19 de Fevereiro de 2010

Carnaval X cinema; nostalgia X tecnologia

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:49

Se até os amigos paulistas estavam gazeteando a tarde da quarta-feira de cinzas, não seria eu, a carioca com marchinhas na ponta da língua, que iria trabalhar. Afinal, foram quatro dias intensos, driblando blocos, rendendo-se a alguma folia e participando das intensas discussões sobre o xixi enquanto resíduo carnavalesco. Concluí: era dia de descansar no escurinho do cinema.

Mas a intenção logo esbarrou nas evidências de que o carnaval não havia acabado. No caminho para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, resquícios de confusão do “Me beija que eu sou cineasta”. Insistimos, subimos a Marquês de São Vicente, mas o carnaval cismava em perdurar: o portão do centro cultural estava fechado. “Só reabre amanhã”, me informou o porteiro, ignorando meu protesto pelo tijolinho equivocado no jornal.

Quem sabe “A fita branca” não estava passando também nos cinemas do Shopping da Gávea, ali pertinho? Corremos, afinal a promessa era levar as crianças à praia de noitinha, fechando o carnaval (que mania de querer acabar com ele). Em cartaz, porém, o único filme que ainda não tínhamos visto era “Nine”. Musical, argh, mas pelo menos com Daniel Day Lewis.

Depois de quase duas horas de projeção, no momento em que eu já admitia ter valido a pena, se o final não decepcionasse, o projetor pifou. As luzes acenderam. A plateia idosa ficou quietinha, esperando, até a funcionária garantir que não havia jeito. Sabem como é, numa quarta-feira de cinzas é difícil achar alguém para consertar.

Na fila para pegar o dinheiro de volta, tentei lembrar há quanto tempo algo assim não me acontecia. Parecia algo de décadas atrás, numa cidadezinha do interior - se eu já tivesse ido ao cinema no interior, o que nunca fiz.

Nostalgia semelhante havia me invadido dez dias antes, no mesmo complexo de cinemas - bem moderninho -, ao assistir “A princesa e o sapo” com minha filha. O desenho da Disney, à moda antiga, sem efeitos de computador, me parecia ter problemas de projeção. “O som não está baixo?”, sussurrei, mas ninguém parecia estranhar. “Será que sentei muito atrás no cinema?”, pensei, num esforço para compreender a sensação de estar vendo TV na sala de casa.

Só depois fui lembrar que era a minha primeira sessão de cinema após “Avatar”. Não é que a propaganda em torno da tecnologia revolucionária do filme de James Cameron faz sentido?

Pois é, mas o projetor sempre pode pifar em pleno carnaval (me rendi), transportando a plateia de Pandora diretamente a um cinema Paradiso do século passado…

***

Dilema: como saber o final de um filme mediano, sem precisar vê-lo inteiro de novo? Alguém aí viu “Nine”?

12 de Fevereiro de 2010

Cuide de você

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 14:52

“Prezada Marta,

A idéia da matéria me parece bastante oportuna e as suas perguntas muito bem formuladas. Respondê-las com a seriedade que merecem, contudo, exigiria um tempo de que não disponho no momento e ocuparia um espaço que (o veículo) não pode ceder. Assim, lamento não atendê-la nesta oportunidade, mas desejando sucesso em sua tarefa.”

Já tinha ouvido muitos nãos na minha vida de jornalista, mas confesso que fiquei entretida com a retórica deste. Deve ser porque ando zen, culpa do relaxante muscular. Mesmo assim, tentei lembrar: quando foi que começaram a nos pedir perguntas por e-mail? O que fazer quando, depois de nos curvarmos à exigência, nosso trabalho é desprezado com elogios?

Pensando bem, não parece a carta do namorado da Sophie Calle, que acabou virando arte? Ou as respostas de editoras aos originais de um escritor, que acabaram virando livro? Agora só falta compilar as rejeições sofridas por jornalistas…

9 de Fevereiro de 2010

A vida offline

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:32

Começou por acaso. Não consegui configurar o e-mail no computador novo de forma a receber mensagens automaticamente. Deixei para depois, e passei a clicar em “enviar/receber” apenas quando esperava por algo ou me sentia solitária.

Foi assim que descobri a vida offline - não aquela em que se é tolido de qualquer instrumento de conexão, situação realmente sujeita a terríveis crises de abstinência. Refiro-me a poder escrever um texto sem o raciocínio interrompido a cada e-mail/spam. Poder se desligar do mundo lá fora quando convém, e voltar na hora em que brota a vontade, ou a real necessidade, marcada pela lembrança: ih, preciso checar minha caixa postal.

Claro que isso é perigoso no trabalho. É bom para mim, nem tanto para quem me procura. Mas que delícia. Agora estou pensando: devo mesmo me reconfigurar, pessoalmente, para estar tão online assim?

4 de Fevereiro de 2010

Ansiosa sim e daí?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:31

Ser ansioso é ser responsável e consciente. E ser responsável e consciente é algo bacana, para os outros, para a sociedade.

Ufa, já estou até menos ansiosa com essa notícia!

E vou parar de ficar ansiosa porque a minha filha é ansiosa e desse jeito ela não vai ser feliz, pois a felicidade exigiria um permanente estado zen. “Bobagem”, diria o psicólogo Jerome Kagan. “A ansiedade só será problema para quem acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua condição como problema. Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.”

Como todos sabem, eu não leio “Veja”, mas dona Candoca sim. E foi ela quem me mostrou a entrevista de Jerome Kagan nas páginas amarelas da revista. A matéria, na verdade, aborda de forma abrangente um de meus assuntos preferidos, psicologia infantil, e é um espetáculo de destruição de mitos.

O mais curioso é que o psicólogo faz isso com argumentos simples, nada técnicos, que beiram o bom senso. Viva o bom senso. E viva a ansiedade do bem.

1 de Fevereiro de 2010

Avatar e Invictus no fim de semana

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 15:21

Imagine-se completamente envolvido em uma narrativa de ficção. Pode ser um livro ou um filme, daqueles que te ganham desde o começo, como leitor ou espectador. Há aquela deliciosa mistura de identificação (com os personagens, com a situação) e estranhamento (o que vai acontecer?). A história é tão bem contada (por causa do ritmo rápido; ou pelo contrário, por se deter em detalhes enternecedores), que você esqueceu-se de si próprio, nem percebe imagens ou palavras como intermediárias. Seguir a narrativa é puro deleite até que…

Até que o narrador resolve “aparecer” e explicar melhor o que está contando. Um flashback desnecessário, um personagem explicando o que você já tinha entendido e pronto. Fim da magia. Cortaram o seu barato, o seu tesão. No melhor da festa, alguém desligou o som. Afinal há os vizinhos – aqueles a quem cabe uma trama mais explicadinha, uma fórmula já testada, uma repetiçãozinha que torne tudo mais, digamos, palatável. Você estava no estado da arte, da emoção, e de repente tem que se contentar com algum entretenimento. Volta a ter consciência de si próprio, da sua posição na poltrona, e percebe que, pensando melhor, aquele ator não está tão bem assim no papel ou que o autor poderia ter caprichado mais nos diálogos.

É nessa hora, da mais pura decepção, que me dá vontade de não ler mais o best seller do momento, nem ver o filme candidato ao Oscar. Mas eles são tão bem feitinhos, não é mesmo?

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