3 de Novembro de 2009

Revolucionários, graças a deus

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 14:16

coco antes vale - coco antes vale

Imagine que você enxerga algo que ninguém vê. Para você, aquela ideia é clara e consistente, mas parece um delírio ou excentricidade para todos os outros. A sua visão privilegiada provavelmente é fruto de algum tipo de exclusão: foi rejeitado pelo grupo por ser nerd, pobre, feio ou simplesmente diferente.

Se permanecer de fora, você continuará sendo um esquisito e não conseguirá fazer a revolução que lhe é óbvia e necessária. Por outro lado, no esforço para se inserir, será tentador abrir mão de suas convicções, e finalmente ser aceito e amado.

O verdadeiro “revolucionário”, no sentido de pessoa que consegue empreender mudanças na sociedade, é aquele que não se deixa “cooptar” pelo antigo e estabelecido, mas sabe negociar com os símbolos do “passado” para ter condições de mudar o futuro (o seu e o dos outros).

São pessoas admiráveis. Eu, por exemplo, consigo no máximo abraçar tendências. Não me vejo segura e desapegada de afetos a ponto de ir contra tudo e todos em nome de algo absolutamente novo. Pensaria: não estou louca? Ou: vale a pena?

Fiquei pensando nisso tudo depois de ver no cinema “Coco antes de Chanel”, a história da estilista que mudou a forma de as mulheres se apresentarem ao mundo. Pelo menos sob a lente da diretora Anne Fontaine, Coco Chanel foi assim, e muitas das negociações às quais se submeteu tiveram relação com o fato de ser mulher numa época em que isso era um absoluto limitador da existência humana (sempre me impressiono ao constatar como essa “pré-história” é recente).

Nos nossos tempos, em que a busca da felicidade vem em primeiro lugar (é tudo o que desejamos aos nossos filhos, não é mesmo?), os revolucionários autênticos tornaram-se raros. A ironia é que, ao mesmo tempo, o marketing da mudança está por toda a parte.

29 de Maio de 2009

Catedral

Arquivado sob: Comportamento, Viagens — Marta @ 17:20

Entrei na catedral, belíssima, pensando numa forma de guardar aquele momento na lembrança. A máquina fotográfica na bolsa, eu sabia, seria completamente inútil. Já havia tentado, em outra ocasiões, registrar detalhes, ângulos diferentes, mas o clique apenas se somava a outros tantos, digitalizados. Outras fotos de igreja. Nada que traduzisse, mesmo que remotamente, o ambiente silencioso e escuro, refúgio perfeito para meus sentimentos exaustos.

Se ao menos houvesse um concerto de órgão, como aconteceu em uma igreja de luzes amarelas que jamais se apagará de minha memória. Ou aquele casamento estranho (húngaro!), cuja celebração ecoava no templo grande demais para o número de convidados, com mulheres sentadas em seus vestidos espalhafatosos e homens enfileirados no altar.

Mas aquela catedral, em Santiago, seria apenas mais uma, mesmo linda e me deixando de olhos marejados. Minha memória me trairia, apegada a curiosidades mundanas, e não a sentimentos profundos.

Em uma última tentativa, fixei-me em uma mulher de cabelos compridos e rosto largo, que chorava baixinho em frente à imagem de Santa Teresa, na lateral da nau. De longe, fiquei observando-a, disfarçando a minha condição de turista. Mas percebi que também ela não seria suficiente. Não lembraria delas, catedral e mulher, daqui a dez anos, quando estiver contando a alguém que, sim, já fui a Santiago, e gostei muito - ou não tanto assim.

Já resignada com a lembrança perdida para sempre, flagrei-me pensando nos motivos que levavam aquela mulher às lágrimas. Talvez a morte de alguém querido, a vontade de ir embora também, depois de uma vida curta e cheia de tragédias. Ou, nada disso, ela enfrentava sua primeira adversidade, depois de uma vida de paparicos, e não sabia o que fazer com um sentimento de amor contrariado.

Foi então que descobri, de repente, que a catedral chilena não me escapuliria tão fácil assim. Em alguma daquelas gavetas secretas da memória, ela ficaria guardada, junto com a mulher sofrida, se fazendo de esquecida numa mente ocupada demais e repleta de preocupações. Mas um dia, diante do computador, ela estaria numa história, entrelaçada com outras lembranças, igualmente reservadas por emoções inconfessáveis. Inconfessáveis para mim. Mas não para a mulher de cabelos compridos e rosto largo, que finalmente contará tudo o que sentia.

17 de Abril de 2009

Apocalipse

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 19:43

Se você bater na porta do vizinho que há anos recebe o jornal dobradinho pela manhã e perguntar sobre o fim dos jornais, por causa da internet, é capaz de ele achar que você enlouqueceu.

Foi mais ou menos assim que eu ouvi o Chico Buarque comentar, an passant, a discussão envolvendo o fim da canção. Nunca tinha ouvido falar disso. A cena está no “Palavra (en)cantada”, documentário imperdível que explica por que a música popular brasileira é melhor que as outras (por causa da poesia).

Depois, para completar, a minha analista contou ter visto alguns professores sinceramente abalados com a onda do ensino à distância. Parece que, após alguma imersão no assunto, a categoria perde o sono com o fim do professor.

Compositores, jornalistas, professores… alguém conhece mais alguma profissão prestes a acabar?

11 de Abril de 2009

Depois da proteção, a chantagem

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 20:10

Não é de hoje que pais superprotegem filhos. Mas sempre há novas formas de fazer a mesma bobagem, e a última geração de superpais está retratada na edição da revista Época desta semana, em matéria infelizmente fechada para assinantes (babau repercussão na web).

Não pude deixar de reconhecer alguns pais de amiguinhos da minha filha, que tentam facilitar/controlar a vida dos filhos nos mínimos detalhes, em geral via celular. Claro que não sou santa nessa história e também me identifiquei na ansiedade para preparar a filha para o futuro, estimulando supostos potenciais e dando instrumentos para ela enfrentar suas dificuldades.

A grande questão parece ser se os filhos protegidos ficarão irremediavelmente “estragados” ou se ainda haverá chances de tomarem as rédeas de suas vidas, depois de algumas sessões de análise. Mas existe uma outra face, da mesma moeda, que acaba passando despercebida: os superpais costumam cobrar a conta.

Mesmo que os filhos consigam se tornar independentes quando adultos, dificilmente deixarão de sofrer com as chantagens típicas de pais e mães que se sentem abandonados, “depois de tudo o que fizeram”. É incrível, mas já tenho presenciado chantagens assim de mães de crianças de apenas 9 ou 10 anos. Ao sentir os primeiros sinais de autonomia do pimpolho, envolvendo situações banais como dormir na casa do amigo, elas tratam de lançar um olhar comprido, o suficiente para fomentar a tal culpa que acompanhará o pobre coitado a vida toda (apesar da terapia).

Nesse aspecto, pelo menos, tento segurar a minha onda. Ver a minha filha independente vai ser sempre o meu maior orgulho. E ninho vazio, apesar de todo o sofrimento da perda, a gente preenche com outros interesses na vida.

27 de Março de 2009

Espelho

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 15:43

Um dia eu estava dando sopinha para a minha bebê, quando ela pegou a colher e tentou enfiar na minha boca. Entrei na brincadeira e ela pronunciou uma de suas primeiras palavras, enquanto eu engolia a sopa: “Iiiiichu!”. Só então percebi o meu hábito de falar “isso”, em tom de aprovação, a cada colherada que ela abocanhava.

Pois bem, na semana passada, eu tentava convencer a mesma filhota a fazer um programa quando soltei um “vai ser maneiro”. Pra quê. “Mãe, eu proibo você de dizer ‘maneiro’. Mães não falam ‘maneiro’.” Ela estava brincando, claro, até porque é um docinho de coco. Mas foi interessante perceber a inversão de papéis.

A gente descobre que a filha tem 9 anos quando ela para de nos imitar, e nós adotamos gírias para sermos ouvidos…

25 de Março de 2009

Cosquinha

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 15:31

Tenho ido pouco ao teatro, e outro dia me vi confessando o motivo para amigos. Por alguma razão, neste tipo de programa passo com frequência pela situação de toda a plateia rir, menos eu. A cena pode fica ainda mais constrangedora quando acontece de eu soltar uma gargalhada sozinha, me destacando desconfortavelmente da multidão.

O pior é que eu até entendo as supostas piadas, só não acho aquela graça toda, que justifique a efusividade dessas plateias que frequentam comédias no Rio. No máximo consigo esboçar um sorriso. Meu amigos me garantiram que andei assistindo aos espetáculos errados, me deram uma listinha das boas peças em cartaz e juro que vou tentar novamente.

Mas o fato é que nunca achei graça de alguns tipos de humor, nem quando era menina. Por exemplo: o pastelão, em mim, não provoca a menor reação. Claro que se for um bom palhaço, ou o Carlitos, vou achar comovente, alegre, e ponto final. Sem risos histéricos. E os humoristas antigos da TV, tipo Chico Anísio, sempre me entediaram profundamente.

Já aquela tirada genial… Ela pode me tirar do sério, de verdade. Deixar-me com ataque de riso, daqueles de chorar. Posso gargalhar dois dias depois, quando me lembrar dela novamente.

Outro dia ouvi uma boa definição deste tipo de humor, numa entrevista que o Marcelo Tas deu para a TV UOL. Seria como uma cosquinha entre neurônios, como se um dissesse para o outro: ih, acho que caiu uma ficha! Mas a risada só brota quando entendemos alguma coisa que não sabíamos antes. Ou seja, piada velha não funciona.

Pra variar, ser criativo é tudo.

16 de Dezembro de 2008

Vigilância e cumplicidade

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 16:52

Um professor coloca pedras grandes dentro de um recipiente vazio, até não mais caber, e pergunta aos alunos se está cheio. Eles respondem que sim. Mas o mestre pega um saco de pedrinhas pequenas e mostra que cabe muito mais. E agora, está cheio? Alguns ainda arriscam em concordar, até ele repetir o truque com areia, e depois água.

Terminada a primeira etapa da experiência, o professor volta-se para outro recipiente, idêntico, e enche-o de água. Dessa vez, nada mais caberá ali – areia, pedrinhas ou pedras grandes.

Muito bem, diz a orientadora do Vigilantes do Peso, quem sabe o que representam as pedras grandes, que precisam vir antes para ocupar o espaço? Uma jovem, de mãos dadas com o namorado (ambos pouco acima do peso e com ares de novatos), responde baixinho: são as saladas? A palestrante não ouve, porque uma senhora obesa dá a resposta certa, com a voz impostada: as pedras somos nós!

Eu teria apostado na salada. Mas o Vigilantes é assim, cheio de parábolas da internet e metáforas bregas, como um livro de autoajuda - com a diferença de que funciona. Uma vez fui a uma reunião do Narcóticos Anônimos, para fazer uma matéria (juro), na sacristia de uma igreja no Grajaú. Ali, com permissão para observar a rodinha, percebi por que esses grupos costumam ter bons resultados, apesar de congregar pessoas tão diferentes.

Acima de tudo, de tudo mesmo, existe a busca por identificação, cumplicidade e compromisso. Simples assim. Mudar hábitos, ou vícios, é difícil para todo mortal, rico ou pobre, simples ou sofisticado. Nos AAs da vida, as pessoas se despem de preconceitos, relevam as diferenças e se apóiam umas nas outras.

Nessa hora, dá para acreditar que o homem é mesmo um ser gregário, e não alguém prestes a atirar em outro da mesma espécie por causa de uma briga de trânsito.

***

Sobre o Vigilantes, sempre tive curiosidade, mas temia olhares hostis do tipo o-que-essa-magra-está-fazendo-aqui. Mas foi tranqüilo. Pelo menos em Ipanema, estar três quilos acima do peso (de novo…) já é suficiente para os outros levarem a sua preocupação a sério.

1 de Dezembro de 2008

Pode ser tendência

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 16:01

Há algum tempo parei de assinar a Veja. Demorei. Embora indignada com a revista, eu tinha aquela sensação de se tratar de leitura obrigatória, como antigamente supunha ser o Jornal Nacional. Temendo crises de abstinência aos domingos, depois de anos de vício, assinei a Época.

Mas continuava com aquela coceirinha de folhear a Veja, quem sabe por um impulso masoquista. Comecei a encontrá-la nos cafés de Ipanema e dar uma olhadinha. Adorei a sensação de não ser assinante oficial, ideologicamente falando, e poder acompanhar os assuntos da revista - ficar indignada com a linha editorial, mas ler também alguma matéria interessante.

A tal folheada pode levar dez minutinhos ou uma hora, dependendo do interesse que a edição despertar. Não é que o espírito francês de deixar os clientes à vontade, pagando apenas por uma xícara de café, pegou no Rio? Ou seja, por módicos R$ 3 tomo um expresso e ainda leio a Veja, que custa R$ 8,40 nas bancas.

Para completar, sinto-me ecologicamente correta. Toda vez que coloco no lixo uma pilha de revistas quase novas, e constato que ninguém mais leu, morro de culpa. Chego a lamentar não ter um consultório, ou outro negócio com sala de espera, para compartilhar as revistas com os pacientes/clientes.

Já nos cafés, as revistas estão do jeito que deveriam estar - usadas, lidas e relidas. Nos salões de cabeleireiro, então, nem se fala, embora ali só encontremos as Caras da vida. Aliás, alguém mais, além dos salões, assina a Caras?

Resultado: agora já penso em reservar outro café semanal para ler - ou folhear - a Época. E parar de assinar. A verdade é que não existe revista semanal indispensável, que precisa ser lida ainda no domingo. Isso era antes da internet.

Hoje, a semanal está mais para prazer do que obrigação. E uma leitura assim, leve e casual, parece própria de ser compartilhada em “salas de leitura” - e aí está uma oportunidade que os cafés já perceberam.

Em uma galeria em frente ao meu escritório, existem dois cafés. A Browneria, que deixa em cima das mesinhas Veja e Caras da semana, está sempre lotada. O Armazém do Café, com meia dúzia de revistas velhas, fica vazio. Pode ser coincidência. Mas também pode ser tendência.

24 de Novembro de 2008

Tênis chinelo Rio de Janeiro

Arquivado sob: Femininas, Comportamento — Marta @ 16:08

Mulheres costumam ter problemas para escolher a roupa. Quanto menos familiar a ocasião – incluindo local e pessoas ao redor -, mais difícil encontrar as peças certas no guarda-roupa. Em uma das ótimas cenas de “Vicky Cristina Barcelona”, a primeira personagem do título troca de blusa meia dúzia de vezes antes de seu encontro romântico e proibido. O detalhe é que as trocas consecutivas se dão apenas entre duas opções. Atire a primeira pedra a mulher que nunca experimentou várias vezes a mesma roupa, variando apenas os ângulos no espelho.

Apesar de a cena descrita acima ser motivo de piada nas rodas masculinas, desconfio que não seria diferente com os homens, se eles fossem tão atentos aos detalhes - e tivessem tantas opções de indumentária - quanto as mulheres. O motivo é um só: ninguém gosta do sentimento de inadequação – salvo, claro, quando a intenção é exatamente chamar a atenção (ou quando se é turista; mas a liberdade da inadequação autorizada a ele é um capítulo, ou post, à parte)

Pois na sexta-feira passei por minha prova de fogo. Tinha levado para trocar na academia uma roupa escolhida com algum critério, para poder sair à noite - um vestidinho longo e informal, sugestão inspirada em uma vitrine ipanemense. Como de hábito, emendaria o trabalho do dia com a balada noturna - se é que podemos chamar assim um jantarzinho básico com amigos acima dos 40, talvez 50 anos.

Suada e feliz com o sentimento da ginástica cumprida, dirigi-me ao merecido banho certa de que não tinha esquecido nada – até o xampu havia me lembrado de repor. Vestido abotoado e cabelo escovado, imaginei que a sexta-feira valia um rímel, providenciamente mantido na bolsa da academia. Aproveitei a incursão na bolsa lotada para pegar a sapatilha, perfeita para dosar a ousadia do vestido longo. Apalpa daqui, afasta a toalha molhada de lá, e nada. Não acreditei. Tinha esquecido a sapatilha em casa.

Teria que calçar o tênis. Justamente o tênis velho, e não o novo, ainda por cima sujo de barro, da trilha feita no fim de semana. Teria que sair dali de vestido longo e tênis sujo. Tentei suavizar a situação mentalmente, ser mais Cristina do que Vicky, mas estava difícil. Não, eu nem mesmo almoçaria no shopping, de tênis e longo, como se estivesse lançando moda. Daria um jeito de passar em casa o quanto antes, e rezaria para não atrair olhares curiosos até lá.

Por coincidência, uma amiga de São Paulo me ligou no dia seguinte desesperada: tinha trazido na bagagem apenas chinelinho de dedo, para ir à festa carioca onde conheceria os amigos do novo namorado. No Rio, chovia a cântaros. Ainda por cima, ela descobrira um convite luxuoso para a tal festa presumidamente informal.

Outra Vicky, coitada, pensei eu… Na próxima encarnação, juro que quero nascer Cristina.

12 de Outubro de 2008

Medo de amar

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 20:16

elegy 1  1 - elegy 1  1

Toda mulher já encontrou em sua vida o homem-que-não-quer-se-comprometer. Eu tinha até me esquecido do tipo, quando vi o filme “Fatal”, na sexta-feira. Ele está lá, inteirinho, interpretado pelo ator Ben Kingsley (o eterno Gandhi) mas revelado de fato pelo escritor Philip Roth, autor do romance que inspirou o filme e conhecido por seus livros obviamente autobiográficos.

Pois bem, sabe aquela história difundida pela literatura de auto-ajuda mulherzinha, de que o tal cafajeste simplesmente não está a fim de você, sua tonta, que fica inventando que o sujeito é imaturo, inseguro ou tem medo de amar? Esqueça. Segundo ele próprio, o homem-que-não-quer-se-comprometer, a velha intuição feminina, mesmo que abalada por uma paixão, está certa. O solteirão convicto e charmoso chega a parecer patético no filme, até porque esnoba ninguém menos do que a Penélope Cruz.

O filme vai além e aborda também com algum interesse o tema da velhice. Não chega a ser fenomenal, mas eu recomendaria para as mulheres que ficaram intrigadas com aquele rompimento sem-pé-nem-cabeça do passado. Elas vão ver que se livraram de uma boa.

6 de Outubro de 2008

Noção do tempo

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 15:08

Na sala de espera de um cirurgião plástico, a senhora elegante revela ter 73 anos. As outras, na casa dos 50, mal acreditam. Davam uns 65, no máximo. Pronto, há uma nova meta para as cinqüentonas em seu primeiro, ou segundo, pós-operatório: chegar aos 73 parecendo ter 65.

Não, eu não estava lá, mas me contaram a história desse jeitinho. O detalhe final foi que, para reafirmar o case de sucesso que haviam acabado de encontrar, alguém lembrou da atriz Beth Farias, que estaria com 66 anos e, pasmem, parecia ter 66 anos.

Fiquei pensando quando isso termina. Já me vi pensando na hipótese de fazer uma plastiquinha bem básica, lá pelos 50, para continuar me sentindo atraente até uns 60. Depois disso, eu relaxaria. Sessenta anos parece uma boa idade para virar uma coroa respeitável – por outros atributos, que não os físicos.

Mas será que, aos 59 anos, ainda pensarei assim? Ou estarei adiando o plano de ser uma senhorinha para os 70?

A verdade é que o mulherio vai envelhecendo e não quer largar o osso. Sentir-se bonita e jovem é tão tentador que se perde a noção do tempo, da natureza, das outras possibilidades da vida. Foi nessa hora que percebi o quanto é importante estar produzindo, trabalhando, até ficar bem velhinha. É a certeza de estar conectada na vida real, de jamais virar uma “sem noção”.

***

Huummm. Agora que caiu a ficha. Acho que a pensata tem a ver com o fato de eu estar completando 43 amanhã…

22 de Setembro de 2008

Mas a sua voz…

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 15:25

- Ele é inteligente, alto, carinhoso, apaixonado pelo que faz, gosta de literatura e cinema. Mas tem um problema: a voz.

Na mesma hora entendi o ponto de vista da minha amiga. Sei que a lista de exigências femininas anda um absurdo, e costumo ser a primeira a apontar o exagero para as amigas solteiras. Mas, eu própria, por pouco não descartei o Zé nos primeiros dias de namoro por causa da forma como ele falava ao telefone, monossilábico e com a voz pouco impostada.

No meu caso, a razão falou mais forte, e parei de tentar esticar os papos por telefone. Vai ver por isso juntamos logo os trapinhos, para poder falar ao vivo. Hoje em dia, ele compensa, sendo ótimo para teclar pelo MSN. Mas, no caso do pretendente da minha amiga, a voz é horrível mesmo. Por telefone, ao vivo, no barzinho, ao pé do ouvido… Poderia até ter conserto (se mulher conseguisse “consertar” homem), mas, nessas alturas, o problema já cortou o seu, digamos, barato.

Já ouvi de amigos homens comentários parecidos sobre mulheres com voz esganiçada ou melosa demais. Para eles, é insuportável. Ou seja, se você tem um amigo (a) com esse problema, vale sugerir um curso de impostação de voz, fonoaudiólogo ou coisa parecida. É como o sujeito que tem mau hálito e não percebe. Se não houver uma alma caridosa, para dar um toque…

15 de Setembro de 2008

Antes e depois

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 15:15

A evolu    o da TV 1 1 - A evolu    o da TV 1 1

Domingão de chuva. Depois de zapear por alguns minutos, me dei conta de quanto é inglória a tarefa de tentar, na sorte, casar o meu (raro) tempo livre com a (pobre) programação televisiva. E a gente precisou da internet, para se dar conta disso…

9 de Setembro de 2008

Pequenos e grandes absurdos

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 12:51

Li que a peça em cartaz é sobre o absurdo da condição humana. Eu, que nem sou muito de teatro (pelo menos não tanto quanto de cinema), fiquei morrendo de vontade de assistir. Depois me vi pensando que qualquer história, no fundo, pode ser sobre o absurdo da condição humana. Especialmente quando uma trajetória pessoal é observada em retrospecto.

Pela segunda vez tenho me dedicado a entrevistas com pessoas de idade, estimuladas a falar sobre suas vidas. No livro anterior, algumas tinham um passado bastante brilhante, e suas atuais limitações físicas e intelectuais me deixavam deprimida. Depois de esbanjar tanta capacidade de realização, tanto pioneirismo nas idéias, aquelas pessoas pareciam se resumir a dois tipos de velhinho.

Havia os ranzinzas, reclamões que não aceitavam sua condição e davam trabalho para quem estivesse em volta; e os bonzinhos, que despertavam piedade nos outros e tratamentos quase infantis. Ou seja, uma humilhação só. Lá estava a tal condição humana, para lá de absurda, esfregada na minha cara.

Agora, em contato com gente mais simples, voltei a ficar deprimida por perceber como as pessoas podem ser reféns de suas vidas. Gente que se meteu no meio do mato, e nem sabe por que, que não gostava do lugar onde estava, ou do que fazia, mas foi se acostumando. De repente, vupt, a vida havia passado, como se tudo fosse um grande acaso.

Tudo indica que a velhice nos obriga a ser humildes, para aceitar o absurdo da condição humana…

***

A propósito da tal peça, encenada por Sérgio Brito (85 anos) no teatro Oi Futuro, fui tentar comprar ingresso e… surpresa! O teatro, que tem “futuro” no nome, não vende entradas pela internet. A piada estava tão pronta que não me contive ao falar com a bilheteria, pelo telefone: Isso não é “Oi, Passado”?

28 de Agosto de 2008

Rapidinhas sobre gentileza

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 17:10

A pressa é inimiga da gentileza. Como todo mundo hoje vive na correria…

***

Mulher vive reclamando da falta de gentileza dos homens. Ontem, observei como elas podem ficar abusadas diante de um homem sempre gentil, tratando-o como se fosse seu empregado. Depois, vem a fama de gostar de cafajeste.

***

Pior que mulher abusada, só mesmo mulher abusada com pressa. Elas são capazes de furar fila, avançar o carro sobre os pedestres, destratar o garçon. Mas não eram os homens, os grosseirões?

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