Revolucionários, graças a deus

Imagine que você enxerga algo que ninguém vê. Para você, aquela ideia é clara e consistente, mas parece um delírio ou excentricidade para todos os outros. A sua visão privilegiada provavelmente é fruto de algum tipo de exclusão: foi rejeitado pelo grupo por ser nerd, pobre, feio ou simplesmente diferente.
Se permanecer de fora, você continuará sendo um esquisito e não conseguirá fazer a revolução que lhe é óbvia e necessária. Por outro lado, no esforço para se inserir, será tentador abrir mão de suas convicções, e finalmente ser aceito e amado.
O verdadeiro “revolucionário”, no sentido de pessoa que consegue empreender mudanças na sociedade, é aquele que não se deixa “cooptar” pelo antigo e estabelecido, mas sabe negociar com os símbolos do “passado” para ter condições de mudar o futuro (o seu e o dos outros).
São pessoas admiráveis. Eu, por exemplo, consigo no máximo abraçar tendências. Não me vejo segura e desapegada de afetos a ponto de ir contra tudo e todos em nome de algo absolutamente novo. Pensaria: não estou louca? Ou: vale a pena?
Fiquei pensando nisso tudo depois de ver no cinema “Coco antes de Chanel”, a história da estilista que mudou a forma de as mulheres se apresentarem ao mundo. Pelo menos sob a lente da diretora Anne Fontaine, Coco Chanel foi assim, e muitas das negociações às quais se submeteu tiveram relação com o fato de ser mulher numa época em que isso era um absoluto limitador da existência humana (sempre me impressiono ao constatar como essa “pré-história” é recente).
Nos nossos tempos, em que a busca da felicidade vem em primeiro lugar (é tudo o que desejamos aos nossos filhos, não é mesmo?), os revolucionários autênticos tornaram-se raros. A ironia é que, ao mesmo tempo, o marketing da mudança está por toda a parte.

