29 de Junho de 2010

Delay

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:15

Não era a primeira vez que eu vivia aquela sensação, de estar atrasada em relação ao mundo. Mais que pressentiam, todos em volta já sabiam. Menos eu. Tentei disfarçar o espanto, apenas ficar mais atenta, e bola pra frente.

Mas o estranhamento e a desconfiança se intensificaram, à medida que o tempo passava. Era preciso apurar os sentidos mais embotados, perceber o que se passava ao redor, para não ficar defasada, como um ingênuo na multidão. Sim, havia algo no ar, uma aceleração.

Foi no segundo gol que tive certeza. Eu estava uns três, talvez cinco segundos atrasada. Não havia o que fazer, senão me adaptar à situação. Saber que as profecias iriam se realizar. Passei a distinguir o “uh!” seco, da bola que não entraria, do começo da explosão que desafogaria o grito de gol.

Quase gostei de ver as previsões se concretizarem, apenas com um drible ou passe a mais, ou a menos, do que imaginara. Como em um filme em que a música anuncia o suspense por vir, eu podia preparar as minhas emoções, quem sabe lapidá-las.

Ao final, porém, cansei da brincadeira. Da próxima, dispenso a NET e deixo o Galvão tagarelar.

16 de Junho de 2010

Torcedor fanático, eu?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:22

Não sei se foi coincidência, mas ontem, durante a estreia do Brasil na Copa, sentei perto de um sujeito que, de tão irritado com a nossa seleção, passou a torcer pela Coreia do Norte. Com uma atitude sarcástica, é verdade, mas mesmo assim chegou a aplaudir o gol dos nossos adversários.

Que espécie de torcedor, afinal, é o brasileiro? Vira técnico quando o time vai mal, todo mundo sabe. É crítico na derrota e não é tão patriota assim na vitória.

Na Itália, pelo que eu vi, a pátria calça mais as chuteiras do que aqui. Quando o Inter de Milão ganhou a final do campeonato europeu, em maio, me espantei com as manifestações de fanatismo. A cidade parou para ver a final contra o Bayern de Munique. Depois do jogo, torcedores alucinados passaram a noite inteira berrando, na garupa de scooters, sacodindo bandeiras.

Você pensou que eu estava em Milão? Nada disso; era Palermo. É como se a vitória do São Paulo na Libertadores fosse comemorada com euforia em Porto Alegre.

14 de Junho de 2010

9%, mas…

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:47

Da coluna do Elio Gaspari, ontem:

“Diante da informação de que o Brasil cresceu 9% no segundo trimestre, dezenas de sábios saudaram a boa-nova temperando-a com conjunções adversativas. Coisas assim: Cresceu… mas há gargalos na infraestrutura, … esse vigor não é sustentável, … aumenta o perigo da inflação.

Tudo isso pode ser verdade, mas (e aí vai outra adversativa) os sábios precisam se lembrar de uma tirada do ex-presidente George Bush, o Velho: “Se eu andar sobre as águas, dirão que não sei nadar”.”

12 de Junho de 2010

O (re)começo da paixão

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:13

Ele é pedreiro; ela, professora primária. Pelo olhar da câmera, sem muita generosidade, ele tem um trabalho bruto e desinteressante. Ela, mesmo francesa, não usa maquiagem para disfarçar a pele manchada e o nariz exagerado.

O acaso o leva à escola dela, onde ele fala às crianças sobre a sua profissão. Pelo olhar encantado dela, vemos um homem másculo, que constrói coisas sólidas. Ver-se pelo olhar dela, o desperta de si próprio e, nesse lugar mágico do começo da paixão, também ele sai em busca das qualidades dela, nos objetos de seu apartamento.

Um violino, ao lado da janela que seria consertada, resolve tudo – inclusive a trilha sonora, até então inexistente, e tão importante para uma traição. A falta da cultura musical dele só faz dela uma violinista melhor. É assim que um pedreiro bronco e uma violinista fracassada branquela se sentem especiais, amados, e podem viver a intensidade da paixão.

Não existe paixão sem admiração. Mais que admirar, é essencial se sentir admirado. Os casais que estão comemorando o dia dos namorados hoje precisam resgatar esse momento. Basta lembrar de elogiar as qualidades dele (dela). É assim que tudo (re)começa.

***

Ah, o filme é Mademoseille Chambon, lindo, mas não recomendo para quem estranhar o ritmo do trailer.

9 de Junho de 2010

Aflitos e estressados

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:57

Não havia táxi no ponto, e uma fila de passageiros começava a se insinuar, misturada aos pedestres. Porém, não estressei, quando fui chegando. Estava de férias, sem pressa, e apenas por acaso precisava da condução em pleno horário de rush. Quando o táxi se aproximou, a mulher que parecia ser a primeira da fila abaixou-se atrapalhada para pegar algumas sacolas com compras de mercado. Ao perceber que ela não teria mão para abrir a porta do veículo, corri para fazê-lo.

Pra quê. Quase apanhei. Ela estava certa de que eu avançara para roubar o seu táxi.

Viver na cidade grande é viver no sobressalto. Naquela ocasião, fiquei imaginando como teria sido o dia da mulher. Eu mesma devo passar por estressada e antipática por aí. Caminho por calçadas movimentadas com o passo apressado, olhar firme, pronta para evitar abordagens de pedintes e vendedores. Com o tempo, aprendi a identificar suas técnicas - a de simular um pedido de informação, a de oferecer um brinde, a de anotar pesquisas fajutas em pranchetas…

Estou com pressa, é o que nem preciso dizer. Isso não impede que, eventualmente, eu estanque o passo e perca todos os minutos que eu jurara não ter antes para o “pesquisador” da esquina. Isso porque, em um segundo, uma pessoa em aflição verdadeira pode ser identificada e me fazer baixar a guarda. “A Anibal de Mendonça é para qual lado?”, e fico feliz de ajudar. Feliz de ajudar, como quase fui no caso do táxi.

Mas não posso culpar quem anda por aí pronto para se defender, ou contra-atacar, escaldado por grosserias e más intenções. Imagino quantas vezes o meu detectômetro de aflitos verdadeiros já deve ter falhado.

Na internet, já reparou?, começamos a agir assim também, com desconfiança, como na metrópole, preferindo a prudência à ingenuidade. E coitados dos caipiras que se aventuram por aqui…

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