Estamos todos bem
É tudo verdade. Dessa vez, tia, não foi como aquele arrastão que a senhora viu na televisão, e que eu jurei que era um ângulo malicioso da emissora de oposição. A chuva desabou impiedosa mesmo, na praia dos ricos e no morro dos pobres.
O céu continua a inspirar respeito até nos menos crédulos. Não tenho lembrança de tempo tão instável. Como se os deuses estivessem a brigar, ou quem sabe a se divertir, temos o azul turquesa num minuto, sem sombra de nuvem, e no seguinte nossos guarda-chuvas são arrastados pelas rajadas que trazem chuva forte.
Mas estamos todos bem. Agradeço aos amigos pela preocupação, pelos e-mails carinhosos. Na primeira noite, quando tudo começou, eu saía de Laranjeiras, às oito da noite, e a chuva já caía há mais de hora. Quando alcancei o Rebouças, entre um túnel e outro, a pista estava vazia. Desde então, aprendi a suspeitar de trânsito bom: quando a poça não está à frente, é porque ficou para trás.
Naquela noite, imagino ter sido uma das últimas a conseguir passar pela Lagoa. Já em casa, todos os meus foram logo localizados por telefone. Tirando algum transtorno até chegar são e salvo em casa, nada grave se deu, e a saúde reina por aqui, muito obrigada.
Se hoje cato lençóis velhos no armário, meu primo, não é para uso próprio, mas para desabrigados que não conheço. Só a faculdade continua sem aula, por falta de energia. O estrago foi grande por lá. Não tinha falado da pós? Bem, bobagem falar disso numa hora assim, depois conto com calma.
É que há uma tristeza no ar. Sem falar no temor de mais chuva. Foi-se o tempo em que o sol no dia seguinte anunciava o fim da tempestade. E ainda há quem espere por ondas gigantescas vindas do mar. Os pessimistas de sempre se comprazem – parecem se sentir mais vivos. Nós, os otimistas, temos que ficar quietos, dar o braço a torcer, concordar que tudo pode acontecer neste Rio de Janeiro.
Mas não fique preocupada conosco, amiga. Não imaginava que essas trágicas imagens tivessem chegado tão longe, mas pensando bem o Rio sempre é notícia na Europa. A cidade vai se recuperar, e logo nos sentiremos seguros novamente. Se estamos seguros? Bem, nunca estamos totalmente, não é mesmo? O importante é sentir a nuvem negra mais longe dos nossos tetos.