30 de Março de 2010

Labuta

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:26

Tenho prazer de escrever receita, relatório, recado. Tudo quando precisa. Obrigação boa, sempre. Um dia estranharam, quando falei. Eu devia gostar só de escrever profundo, inspirado, juntando ideias complicadas.

Mas é que, assim, dá para brincar de procurar pela palavra sem pretensão, manusear as letras com o orgulho da labuta, e acabar o dia com o gosto do dever cumprido.

Tem sido assim nos últimos dias. Eu não reclamo. Ainda mais quando vem um dinheirinho no fim do mês…

23 de Março de 2010

Códigos

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:54

- Você pode tirar a ponta, tá?

Ela compreendeu imediatamente, mas deteve-se. Fiquei intrigada. Até então eu estava distraída, antecipando meus afazeres mentalmente. Aqueles segundos de hesitação da manicure, porém, me arrancaram do confortável mundo em que todos-entendem-todos-porque-tudo-já-está-combinado. Lembrei de ter relevado algum tremor na mão dela, apesar do medo de um “bife”.

Se você não é uma, digamos, “mulherzinha”, faço um parênteses para explicar os códigos até aqui: “tirar a ponta” quer dizer tirar o esmalte da borda da unha. Ajuda a não descascar. “Bife” é quando a manicure usa o alicate além da cutícula, e acaba machucando a pele, a ponto de sangrar mesmo.

Pois a minha necessidade de harmonia era tão grande que tinha deixado o medo da dor de lado, e fingi que não percebia a ansiedade da manicure. Isso até aquele momento, o de limpar a borda da unha, quando a minha manicure teve que perguntar baixinho para a colega ao lado:

- Aqui vocês tiram a ponta usando luva?

Ela ficou aliviada de poder tirar a luva das mãos finalmente. Era manicure há muito tempo, mas nunca usava luva - uma regra naquele salão de beleza. Era o seu primeiro dia no salão. Eu era a sua primeira cliente. Se eu não perguntasse, com toda a simpatia que não desculpava a minha distração, certamente não teria me contado. Desde o início, ela estivera hesitante com procedimentos, atrapalhada com o material (especialmente com a luva), e chegara a ser sutilmente repreendida por uma cabeleireira porque sua cadeira estava atrapalhando a passagem.

Ninguém a perdoava por não saber os códigos que ela não tinha a menor condição de conhecer previamente. Sua mão tremia porque também não esperava pelo meu “perdão”.

Não é apenas no primeiro dia de trabalho que costumamos passar por situações assim. Naquela manhã, eu havia pensando no assunto ao ler sobre os scanners instalados no aeroporto de Paris - aqueles que permitem ver o passageiro por debaixo das roupas. Imediamente lembrei de quando fui “sorteada” para passar pelo raio X antes de embarcar em Londres. Os funcionários não tinham a menor paciência para explicar exatamente como eu deveria me posicionar diante do aparelho. Era como se todos os passageiros tivessem a obrigação de já ter passado por aquilo, a ponto de qualquer sinal de desconhecimento ser identificado como suspeito.

Mas o “suspeito” pode estar de qualquer lado. O cúmulo da incapacidade de perceber o outro como “diferente”, alguém que não sabe os códigos aos quais você está acostumado, foi uma história contada pelo Julio Daio no Digestivo. Ao ser assaltado, ele tentou reagir como nos filmes, levantar as mãos, mas o ladrão exigia que soubesse mais sobre o assunto. Gritava “passa logo”, só que o Julio não sabia o quê. “Falou como se eu tivesse alguma ‘prática’ em assaltos (como ele, provavelmente, tinha em assaltar).”

O negócio é fingir saber todos os códigos - o da polícia e o do ladrão. Sem deixar a mão tremer.

18 de Março de 2010

Escrever salva

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:12

A tarefa na escola tinha tudo para dar vazão à conhecida crueldade infantil - não suficientemente domesticada aos 10 anos. Para fixar a gramática, cada aluno deveria dar um adjetivo para um coleguinha sorteado na lista de chamada. No mundo adulto, a dinâmica às vezes se chama “jogo da verdade”, e não é aconselhável para pessoas sensíveis…

O resultado poderia ser pior, mas, mesmo assim, a menina não gostou do que ouviu: “Quieta”. E olha que ela tinha usado “Divertido” para qualificar o seu sorteado. Primeira lição: generosidade nem sempre é paga com generosidade.

O problema é que ela estava cansada do rótulo de tímida, quieta e outros adjetivos menos profundos. A língua portuguesa é cheia de adjetivos lindos, sofisticados, mas nem os adultos costumam aplicá-los para definir uma pessoa em poucas palavras. Decididamente, a ideia da professora não fora das mais felizes.

Como a menina não é mesmo de muito falar, ficou apenas emburrada, sem saber como resolver aquilo. Até que a solução se mostrou, justamente na lição de casa: fazer uma frase para cada adjetivo mencionado em sala de aula. “Posso ser quieta no colégio, mas não sou em casa”, ela escreveu, triunfante. E foi jogar no computador.

Eu, que observo tudo, lembro dos dois últimos filmes que vi no cinema. Em “Preciosa”, a adolescente tratada pela vida como animal descobre sua identidade quando consegue escrever sobre si em um caderno, mesmo que precariamente. Em “O segredo de seus olhos”, um aposentado só consegue reconhecer o grande amor de sua vida quando escreve um livro sobre um amor alheio, que julgava ser o maior de todos.

Não, eu não sou “apenas quieta” (foram suas palavras). Não, eu não sou um animal. Não, o meu amor não é menor que o maior amor do mundo. Escrito, tudo fica mais claro.

8 de Março de 2010

Próxima parada

Arquivado sob: Cotidiano, Viagens — Marta @ 16:28

“A senhora já está no Rio”, me informa com um meio sorriso o atendente do check-in. Pela expressão simpática e condescendente, percebo o quanto é comum um passageiro chegar ao balcão da companhia aérea trocando o destino da ida com a volta. Será o estresse? A vontade de voltar? Sim, porque estamos falando aqui de quem viaja a trabalho, a cabeça nos afazeres, o corpo buscando pequenas compensações - a bordo, nos rituais de embarque e desembarque. A estes passageiros, o funcionário reserva seu sorriso mais cúmplice: estamos no mesmo barco, no mesmo avião, em atitude glamurosa mas revelando a cada gesto cansado a nossa humanidade.

Lembro-me da época de crise no setor aéreo, os atrasos constantes mandando para as cucuias os resquícios de glamour do passado. O fato é que mesmo assim, apesar do finger que não funciona e mantém os passageiros presos no avião por dez minutos, apesar da comida gordurosa e do taxista mal encarado, apesar da fila no banheiro, mesmo assim adoro estar em um aeroporto. Partindo, chegando, esperando.

Talvez tenha gostado do filme “Amor sem escalas” – que não ganhou nem um oscarzinho ontem – só por causa da cena inicial, em que George Clooney revela toda a sua intimidade com os esdrúxulos rituais das viagens de avião (especialmente nos Estados Unidos…). E é assim, dentro de um filme, que me sinto com a personagem que me aborda na sala de embarque. Trata-se de uma senhora com alguma idade, visivelmente deslocada, e me prontifico a ajudá-la quando me estende o cartão com o número do voo.

Se o portão de embarque ainda pode ser alterado? Sim, com certeza, respondo, já que o seu voo só partirá dali a três horas e meia. A senhora deveria se distrair um pouco, porque tão cedo o número não aparecerá no painel, é o que lhe digo, e ela parece compreender. Mas mantém-se ereta na cadeira, olhando o nada, aparentemente conformada. Quem se distrai sou eu, colocando os e-mails em dia, até perceber que a tal senhora está abordando outra pessoa, com a mesma pergunta. O portão de embarque ainda pode mudar?

Sempre pode. Podemos embarcar em muitos portões, e cada um deles nos levará a um destino diferente, todos eles fora da nossa rotina. Aquela senhora resistia – odeia sair da rotina. Quer a previsibilidade. Não vou fazer gênero e dizer que não gosto da rotina, logo eu que como sempre a mesma coisa no café da manhã. É o momento do dia em que sou mais resistente, e mesmo em um hotel distante tento achar uma opção parecida de desjejum.

Mas é só o começo do meu dia. No decorrer dele, uma luta interna se travará: a busca do familiar versus o anseio pela novidade, pelo acontecimento que mudará tudo o que planejei durante anos. Numa viagem – especialmente a de lazer, para um lugar desconhecido – sei que serei arrancada das minhas certezas emboloradas. Se o hábito é a morte em vida (experimentar é viver), finalmente entendo o meu comichão por planejar (um pouco) a próxima viagem. Qual será o portão de embarque? Não sei. Graças a deus.

1 de Março de 2010

O ano começou

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:14

Cena 1: O sujeito sabe (alguma coisa de) alemão e passa o filme todo repetindo as frases que compreende. Eu, que achava que nada podia ser mais desagradável do que alguém falando no cinema, descubro: há sim, alguém falando em alemão no cinema.

Cena 2: Em uma rua relativamente movimentada de Ipanema, o carro à sua frente resolve parar em fila dupla. Detalhe: já tem um outro veículo estacionado, também em fila dupla, exatamente do outro lado. Impossível prosseguir.

Nessas horas, custo a acreditar na situação. As pessoas fazem coisas assim, imagino, por não perceberem que existe alguém ao lado, atrás, em volta, convivendo com elas no mesmo planeta Terra. E quando a gente buzina ou fala “psiu” é estressado…

É, já estou quebrando minha primeira resolução de ano novo: não consigo ser zen, pelo menos no Rio de Janeiro.

Espuminha | Dicas, atualidades e assuntos para o café