3 de Setembro de 2010

A era do radicalismo

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:35

Sobre porque discussões políticas na internet são um saco:

“Na rede, uma das maravilhas é a facilidade com que encontramos pessoas que pensam como nós, que têm os mesmos interesses, por mais específicos e pouco usuais que sejam esses interesses. Toda maravilha apresenta seus perigos: nesse caso o principal é passarmos a viver em microguetos, sem contato com gente que pense diferente ou que discorde de nossos pontos de vista.

O que Cass Sunstein (no livro “A era do radicalismo”) mostra, a partir de muitos exemplos baseados em pesquisas comportamentais e recentes acontecimentos (como a crise dos bancos em 2008), é que quando estamos entre iguais a tendência é que radicalizemos cada vez mais nossas opiniões comuns, perdendo diálogo com quem pensa diferente. O próximo passo é ignorar o diferente, ou tentar exterminá-lo. Todo mundo deve ter percebido algo assim no ar nos tempos atuais. Mesmo nas áreas mais banais.

Num site frequentado por indies, os comentários ficam cada vez mais indies-roxos-extremistas, e opiniões divergentes são esculachadas, quando não censuradas, sem piedade nenhuma, e muitas vezes por linchamentos públicos. Isso acontece em blogs de esquerda, de direita, gays, católicos, ambientalistas, e assim por diante, com divisões cada vez mais esotéricas (a descrição de Sunstein: ‘vivem na câmera de eco de seu próprio design’).”

(da coluna de Hermano Vianna, hoje no Globo)

28 de Agosto de 2010

O não dito pelo dito

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:54

Do poeta Ferreira Gullar, que está lançando “Em alguma parte alguma”, em entrevista a José Castello, no Prosa&Verso de hoje:

“A linguagem é uma ordem, um sistema. Fora da linguagem, só há desordem. Como expressar, então, o que está fora do sistema? Como captar essa desordem? A linguagem só diz o que a linguagem diz. O que está fora dela não entra. Então, fica o não dito pelo dito. Fica um pensamento daquele mundo, que não tem nada a ver com a realidade. Um pensamento que se passa à margem da realidade. Mas é a minha vida, é ali que sou Ferreira Gullar. É ali que indago o fundamental.”

E assim quase me transporto, novamente, à exposição sobre Fernando Pessoa, que vi esta semana no Museu da Língua Portuguesa. Impossível não lembrar dos versos mais famosos do poeta tão completamente fingidor que finge que é dor a dor que deveras sente.

Como não consigo sentir a mesma emoção sentida no museu, finjo que sinto, com a ajuda de Gullar.

23 de Agosto de 2010

Tempo que passa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:02

A decoração da minha sala de estar inclui agora a reprodução de um quadro de Renoir. Na verdade, trata-se de um quebra-cabeça, de mil peças, que passou a ocupar a mesinha de centro. Não sei o que as visitas vão achar, mas eu fiquei imensamente feliz em encontrar uma utilidade para aquela trabalheira toda, filha e marido debruçados noites a fio, desafiados pela inexistência de fronteiras entre as cores do artista. Quase tive um ataque diante da perspectiva de desmancharem tudo no final, as mil pecinhas novamente embaralhadas na caixa.

Deve ser um problema meu, porque eles, que tiveram tanta dedicação, não se importavam. Tenho uma dificuldade com passatempos. Não entendo alguém jogando paciência horas e horas, à frente do computador. Não tenho paciência, aliás, nem para palavras cruzadas ou sudoku, e quase acredito que sejam bons para desenvolver o vocabulário ou o raciocínio, numa desesperada tentativa de compreender os adeptos destes passatempos. Para eles, de verdade, é pura diversão; para mim, seria tempo desperdiçado.

Por trás do meu desespero em tentar compreender a utilidade de passatempos sem utilidade talvez esteja o meu próprio incômodo com a mania de querer arrumar uma utilidade para tudo. Nestes tempos que vivemos, passamos as horas (ou os intervalos entre elas) a medir nossa própria produtividade: quantas pendências resolvi hoje, o trabalho finalizado, o aprendizado acumulado, os compromissos em dia, o corpo em forma, a compra feita, o texto pronto. Até o tempo absolutamente jogado fora numa meditação é contabilizado como útil nas agendas urbanas e contemporâneas. As férias? São para relaxar, para conhecer uma cidade, para colocar a pilha de livros em dia.

Mas há pessoas que simplesmente gastam suas horas preciosas para montar quebra-cabeças que serão desmontados em seguida. Parecem donos do tempo, com sua paciência infinita. Ou, ao contrário, são donos apenas de alguma sabedoria sobre a inutilidade de se importar tanto com o tempo que passa, sempre sem dono, desafiando as agendas.

13 de Agosto de 2010

Acidente na volta da Flip

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:36

“Você estava de cinto?” “É alérgica a algum medicamento?” As duas perguntas se repetiam. Como eu só conseguia ver o céu e os tetos, apenas pressentia que os perguntadores eram diferentes. Gastava meu pouco de fôlego para explicar as dores – peito e ombro – ao perguntador errado. Ainda não era o médico. Este perguntou como os outros, mas me machucou mais, não por me mudar de posição, mas por apertar mesmo, e cheguei a ficar com raiva dele.

Ele se vingou da minha raiva, foi o que eu pensei depois, reproduzindo a estranha relação que se estabelece entre paciente-impaciente e equipe-hospitalar-a-qual-todo-o-poder-sobre-mim-foi-outorgado. A minha primeira Flip havia sido boa demais, fui feliz demais, por isso eu estava esquecida agora naquela maca dura e fria, com um colar cervical, tentando descobrir se aquilo era um corredor ou uma sala. Era um corredor, a fila do raio X, conclui, e pensar no castigo pela minha felicidade fazia parte de outra relação, estabelecida lá atrás, no colégio de padres da infância.

“Eu preciso de um analgésico”, disse humilde para alguém que parecia ser apenas um empurrador de macas. Ele não respondeu. Talvez já tivessem me dado algum analgésico, porque o ritual de tentar-pegar-a-veia havia acontecido logo que saí da ambulância. No corredor do raio X, tive saudade do carinho da funcionária do corpo de bombeiros, me enchendo de esperanças sobre os cuidados que não vieram no hospital. De repente, ninguém se interessava mais por mim, não queriam mais saber se eu estava de cinto ou se era alérgica a algum medicamento. “Eu não consigo respirar”, repeti para ninguém.

Contei sobre os tetos, depois, para uma pessoa que foi atropelada, anos atrás. Como dois sobreviventes, nos identificamos imediatamente. Ela conhecia a sensação de buscar sentido em manchas, pinturas desbotadas, luzes brancas. Eu tivera uma réstia de sol nos olhos, na volta do raio X (porque não havia sol na ida?); ela vira sangue espirrado no teto do Souza Aguiar. Acidente de carro próximo a Angra tinha suas vantagens em relação a atropelamento no centro do Rio…

Bastou a coluna vertebral se revelar ilesa nas chapas para me encontrarem no corredor (ou seria sala?). Empurra maca, segue para a enfermaria, liberam o meu pescoço. Posso ir para a cama, estou bem, é o que dizem, só uma costela quebrada. O problema é que eu continuava sem conseguir me mexer, como aconteceu logo após a batida, todos tentando me convencer a sair do carro, o mais conveniente para apaziguar ânimos e culpas, apesar de contrariar qualquer manual básico de primeiros socorros.

Eu não saí do carro porque não estava bem, e não podia passar sozinha da maca para a cama porque não estava bem. Sofrer um acidente grave e não ter morrido nem ficado paraplégica foi mesmo uma sorte, mas tinha suas inconveniências.

Desde domingo, preciso dos outros para driblar a dor - este ser com vontade própria e enganosa. Mas será por pouco tempo. O tempo antes de a comoção e a paciência alheias se diluirem na rotina. E agora que consegui escrever no computador, posso finalmente dizer que sim, estou bem.

4 de Agosto de 2010

A nova geração

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:22

- Minha sobrinha acha normal beijar três meninos na mesma festa. O “bulling” agora é praticado na internet: jovens colocam fotos e informações falsas em redes sociais para prejudicar os colegas. São crianças mal-educadas, que não falam “bom dia” no elevador. Cresceram sem pais por perto; eles estavam ocupados demais para educar seus filhos. Não existe moral entre as novas gerações, nem ética. Eles simplesmente não se importam com os outros.

Eu fiquei ouvindo aquilo tudo estarrecida. Como o discurso, na realidade, foi emendado – e referendado – por várias pessoas na roda, parecia difícil discordar. E todos concordavam: colocar um filho no mundo de hoje é desanimador.

Foi então que percebi que a maioria do grupo – com exceção de uma mãe com os filhos já adultos – não tinha filhos, apesar de já terem idade mais que suficiente para isso.

Estavam falando de um ponto de visto distanciado e crítico. Sabe quando a gente está tentando conversar no restaurante mas deu o azar de sentar ao lado de uma mesa com dois ou três pestinhas? Dificilmente vai reparar que o menorzinho é uma graça, e considerar que criança nesta idade é difícil mesmo. Vai-se apenas odiar crianças, em geral.

Pois eu tentei discordar – a proximidade com o tema costuma me fazer reparar nas gracinhas do caçula ao lado. Diante da descoberta de que ninguém ali tinha a experiência recente da maternidade ou da paternidade, tentei em vão chamar a atenção para a minha posição privilegiada. Mas só depois, na mesa do bar, consegui que ouvissem meus argumentos:

- Não vejo essa maldade toda nas crianças ou nos adolescentes de hoje. Nada que não houvesse em gerações anteriores; e posso lembrar de coleguinhas terríveis na minha escola, filhinhos de papai inconseqüentes e até delinqüentes, que praticavam o tal “bulling” antes que ele fosse diagnosticado socialmente.

Ufa, tinha conseguido chamar a atenção. Como é difícil ser interessante falando ‘bem’ dos outros.

- Só quem tem filho sabe como, na essência, uma criança quer agradar. Os pais, os adultos. As crianças fazem maldadezinhas, testam os limites, querem aprender as regras do mundo, ter certeza de que o errado é sempre considerado errado. Estão em processo de construção.

E embalei:

- Podem não falar “bom dia” e esquecer do “obrigado” por falta de pai e mãe por perto, porque isso é algo que se aprende com um adulto chato ao lado, lembrando as “palavrinhas mágicas”. Não vou dizer que estão certos, mas talvez essa eventual distração, a correria e o individualismo, seja apenas reflexo dos novos tempos.

- Talvez, em outras situações, esses jovens não se esqueçam do “valeu”, como quando são ajudados na mesma internet onde também ocorre o “bulling”. Como os jovens hoje são solidários e participativos, se valendo da tecnologia! Talvez a moral não tenha acabado, só mudado. E beijar vários meninos na mesma festa tenha algum novo sentido, que eu, como velha geração, ainda não consegui captar.

- Se ensino a minha filha a não esquecer o “bom dia”, ela também me ensina muitos dos valores das novas gerações. Foi ela quem me ensinou, depois de uma bronca, a não escovar os dentes com a torneira aberta. Esse valor, de preservar o meio ambiente, é um valor novo, e genuíno, das novas gerações.

- E vamos ter filhos, pessoal!

25 de Julho de 2010

Som ligado

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:32

Fico imaginando você passando por aqui, a pequena decepção com a casa fechada, luzes apagadas, antes de clicar para outro endereço. Um segundo, talvez, mas será o tempo suficiente para pensar: estaria ela viajando? Desistindo? Quem sabe você se lembre da filha em idade escolar, as férias de julho, e compreenda sem mágoas.

Ou talvez se precipite, imagine o fim inescapável, mais um blog confirmando a morte iminente de uma era. Houve a era dos blogs, depois a era do Twitter, lembrará algum historiador (!) no futuro, sabe-se lá por qual ferramenta enfim dominado.

A minha mãe, quando sai de casa, deixa o aparelho de som ligado na sala, baixinho. Diz que é para espantar os ladrões, mas desconfio que seja para não se sentir partindo de fato, para mostrar a si própria que voltará em breve. Apenas um almoço. Apenas uma viagem. Quem sabe.

13 de Julho de 2010

Dois atores, duas cenas

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:49

A notícia da morte do ser amado. O que pode ser mais contundente?

Para um ator, a cena deve ser um desafio e tanto: representar a reação à descoberta de que o grande amor morreu. Para sempre. Para nunca mais.

Sem os recursos literários ou cinematográficos, dois atores recentemente venceram o desafio de forma arrebatadora. O que me chamou a atenção, quando assisti a “Brilho de uma paixão” (”Bright star”) na semana passada, é como as interpretações às quais me refiro são opostas e magistrais.

Poder-se-ia dizer que a morte do amado de Fanny Brawne, o poeta John Keats, era bastante esperada na trama, mas a atriz Abbie Cornish mostra, com o desespero da personagem, como a emoção pode extravasar todos limites do previsível. Um belo filme.

Em contraponto, o professor universitário George Falconer, de “Direito de amar” (”Single man”), é surpreendido pelo telefonema com a notícia do acidente fatal de seu companheiro. É uma interpretação para entrar na história: nunca tanta emoção transbordou em gestos tão contidos. Colin Firth foi indicado mas não ganhou o Oscar. Merecia.

7 de Julho de 2010

Vocês têm todos os motivos do mundo para se odiar, mas…

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 09:34

- Você não sabia? Eles se separaram.

Eu não sabia e nem fazia sentido a minha tristeza; eu mal os conhecia. Mas a imagem do jovem casal na piscina, os dois tão amorosos e pacientes com a filha de dois anos, não me saía da cabeça.

Eu poderia, semanas antes, ter batido na porta deles e argumentado: por que o caminho mais fácil? Primeiro iria me dirigir a ele: sei que ela se tornou insuportável, tão diferente do começo do casamento, controladora e descontrolada, uma chata mesmo. Depois a ela: sei que ele parece um imprestável e egoísta, totalmente insensível e alheio, enquanto você anda tão sobrecarregada.

Eles se espantariam em como eu tinha adivinhado toda a sua intimidade, as mágoas bem dobradinhas e empilhadas em suas caixinhas de lembranças – quem sabe, já baús. E talvez percebessem que não é fácil mesmo, trabalhar e criar um filho pequeno, e dar conta de tantas expectativas; a felicidade imediata sendo apenas uma delas, a mais pesada.

Os três primeiros anos de uma criança, especialmente, são um teste de fogo para um casal, e devia ser proibida a separação nessa fase, a título de “vocês têm todos os motivos do mundo para se odiar mas vai passar”. Uma assistente social deveria visitar mensalmente o casal para ajudá-los a desdobrar os tais papeizinhos, ou pelo menos não deixá-los se acumularem em caixinhas e baús onde o amor não entra mais.

Com faxinas periódicas, e alguma persistência, fica bem bom depois. É o que eu gostaria de lhes ter contado.

2 de Julho de 2010

A lógica do futebol

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:34

Não foi culpa do Dunga. Nem do Felipe Melo. Cabe a mim, nesse momento, alertar que também estão sendo injustamente acusados o Mick Jagger, o Galvão Bueno e a Jabulani. Pois o Brasil só saiu da Copa por minha única e exclusiva culpa.

Sempre fui discreta em relação ao futebol, portanto só posso dizer humildemente que não sei o que me deu. Tomada por uma euforia absurda e desmedida, passei o intervalo, entre o primeiro e o segundo tempo, propagando, com convicção: o Brasil vai ser campeão. Deu no que deu, e o pé frio fui eu…

Ou será que foi aquela camisa do Zé comprada no camelô?

29 de Junho de 2010

Delay

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:15

Não era a primeira vez que eu vivia aquela sensação, de estar atrasada em relação ao mundo. Mais que pressentiam, todos em volta já sabiam. Menos eu. Tentei disfarçar o espanto, apenas ficar mais atenta, e bola pra frente.

Mas o estranhamento e a desconfiança se intensificaram, à medida que o tempo passava. Era preciso apurar os sentidos mais embotados, perceber o que se passava ao redor, para não ficar defasada, como um ingênuo na multidão. Sim, havia algo no ar, uma aceleração.

Foi no segundo gol que tive certeza. Eu estava uns três, talvez cinco segundos atrasada. Não havia o que fazer, senão me adaptar à situação. Saber que as profecias iriam se realizar. Passei a distinguir o “uh!” seco, da bola que não entraria, do começo da explosão que desafogaria o grito de gol.

Quase gostei de ver as previsões se concretizarem, apenas com um drible ou passe a mais, ou a menos, do que imaginara. Como em um filme em que a música anuncia o suspense por vir, eu podia preparar as minhas emoções, quem sabe lapidá-las.

Ao final, porém, cansei da brincadeira. Da próxima, dispenso a NET e deixo o Galvão tagarelar.

16 de Junho de 2010

Torcedor fanático, eu?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:22

Não sei se foi coincidência, mas ontem, durante a estreia do Brasil na Copa, sentei perto de um sujeito que, de tão irritado com a nossa seleção, passou a torcer pela Coreia do Norte. Com uma atitude sarcástica, é verdade, mas mesmo assim chegou a aplaudir o gol dos nossos adversários.

Que espécie de torcedor, afinal, é o brasileiro? Vira técnico quando o time vai mal, todo mundo sabe. É crítico na derrota e não é tão patriota assim na vitória.

Na Itália, pelo que eu vi, a pátria calça mais as chuteiras do que aqui. Quando o Inter de Milão ganhou a final do campeonato europeu, em maio, me espantei com as manifestações de fanatismo. A cidade parou para ver a final contra o Bayern de Munique. Depois do jogo, torcedores alucinados passaram a noite inteira berrando, na garupa de scooters, sacodindo bandeiras.

Você pensou que eu estava em Milão? Nada disso; era Palermo. É como se a vitória do São Paulo na Libertadores fosse comemorada com euforia em Porto Alegre.

14 de Junho de 2010

9%, mas…

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:47

Da coluna do Elio Gaspari, ontem:

“Diante da informação de que o Brasil cresceu 9% no segundo trimestre, dezenas de sábios saudaram a boa-nova temperando-a com conjunções adversativas. Coisas assim: Cresceu… mas há gargalos na infraestrutura, … esse vigor não é sustentável, … aumenta o perigo da inflação.

Tudo isso pode ser verdade, mas (e aí vai outra adversativa) os sábios precisam se lembrar de uma tirada do ex-presidente George Bush, o Velho: “Se eu andar sobre as águas, dirão que não sei nadar”.”

12 de Junho de 2010

O (re)começo da paixão

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:13

Ele é pedreiro; ela, professora primária. Pelo olhar da câmera, sem muita generosidade, ele tem um trabalho bruto e desinteressante. Ela, mesmo francesa, não usa maquiagem para disfarçar a pele manchada e o nariz exagerado.

O acaso o leva à escola dela, onde ele fala às crianças sobre a sua profissão. Pelo olhar encantado dela, vemos um homem másculo, que constrói coisas sólidas. Ver-se pelo olhar dela, o desperta de si próprio e, nesse lugar mágico do começo da paixão, também ele sai em busca das qualidades dela, nos objetos de seu apartamento.

Um violino, ao lado da janela que seria consertada, resolve tudo – inclusive a trilha sonora, até então inexistente, e tão importante para uma traição. A falta da cultura musical dele só faz dela uma violinista melhor. É assim que um pedreiro bronco e uma violinista fracassada branquela se sentem especiais, amados, e podem viver a intensidade da paixão.

Não existe paixão sem admiração. Mais que admirar, é essencial se sentir admirado. Os casais que estão comemorando o dia dos namorados hoje precisam resgatar esse momento. Basta lembrar de elogiar as qualidades dele (dela). É assim que tudo (re)começa.

***

Ah, o filme é Mademoseille Chambon, lindo, mas não recomendo para quem estranhar o ritmo do trailer.

9 de Junho de 2010

Aflitos e estressados

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:57

Não havia táxi no ponto, e uma fila de passageiros começava a se insinuar, misturada aos pedestres. Porém, não estressei, quando fui chegando. Estava de férias, sem pressa, e apenas por acaso precisava da condução em pleno horário de rush. Quando o táxi se aproximou, a mulher que parecia ser a primeira da fila abaixou-se atrapalhada para pegar algumas sacolas com compras de mercado. Ao perceber que ela não teria mão para abrir a porta do veículo, corri para fazê-lo.

Pra quê. Quase apanhei. Ela estava certa de que eu avançara para roubar o seu táxi.

Viver na cidade grande é viver no sobressalto. Naquela ocasião, fiquei imaginando como teria sido o dia da mulher. Eu mesma devo passar por estressada e antipática por aí. Caminho por calçadas movimentadas com o passo apressado, olhar firme, pronta para evitar abordagens de pedintes e vendedores. Com o tempo, aprendi a identificar suas técnicas - a de simular um pedido de informação, a de oferecer um brinde, a de anotar pesquisas fajutas em pranchetas…

Estou com pressa, é o que nem preciso dizer. Isso não impede que, eventualmente, eu estanque o passo e perca todos os minutos que eu jurara não ter antes para o “pesquisador” da esquina. Isso porque, em um segundo, uma pessoa em aflição verdadeira pode ser identificada e me fazer baixar a guarda. “A Anibal de Mendonça é para qual lado?”, e fico feliz de ajudar. Feliz de ajudar, como quase fui no caso do táxi.

Mas não posso culpar quem anda por aí pronto para se defender, ou contra-atacar, escaldado por grosserias e más intenções. Imagino quantas vezes o meu detectômetro de aflitos verdadeiros já deve ter falhado.

Na internet, já reparou?, começamos a agir assim também, com desconfiança, como na metrópole, preferindo a prudência à ingenuidade. E coitados dos caipiras que se aventuram por aqui…

14 de Maio de 2010

É assim que funciona o esquema

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:58

“Quando dá, eu tento quebrar o galho das pessoas, ajudar quem está numa emergência. Dou uma olhada pra ver se a sala de espera não está muito cheia, aí coloco você na lista. É só ligar para este número e mandar falar comigo.”

Não sou político, não estou em Brasília, mas foi assim que me senti, quando o gerente da garagem me deu o telefone. Eu tinha descoberto o caminho das pedras. O jeitinho. A malandragem. No dia seguinte eu deveria ligar e dizer, simpática: “E aí, Alexandre? Tudo certinho? Será que dá para ir descendo o meu carro, querido?”

É, talvez eu tivesse que dizer “querido” ou algum outro termo íntimo para retribuir o “favor”. É no “querido” que corruptores e corrompidos se enrolam quando a escuta telefônica é divulgada.

Mas eu não estava em Brasília, volto a lembrar, e não corria maiores riscos ao aderir ao “esquema”. Apenas faria parte do grupo que fura a fila porque todo mundo fura, que anda pelo acostamento porque tudo mundo anda, que é esperto porque a outra opção é ser otário.

Só que não consegui me imaginar sussurrando no balcão da garagem, para avisar que “pedi o carro por telefone para o Alexandre”, bem baixinho, enquanto os outros motoristas entopem a sala de espera.

No dia seguinte, não só ignorei o número como passei a denunciar a “fila por telefone”. Agora faço isso sempre que a sala de espera enche e alguém estranhamente é brindado pelo carro antes dos outros: “É a fila por telefone. Um absurdo. Não há qualquer transparência, o gerente decide se vai descer o carro, sem qualquer critério claro. Ele me ofereceu o ‘esquema’ e eu recusei.”

Bem, se acontecer alguma coisa comigo, fica aqui o registro de que em maio de 2010, em um gesto heróico, eu denunciei a “máfia da fila por telefone na garagem do 550”.

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