8 de Março de 2010

Próxima parada

Arquivado sob: Cotidiano, Viagens — Marta @ 16:28

“A senhora já está no Rio”, me informa com um meio sorriso o atendente do check-in. Pela expressão simpática e condescendente, percebo o quanto é comum um passageiro chegar ao balcão da companhia aérea trocando o destino da ida com a volta. Será o estresse? A vontade de voltar? Sim, porque estamos falando aqui de quem viaja a trabalho, a cabeça nos afazeres, o corpo buscando pequenas compensações - a bordo, nos rituais de embarque e desembarque. A estes passageiros, o funcionário reserva seu sorriso mais cúmplice: estamos no mesmo barco, no mesmo avião, em atitude glamurosa mas revelando a cada gesto cansado a nossa humanidade.

Lembro-me da época de crise no setor aéreo, os atrasos constantes mandando para as cucuias os resquícios de glamour do passado. O fato é que mesmo assim, apesar do finger que não funciona e mantém os passageiros presos no avião por dez minutos, apesar da comida gordurosa e do taxista mal encarado, apesar da fila no banheiro, mesmo assim adoro estar em um aeroporto. Partindo, chegando, esperando.

Talvez tenha gostado do filme “Amor sem escalas” – que não ganhou nem um oscarzinho ontem – só por causa da cena inicial, em que George Clooney revela toda a sua intimidade com os esdrúxulos rituais das viagens de avião (especialmente nos Estados Unidos…). E é assim, dentro de um filme, que me sinto com a personagem que me aborda na sala de embarque. Trata-se de uma senhora com alguma idade, visivelmente deslocada, e me prontifico a ajudá-la quando me estende o cartão com o número do voo.

Se o portão de embarque ainda pode ser alterado? Sim, com certeza, respondo, já que o seu voo só partirá dali a três horas e meia. A senhora deveria se distrair um pouco, porque tão cedo o número não aparecerá no painel, é o que lhe digo, e ela parece compreender. Mas mantém-se ereta na cadeira, olhando o nada, aparentemente conformada. Quem se distrai sou eu, colocando os e-mails em dia, até perceber que a tal senhora está abordando outra pessoa, com a mesma pergunta. O portão de embarque ainda pode mudar?

Sempre pode. Podemos embarcar em muitos portões, e cada um deles nos levará a um destino diferente, todos eles fora da nossa rotina. Aquela senhora resistia – odeia sair da rotina. Quer a previsibilidade. Não vou fazer gênero e dizer que não gosto da rotina, logo eu que como sempre a mesma coisa no café da manhã. É o momento do dia em que sou mais resistente, e mesmo em um hotel distante tento achar uma opção parecida de desjejum.

Mas é só o começo do meu dia. No decorrer dele, uma luta interna se travará: a busca do familiar versus o anseio pela novidade, pelo acontecimento que mudará tudo o que planejei durante anos. Numa viagem – especialmente a de lazer, para um lugar desconhecido – sei que serei arrancada das minhas certezas emboloradas. Se o hábito é a morte em vida (experimentar é viver), finalmente entendo o meu comichão por planejar (um pouco) a próxima viagem. Qual será o portão de embarque? Não sei. Graças a deus.

1 de Março de 2010

O ano começou

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:14

Cena 1: O sujeito sabe (alguma coisa de) alemão e passa o filme todo repetindo as frases que compreende. Eu, que achava que nada podia ser mais desagradável do que alguém falando no cinema, descubro: há sim, alguém falando em alemão no cinema.

Cena 2: Em uma rua relativamente movimentada de Ipanema, o carro à sua frente resolve parar em fila dupla. Detalhe: já tem um outro veículo estacionado, também em fila dupla, exatamente do outro lado. Impossível prosseguir.

Nessas horas, custo a acreditar na situação. As pessoas fazem coisas assim, imagino, por não perceberem que existe alguém ao lado, atrás, em volta, convivendo com elas no mesmo planeta Terra. E quando a gente buzina ou fala “psiu” é estressado…

É, já estou quebrando minha primeira resolução de ano novo: não consigo ser zen, pelo menos no Rio de Janeiro.

19 de Fevereiro de 2010

Carnaval X cinema; nostalgia X tecnologia

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:49

Se até os amigos paulistas estavam gazeteando a tarde da quarta-feira de cinzas, não seria eu, a carioca com marchinhas na ponta da língua, que iria trabalhar. Afinal, foram quatro dias intensos, driblando blocos, rendendo-se a alguma folia e participando das intensas discussões sobre o xixi enquanto resíduo carnavalesco. Concluí: era dia de descansar no escurinho do cinema.

Mas a intenção logo esbarrou nas evidências de que o carnaval não havia acabado. No caminho para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, resquícios de confusão do “Me beija que eu sou cineasta”. Insistimos, subimos a Marquês de São Vicente, mas o carnaval cismava em perdurar: o portão do centro cultural estava fechado. “Só reabre amanhã”, me informou o porteiro, ignorando meu protesto pelo tijolinho equivocado no jornal.

Quem sabe “A fita branca” não estava passando também nos cinemas do Shopping da Gávea, ali pertinho? Corremos, afinal a promessa era levar as crianças à praia de noitinha, fechando o carnaval (que mania de querer acabar com ele). Em cartaz, porém, o único filme que ainda não tínhamos visto era “Nine”. Musical, argh, mas pelo menos com Daniel Day Lewis.

Depois de quase duas horas de projeção, no momento em que eu já admitia ter valido a pena, se o final não decepcionasse, o projetor pifou. As luzes acenderam. A plateia idosa ficou quietinha, esperando, até a funcionária garantir que não havia jeito. Sabem como é, numa quarta-feira de cinzas é difícil achar alguém para consertar.

Na fila para pegar o dinheiro de volta, tentei lembrar há quanto tempo algo assim não me acontecia. Parecia algo de décadas atrás, numa cidadezinha do interior - se eu já tivesse ido ao cinema no interior, o que nunca fiz.

Nostalgia semelhante havia me invadido dez dias antes, no mesmo complexo de cinemas - bem moderninho -, ao assistir “A princesa e o sapo” com minha filha. O desenho da Disney, à moda antiga, sem efeitos de computador, me parecia ter problemas de projeção. “O som não está baixo?”, sussurrei, mas ninguém parecia estranhar. “Será que sentei muito atrás no cinema?”, pensei, num esforço para compreender a sensação de estar vendo TV na sala de casa.

Só depois fui lembrar que era a minha primeira sessão de cinema após “Avatar”. Não é que a propaganda em torno da tecnologia revolucionária do filme de James Cameron faz sentido?

Pois é, mas o projetor sempre pode pifar em pleno carnaval (me rendi), transportando a plateia de Pandora diretamente a um cinema Paradiso do século passado…

***

Dilema: como saber o final de um filme mediano, sem precisar vê-lo inteiro de novo? Alguém aí viu “Nine”?

9 de Fevereiro de 2010

A vida offline

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:32

Começou por acaso. Não consegui configurar o e-mail no computador novo de forma a receber mensagens automaticamente. Deixei para depois, e passei a clicar em “enviar/receber” apenas quando esperava por algo ou me sentia solitária.

Foi assim que descobri a vida offline - não aquela em que se é tolido de qualquer instrumento de conexão, situação realmente sujeita a terríveis crises de abstinência. Refiro-me a poder escrever um texto sem o raciocínio interrompido a cada e-mail/spam. Poder se desligar do mundo lá fora quando convém, e voltar na hora em que brota a vontade, ou a real necessidade, marcada pela lembrança: ih, preciso checar minha caixa postal.

Claro que isso é perigoso no trabalho. É bom para mim, nem tanto para quem me procura. Mas que delícia. Agora estou pensando: devo mesmo me reconfigurar, pessoalmente, para estar tão online assim?

4 de Fevereiro de 2010

Ansiosa sim e daí?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:31

Ser ansioso é ser responsável e consciente. E ser responsável e consciente é algo bacana, para os outros, para a sociedade.

Ufa, já estou até menos ansiosa com essa notícia!

E vou parar de ficar ansiosa porque a minha filha é ansiosa e desse jeito ela não vai ser feliz, pois a felicidade exigiria um permanente estado zen. “Bobagem”, diria o psicólogo Jerome Kagan. “A ansiedade só será problema para quem acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua condição como problema. Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.”

Como todos sabem, eu não leio “Veja”, mas dona Candoca sim. E foi ela quem me mostrou a entrevista de Jerome Kagan nas páginas amarelas da revista. A matéria, na verdade, aborda de forma abrangente um de meus assuntos preferidos, psicologia infantil, e é um espetáculo de destruição de mitos.

O mais curioso é que o psicólogo faz isso com argumentos simples, nada técnicos, que beiram o bom senso. Viva o bom senso. E viva a ansiedade do bem.

27 de Janeiro de 2010

Gostar de obra?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:07

Sempre desconfiei de quem afirma gostar de obra. Como assim alguém gosta de obra? Com exceção de engenheiros, arquitetos e pedreiros, vamos combinar que uma pessoa não pode amar fazer uma obra, assim como só dentistas devem ficar entusiasmados com tratamentos de canal.

Para minha infelicidade, um novo vizinho do prédio, ainda de feições desconhecidas, é um desses excêntricos que declaram por aí – socialmente, em festas, como se fosse normal! – que adora uma obra. Veja bem, essas pessoas não curtem o resultado, a casa nova, modernizada, para exibir aos amigos. Elas juram que gostam mesmo é de ver tudo demolido, canos furados por engano, descobrir colunas que não constavam na planta, ver sacos de entulho saindo pela garagem.

Para eles, reforma boa é aquela que destrói apartamentos inteiros (com vizinhos enlouquecidos por todos os lados). À noite, sonham com tijolos, argamassa e latas de tinta. Ficam tão desolados quando finalmente as paredes se erguem que mandam derrubar tudo de novo, para recolocá-las em outro lugar. E eu embaixo…

18 de Janeiro de 2010

Lula, o filme sem boca a boca de urna

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:57

No final, nem eu vi o filme sobre o Lula… Explicações sobre o fiasco estão no Globo de ontem (clipado aqui) e algumas delas passam ao largo da questão política. Achei interessante especialmente a visão do diretor da Filme B, Paulo Sérgio Almeida:

- Nenhum filme sobre o Flamengo fez o público que se esperava, assim como filmes sobre Zico, Pelé ou a Seleção. Não se transfere o público dos estádios para os cinemas com igual proporção. Com a política, a lógica é igual.

Claro que se o filme fosse espetacular, e a estratégia de lançamento tivesse funcionado, o boca a boca teria nos impulsionado às salas de cinema, mesmo nas férias, mesmo não gostando (mais) do PT. Mas não foi o que aconteceu.

Um comentarista lá do Digestivo diz que sou ruim de previsões, com toda a razão. Por falar nisso, sabe qual é meu palpite para o Oscar? Brincadeirinha…

13 de Janeiro de 2010

Verão do yog-alguma-coisa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:43

Se no ano passado tivemos o verão do cone (leia-se temaki), este é o verão do sorvete de iogurte.

Sim, sei que não chega a ser novidade, e que o modismo é até importado. Mas, da minha modesta visão de quem observa as férias dos outros enquanto trabalha, nada bomba mais na zona sul carioca do que as tais sorveterias yog-alguma-coisa.

De vez em quando entro na fila (impossível uma sorveteria sem fila, com um calor de 40 graus) e presto a atenção nos idiomas. Nunca fui tão abordada por gringos (ou vendedores desesperados por uma tradução) querendo informações em inglês. E olha que o câmbio nem está favorável para eles.

Sei que isso vai parecer meio arrogante, mas às vezes me aborreço, quando vejo os meus lugares preferidos invadidos pelos turistas, fila para todo lado. Fico com saudades da baixa temporada, quando sou bem atendida e meu café preferido parece só meu. Será que vem daí o mau humor dos parisienses?

E lá vou eu, comparando o Rio com Paris, depois de ter feito isso com Nova York no post abaixo… Mas não deve ser por acaso. Acabo de ler no jornal que em 2016 teremos um nível de pobreza no Brasil abaixo dos 4%, mesmo índice dos países ricos, se tudo correr como o previsto.

Difícil conter o otimismo, o espírito ufanista. Mas o fato é que os indicadores da economia batem com o que vemos nas ruas. E eu que imaginava que o futuro do país do futuro nunca chegaria. Viva o verão do sorvete de iogurte.

9 de Janeiro de 2010

Manhattan emergente

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:03

Se é verdade que, no novo jogo de forças global, chegou a vez do Brasil, em contraposição à derrocada americana, a zona sul do Rio é a nova Manhattan. No verão do aquecimento - da economia e do clima -, Ipanema tornou-se um lugar efervescente. E caro.

Ouvem-se todas as línguas, na praia, no comércio, nos restaurantes. O comércio, por sinal, mal dá conta das vendas. Havaianas fazem a festa dos turistas. Os preços sobem, com a demanda. O metro quadrado no Leblon continua em alta, inacreditavelmente. Crise, que crise.

Mas não espere de uma Manhattan emergente o mesmo charme compacto de sua matriz americana. A diversidade interessante convive com calçadas mal acabadas, camelôs que fogem do rapa, lojas feias ao lado das descoladas, lixo nas ruas, pedintes, medo de assalto.

Quem sabe não está nas contradições o novo charme emergente, que fez de Lula um inesperado líder global? O mundo dos ricos ruiu, algo precisava ficar no lugar, e surgimos nós, com nossas favelas e caipirinhas.

4 de Janeiro de 2010

A tsunami de Angra

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 09:50

O apresentador da TV insiste, atônito:

- Mas não deveriam ter feito uma obra de contenção na encosta?

O especialista bem que gostaria de atender à súplica do jornalista, dar a resposta pela qual anseiam os espectadores, dizer que sim, a culpa é das autoridades competentes, mas simplesmente não pode. A tal obra seria inviável, ninguém pensaria em fazê-la, não havia desmatamentos na região, as explicações apenas envolviam os movimentos da natureza. Indomável, como a tsunami.

Gastamos a vida em busca de um sentido. Na falta dele, um culpado. O governo, a especulação imobiliária, os destruidores da natureza, alguém que poderia ter evitado a tragédia, porque elas sempre deveriam ser evitáveis, e não gratuitas. Alguém tem que pagar por elas, tão caras, nem que seja moralmente.

Se não foi um vírus, transmitido por alguém a quem se pode tudo atribuir, que tenha sido erro médico. Que o câncer tenha sido fabricado pelo rancor da própria vítima, ela também culpada. Ou quem sabe a explicação resida na carga genética, e também aí teremos um raciocínio para nos aplacar, na falta da fé religiosa. Foi deus quem quis já não satisfaz a maioria.

Tudo, menos o acaso. Menos dizer que a morte faz parte da vida. Isso sim, é insuportável, insuficiente para anestesiar a dor.

Que os parentes das vítimas (de que algoz?) de Angra consigam conviver com ela, a dor.

26 de Dezembro de 2009

A indústria do que não tem preço

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:10

Sabe o sonho de ter uma pousada? A maioria já acalentou: ser dono do próprio negócio, viver longe do estresse da cidade, ter uma espécie de casa ampliada, aconchegante, para receber os amigos e fazer outros (os hóspedes, que serão sempre simpáticos). Algo assim não tem preço, não é mesmo?

Se o voo solo assusta, há outra alternativa para poder finalmente dar uma banana para o chefe e ser dono do próprio nariz. É só pegar as economias e investir numa franquia, negócio já formatado e sem riscos, pelo menos é o que dizem por aí.

Mas se você não se julga um sonhador, nem empreendedor nato, talvez tenha outra espécie de plano: passar em um concurso público e ter um salário garantido para o resto da vida, sem medo do amanhã. Verdade que passar na prova é difícil, mas estabilidade não tem preço…

Esses são apenas alguns sonhos na esfera do trabalho. Enquanto pensamos neles, nos contentamos com os pequenos, que cabem na inevitável gastança de fim de ano. Por exemplo, a sua filha, sua princesinha, fazendo parte de um grande espetáculo de dança, depois de um ano inteiro de aulas numa escola de prestígio. Ela, linda em seu figurino; perfeita em sua coreografia.

É justo no momento em que você se sente dentro de uma campanha da Mastercard que vem a facada. Sim, tem preço. Depois de pagar um absurdo pelo figurino, outro tanto pelo aluguel do teatro, sem falar na sapatilha – uma pechincha perto disso tudo, mas o fato é que você ainda teve que bater perna e gastar por fora –, alguém lhe oferece um DVD com todos os momentos “não tem preço” gravados - com qualidade profissional, claro.

Você acabou de comprar um buquê de flores providencialmente à venda na porta do teatro (se as outras meninas vão ganhar, como a sua princesinha vai ficar sem?), e aí finalmente percebe: foi fisgado pela indústria do não tem preço.

A rigor, ninguém o enganou, e capitalismo eficiente é isso aí. O crescimento do mercado de serviços e produtos infantis só comprova a culpa crescente dos pais que trabalham muito, sem falar na possibilidade de realização por meio do sucesso dos filhos. Quanto vale o sorriso do seu filho diante do brinquedo tão sonhado, desembrulhado embaixo da árvore de Natal? Ah, não tem preço, você aprendeu com a campanha publicitária.

É verdade que a criança tem vários brinquedos parecidos e vai se desinteressar do novo rapidamente, como aconteceu com os anteriores. Mas… e o sorriso? E o Natal? Só um insensível acharia que algo assim tem preço. Um insensível ou alguém com um bom senso de oportunidade, para filmar o tal espetáculo da escola de balé e cobrar R$ 90 pelo DVD.

“É meio tabelado, paguei a mesma coisa pela apresentação da minha filha”, tentou me conformar uma amiga. Eu me rendi, mas depois fiquei pensando nas outras indústrias, que exploram (no bom sentido) sonhos menos realizáveis, como aquelas relacionados ao trabalho que mencionei lá no começo.

Recentemente descobri uma bela estrutura montada para, digamos, ajudar uma pessoa a se tornar um escritor. Como no caso dos que almejam passar em concursos públicos, alguns poucos podem, de fato, chegar lá. A arrasadora maioria, porém, vai apenas injetar dinheiro na indústria que se formou em torno do sonho.

Mas é complicado julgar os que “exploram” e alimentam o sonho alheio, mesmo sabendo quando ele é absolutamente inalcançável. Será que o professor do curso “Como se tornar dono de uma pousada” deveria alertar os alunos sem a menor chance de sucesso na empreitada? Quem negocia uma franquia deveria confessar que a maioria dos franqueados se esfalfa de tanto trabalhar em troca de uma remuneração menor que o antigo salário?

Muitas vezes, paga-se para sonhar, para dar um sentido à vida, para ter o status de quem está ambicionando algo grandioso.

21 de Dezembro de 2009

Viva a Cacau Show

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:51

A Conferência de Copenhague fracassou, então na próxima deviam fazer na Cacau Show, que é mais popular e o chocolate também é ótimo. Essa eu li hoje na coluna Gente Boa, do Globo, e dei umas boas risadas, porque estava com raivinha.

Na sexta-feira tinha ido tomar um café na Kopenhagen, como fiz sistematicamente ao longo de 2009, e… a mocinha não quis me servir. “Perto do Natal a gente só vende café se estiver vazio”. Havia duas pessoas comprando caixas de chocolates, enquanto a máquina de expresso permanecia ligada sem ser ativada.

Fiquei tão desconcertada que não reagi. Imagina você pedir um copo dágua e a pessoa responder: hoje não. Recusar-se a servir um cafezinho, porque dá para faturar mais vendendo bombom, é uma grosseria semelhante, fiquei pensando depois. Era o fim da picada.

Fiquei pensando depois porque sou do tipo que nunca tem a resposta na ponta da língua, e fica remoendo o que devia ter dito na hora. Abatida, rumei para o Armazém do Café (com alguma convicção de que lá seria bem atendida, apesar do tumulto natalino) e na volta fui obrigada a passar novamente pelo quiosque da Kopenhagen, para subir a escada rolante que dá acesso ao escritório.

Olhei de soslaio e percebi que serviam café - pelo visto, os chocolates carésimos não estavam vendendo tanto assim. A mocinha do caixa me viu e explicou: agora estamos servindo. Desfiz o beicinho e finalmente as palavras - já postas na ponta da língua - saíram: era o fim da picada.

15 de Dezembro de 2009

Flores de plástico não morrem

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:14

Eu precisava comprar flores. Queria chegar com um lindo buquê de rosas vermelhas na mão, e pensei que não seria problema conseguir um na efervescência comercial de Ipanema. Foi aí que descobri que as floriculturas estão em extinção.

Não, eu não sabia. Elas foram substituídas pela venda de flores nas esquinas, em vasos plantados, ou por quiosques chiques com orquídeas nos shopping centers. A velha e boa floricultura, na qual escolhíamos os botões de rosa com conhecimento de causa – prever quais deles desabrochariam era uma arte -, deixou de ser um bom negócio faz tempo.

Flores são perecíveis, os pontos comerciais de Ipanema são uma fortuna e a especialização não vale a pena, me explica o vendedor da única floricultura que resiste em Ipanema (depois de muito bater perna, descobri uma, na Rua Farme de Amoedo).

Às floriculturas, o mesmo destino dos açougues. Onde foram parar os açougues?

9 de Dezembro de 2009

Má educação

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:44

Pode ser o mês de dezembro, a desculpa da pressa, mas o fato é que os mal educados parecem ter se multiplicado nos últimos dias. A observação rolou numa rodinha, onde houve unanimidade a respeito do assunto. Uma das pessoas, que precisou usar muletas, contou ter passado sufoco nas ruas do Leblon: era atropelada pelos passantes. “Só faltava me darem uma rasteira por eu estar atrapalhando a passagem.”

No trânsito, nas filas e nas lojas, parece que todos estão crescendo nos cascos, com o pavio curto, como se a farinha fosse pouca, meu pirão primeiro. As expressões do tempo da vovó me ocorrem agora, provavelmente, porque lembro dos tempos de menina, quando aprendi a respeitar os mais velhos, ceder a vez, ser gentil com quem está me servindo - enfim, essas coisas em desuso.

Tudo bem que o tempo é curto em dezembro, que as chuvas atrapalham horrores a vida da gente, mas e quanto ao espírito natalino? Aquela simpatia toda vale só para o dia do amigo oculto/secreto? Olha que eu gosto de Natal, mas já estou pensando em pular direto para janeiro.

4 de Dezembro de 2009

Palmada

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:26

“Plaft!” A mulher sapeca um tapa no braço do filho, que tentava alcançar uma batata frita antes que o prato pousasse na mesa. A mão espalmada, ou o relativo silêncio da lanchonete, aumenta a percepção do golpe. Imediatamente ela percebe que exagerou na dose - ou na técnica do barulho, que deve funcionar em casa que é uma beleza. Mas, em lugares públicos…

Mesmo vindo de lado, o meu olhar atônito deve ter sido detectado, provavelmente rebatido nos olhos da terceira ocupante da mesa. Os lábios, contraídos na hora do tapa, ficam moles, ela se ajeita na cadeira ao lado do menino em prantos e dá um beijinho. Pede desculpas. As lágrimas do garoto ainda correm, mas ele para de chorar e começa a comer, concentrado. Está com fome. Está acostumado.

Ela passa a acariciá-lo. Parte a carne, bem picadinha, mil vezes. Sinto uma necessidade súbita de ir embora dali, como se a minha plateia não condissesse com o teatro encenado. Melhor deixá-los à vontade, e torcer para o menino crescer rápido e ganhar dinheiro para pagar a própria terapia.

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