- Você pode tirar a ponta, tá?
Ela compreendeu imediatamente, mas deteve-se. Fiquei intrigada. Até então eu estava distraída, antecipando meus afazeres mentalmente. Aqueles segundos de hesitação da manicure, porém, me arrancaram do confortável mundo em que todos-entendem-todos-porque-tudo-já-está-combinado. Lembrei de ter relevado algum tremor na mão dela, apesar do medo de um “bife”.
Se você não é uma, digamos, “mulherzinha”, faço um parênteses para explicar os códigos até aqui: “tirar a ponta” quer dizer tirar o esmalte da borda da unha. Ajuda a não descascar. “Bife” é quando a manicure usa o alicate além da cutícula, e acaba machucando a pele, a ponto de sangrar mesmo.
Pois a minha necessidade de harmonia era tão grande que tinha deixado o medo da dor de lado, e fingi que não percebia a ansiedade da manicure. Isso até aquele momento, o de limpar a borda da unha, quando a minha manicure teve que perguntar baixinho para a colega ao lado:
- Aqui vocês tiram a ponta usando luva?
Ela ficou aliviada de poder tirar a luva das mãos finalmente. Era manicure há muito tempo, mas nunca usava luva - uma regra naquele salão de beleza. Era o seu primeiro dia no salão. Eu era a sua primeira cliente. Se eu não perguntasse, com toda a simpatia que não desculpava a minha distração, certamente não teria me contado. Desde o início, ela estivera hesitante com procedimentos, atrapalhada com o material (especialmente com a luva), e chegara a ser sutilmente repreendida por uma cabeleireira porque sua cadeira estava atrapalhando a passagem.
Ninguém a perdoava por não saber os códigos que ela não tinha a menor condição de conhecer previamente. Sua mão tremia porque também não esperava pelo meu “perdão”.
Não é apenas no primeiro dia de trabalho que costumamos passar por situações assim. Naquela manhã, eu havia pensando no assunto ao ler sobre os scanners instalados no aeroporto de Paris - aqueles que permitem ver o passageiro por debaixo das roupas. Imediamente lembrei de quando fui “sorteada” para passar pelo raio X antes de embarcar em Londres. Os funcionários não tinham a menor paciência para explicar exatamente como eu deveria me posicionar diante do aparelho. Era como se todos os passageiros tivessem a obrigação de já ter passado por aquilo, a ponto de qualquer sinal de desconhecimento ser identificado como suspeito.
Mas o “suspeito” pode estar de qualquer lado. O cúmulo da incapacidade de perceber o outro como “diferente”, alguém que não sabe os códigos aos quais você está acostumado, foi uma história contada pelo Julio Daio no Digestivo. Ao ser assaltado, ele tentou reagir como nos filmes, levantar as mãos, mas o ladrão exigia que soubesse mais sobre o assunto. Gritava “passa logo”, só que o Julio não sabia o quê. “Falou como se eu tivesse alguma ‘prática’ em assaltos (como ele, provavelmente, tinha em assaltar).”
O negócio é fingir saber todos os códigos - o da polícia e o do ladrão. Sem deixar a mão tremer.