Era a primeira vez das gêmeas no Rio, e o passeio para o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar teve que ser adiado. Chovia forte. Para sorte do meu amigo, o pai das duas fofas de 10 anos, havia o playground do meu prédio e a minha filha para brincar. Junte duas meninas (ou três) da mesma idade, que nunca se viram antes, em um dia de chuva, e elas saberão se divertir como nunca. Se fossem adultos, ficariam resmungando.
- Vocês podem chamar os meninos do prédio para jogar queimado - sugeri. Mas aí lembrei que as gêmeas eram paulistas. - Quer dizer, jogar queimada - corrigi, mudando o substantivo para o feminino, na forma como o jogo é conhecido em São Paulo.
Quando expliquei que algumas palavras eram diferentes, lá e cá, uma das gêmeas ficou fascinada. Queria outros exemplos. Fui desencavando as expressões do fundo do baú, ou melhor, da minha memória dos tempos da mudança, de São Paulo para o Rio. Minha filha não tinha três anos na época, mas já falava tudo, com o vocabulário infantil paulistês, que eu ia traduzindo.
- Aqui no Rio o escorregador é chamado de escorrega. Bexiga é balão ou bola de festa. Bolacha é biscoito, a não ser que seja do tipo cream cracker. E por aí vai.
As três estavam interessadíssimas e adoraram a diferença que eu guardei para o final: o “parabéns pra você”.
- Não me perguntem por que, nem qual versão faz mais sentido. Mas no fim do “parabéns”, todos cantam “é big, é big” no Rio. E não “é pique, é pique”, como em São Paulo.
Minha filha, que já cantou das duas formas mas só se lembra da versão em carioquês, achou graça do jeito “errado” de São Paulo. Até hoje ela não entende por que meus amigos de Sampa riem um bocado quando ela declara, com solenidade : “sou paulixxxxta”. Já as gêmeas queriam saber que diabos os cariocas achavam ser “grande”, em inglês, na hora do parabéns. Os risos sobravam, como se estivéssemos em uma festa de aniversário.
Não consigo deixar de olhar com ternura para as diferenças entre vocabulários e culturas das duas cidades. Afinal, fui bem feliz nos meus sete anos em São Paulo. Mas também adorei voltar e ter que lidar com um turbilhão de novas sensações: a descoberta da força das raízes, os prós e contras de ser forasteira, a certeza de nunca mais se sentir inteira em um só lugar.
Mas, deixando os sentimentalismos de lado, o fato é que a falta de um glossário pode gerar problemas bem concretos para um carioca perdido em São Paulo. Logo depois da mudança, ao abrir uma conta no antigo Bamerindus, percebi o nível de dificuldades que teria pela frente. Quando a gerente me informou da necessidade de um holerite, eu garanti, convictamente, jamais ter tido um. Nem pretendia ter, fosse lá o que fosse, algo com aquele nome. Quanto mais eu desdenhava do tal documento, mais ela me olhava de cima a baixo, como se estivesse lidando com uma dondoca. Tudo se resolveu, claro, quando tirei uma pilha de contracheques recentes de dentro de uma pastinha, junto com outros papéis.
Anos depois, quando eu já tinha aprendido a soletrar a-ê-i-ô-u, percebi ter me metido em enrascada semelhante durante um lanche, com colegas de redação da Gazeta Mercantil. Eu contava uma história que não era compreendida, tudo porque afirmei que o sujeito tinha “dado a maior cagada” em determinada situação. No Rio, isso significa que ele teve sorte, mas os paulistas só conseguiam entender que ele tinha “feito uma cagada”, feito algo muito errado. Confusão desfeita, depois fiquei pensando se a expressão carioca estaria relacionada à tradição, entre os atores, de desejar “merda”, antes de um espetáculo.
Por esses e outros ruídos na comunicação, achei muito útil poder alertar as três pequenas, desde cedo, sobre a existência do paulistês e do carioquês. Vai que elas começam a brigar só porque uma quer jogar pebolim, e a outra, totó…