Comportamento

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Medo de amar

Publicado por Marta em 12 Out 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

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Toda mulher já encontrou em sua vida o homem-que-não-quer-se-comprometer. Eu tinha até me esquecido do tipo, quando vi o filme “Fatal”, na sexta-feira. Ele está lá, inteirinho, interpretado pelo ator Ben Kingsley (o eterno Gandhi) mas revelado de fato pelo escritor Philip Roth, autor do romance que inspirou o filme e conhecido por seus livros obviamente autobiográficos.

Pois bem, sabe aquela história difundida pela literatura de auto-ajuda mulherzinha, de que o tal cafajeste simplesmente não está a fim de você, sua tonta, que fica inventando que o sujeito é imaturo, inseguro ou tem medo de amar? Esqueça. Segundo ele próprio, o homem-que-não-quer-se-comprometer, a velha intuição feminina, mesmo que abalada por uma paixão, está certa. O solteirão convicto e charmoso chega a parecer patético no filme, até porque esnoba ninguém menos do que a Penélope Cruz.

O filme vai além e aborda também com algum interesse o tema da velhice. Não chega a ser fenomenal, mas eu recomendaria para as mulheres que ficaram intrigadas com aquele rompimento sem-pé-nem-cabeça do passado. Elas vão ver que se livraram de uma boa.

Noção do tempo

Publicado por Marta em 06 Out 2008 | sob: Comportamento

Na sala de espera de um cirurgião plástico, a senhora elegante revela ter 73 anos. As outras, na casa dos 50, mal acreditam. Davam uns 65, no máximo. Pronto, há uma nova meta para as cinqüentonas em seu primeiro, ou segundo, pós-operatório: chegar aos 73 parecendo ter 65.

Não, eu não estava lá, mas me contaram a história desse jeitinho. O detalhe final foi que, para reafirmar o case de sucesso que haviam acabado de encontrar, alguém lembrou da atriz Beth Farias, que estaria com 66 anos e, pasmem, parecia ter 66 anos.

Fiquei pensando quando isso termina. Já me vi pensando na hipótese de fazer uma plastiquinha bem básica, lá pelos 50, para continuar me sentindo atraente até uns 60. Depois disso, eu relaxaria. Sessenta anos parece uma boa idade para virar uma coroa respeitável – por outros atributos, que não os físicos.

Mas será que, aos 59 anos, ainda pensarei assim? Ou estarei adiando o plano de ser uma senhorinha para os 70?

A verdade é que o mulherio vai envelhecendo e não quer largar o osso. Sentir-se bonita e jovem é tão tentador que se perde a noção do tempo, da natureza, das outras possibilidades da vida. Foi nessa hora que percebi o quanto é importante estar produzindo, trabalhando, até ficar bem velhinha. É a certeza de estar conectada na vida real, de jamais virar uma “sem noção”.

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Huummm. Agora que caiu a ficha. Acho que a pensata tem a ver com o fato de eu estar completando 43 amanhã…

Mas a sua voz…

Publicado por Marta em 22 Set 2008 | sob: Comportamento

- Ele é inteligente, alto, carinhoso, apaixonado pelo que faz, gosta de literatura e cinema. Mas tem um problema: a voz.

Na mesma hora entendi o ponto de vista da minha amiga. Sei que a lista de exigências femininas anda um absurdo, e costumo ser a primeira a apontar o exagero para as amigas solteiras. Mas, eu própria, por pouco não descartei o Zé nos primeiros dias de namoro por causa da forma como ele falava ao telefone, monossilábico e com a voz pouco impostada.

No meu caso, a razão falou mais forte, e parei de tentar esticar os papos por telefone. Vai ver por isso juntamos logo os trapinhos, para poder falar ao vivo. Hoje em dia, ele compensa, sendo ótimo para teclar pelo MSN. Mas, no caso do pretendente da minha amiga, a voz é horrível mesmo. Por telefone, ao vivo, no barzinho, ao pé do ouvido… Poderia até ter conserto (se mulher conseguisse “consertar” homem), mas, nessas alturas, o problema já cortou o seu, digamos, barato.

Já ouvi de amigos homens comentários parecidos sobre mulheres com voz esganiçada ou melosa demais. Para eles, é insuportável. Ou seja, se você tem um amigo (a) com esse problema, vale sugerir um curso de impostação de voz, fonoaudiólogo ou coisa parecida. É como o sujeito que tem mau hálito e não percebe. Se não houver uma alma caridosa, para dar um toque…

Antes e depois

Publicado por Marta em 15 Set 2008 | sob: Comportamento

A evolu    o da TV 1 1 - A evolu    o da TV 1 1

Domingão de chuva. Depois de zapear por alguns minutos, me dei conta de quanto é inglória a tarefa de tentar, na sorte, casar o meu (raro) tempo livre com a (pobre) programação televisiva. E a gente precisou da internet, para se dar conta disso…

Pequenos e grandes absurdos

Publicado por Marta em 09 Set 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

Li que a peça em cartaz é sobre o absurdo da condição humana. Eu, que nem sou muito de teatro (pelo menos não tanto quanto de cinema), fiquei morrendo de vontade de assistir. Depois me vi pensando que qualquer história, no fundo, pode ser sobre o absurdo da condição humana. Especialmente quando uma trajetória pessoal é observada em retrospecto.

Pela segunda vez tenho me dedicado a entrevistas com pessoas de idade, estimuladas a falar sobre suas vidas. No livro anterior, algumas tinham um passado bastante brilhante, e suas atuais limitações físicas e intelectuais me deixavam deprimida. Depois de esbanjar tanta capacidade de realização, tanto pioneirismo nas idéias, aquelas pessoas pareciam se resumir a dois tipos de velhinho.

Havia os ranzinzas, reclamões que não aceitavam sua condição e davam trabalho para quem estivesse em volta; e os bonzinhos, que despertavam piedade nos outros e tratamentos quase infantis. Ou seja, uma humilhação só. Lá estava a tal condição humana, para lá de absurda, esfregada na minha cara.

Agora, em contato com gente mais simples, voltei a ficar deprimida por perceber como as pessoas podem ser reféns de suas vidas. Gente que se meteu no meio do mato, e nem sabe por que, que não gostava do lugar onde estava, ou do que fazia, mas foi se acostumando. De repente, vupt, a vida havia passado, como se tudo fosse um grande acaso.

Tudo indica que a velhice nos obriga a ser humildes, para aceitar o absurdo da condição humana…

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A propósito da tal peça, encenada por Sérgio Brito (85 anos) no teatro Oi Futuro, fui tentar comprar ingresso e… surpresa! O teatro, que tem “futuro” no nome, não vende entradas pela internet. A piada estava tão pronta que não me contive ao falar com a bilheteria, pelo telefone: Isso não é “Oi, Passado”?

Rapidinhas sobre gentileza

Publicado por Marta em 28 Ago 2008 | sob: Comportamento

A pressa é inimiga da gentileza. Como todo mundo hoje vive na correria…

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Mulher vive reclamando da falta de gentileza dos homens. Ontem, observei como elas podem ficar abusadas diante de um homem sempre gentil, tratando-o como se fosse seu empregado. Depois, vem a fama de gostar de cafajeste.

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Pior que mulher abusada, só mesmo mulher abusada com pressa. Elas são capazes de furar fila, avançar o carro sobre os pedestres, destratar o garçon. Mas não eram os homens, os grosseirões?

Falsas lembranças

Publicado por Marta em 25 Ago 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

brilho eterno 1 - brilho eterno 1

Uma das curiosidades sobre ultrapassar a barreira dos 40 é que começamos a ter outra percepção da importância e da relatividade da memória. Conversando com pessoas da mesma faixa etária, percebo que as lembranças, com o tempo, não só ficam seletivas como podem ser recriadas. Essa reconstrução do passado acontece a partir de uma mistura de materiais - sentimentos, fotos, relatos e, vá lá, lembranças.

Na medida em que a memória vai falhando, os buracos são preenchidos por fantasias e suposições - cimentados cada vez que recontamos a tal história. Os vôos da imaginação costumam ser contidos por registros, como fotos e cartas, além de relatos de outras pessoas que viveram o mesmo momento. Ainda assim, não é incomum duas pessoas recontarem a mesma história, de 20 anos atrás, de forma completamente diferente.

Estou trabalhando numa pesquisa que remete a memórias de 30, 40, até 50 anos atrás, e tenho me deparado com situações inusitadas, como a de uma senhora que jurava ter acontecido, no dia de seu casamento, um fato importante na sua cidade, que na realidade só ocorreu dois dias depois. Ela não estava mentindo, simplesmente havia juntado, na sua lembrança, dois acontecimentos tão marcantes que talvez devessem ter sido simultâneos. Mas não foram. Sinto-me quase constrangida de não poder endossar sua fantasia.

Uma matéria do New York Times, publicada hoje no caderno Digital do Globo, mostra pessoas que estão optando, conscientemente, por recriar a própria memória, manipulando os registros do passado e sendo feliz para sempre. Sim, é a cara do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Só que pra valer.

Você insere na foto do seu casamento o primo que não pôde ir, tira a sirigaita que namorava o tio na época, e que hoje não tem a menor importância, aproveita para afinar a própria silhueta e pronto: lá está a data memorável, do jeito que você vai imaginar no futuro. Daqui a dez anos, quem se lembrará dos retoques? E você ainda vai jurar que seu primo estava lá, veio do Canadá especialmente para a cerimônia.

***

Essa reflexão toda é útil para a gente tentar criar, de verdade, os tais momentos inesquecíveis nas nossas vidas. Aqueles que não precisarão de foto para serem lembrados, e ficarão a salvo da tentação do photoshop. Talvez a dica esteja nas cenas difíceis de serem apagadas de “Brilho eterno”, filme que merece ser visto e (por via das dúvidas) revisto.

Livros e martelos

Publicado por Marta em 21 Ago 2008 | sob: Comportamento

Você já comprou uma roupa que nunca usou? E um livro que nunca leu? Não sei você, mas, a mim, dá uma culpa enorme. Nada mais constrangedor do que, depois de um piti por “estar sem roupa”, encontrar uma blusinha com a etiqueta no armário.

Em relação a roupas, guardo o nome da loja e fico atenta se não rola alguma armadilha. Provavelmente eles têm algum truque para você levar o que não precisa ou jamais ficará bem. A outra hipótese é você ter tido um surto consumista, e nessa hora é bom aprender a lição.

Mas, no caso do livro, a culpa sempre é sua, que não arrumou tempo para algo importante (ler um livro sempre é mais importante do que a maioria das coisas banais que você faz). Começar um livro e parar no comecinho dá uma sensação terrível de falta de persistência. Afinal, quantos deles só ficam maravilhosos lá pela metade?

Então a pilha de livros na mesinha de cabeceira vai aumentando, porque me nego a colocá-los na estante, não lidos, onde ficarão semi-esquecidos.

Fiquei curiosa sobre como as pessoas se sentem a respeito disso quando soube, entrevistando uma agente literária para uma matéria, que o mercado editorial não se importa tanto se os livros são lidos, contanto que sejam comprados. “Como assim?”, perguntei. Ela me explicou que já existem pesquisas lá fora, não muito conclusivas, sobre títulos com boas vendas, mas que não são lidos por seus compradores. Não é estranho? Será que as pessoas não se sentem mal a respeito?

Certamente tudo isso tem a ver com o tal consumismo desenfreado. A melhor definição que já ouvi sobre o assunto foi a da “síndrome dos dez martelos”, diagnosticada, claro, nos Estados Unidos. Trata-se do comportamento do sujeito que, quando precisa fincar um prego na parede, vai feliz da vida numa loja comprar um martelo. Quando termina o trabalho e precisa guardar a ferramenta na garagem, encontra lá nove martelos igualzinhos.

A esquisitice foi detectada a alguns anos, o que me leva a crer que hoje já deva ser chamada de “síndrome das dez furadeiras”. Ou seja, são coisas que compramos apenas pelo prazer, ou pela compulsão, de comprar. Feio, né? Acho que vou fazer um esforço para baixar a pilha na minha cabeceira, antes de comprar mais livros.

Ter filhos: quando é melhor nem sabê-lo

Publicado por Marta em 08 Ago 2008 | sob: Comportamento

Fiquei chocada com uma cena que presenciei na academia, onde tomo banho antes de ir para o trabalho. Uma menina de uns 5 ou 6 anos, depois da aula de natação, era obrigada pela mãe a passar por uma sessão de … escova!

A menina dizia “Mãe, tá quente!”, tentando escapulir do secador que a mulher mirava no couro cabeludo da coitadinha. A mãe respondia, em tom carinhoso, mas sem dar trégua: “Só mais um pouquinho” ou “Já está acabando”.

Nem preciso dizer que a mulher tinha um cabelão, que eu juraria ser superliso de nascença, se não relacionasse os fatos. A menina também tinha cabelo comprido, provavelmente ondulado demais para o gosto da progenitora. E dá-lhe baforadas quentes, bem no comecinho do cabelo, que é o segredo da escova bem feita, para quem não sabe.

Essa história de mulheres que tentam fazer das filhas uma espécie de miniatura de si próprias, a qualquer custo, sempre me intrigou. Não é muito mais interessante observar uma personalidadezinha própria aparecendo na sua frente, como mágica? Mas não. Pais e mães adoram relacionar as características do filho às suas. “Igualzinho à mãe”, “Igualzinho ao pai”. E a criança vai ouvindo aquilo, aprendendo que deve ser assim ou assado, para não decepcionar os adultos que mais ama.

Quando eles chegam ao ponto de colocar-lhe roupas desconfortáveis, e até torturá-la com secador, como se a criança fosse um objeto decorativo, aí dá para pensar se essa campanha para não ter filhos não veio em boa hora. Quem tem filho para exibir ou fazer companhia pode tranqüilamente escolher outras fontes de prazer - se a maternidade deixar de ser uma obrigação e passar a ser uma opção.

O assunto está bombando na imprensa desde que foi lançado no Brasil o livro “Sem filhos – 40 razões para você não ter”, da psicanalista Corinne Maier. Quem ainda não esbarrou com artigos por aí pode ter uma dimensão da polêmica no blog Contemporânea, da Carla Rodrigues. Trata-se de uma discussão das boas.

Confesso que já me flagrei tentando convencer amigos inseguros a ser pai ou mãe, por achar que vão curtir a experiência (como eu) e desempenhar relativamente bem o papel (como eu!). Ao mesmo tempo, já pensei também: “Por que diabos essa pessoa teve um filho?”. Foi, aliás, exatamente o que me ocorreu no banheiro da academia, hoje de manhã.

Exagerei no gloss

Publicado por Marta em 05 Ago 2008 | sob: Comportamento, Opinião

Kirchner - Kirchner

A foto acima, divulgada hoje pela agência Reuters, me fez lembrar um diálogo que escutei na semana passada.

Ela, infinitamente mais jovem e bonita que a Cristina Kirchner da foto, mas com boca igualmente carnuda, retocava o gloss da Victoria’s Secret, sem ajuda de espelho. No fim, perguntou se tinha ficado ok. No que ele respondeu:

- Está ótimo. Parece que você acabou de comer um javali.

***

Por falar em Cristina Kirchner e Mercosul, que é o assunto dos jornais, convenhamos que dá um certo desânimo acompanhar esse noticiário, depois de páginas e páginas sobre a Rodada de Doha, que não deu em nada.

Poesia, numa hora dessas

Publicado por Marta em 31 Jul 2008 | sob: Comportamento

Quando eu tinha uns 13, 14 anos, meu pai me encheu de livros que gravitavam em torno da ditadura militar. Estávamos no fim dos anos 80, ainda sem eleições livres, e por algum motivo ele achou que era hora de eu saber das coisas da vida.

Lembro-me de ter ficado bastante impressionada com a questão da tortura. A partir dessa época, por uma estranha lógica que desenvolvi internamente, comecei a decorar versos. A idéia era que, se algum dia eu ficasse em uma situação de isolamento e dificuldade, teria textos na cabeça para me fazer companhia.

Como não era exatamente devoradora de poesia, passei a contentar-me em colecionar mentalmente letras de músicas. Era o tempo das rodinhas de violão, o que facilitava bastante as coisas. Quando a hipótese de um cativeiro, motivado pela militância política que eu nem tinha, parecia remota, arranjei outro motivo para justificar a decoreba: a iminência de uma hecatombe nuclear, outra paranóia da época. Caso eu ficasse presa em um abrigo, cercada de radioatividade…

Isso tudo me veio à mente outro dia quando vi o filme “O escafandro e a borboleta”. O personagem principal encontra-se numa situação absurda de encarceramento - dentro do próprio corpo, conseguindo expressar-se apenas por piscadelas do olho direito - quando é visitado por um amigo que sobreviveu a um longo seqüestro.

Havia motivos para ressentimentos por parte do sequestrado, que sequer recebera um telefonema do amigo quando retornara de seu suplício. Mas a cumplicidade fez-se mais forte. Ele arrisca, então, um conselho, baseado na sua terrível experiência: para sobreviver, agarre-se ao que resta de humanidade dentro de você.

Hoje nem penso em tragédias desse tipo, mas fiquei feliz por ter mantido o hábito de guardar versos. Ainda hoje, flagrei-me cantarolando na carro, tentando decorar as letras do novo CD da Adriana Calcanhoto, que é maravilhoso.

Fumantes X Não fumantes

Publicado por Marta em 02 Jul 2008 | sob: Comportamento

Com a proibição do cigarro em ambientes fechados, o clima entre fumantes e não fumantes está cada vez mais tenso. Às vezes tenho a impressão de que os dois grupos estão prestes a se estapear.

Pois tenho uma má notícia para os fumantes: a patrulha só vai piorar. Explico. Quem tolerava o cigarro do amigo no barzinho vai perder o hábito, quem associava uma noitada dançante à fumaça vai desacostumar, quem ignorava o cigarro aceso na mesa ao lado vai passar a detectá-lo do outro lado do restaurante.

Conviver com o cigarro alheio é puro hábito. E hábito é fogo (sorry). Depois que mudamos…

Falo por mim. Uns dez anos atrás, eu era uma não fumante que até seguia o cheirinho do cigarro, presente em toda a parte. Onde houvesse uma rodinha de fumantes, haveria bom papo, gente querendo relaxar, dar uma paradinha no trabalho. E lá estava eu, acostumadíssima, talvez compartilhando um café.

Hoje, fico até enjoada. Não me irrito, tenho alguma piedade de quem tenta parar e não consegue, mas a tolerância física simplesmente diminuiu. Outro dia estava rodeada de fumantes, numa providencial varanda, e, apesar do ótimo papo, não pude evitar algum mal estar.

Se somarmos o novo hábito de convivência separada, com as campanhas anti-tabagistas e a intolerância (psicológica) de ambas às partes, imagino que a mistura será explosiva. Sei não, acho que ainda presencio um tapão qualquer dia desses.

A nova inteligência virtual

Publicado por Marta em 23 Jun 2008 | sob: Comportamento

Aos trancos e barrancos, entre e-mails falsos e cartões clonados, estamos desenvolvendo um novo tipo de inteligência pra lá de necessária nos tempos modernos: a de discernir entre o falso e o verdadeiro no mundo virtual. Assim como um caipira aprende a não dar trela para estranhos na cidade grande, e não cair no conto do vigário, passamos a desconfiar da autenticidade de quase tudo que se apresenta embalado apenas em tecnologia.

A praga dos spams já fez muita gente prever até que voltaríamos atrás na era digital. Isso não aconteceu – nem acontecerá – porque se trata de um caminho sem volta. A solução? Acho que cada um encontrará a sua. Os mais velhos podem, assustados, dar meia volta, e abrir mão de facilidades como e-mail ou compras na internet. Os mais novos, porém, já estão crescendo como “cobras criadas”, conhecendo todas as malícias e armadilhas do mundo digital.

Fiquei pensando nisso quando recebi, no sábado, um e-mail de confirmação de compra de uma passagem aérea da Gol. Já tenho como regra nunca clicar em links suspeitos (graças a deus aprendi sem ter infectado o computador), mas como tive o cartão de crédito clonado recentemente, cheguei a considerar a hipótese de o e-mail ser verdadeiro, talvez por ter lido a mensagem na tela pequena do blackberry.

Corri para um computador e logo percebi os “furos” no texto do e-mail, sem os detalhes normalmente enviados nas compras de passagem pela internet. Cheguei a ficar com raiva de mim mesma pelo sobressalto. Afinal, julgava-me “cobra criada”, pelo menos nesse departamento. Como a maioria das pessoas, já recebi e-mails falsos da “Receita Federal”, de supostos amigos enviando fotos ou flores online etc. Alguns dias antes tinha acompanhado a aporrinhação pela qual passou o pessoal do Comunique-se, maior portal de jornalistas, depois de ter sido vítima da prática chamada phishing.

Como aprendi no alerta enviado pelo portal, avisando que não era responsável pela falsa promoção disparada a todos os seus assinantes, a tal prática consiste na tentativa de adquirir informações como senhas e números de cartão ao se fazer passar por pessoa ou empresa confiável. Ando de butuca tão ligada que tinha identificado na mesma hora a fraude, porque o remetente era “@comuniquese”, tudo junto, e não “@comunique-se”, como o portal. No mesmo dia tinha recebido também um e-mail de uma amiga com um spam, enviado a todos os que estavam na sua lista. Dei uma olhadela, percebi que a pobre foi vítima de um vírus, e deixei pra lá.

Imagino que seja assim que a garotada esteja se virando. Desconfiando, eventualmente “caindo”, e, principalmente, deixando pra lá. O mundo real e verdadeiro acaba se impondo – e eles, os jovens, já têm essa inteligência. Nós, da era analógica, ainda ficamos sobressaltados, nos sentimos inseguros e invadidos. Temos ânsia de sair por aí “resolvendo”, processando ou coisa parecida.

Quando me avisaram que meu cartão de crédito havia sido clonado, eu queria porque queria participar das investigações. Que tipo de estabelecimento poderia ter feito a clonagem? Teria sido no posto de gasolina, como já me alertaram? Que lugares eu deveria evitar? O pessoal da Mastercard não me deu a menor bola. O problema era deles, que têm seu próprio departamento de investigação, e o custo dessas fraudes certamente está embutido na taxa de administração do cartão.

Ou seja, apesar de sermos caipiras cada vez mais espertos, nunca seremos o suficiente. Isso, porém, não deve ser motivo para maiores angústias, nem para querer voltar para a roça. Afinal, cidade grande é bão demais.

Problemas com a mãe

Publicado por Marta em 12 Mai 2008 | sob: Comportamento

Algumas pessoas, ontem, fizeram um esforço. Percebi que tentavam agradar, não se irritar, seguir o script do dia das mães: presente, almoço, confraternização familiar. Mas o fato é que nem todo mundo se dá bem com a mãe.

Veja, não falo aqui de “filhos desnaturados”. Eles amam suas mães, se preocupam, são gratos por tudo (?). Mas gostam da idéia de mantê-las a uma distância segura. Longe o suficiente para não ouvir suas críticas, chantagens, palpites sobre como deveriam viver suas vidas.

É bonitinho ver as senhorinhas orgulhosas em mesas compridas do dia das mães. Esse encontro de gerações pode ser bastante rico, um momento de compartilhar lembranças e afetos. Mas é tudo muito simbólico. O fato é que mães só são mães pra valer enquanto seus filhos são pequenos.

Depois que o filho se torna um adulto, independente e com dinheiro para pagar o próprio analista, a mãe perde o seu papel – pode no máximo desempenhar um novo, o de avó. É nesse ponto que a mãe deveria se tornar “apenas” uma amiga de seu filho, uma cúmplice querida, por conta da forte ligação do passado. E não um peso, uma chantagista, que se vale desse mesmo passado em comum para exercer algum poder.

Nem todas as mães conseguem alcançar esse novo equilíbrio na relação com seus fihos crescidos. Muitas vezes, por não terem conseguido recompor suas identidades, depois de tanta dedicação. Não deve ser fácil mesmo. Filho é um amor sem tamanho. Tudo deve parecer menor, depois dessa experiência tão intensa.

Mas não se sinta culpado, se você não tem paciência com a sua mãe. Faça o suficiente para não ser “o filho desnaturado” - porque isso é mesmo pesado demais, na nossa cultura. Mas siga o curso de sua vida normalmente. E aprenda a lição, para não repetir a ladainha quando seus filhos estiverem grandes…

Psiu o quê?

Publicado por Marta em 24 Abr 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

Há algum tempo venho tentando mudar minha postura no cinema. Como percebi que os mal-educados se lixavam para os meus “psius”, enquanto euzinha acabava transtornada com a situação, resolvi ficar zen. Respiro fundo, dou uma olhada para checar se a dupla vai tagarelar a sessão inteira, e tento mudar de lugar. Antes a primeira fila, com pescoço doendo, do que ficar irritada e distraída durante o filme.

A estratégia, porém, foi para as cucuias no feriado. Nos primeiros minutos do filme (”Estômago”, excelente, apesar de tudo), eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. Numa platéia formada basicamente por casais, simplemente TODOS comentavam cada cena do filme. Como se estivessem em suas salas de estar. Era impossível ouvir os diálogos sem acompanhar simultaneamente o ponto de vista de pelo menos três pessoas próximas - fora os cochichos mais distantes.

Não havia como soltar um “psiu” ali. Era capaz de me olharem com espanto, de tão à vontade que estavam. Saí do cinema, em um shopping na Barra da Tijuca, tentada a buscar uma explicação no balaio de preconceitos comumente reservado aos moradores do bairro. Ah, na zona sul não aconteceria, pensei alto. Será que não?

Talvez seja hora de se render. Jogar a toalha. Os tempos são outros, o ritual do cinema mudou. Aliás, nao é mais ritual. Comentando o fato com uma amiga recém chegada de Portugal, ela me garantiu que lá está pior, as pessoas falam no “telemóvel” sem pudor, no meio da sessão.

Com sempre resta uma esperança, vou ficar atenta às platéias que freqüentam cada sala de cinema no Rio. Quem sabe descubro algumas mais educadas que outras.

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