Carnaval X cinema; nostalgia X tecnologia
Se até os amigos paulistas estavam gazeteando a tarde da quarta-feira de cinzas, não seria eu, a carioca com marchinhas na ponta da língua, que iria trabalhar. Afinal, foram quatro dias intensos, driblando blocos, rendendo-se a alguma folia e participando das intensas discussões sobre o xixi enquanto resíduo carnavalesco. Concluí: era dia de descansar no escurinho do cinema.
Mas a intenção logo esbarrou nas evidências de que o carnaval não havia acabado. No caminho para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, resquícios de confusão do “Me beija que eu sou cineasta”. Insistimos, subimos a Marquês de São Vicente, mas o carnaval cismava em perdurar: o portão do centro cultural estava fechado. “Só reabre amanhã”, me informou o porteiro, ignorando meu protesto pelo tijolinho equivocado no jornal.
Quem sabe “A fita branca” não estava passando também nos cinemas do Shopping da Gávea, ali pertinho? Corremos, afinal a promessa era levar as crianças à praia de noitinha, fechando o carnaval (que mania de querer acabar com ele). Em cartaz, porém, o único filme que ainda não tínhamos visto era “Nine”. Musical, argh, mas pelo menos com Daniel Day Lewis.
Depois de quase duas horas de projeção, no momento em que eu já admitia ter valido a pena, se o final não decepcionasse, o projetor pifou. As luzes acenderam. A plateia idosa ficou quietinha, esperando, até a funcionária garantir que não havia jeito. Sabem como é, numa quarta-feira de cinzas é difícil achar alguém para consertar.
Na fila para pegar o dinheiro de volta, tentei lembrar há quanto tempo algo assim não me acontecia. Parecia algo de décadas atrás, numa cidadezinha do interior - se eu já tivesse ido ao cinema no interior, o que nunca fiz.
Nostalgia semelhante havia me invadido dez dias antes, no mesmo complexo de cinemas - bem moderninho -, ao assistir “A princesa e o sapo” com minha filha. O desenho da Disney, à moda antiga, sem efeitos de computador, me parecia ter problemas de projeção. “O som não está baixo?”, sussurrei, mas ninguém parecia estranhar. “Será que sentei muito atrás no cinema?”, pensei, num esforço para compreender a sensação de estar vendo TV na sala de casa.
Só depois fui lembrar que era a minha primeira sessão de cinema após “Avatar”. Não é que a propaganda em torno da tecnologia revolucionária do filme de James Cameron faz sentido?
Pois é, mas o projetor sempre pode pifar em pleno carnaval (me rendi), transportando a plateia de Pandora diretamente a um cinema Paradiso do século passado…
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Dilema: como saber o final de um filme mediano, sem precisar vê-lo inteiro de novo? Alguém aí viu “Nine”?