27 de Maio de 2010

A melhor foto da viagem

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 12:22

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Conheço um ou dois viajantes que dispensam a máquina fotográfica. Acho interessante, mas parece uma opção radical demais para pessoas como eu, com pesadelos em relação à fragilidade da memória. Mesmo sendo uma turista típica, com câmera sempre à mão, não me imaginava tão dependente dela, já que curto as descobertas sem o vício dos registros óbvios.

Numa viagem como a que estou fazendo, pelo sul da Itália, busco os detalhes, aqueles que passariam despercebidos se não houvesse o desafio do enquadramento e a possibilidade do zoom. Não sou fotógrafa, então fica tudo bem amador, mas gosto da brincadeira.

Pois estava eu buscando um ou outro detalhe, entre despretensiosas fotos do grupo (estamos em seis) e das paisagens, quando a bateria da câmera acabou inesperadamente. No início do passeio. No lugar que se revelaria o mais exuberante de toda a viagem. No dia de céu mais azul e luz mais perfeita.

Foi quando me reconheci uma turista padrão, como no estereótipo dos japoneses, que só conseguem olhar através de lente e com a certeza do registro. Durante pelo menos uma hora fui tomada por um misto de revolta e mau humor, até considerar o desperdício de tempo e voltar a curtir Taormina.

Taormina é a cidadezinha mais encantadora da Sicília. A tal vista arrebatadora fica no alto de um teatro grego, do século V A.C., com o cume nevado do Monte Etna ao fundo, e o casario antigo descendo pela encosta. Fotografei com a emoção, para tentar enfrentar a precariedade da memória. E comprei um livro, por garantia.

Se puder, um dia vá lá. E me diga se dá para não fotografar.

14 de Maio de 2010

É assim que funciona o esquema

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:58

“Quando dá, eu tento quebrar o galho das pessoas, ajudar quem está numa emergência. Dou uma olhada pra ver se a sala de espera não está muito cheia, aí coloco você na lista. É só ligar para este número e mandar falar comigo.”

Não sou político, não estou em Brasília, mas foi assim que me senti, quando o gerente da garagem me deu o telefone. Eu tinha descoberto o caminho das pedras. O jeitinho. A malandragem. No dia seguinte eu deveria ligar e dizer, simpática: “E aí, Alexandre? Tudo certinho? Será que dá para ir descendo o meu carro, querido?”

É, talvez eu tivesse que dizer “querido” ou algum outro termo íntimo para retribuir o “favor”. É no “querido” que corruptores e corrompidos se enrolam quando a escuta telefônica é divulgada.

Mas eu não estava em Brasília, volto a lembrar, e não corria maiores riscos ao aderir ao “esquema”. Apenas faria parte do grupo que fura a fila porque todo mundo fura, que anda pelo acostamento porque tudo mundo anda, que é esperto porque a outra opção é ser otário.

Só que não consegui me imaginar sussurrando no balcão da garagem, para avisar que “pedi o carro por telefone para o Alexandre”, bem baixinho, enquanto os outros motoristas entopem a sala de espera.

No dia seguinte, não só ignorei o número como passei a denunciar a “fila por telefone”. Agora faço isso sempre que a sala de espera enche e alguém estranhamente é brindado pelo carro antes dos outros: “É a fila por telefone. Um absurdo. Não há qualquer transparência, o gerente decide se vai descer o carro, sem qualquer critério claro. Ele me ofereceu o ‘esquema’ e eu recusei.”

Bem, se acontecer alguma coisa comigo, fica aqui o registro de que em maio de 2010, em um gesto heróico, eu denunciei a “máfia da fila por telefone na garagem do 550”.

10 de Maio de 2010

A intolerância dos moderninhos

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:32

A conversa girava em torno dos nossos tempos politicamente corretos, nos quais, formalmente, as diferenças são cada vez são mais respeitadas. Certo? Mais ou menos. Quando a diferença ainda não entrou para a cartilha do politicamente correto, o tiro pode sair pela culatra. Não ser moderninho pega mal, como vimos no desabafo de Olga:

- Eu não acredito em astrologia. As pessoas me olham com desprezo, eu fico me desculpando, mas o que eu posso fazer? Não consigo acreditar!

Foi quando Flávia deixou o recato de lado para participar:

- E eu, que não gosto de sushi?

A gargalhada foi geral. Aparentemente, todos na sala de aula se identificaram com aquele sentimento de inadequação, de quem já sofreu com os olhares enviesados dos mesmos pregadores do politicamente correto.

Tentei me lembrar de quando senti um constrangimento parecido, e percebi que o sentimento volta e meia se manifesta em função da minha pontualidade excessiva. Sim, excessiva. O outros chegam atrasados e eu tenho que jurar que também acabei de chegar, para ninguém se sentir responsável pela minha espera. E vivo tentando me ajustar ao atraso regulamentar esperado para cada ocasião social, especialmente no Rio de Janeiro.

Festa estranha, gente esquisita…

6 de Maio de 2010

Figuraças

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 12:17

Sou razoavelmente conectada, leio (ainda) jornais, ando muito na rua, conheço gente dos grupos mais diferentes. Por isso o espanto, quando percebo de repente um fenômeno que eu absolutamente ignorava.

- Você tem para trocar? - foi o que perguntou um sujeito de mais de 30 anos, na banca de revistas, quando eu comprava figurinhas para a minha filha. Achei esquisito: onde estava a criança envergonhada que pedira para o pai fazer a abordagem? Não havia criança, nem ali nem em casa.

Outro marmanjo logo apareceu para trocar figurinhas com ele. Ninguém estranhou. E foi assim, nas últimas 24 horas, que descobri a febre das figurinhas da Copa. Foi como se, de um dia para o outro, as pessoas tivessem enlouquecido. A mesma multidão que comentava Big Brother Brasil agora troca figurinhas.

Por falar nisso, alguém aí tem o número 00? Dizem que é a mais difícil…

30 de Abril de 2010

Social

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:41

Adicionar amigos, curtir coisas. Nas minhas primeiras semanas de Facebook, achei a maior graça do vocabulário adotado/traduzido. Bacana.

De resto é tudo bem boladinho, para evitar saias-justas e criar um clima descompromissado e simpático. De alguma forma eles conseguiram dar uma leveza que o orkut não tinha, e me senti menos paranoica.

Mas por enquanto não consigo ir além da curiosidade. Vamos ver se em junho, quando o tempo deve voltar a sobrar, me animo a explorar mais. Como você já deve ter reparado, não estou conseguindo nem atualizar o blog, que é um xodó antigo.

Quanto às redes sociais, por mais que digam o contrário, acho inevitável o pensamento de que elas são ótimas para quem tem um emprego fixo com uma jornada extensa a cumprir. Bem melhor do que bater papo no cafezinho.

19 de Abril de 2010

Reputação on-line não é importante (?)

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:21

Há quanto tempo você não coloca seu nome no Google para ver o que aparece? Já desencanou?

Pode ser hora de relaxar, segundo Lucy Kellaway, do Financial Times, que tem a sua coluna reproduzida hoje pelo Valor Econômico.

“Não há mais sentido em tentar administrar sua reputação na internet. É tarde demais. Esqueletos estão saindo dos armários e em desvario pela internet, e qualquer pessoa pode dizer o que quiser sobre uma empresa ou uma pessoa sem medo de ser corrigida. Logo a coisa vai ficar ainda pior: um site dedicado a espinafrar pessoas será lançado nos moldes do Yelp - que permite aos consumidores criticarem empresas sob o manto do anonimato -, de modo que haverá um lugar para que nós possamos ler todas aquelas coisas indecentes (e as menos indecentes) que uns tem a dizer sobre os outros.

Isso tem importância? Na verdade não, disse recentemente o editor do blog Tech Crunch. Ele afirmou que nossas reputações on-line podem ser bestas descontroladas, mas são bestas desdentadas: elas na verdade não podem nos machucar. (…)

Há tantas indiscrições na internet que elas têm tanto valor quanto a moeda do Zimbábue. De fato, se os departamentos de recursos humanos das empresas prestarem a atenção em fotografias de bêbados colocadas no Facebook, não restaria ninguém com menos de 30 anos para ser contratado. As observações negativas tem uma importância ainda menor. Todo mundo que obteve qualquer tipo de sucesso na escalada corporativa vai acabar encontrando coisas horríveis sobre si mesmo na internet, colocadas por anônimos.

A primeira vez que li uma calúnia sobre mim fiquei furiosa. Mas então percebi que a vida continuava como antes e que ninguém tinha visto nada. Na vez seguinte, dei menos importância. Com os adultos, camadas extras de pele parecem crescer, embora isso possivelmente não ocorra com os adolescentes. (…)”

12 de Abril de 2010

Sozinho no cinema

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:41

Eu tenho uma amiga que tira fotos abraçada com artistas, tipo tiete. Mas isso ela só me contou na sexta-feira. Imediatamente, eu a adverti:

- Não ouse - e arregalei os olhos. Para detê-la, usei o meu melhor argumento - Você não diz sempre que quer fazer programas bem cariocas? Pois carioca não pede autógrafo para artista, não tira foto ou coisa parecida. Olha com rabo de olho, confere, e depois comenta discretamente: como ele está magrinho…

Ela conteve seus impulsos (ufa) e acho que nem se importou. Também, já tinha uma história e tanto para contar quando voltasse a São Paulo. Sexta-feira chuvosa, última sessão de cinema, Casa de Cultura Laura Alvim, e lá estava ele: Rodrigo Santoro. Sozinho.

O astro de Hollywood (ops) queria apenas checar o desempenho do colega Jeff Bridges. Quem sabe sonhava com o seu próprio Oscar.

- Mas como o ‘Rodrigo Santoro’ pode ir sozinho ao cinema? Ele não tinha companhia?

- Sei lá, ele só quer ver o filme, todo mundo já viu… Como a gente faz às vezes.

- Mas numa noite de sexta nem eu tenho coragem de ir sozinha.

- Ele não se arriscaria em um cinema de shopping. Mas aqui o pessoal é mais blasé, cabeça. Como tem que ser.

Os cinemas são mínimos na Laura Alvim, então ela torceu para se sentar ao lado dele. Não conseguiu. Santoro ficou na última fila, levantou para reclamar com o projetista do som baixo e fez cara feia quando tocou um celular. Vai ver, leu minha coluna lá no Digestivo.

Quando o filme acabou, não viu os créditos e saiu correndo. Não, não havia fãs ou paparazzi por perto; ele estava apertado mesmo. Quando saiu do banheiro, continuou ignorado. Como tem que ser. O máximo de atenção explícita que conseguiu foi este post.

8 de Abril de 2010

Estamos todos bem

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 23:26

É tudo verdade. Dessa vez, tia, não foi como aquele arrastão que a senhora viu na televisão, e que eu jurei que era um ângulo malicioso da emissora de oposição. A chuva desabou impiedosa mesmo, na praia dos ricos e no morro dos pobres.

O céu continua a inspirar respeito até nos menos crédulos. Não tenho lembrança de tempo tão instável. Como se os deuses estivessem a brigar, ou quem sabe a se divertir, temos o azul turquesa num minuto, sem sombra de nuvem, e no seguinte nossos guarda-chuvas são arrastados pelas rajadas que trazem chuva forte.

Mas estamos todos bem. Agradeço aos amigos pela preocupação, pelos e-mails carinhosos. Na primeira noite, quando tudo começou, eu saía de Laranjeiras, às oito da noite, e a chuva já caía há mais de hora. Quando alcancei o Rebouças, entre um túnel e outro, a pista estava vazia. Desde então, aprendi a suspeitar de trânsito bom: quando a poça não está à frente, é porque ficou para trás.

Naquela noite, imagino ter sido uma das últimas a conseguir passar pela Lagoa. Já em casa, todos os meus foram logo localizados por telefone. Tirando algum transtorno até chegar são e salvo em casa, nada grave se deu, e a saúde reina por aqui, muito obrigada.

Se hoje cato lençóis velhos no armário, meu primo, não é para uso próprio, mas para desabrigados que não conheço. Só a faculdade continua sem aula, por falta de energia. O estrago foi grande por lá. Não tinha falado da pós? Bem, bobagem falar disso numa hora assim, depois conto com calma.

É que há uma tristeza no ar. Sem falar no temor de mais chuva. Foi-se o tempo em que o sol no dia seguinte anunciava o fim da tempestade. E ainda há quem espere por ondas gigantescas vindas do mar. Os pessimistas de sempre se comprazem – parecem se sentir mais vivos. Nós, os otimistas, temos que ficar quietos, dar o braço a torcer, concordar que tudo pode acontecer neste Rio de Janeiro.

Mas não fique preocupada conosco, amiga. Não imaginava que essas trágicas imagens tivessem chegado tão longe, mas pensando bem o Rio sempre é notícia na Europa. A cidade vai se recuperar, e logo nos sentiremos seguros novamente. Se estamos seguros? Bem, nunca estamos totalmente, não é mesmo? O importante é sentir a nuvem negra mais longe dos nossos tetos.

30 de Março de 2010

Labuta

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:26

Tenho prazer de escrever receita, relatório, recado. Tudo quando precisa. Obrigação boa, sempre. Um dia estranharam, quando falei. Eu devia gostar só de escrever profundo, inspirado, juntando ideias complicadas.

Mas é que, assim, dá para brincar de procurar pela palavra sem pretensão, manusear as letras com o orgulho da labuta, e acabar o dia com o gosto do dever cumprido.

Tem sido assim nos últimos dias. Eu não reclamo. Ainda mais quando vem um dinheirinho no fim do mês…

23 de Março de 2010

Códigos

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:54

- Você pode tirar a ponta, tá?

Ela compreendeu imediatamente, mas deteve-se. Fiquei intrigada. Até então eu estava distraída, antecipando meus afazeres mentalmente. Aqueles segundos de hesitação da manicure, porém, me arrancaram do confortável mundo em que todos-entendem-todos-porque-tudo-já-está-combinado. Lembrei de ter relevado algum tremor na mão dela, apesar do medo de um “bife”.

Se você não é uma, digamos, “mulherzinha”, faço um parênteses para explicar os códigos até aqui: “tirar a ponta” quer dizer tirar o esmalte da borda da unha. Ajuda a não descascar. “Bife” é quando a manicure usa o alicate além da cutícula, e acaba machucando a pele, a ponto de sangrar mesmo.

Pois a minha necessidade de harmonia era tão grande que tinha deixado o medo da dor de lado, e fingi que não percebia a ansiedade da manicure. Isso até aquele momento, o de limpar a borda da unha, quando a minha manicure teve que perguntar baixinho para a colega ao lado:

- Aqui vocês tiram a ponta usando luva?

Ela ficou aliviada de poder tirar a luva das mãos finalmente. Era manicure há muito tempo, mas nunca usava luva - uma regra naquele salão de beleza. Era o seu primeiro dia no salão. Eu era a sua primeira cliente. Se eu não perguntasse, com toda a simpatia que não desculpava a minha distração, certamente não teria me contado. Desde o início, ela estivera hesitante com procedimentos, atrapalhada com o material (especialmente com a luva), e chegara a ser sutilmente repreendida por uma cabeleireira porque sua cadeira estava atrapalhando a passagem.

Ninguém a perdoava por não saber os códigos que ela não tinha a menor condição de conhecer previamente. Sua mão tremia porque também não esperava pelo meu “perdão”.

Não é apenas no primeiro dia de trabalho que costumamos passar por situações assim. Naquela manhã, eu havia pensando no assunto ao ler sobre os scanners instalados no aeroporto de Paris - aqueles que permitem ver o passageiro por debaixo das roupas. Imediamente lembrei de quando fui “sorteada” para passar pelo raio X antes de embarcar em Londres. Os funcionários não tinham a menor paciência para explicar exatamente como eu deveria me posicionar diante do aparelho. Era como se todos os passageiros tivessem a obrigação de já ter passado por aquilo, a ponto de qualquer sinal de desconhecimento ser identificado como suspeito.

Mas o “suspeito” pode estar de qualquer lado. O cúmulo da incapacidade de perceber o outro como “diferente”, alguém que não sabe os códigos aos quais você está acostumado, foi uma história contada pelo Julio Daio no Digestivo. Ao ser assaltado, ele tentou reagir como nos filmes, levantar as mãos, mas o ladrão exigia que soubesse mais sobre o assunto. Gritava “passa logo”, só que o Julio não sabia o quê. “Falou como se eu tivesse alguma ‘prática’ em assaltos (como ele, provavelmente, tinha em assaltar).”

O negócio é fingir saber todos os códigos - o da polícia e o do ladrão. Sem deixar a mão tremer.

18 de Março de 2010

Escrever salva

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:12

A tarefa na escola tinha tudo para dar vazão à conhecida crueldade infantil - não suficientemente domesticada aos 10 anos. Para fixar a gramática, cada aluno deveria dar um adjetivo para um coleguinha sorteado na lista de chamada. No mundo adulto, a dinâmica às vezes se chama “jogo da verdade”, e não é aconselhável para pessoas sensíveis…

O resultado poderia ser pior, mas, mesmo assim, a menina não gostou do que ouviu: “Quieta”. E olha que ela tinha usado “Divertido” para qualificar o seu sorteado. Primeira lição: generosidade nem sempre é paga com generosidade.

O problema é que ela estava cansada do rótulo de tímida, quieta e outros adjetivos menos profundos. A língua portuguesa é cheia de adjetivos lindos, sofisticados, mas nem os adultos costumam aplicá-los para definir uma pessoa em poucas palavras. Decididamente, a ideia da professora não fora das mais felizes.

Como a menina não é mesmo de muito falar, ficou apenas emburrada, sem saber como resolver aquilo. Até que a solução se mostrou, justamente na lição de casa: fazer uma frase para cada adjetivo mencionado em sala de aula. “Posso ser quieta no colégio, mas não sou em casa”, ela escreveu, triunfante. E foi jogar no computador.

Eu, que observo tudo, lembro dos dois últimos filmes que vi no cinema. Em “Preciosa”, a adolescente tratada pela vida como animal descobre sua identidade quando consegue escrever sobre si em um caderno, mesmo que precariamente. Em “O segredo de seus olhos”, um aposentado só consegue reconhecer o grande amor de sua vida quando escreve um livro sobre um amor alheio, que julgava ser o maior de todos.

Não, eu não sou “apenas quieta” (foram suas palavras). Não, eu não sou um animal. Não, o meu amor não é menor que o maior amor do mundo. Escrito, tudo fica mais claro.

8 de Março de 2010

Próxima parada

Arquivado sob: Cotidiano, Viagens — Marta @ 16:28

“A senhora já está no Rio”, me informa com um meio sorriso o atendente do check-in. Pela expressão simpática e condescendente, percebo o quanto é comum um passageiro chegar ao balcão da companhia aérea trocando o destino da ida com a volta. Será o estresse? A vontade de voltar? Sim, porque estamos falando aqui de quem viaja a trabalho, a cabeça nos afazeres, o corpo buscando pequenas compensações - a bordo, nos rituais de embarque e desembarque. A estes passageiros, o funcionário reserva seu sorriso mais cúmplice: estamos no mesmo barco, no mesmo avião, em atitude glamurosa mas revelando a cada gesto cansado a nossa humanidade.

Lembro-me da época de crise no setor aéreo, os atrasos constantes mandando para as cucuias os resquícios de glamour do passado. O fato é que mesmo assim, apesar do finger que não funciona e mantém os passageiros presos no avião por dez minutos, apesar da comida gordurosa e do taxista mal encarado, apesar da fila no banheiro, mesmo assim adoro estar em um aeroporto. Partindo, chegando, esperando.

Talvez tenha gostado do filme “Amor sem escalas” – que não ganhou nem um oscarzinho ontem – só por causa da cena inicial, em que George Clooney revela toda a sua intimidade com os esdrúxulos rituais das viagens de avião (especialmente nos Estados Unidos…). E é assim, dentro de um filme, que me sinto com a personagem que me aborda na sala de embarque. Trata-se de uma senhora com alguma idade, visivelmente deslocada, e me prontifico a ajudá-la quando me estende o cartão com o número do voo.

Se o portão de embarque ainda pode ser alterado? Sim, com certeza, respondo, já que o seu voo só partirá dali a três horas e meia. A senhora deveria se distrair um pouco, porque tão cedo o número não aparecerá no painel, é o que lhe digo, e ela parece compreender. Mas mantém-se ereta na cadeira, olhando o nada, aparentemente conformada. Quem se distrai sou eu, colocando os e-mails em dia, até perceber que a tal senhora está abordando outra pessoa, com a mesma pergunta. O portão de embarque ainda pode mudar?

Sempre pode. Podemos embarcar em muitos portões, e cada um deles nos levará a um destino diferente, todos eles fora da nossa rotina. Aquela senhora resistia – odeia sair da rotina. Quer a previsibilidade. Não vou fazer gênero e dizer que não gosto da rotina, logo eu que como sempre a mesma coisa no café da manhã. É o momento do dia em que sou mais resistente, e mesmo em um hotel distante tento achar uma opção parecida de desjejum.

Mas é só o começo do meu dia. No decorrer dele, uma luta interna se travará: a busca do familiar versus o anseio pela novidade, pelo acontecimento que mudará tudo o que planejei durante anos. Numa viagem – especialmente a de lazer, para um lugar desconhecido – sei que serei arrancada das minhas certezas emboloradas. Se o hábito é a morte em vida (experimentar é viver), finalmente entendo o meu comichão por planejar (um pouco) a próxima viagem. Qual será o portão de embarque? Não sei. Graças a deus.

1 de Março de 2010

O ano começou

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:14

Cena 1: O sujeito sabe (alguma coisa de) alemão e passa o filme todo repetindo as frases que compreende. Eu, que achava que nada podia ser mais desagradável do que alguém falando no cinema, descubro: há sim, alguém falando em alemão no cinema.

Cena 2: Em uma rua relativamente movimentada de Ipanema, o carro à sua frente resolve parar em fila dupla. Detalhe: já tem um outro veículo estacionado, também em fila dupla, exatamente do outro lado. Impossível prosseguir.

Nessas horas, custo a acreditar na situação. As pessoas fazem coisas assim, imagino, por não perceberem que existe alguém ao lado, atrás, em volta, convivendo com elas no mesmo planeta Terra. E quando a gente buzina ou fala “psiu” é estressado…

É, já estou quebrando minha primeira resolução de ano novo: não consigo ser zen, pelo menos no Rio de Janeiro.

19 de Fevereiro de 2010

Carnaval X cinema; nostalgia X tecnologia

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:49

Se até os amigos paulistas estavam gazeteando a tarde da quarta-feira de cinzas, não seria eu, a carioca com marchinhas na ponta da língua, que iria trabalhar. Afinal, foram quatro dias intensos, driblando blocos, rendendo-se a alguma folia e participando das intensas discussões sobre o xixi enquanto resíduo carnavalesco. Concluí: era dia de descansar no escurinho do cinema.

Mas a intenção logo esbarrou nas evidências de que o carnaval não havia acabado. No caminho para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, resquícios de confusão do “Me beija que eu sou cineasta”. Insistimos, subimos a Marquês de São Vicente, mas o carnaval cismava em perdurar: o portão do centro cultural estava fechado. “Só reabre amanhã”, me informou o porteiro, ignorando meu protesto pelo tijolinho equivocado no jornal.

Quem sabe “A fita branca” não estava passando também nos cinemas do Shopping da Gávea, ali pertinho? Corremos, afinal a promessa era levar as crianças à praia de noitinha, fechando o carnaval (que mania de querer acabar com ele). Em cartaz, porém, o único filme que ainda não tínhamos visto era “Nine”. Musical, argh, mas pelo menos com Daniel Day Lewis.

Depois de quase duas horas de projeção, no momento em que eu já admitia ter valido a pena, se o final não decepcionasse, o projetor pifou. As luzes acenderam. A plateia idosa ficou quietinha, esperando, até a funcionária garantir que não havia jeito. Sabem como é, numa quarta-feira de cinzas é difícil achar alguém para consertar.

Na fila para pegar o dinheiro de volta, tentei lembrar há quanto tempo algo assim não me acontecia. Parecia algo de décadas atrás, numa cidadezinha do interior - se eu já tivesse ido ao cinema no interior, o que nunca fiz.

Nostalgia semelhante havia me invadido dez dias antes, no mesmo complexo de cinemas - bem moderninho -, ao assistir “A princesa e o sapo” com minha filha. O desenho da Disney, à moda antiga, sem efeitos de computador, me parecia ter problemas de projeção. “O som não está baixo?”, sussurrei, mas ninguém parecia estranhar. “Será que sentei muito atrás no cinema?”, pensei, num esforço para compreender a sensação de estar vendo TV na sala de casa.

Só depois fui lembrar que era a minha primeira sessão de cinema após “Avatar”. Não é que a propaganda em torno da tecnologia revolucionária do filme de James Cameron faz sentido?

Pois é, mas o projetor sempre pode pifar em pleno carnaval (me rendi), transportando a plateia de Pandora diretamente a um cinema Paradiso do século passado…

***

Dilema: como saber o final de um filme mediano, sem precisar vê-lo inteiro de novo? Alguém aí viu “Nine”?

12 de Fevereiro de 2010

Cuide de você

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 14:52

“Prezada Marta,

A idéia da matéria me parece bastante oportuna e as suas perguntas muito bem formuladas. Respondê-las com a seriedade que merecem, contudo, exigiria um tempo de que não disponho no momento e ocuparia um espaço que (o veículo) não pode ceder. Assim, lamento não atendê-la nesta oportunidade, mas desejando sucesso em sua tarefa.”

Já tinha ouvido muitos nãos na minha vida de jornalista, mas confesso que fiquei entretida com a retórica deste. Deve ser porque ando zen, culpa do relaxante muscular. Mesmo assim, tentei lembrar: quando foi que começaram a nos pedir perguntas por e-mail? O que fazer quando, depois de nos curvarmos à exigência, nosso trabalho é desprezado com elogios?

Pensando bem, não parece a carta do namorado da Sophie Calle, que acabou virando arte? Ou as respostas de editoras aos originais de um escritor, que acabaram virando livro? Agora só falta compilar as rejeições sofridas por jornalistas…

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