Acho que é um fenômeno carioca, relacionado ao passado de capital federal, mas não tenho certeza. De repente, as pessoas mais diferentes estão apostando seu futuro profissional em concursos públicos. De jornalistas veteranos a psicólogos e arquitetos recém-formados, conheço uma penca de pessoas que decidiu, na falta de coisa melhor, estudar para concurso. Será desespero, nostalgia de um mundo estável que não existe mais ou apenas senso de realidade e oportunidade?
Quem nunca cobiçou um salário vitalício e sem estresse que atire o primeiro comentário. Mesmo respeitando a opção e o sonho de quem resolve investir os próximos meses, ou anos, de sua vida na busca de uma vaguinha, não consigo deixar de tentar dissuadir os mais próximos. Primeiro, há o ponto de vista prático: passar em concurso é muuuuuuito difícil. Além de disputar com os profissionais do ramo (a preparação para concursos públicos é um mundo à parte) e enfrentar o esquema de cartas marcadas, que eventualmente vaza para os jornais, o candidato corre um sério risco: passar no concurso.
Digamos que a psicóloga que se dedicou a decorar direito tributário nos últimos anos finalmente consiga a sua vaga. Mais que isso, consiga ser chamada. Nessas alturas, depois de tão obcecada com provas e apostilas, ela já abandonou o mundo das oportunidades reais, surgidas de tendências que continuaram pipocando pelo mundo (apesar de todo o desemprego) enquanto o governo Lula prometia desterceirizar parte da máquina pública. Se não se desconectou ainda, a jovem psicóloga tem boas chances de achar que agora pode fazê-lo, já que está começando, na repartição, os primeiros dias do resto de sua vida.
Mas, peraí! Ela vai viver cem anos! Que raios de estabilidade é essa que ela imaginou encontrar? Logo logo o Estado vai voltar a encolher (uma das tendências da qual nenhum professor do cursinho falou), as regras salariais e de aposentadoria vão piorar, e ela vai precisar de uma reciclagem para voltar a se inserir no mundo real. Um mundo sem estabilidade, mas com a possibilidade, pelo menos, de alguma realização profissional.