O importante é sentir a nuvem negra mais longe dos nossos tetos.

30 de Março de 2010

Labuta

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:26

Tenho prazer de escrever receita, relatório, recado. Tudo quando precisa. Obrigação boa, sempre. Um dia estranharam, quando falei. Eu devia gostar só de escrever profundo, inspirado, juntando ideias complicadas.

Mas é que, assim, dá para brincar de procurar pela palavra sem pretensão, manusear as letras com o orgulho da labuta, e acabar o dia com o gosto do dever cumprido.

Tem sido assim nos últimos dias. Eu não reclamo. Ainda mais quando vem um dinheirinho no fim do mês…

23 de Março de 2010

Códigos

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:54

- Você pode tirar a ponta, tá?

Ela compreendeu imediatamente, mas deteve-se. Fiquei intrigada. Até então eu estava distraída, antecipando meus afazeres mentalmente. Aqueles segundos de hesitação da manicure, porém, me arrancaram do confortável mundo em que todos-entendem-todos-porque-tudo-já-está-combinado. Lembrei de ter relevado algum tremor na mão dela, apesar do medo de um “bife”.

Se você não é uma, digamos, “mulherzinha”, faço um parênteses para explicar os códigos até aqui: “tirar a ponta” quer dizer tirar o esmalte da borda da unha. Ajuda a não descascar. “Bife” é quando a manicure usa o alicate além da cutícula, e acaba machucando a pele, a ponto de sangrar mesmo.

Pois a minha necessidade de harmonia era tão grande que tinha deixado o medo da dor de lado, e fingi que não percebia a ansiedade da manicure. Isso até aquele momento, o de limpar a borda da unha, quando a minha manicure teve que perguntar baixinho para a colega ao lado:

- Aqui vocês tiram a ponta usando luva?

Ela ficou aliviada de poder tirar a luva das mãos finalmente. Era manicure há muito tempo, mas nunca usava luva - uma regra naquele salão de beleza. Era o seu primeiro dia no salão. Eu era a sua primeira cliente. Se eu não perguntasse, com toda a simpatia que não desculpava a minha distração, certamente não teria me contado. Desde o início, ela estivera hesitante com procedimentos, atrapalhada com o material (especialmente com a luva), e chegara a ser sutilmente repreendida por uma cabeleireira porque sua cadeira estava atrapalhando a passagem.

Ninguém a perdoava por não saber os códigos que ela não tinha a menor condição de conhecer previamente. Sua mão tremia porque também não esperava pelo meu “perdão”.

Não é apenas no primeiro dia de trabalho que costumamos passar por situações assim. Naquela manhã, eu havia pensando no assunto ao ler sobre os scanners instalados no aeroporto de Paris - aqueles que permitem ver o passageiro por debaixo das roupas. Imediamente lembrei de quando fui “sorteada” para passar pelo raio X antes de embarcar em Londres. Os funcionários não tinham a menor paciência para explicar exatamente como eu deveria me posicionar diante do aparelho. Era como se todos os passageiros tivessem a obrigação de já ter passado por aquilo, a ponto de qualquer sinal de desconhecimento ser identificado como suspeito.

Mas o “suspeito” pode estar de qualquer lado. O cúmulo da incapacidade de perceber o outro como “diferente”, alguém que não sabe os códigos aos quais você está acostumado, foi uma história contada pelo Julio Daio no Digestivo. Ao ser assaltado, ele tentou reagir como nos filmes, levantar as mãos, mas o ladrão exigia que soubesse mais sobre o assunto. Gritava “passa logo”, só que o Julio não sabia o quê. “Falou como se eu tivesse alguma ‘prática’ em assaltos (como ele, provavelmente, tinha em assaltar).”

O negócio é fingir saber todos os códigos - o da polícia e o do ladrão. Sem deixar a mão tremer.

18 de Março de 2010

Escrever salva

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:12

A tarefa na escola tinha tudo para dar vazão à conhecida crueldade infantil - não suficientemente domesticada aos 10 anos. Para fixar a gramática, cada aluno deveria dar um adjetivo para um coleguinha sorteado na lista de chamada. No mundo adulto, a dinâmica às vezes se chama “jogo da verdade”, e não é aconselhável para pessoas sensíveis…

O resultado poderia ser pior, mas, mesmo assim, a menina não gostou do que ouviu: “Quieta”. E olha que ela tinha usado “Divertido” para qualificar o seu sorteado. Primeira lição: generosidade nem sempre é paga com generosidade.

O problema é que ela estava cansada do rótulo de tímida, quieta e outros adjetivos menos profundos. A língua portuguesa é cheia de adjetivos lindos, sofisticados, mas nem os adultos costumam aplicá-los para definir uma pessoa em poucas palavras. Decididamente, a ideia da professora não fora das mais felizes.

Como a menina não é mesmo de muito falar, ficou apenas emburrada, sem saber como resolver aquilo. Até que a solução se mostrou, justamente na lição de casa: fazer uma frase para cada adjetivo mencionado em sala de aula. “Posso ser quieta no colégio, mas não sou em casa”, ela escreveu, triunfante. E foi jogar no computador.

Eu, que observo tudo, lembro dos dois últimos filmes que vi no cinema. Em “Preciosa”, a adolescente tratada pela vida como animal descobre sua identidade quando consegue escrever sobre si em um caderno, mesmo que precariamente. Em “O segredo de seus olhos”, um aposentado só consegue reconhecer o grande amor de sua vida quando escreve um livro sobre um amor alheio, que julgava ser o maior de todos.

Não, eu não sou “apenas quieta” (foram suas palavras). Não, eu não sou um animal. Não, o meu amor não é menor que o maior amor do mundo. Escrito, tudo fica mais claro.

8 de Março de 2010

Próxima parada

Arquivado sob: Cotidiano, Viagens — Marta @ 16:28

“A senhora já está no Rio”, me informa com um meio sorriso o atendente do check-in. Pela expressão simpática e condescendente, percebo o quanto é comum um passageiro chegar ao balcão da companhia aérea trocando o destino da ida com a volta. Será o estresse? A vontade de voltar? Sim, porque estamos falando aqui de quem viaja a trabalho, a cabeça nos afazeres, o corpo buscando pequenas compensações - a bordo, nos rituais de embarque e desembarque. A estes passageiros, o funcionário reserva seu sorriso mais cúmplice: estamos no mesmo barco, no mesmo avião, em atitude glamurosa mas revelando a cada gesto cansado a nossa humanidade.

Lembro-me da época de crise no setor aéreo, os atrasos constantes mandando para as cucuias os resquícios de glamour do passado. O fato é que mesmo assim, apesar do finger que não funciona e mantém os passageiros presos no avião por dez minutos, apesar da comida gordurosa e do taxista mal encarado, apesar da fila no banheiro, mesmo assim adoro estar em um aeroporto. Partindo, chegando, esperando.

Talvez tenha gostado do filme “Amor sem escalas” – que não ganhou nem um oscarzinho ontem – só por causa da cena inicial, em que George Clooney revela toda a sua intimidade com os esdrúxulos rituais das viagens de avião (especialmente nos Estados Unidos…). E é assim, dentro de um filme, que me sinto com a personagem que me aborda na sala de embarque. Trata-se de uma senhora com alguma idade, visivelmente deslocada, e me prontifico a ajudá-la quando me estende o cartão com o número do voo.

Se o portão de embarque ainda pode ser alterado? Sim, com certeza, respondo, já que o seu voo só partirá dali a três horas e meia. A senhora deveria se distrair um pouco, porque tão cedo o número não aparecerá no painel, é o que lhe digo, e ela parece compreender. Mas mantém-se ereta na cadeira, olhando o nada, aparentemente conformada. Quem se distrai sou eu, colocando os e-mails em dia, até perceber que a tal senhora está abordando outra pessoa, com a mesma pergunta. O portão de embarque ainda pode mudar?

Sempre pode. Podemos embarcar em muitos portões, e cada um deles nos levará a um destino diferente, todos eles fora da nossa rotina. Aquela senhora resistia – odeia sair da rotina. Quer a previsibilidade. Não vou fazer gênero e dizer que não gosto da rotina, logo eu que como sempre a mesma coisa no café da manhã. É o momento do dia em que sou mais resistente, e mesmo em um hotel distante tento achar uma opção parecida de desjejum.

Mas é só o começo do meu dia. No decorrer dele, uma luta interna se travará: a busca do familiar versus o anseio pela novidade, pelo acontecimento que mudará tudo o que planejei durante anos. Numa viagem – especialmente a de lazer, para um lugar desconhecido – sei que serei arrancada das minhas certezas emboloradas. Se o hábito é a morte em vida (experimentar é viver), finalmente entendo o meu comichão por planejar (um pouco) a próxima viagem. Qual será o portão de embarque? Não sei. Graças a deus.

1 de Março de 2010

O ano começou

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:14

Cena 1: O sujeito sabe (alguma coisa de) alemão e passa o filme todo repetindo as frases que compreende. Eu, que achava que nada podia ser mais desagradável do que alguém falando no cinema, descubro: há sim, alguém falando em alemão no cinema.

Cena 2: Em uma rua relativamente movimentada de Ipanema, o carro à sua frente resolve parar em fila dupla. Detalhe: já tem um outro veículo estacionado, também em fila dupla, exatamente do outro lado. Impossível prosseguir.

Nessas horas, custo a acreditar na situação. As pessoas fazem coisas assim, imagino, por não perceberem que existe alguém ao lado, atrás, em volta, convivendo com elas no mesmo planeta Terra. E quando a gente buzina ou fala “psiu” é estressado…

É, já estou quebrando minha primeira resolução de ano novo: não consigo ser zen, pelo menos no Rio de Janeiro.

19 de Fevereiro de 2010

Carnaval X cinema; nostalgia X tecnologia

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:49

Se até os amigos paulistas estavam gazeteando a tarde da quarta-feira de cinzas, não seria eu, a carioca com marchinhas na ponta da língua, que iria trabalhar. Afinal, foram quatro dias intensos, driblando blocos, rendendo-se a alguma folia e participando das intensas discussões sobre o xixi enquanto resíduo carnavalesco. Concluí: era dia de descansar no escurinho do cinema.

Mas a intenção logo esbarrou nas evidências de que o carnaval não havia acabado. No caminho para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, resquícios de confusão do “Me beija que eu sou cineasta”. Insistimos, subimos a Marquês de São Vicente, mas o carnaval cismava em perdurar: o portão do centro cultural estava fechado. “Só reabre amanhã”, me informou o porteiro, ignorando meu protesto pelo tijolinho equivocado no jornal.

Quem sabe “A fita branca” não estava passando também nos cinemas do Shopping da Gávea, ali pertinho? Corremos, afinal a promessa era levar as crianças à praia de noitinha, fechando o carnaval (que mania de querer acabar com ele). Em cartaz, porém, o único filme que ainda não tínhamos visto era “Nine”. Musical, argh, mas pelo menos com Daniel Day Lewis.

Depois de quase duas horas de projeção, no momento em que eu já admitia ter valido a pena, se o final não decepcionasse, o projetor pifou. As luzes acenderam. A plateia idosa ficou quietinha, esperando, até a funcionária garantir que não havia jeito. Sabem como é, numa quarta-feira de cinzas é difícil achar alguém para consertar.

Na fila para pegar o dinheiro de volta, tentei lembrar há quanto tempo algo assim não me acontecia. Parecia algo de décadas atrás, numa cidadezinha do interior - se eu já tivesse ido ao cinema no interior, o que nunca fiz.

Nostalgia semelhante havia me invadido dez dias antes, no mesmo complexo de cinemas - bem moderninho -, ao assistir “A princesa e o sapo” com minha filha. O desenho da Disney, à moda antiga, sem efeitos de computador, me parecia ter problemas de projeção. “O som não está baixo?”, sussurrei, mas ninguém parecia estranhar. “Será que sentei muito atrás no cinema?”, pensei, num esforço para compreender a sensação de estar vendo TV na sala de casa.

Só depois fui lembrar que era a minha primeira sessão de cinema após “Avatar”. Não é que a propaganda em torno da tecnologia revolucionária do filme de James Cameron faz sentido?

Pois é, mas o projetor sempre pode pifar em pleno carnaval (me rendi), transportando a plateia de Pandora diretamente a um cinema Paradiso do século passado…

***

Dilema: como saber o final de um filme mediano, sem precisar vê-lo inteiro de novo? Alguém aí viu “Nine”?

9 de Fevereiro de 2010

A vida offline

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:32

Começou por acaso. Não consegui configurar o e-mail no computador novo de forma a receber mensagens automaticamente. Deixei para depois, e passei a clicar em “enviar/receber” apenas quando esperava por algo ou me sentia solitária.

Foi assim que descobri a vida offline - não aquela em que se é tolido de qualquer instrumento de conexão, situação realmente sujeita a terríveis crises de abstinência. Refiro-me a poder escrever um texto sem o raciocínio interrompido a cada e-mail/spam. Poder se desligar do mundo lá fora quando convém, e voltar na hora em que brota a vontade, ou a real necessidade, marcada pela lembrança: ih, preciso checar minha caixa postal.

Claro que isso é perigoso no trabalho. É bom para mim, nem tanto para quem me procura. Mas que delícia. Agora estou pensando: devo mesmo me reconfigurar, pessoalmente, para estar tão online assim?

4 de Fevereiro de 2010

Ansiosa sim e daí?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:31

Ser ansioso é ser responsável e consciente. E ser responsável e consciente é algo bacana, para os outros, para a sociedade.

Ufa, já estou até menos ansiosa com essa notícia!

E vou parar de ficar ansiosa porque a minha filha é ansiosa e desse jeito ela não vai ser feliz, pois a felicidade exigiria um permanente estado zen. “Bobagem”, diria o psicólogo Jerome Kagan. “A ansiedade só será problema para quem acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua condição como problema. Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.”

Como todos sabem, eu não leio “Veja”, mas dona Candoca sim. E foi ela quem me mostrou a entrevista de Jerome Kagan nas páginas amarelas da revista. A matéria, na verdade, aborda de forma abrangente um de meus assuntos preferidos, psicologia infantil, e é um espetáculo de destruição de mitos.

O mais curioso é que o psicólogo faz isso com argumentos simples, nada técnicos, que beiram o bom senso. Viva o bom senso. E viva a ansiedade do bem.

27 de Janeiro de 2010

Gostar de obra?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:07

Sempre desconfiei de quem afirma gostar de obra. Como assim alguém gosta de obra? Com exceção de engenheiros, arquitetos e pedreiros, vamos combinar que uma pessoa não pode amar fazer uma obra, assim como só dentistas devem ficar entusiasmados com tratamentos de canal.

Para minha infelicidade, um novo vizinho do prédio, ainda de feições desconhecidas, é um desses excêntricos que declaram por aí – socialmente, em festas, como se fosse normal! – que adora uma obra. Veja bem, essas pessoas não curtem o resultado, a casa nova, modernizada, para exibir aos amigos. Elas juram que gostam mesmo é de ver tudo demolido, canos furados por engano, descobrir colunas que não constavam na planta, ver sacos de entulho saindo pela garagem.

Para eles, reforma boa é aquela que destrói apartamentos inteiros (com vizinhos enlouquecidos por todos os lados). À noite, sonham com tijolos, argamassa e latas de tinta. Ficam tão desolados quando finalmente as paredes se erguem que mandam derrubar tudo de novo, para recolocá-las em outro lugar. E eu embaixo…

18 de Janeiro de 2010

Lula, o filme sem boca a boca de urna

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:57

No final, nem eu vi o filme sobre o Lula… Explicações sobre o fiasco estão no Globo de ontem (clipado aqui) e algumas delas passam ao largo da questão política. Achei interessante especialmente a visão do diretor da Filme B, Paulo Sérgio Almeida:

- Nenhum filme sobre o Flamengo fez o público que se esperava, assim como filmes sobre Zico, Pelé ou a Seleção. Não se transfere o público dos estádios para os cinemas com igual proporção. Com a política, a lógica é igual.

Claro que se o filme fosse espetacular, e a estratégia de lançamento tivesse funcionado, o boca a boca teria nos impulsionado às salas de cinema, mesmo nas férias, mesmo não gostando (mais) do PT. Mas não foi o que aconteceu.

Um comentarista lá do Digestivo diz que sou ruim de previsões, com toda a razão. Por falar nisso, sabe qual é meu palpite para o Oscar? Brincadeirinha…

13 de Janeiro de 2010

Verão do yog-alguma-coisa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:43

Se no ano passado tivemos o verão do cone (leia-se temaki), este é o verão do sorvete de iogurte.

Sim, sei que não chega a ser novidade, e que o modismo é até importado. Mas, da minha modesta visão de quem observa as férias dos outros enquanto trabalha, nada bomba mais na zona sul carioca do que as tais sorveterias yog-alguma-coisa.

De vez em quando entro na fila (impossível uma sorveteria sem fila, com um calor de 40 graus) e presto a atenção nos idiomas. Nunca fui tão abordada por gringos (ou vendedores desesperados por uma tradução) querendo informações em inglês. E olha que o câmbio nem está favorável para eles.

Sei que isso vai parecer meio arrogante, mas às vezes me aborreço, quando vejo os meus lugares preferidos invadidos pelos turistas, fila para todo lado. Fico com saudades da baixa temporada, quando sou bem atendida e meu café preferido parece só meu. Será que vem daí o mau humor dos parisienses?

E lá vou eu, comparando o Rio com Paris, depois de ter feito isso com Nova York no post abaixo… Mas não deve ser por acaso. Acabo de ler no jornal que em 2016 teremos um nível de pobreza no Brasil abaixo dos 4%, mesmo índice dos países ricos, se tudo correr como o previsto.

Difícil conter o otimismo, o espírito ufanista. Mas o fato é que os indicadores da economia batem com o que vemos nas ruas. E eu que imaginava que o futuro do país do futuro nunca chegaria. Viva o verão do sorvete de iogurte.

9 de Janeiro de 2010

Manhattan emergente

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:03

Se é verdade que, no novo jogo de forças global, chegou a vez do Brasil, em contraposição à derrocada americana, a zona sul do Rio é a nova Manhattan. No verão do aquecimento - da economia e do clima -, Ipanema tornou-se um lugar efervescente. E caro.

Ouvem-se todas as línguas, na praia, no comércio, nos restaurantes. O comércio, por sinal, mal dá conta das vendas. Havaianas fazem a festa dos turistas. Os preços sobem, com a demanda. O metro quadrado no Leblon continua em alta, inacreditavelmente. Crise, que crise.

Mas não espere de uma Manhattan emergente o mesmo charme compacto de sua matriz americana. A diversidade interessante convive com calçadas mal acabadas, camelôs que fogem do rapa, lojas feias ao lado das descoladas, lixo nas ruas, pedintes, medo de assalto.

Quem sabe não está nas contradições o novo charme emergente, que fez de Lula um inesperado líder global? O mundo dos ricos ruiu, algo precisava ficar no lugar, e surgimos nós, com nossas favelas e caipirinhas.

4 de Janeiro de 2010

A tsunami de Angra

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 09:50

O apresentador da TV insiste, atônito:

- Mas não deveriam ter feito uma obra de contenção na encosta?

O especialista bem que gostaria de atender à súplica do jornalista, dar a resposta pela qual anseiam os espectadores, dizer que sim, a culpa é das autoridades competentes, mas simplesmente não pode. A tal obra seria inviável, ninguém pensaria em fazê-la, não havia desmatamentos na região, as explicações apenas envolviam os movimentos da natureza. Indomável, como a tsunami.

Gastamos a vida em busca de um sentido. Na falta dele, um culpado. O governo, a especulação imobiliária, os destruidores da natureza, alguém que poderia ter evitado a tragédia, porque elas sempre deveriam ser evitáveis, e não gratuitas. Alguém tem que pagar por elas, tão caras, nem que seja moralmente.

Se não foi um vírus, transmitido por alguém a quem se pode tudo atribuir, que tenha sido erro médico. Que o câncer tenha sido fabricado pelo rancor da própria vítima, ela também culpada. Ou quem sabe a explicação resida na carga genética, e também aí teremos um raciocínio para nos aplacar, na falta da fé religiosa. Foi deus quem quis já não satisfaz a maioria.

Tudo, menos o acaso. Menos dizer que a morte faz parte da vida. Isso sim, é insuportável, insuficiente para anestesiar a dor.

Que os parentes das vítimas (de que algoz?) de Angra consigam conviver com ela, a dor.

26 de Dezembro de 2009

A indústria do que não tem preço

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:10

Sabe o sonho de ter uma pousada? A maioria já acalentou: ser dono do próprio negócio, viver longe do estresse da cidade, ter uma espécie de casa ampliada, aconchegante, para receber os amigos e fazer outros (os hóspedes, que serão sempre simpáticos). Algo assim não tem preço, não é mesmo?

Se o voo solo assusta, há outra alternativa para poder finalmente dar uma banana para o chefe e ser dono do próprio nariz. É só pegar as economias e investir numa franquia, negócio já formatado e sem riscos, pelo menos é o que dizem por aí.

Mas se você não se julga um sonhador, nem empreendedor nato, talvez tenha outra espécie de plano: passar em um concurso público e ter um salário garantido para o resto da vida, sem medo do amanhã. Verdade que passar na prova é difícil, mas estabilidade não tem preço…

Esses são apenas alguns sonhos na esfera do trabalho. Enquanto pensamos neles, nos contentamos com os pequenos, que cabem na inevitável gastança de fim de ano. Por exemplo, a sua filha, sua princesinha, fazendo parte de um grande espetáculo de dança, depois de um ano inteiro de aulas numa escola de prestígio. Ela, linda em seu figurino; perfeita em sua coreografia.

É justo no momento em que você se sente dentro de uma campanha da Mastercard que vem a facada. Sim, tem preço. Depois de pagar um absurdo pelo figurino, outro tanto pelo aluguel do teatro, sem falar na sapatilha – uma pechincha perto disso tudo, mas o fato é que você ainda teve que bater perna e gastar por fora –, alguém lhe oferece um DVD com todos os momentos “não tem preço” gravados - com qualidade profissional, claro.

Você acabou de comprar um buquê de flores providencialmente à venda na porta do teatro (se as outras meninas vão ganhar, como a sua princesinha vai ficar sem?), e aí finalmente percebe: foi fisgado pela indústria do não tem preço.

A rigor, ninguém o enganou, e capitalismo eficiente é isso aí. O crescimento do mercado de serviços e produtos infantis só comprova a culpa crescente dos pais que trabalham muito, sem falar na possibilidade de realização por meio do sucesso dos filhos. Quanto vale o sorriso do seu filho diante do brinquedo tão sonhado, desembrulhado embaixo da árvore de Natal? Ah, não tem preço, você aprendeu com a campanha publicitária.

É verdade que a criança tem vários brinquedos parecidos e vai se desinteressar do novo rapidamente, como aconteceu com os anteriores. Mas… e o sorriso? E o Natal? Só um insensível acharia que algo assim tem preço. Um insensível ou alguém com um bom senso de oportunidade, para filmar o tal espetáculo da escola de balé e cobrar R$ 90 pelo DVD.

“É meio tabelado, paguei a mesma coisa pela apresentação da minha filha”, tentou me conformar uma amiga. Eu me rendi, mas depois fiquei pensando nas outras indústrias, que exploram (no bom sentido) sonhos menos realizáveis, como aquelas relacionados ao trabalho que mencionei lá no começo.

Recentemente descobri uma bela estrutura montada para, digamos, ajudar uma pessoa a se tornar um escritor. Como no caso dos que almejam passar em concursos públicos, alguns poucos podem, de fato, chegar lá. A arrasadora maioria, porém, vai apenas injetar dinheiro na indústria que se formou em torno do sonho.

Mas é complicado julgar os que “exploram” e alimentam o sonho alheio, mesmo sabendo quando ele é absolutamente inalcançável. Será que o professor do curso “Como se tornar dono de uma pousada” deveria alertar os alunos sem a menor chance de sucesso na empreitada? Quem negocia uma franquia deveria confessar que a maioria dos franqueados se esfalfa de tanto trabalhar em troca de uma remuneração menor que o antigo salário?

Muitas vezes, paga-se para sonhar, para dar um sentido à vida, para ter o status de quem está ambicionando algo grandioso.

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