Delay
Não era a primeira vez que eu vivia aquela sensação, de estar atrasada em relação ao mundo. Mais que pressentiam, todos em volta já sabiam. Menos eu. Tentei disfarçar o espanto, apenas ficar mais atenta, e bola pra frente.
Mas o estranhamento e a desconfiança se intensificaram, à medida que o tempo passava. Era preciso apurar os sentidos mais embotados, perceber o que se passava ao redor, para não ficar defasada, como um ingênuo na multidão. Sim, havia algo no ar, uma aceleração.
Foi no segundo gol que tive certeza. Eu estava uns três, talvez cinco segundos atrasada. Não havia o que fazer, senão me adaptar à situação. Saber que as profecias iriam se realizar. Passei a distinguir o “uh!” seco, da bola que não entraria, do começo da explosão que desafogaria o grito de gol.
Quase gostei de ver as previsões se concretizarem, apenas com um drible ou passe a mais, ou a menos, do que imaginara. Como em um filme em que a música anuncia o suspense por vir, eu podia preparar as minhas emoções, quem sabe lapidá-las.
Ao final, porém, cansei da brincadeira. Da próxima, dispenso a NET e deixo o Galvão tagarelar.