A melhor foto da viagem
Conheço um ou dois viajantes que dispensam a máquina fotográfica. Acho interessante, mas parece uma opção radical demais para pessoas como eu, com pesadelos em relação à fragilidade da memória. Mesmo sendo uma turista típica, com câmera sempre à mão, não me imaginava tão dependente dela, já que curto as descobertas sem o vício dos registros óbvios.
Numa viagem como a que estou fazendo, pelo sul da Itália, busco os detalhes, aqueles que passariam despercebidos se não houvesse o desafio do enquadramento e a possibilidade do zoom. Não sou fotógrafa, então fica tudo bem amador, mas gosto da brincadeira.
Pois estava eu buscando um ou outro detalhe, entre despretensiosas fotos do grupo (estamos em seis) e das paisagens, quando a bateria da câmera acabou inesperadamente. No início do passeio. No lugar que se revelaria o mais exuberante de toda a viagem. No dia de céu mais azul e luz mais perfeita.
Foi quando me reconheci uma turista padrão, como no estereótipo dos japoneses, que só conseguem olhar através de lente e com a certeza do registro. Durante pelo menos uma hora fui tomada por um misto de revolta e mau humor, até considerar o desperdício de tempo e voltar a curtir Taormina.
Taormina é a cidadezinha mais encantadora da Sicília. A tal vista arrebatadora fica no alto de um teatro grego, do século V A.C., com o cume nevado do Monte Etna ao fundo, e o casario antigo descendo pela encosta. Fotografei com a emoção, para tentar enfrentar a precariedade da memória. E comprei um livro, por garantia.
Se puder, um dia vá lá. E me diga se dá para não fotografar.
