29 de Janeiro de 2010

O verdadeiro motivo para implicar com “Amor sem escalas”

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 14:18

Adorei o filme “Amor sem escalas”, que tem o mesmo tipo de sacadas rápidas e inteligentes dos filmes anteriores do diretor Jason Reitman (”Juno” e “Obrigado por fumar”). Mas não estava entendendo as críticas negativas, com implicâncias bobas, até ler a crônica de Luis Fernando Veríssimo de quarta-feira. Aí vai ela:

“O verdadeiro George Clooney

Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição. É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.

Os dentes são falsos. Ali onde elas veem pomos da face irresistíveis e um queixo decidido, há, obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio no septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftã bordado e sendo borrifado com perfumes florais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.

É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas exilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.

Além de tudo, tem seborreia e é Republicano.”

27 de Janeiro de 2010

Gostar de obra?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:07

Sempre desconfiei de quem afirma gostar de obra. Como assim alguém gosta de obra? Com exceção de engenheiros, arquitetos e pedreiros, vamos combinar que uma pessoa não pode amar fazer uma obra, assim como só dentistas devem ficar entusiasmados com tratamentos de canal.

Para minha infelicidade, um novo vizinho do prédio, ainda de feições desconhecidas, é um desses excêntricos que declaram por aí – socialmente, em festas, como se fosse normal! – que adora uma obra. Veja bem, essas pessoas não curtem o resultado, a casa nova, modernizada, para exibir aos amigos. Elas juram que gostam mesmo é de ver tudo demolido, canos furados por engano, descobrir colunas que não constavam na planta, ver sacos de entulho saindo pela garagem.

Para eles, reforma boa é aquela que destrói apartamentos inteiros (com vizinhos enlouquecidos por todos os lados). À noite, sonham com tijolos, argamassa e latas de tinta. Ficam tão desolados quando finalmente as paredes se erguem que mandam derrubar tudo de novo, para recolocá-las em outro lugar. E eu embaixo…

21 de Janeiro de 2010

Clarice até março

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 17:19

claricebeth 1 2 - claricebeth 1 2

O esforço valeu a pena, e ontem consegui finalmente ver a peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, estrelada pela atriz Beth Goulart. A boa notícia é que o espetáculo, que ameaçava ficar novamente em curtíssima temporada, estará em cartaz no Teatro Sesi do Rio até março.

A minha história com Clarice é curiosa. Descobri e amei a escritora na adolescência. Depois de, digamos, adulta, suficientemente desintoxicada de seu texto (que impregna a alma e explica a devoção de seus fãs), passei a acreditar que aquela tinha sido apenas uma fase adolescente e mulherzinha. Cheguei a considerar pertinente uma crítica que ouvira sobre Clarice ser um pouco repetitiva.

No ano passado, com a volta dela à mídia, retomei seus contos, encantada. Ah, como pode ser nocivo se afastar de Clarice. A coletânea “Clarice na cabeceira”, por sinal, tornou-se o meu título de fim de ano preferido para presentear amigos, desejando assim que eles a mantenham por perto. Os contos são apresentados por fãs célebres, que aparentemente tiveram liberdade para escolhê-los.

Dois deles estão na peça, e a interpretação de Beth Goulart, espantosamente parecida com a escritora em cena, acaba por revelar novas nuances no texto. O resultado final - cenário, iluminação etc - é lindo de morrer, imperdível para fãs de Clarice Lispector.

18 de Janeiro de 2010

Lula, o filme sem boca a boca de urna

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:57

No final, nem eu vi o filme sobre o Lula… Explicações sobre o fiasco estão no Globo de ontem (clipado aqui) e algumas delas passam ao largo da questão política. Achei interessante especialmente a visão do diretor da Filme B, Paulo Sérgio Almeida:

- Nenhum filme sobre o Flamengo fez o público que se esperava, assim como filmes sobre Zico, Pelé ou a Seleção. Não se transfere o público dos estádios para os cinemas com igual proporção. Com a política, a lógica é igual.

Claro que se o filme fosse espetacular, e a estratégia de lançamento tivesse funcionado, o boca a boca teria nos impulsionado às salas de cinema, mesmo nas férias, mesmo não gostando (mais) do PT. Mas não foi o que aconteceu.

Um comentarista lá do Digestivo diz que sou ruim de previsões, com toda a razão. Por falar nisso, sabe qual é meu palpite para o Oscar? Brincadeirinha…

13 de Janeiro de 2010

Verão do yog-alguma-coisa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:43

Se no ano passado tivemos o verão do cone (leia-se temaki), este é o verão do sorvete de iogurte.

Sim, sei que não chega a ser novidade, e que o modismo é até importado. Mas, da minha modesta visão de quem observa as férias dos outros enquanto trabalha, nada bomba mais na zona sul carioca do que as tais sorveterias yog-alguma-coisa.

De vez em quando entro na fila (impossível uma sorveteria sem fila, com um calor de 40 graus) e presto a atenção nos idiomas. Nunca fui tão abordada por gringos (ou vendedores desesperados por uma tradução) querendo informações em inglês. E olha que o câmbio nem está favorável para eles.

Sei que isso vai parecer meio arrogante, mas às vezes me aborreço, quando vejo os meus lugares preferidos invadidos pelos turistas, fila para todo lado. Fico com saudades da baixa temporada, quando sou bem atendida e meu café preferido parece só meu. Será que vem daí o mau humor dos parisienses?

E lá vou eu, comparando o Rio com Paris, depois de ter feito isso com Nova York no post abaixo… Mas não deve ser por acaso. Acabo de ler no jornal que em 2016 teremos um nível de pobreza no Brasil abaixo dos 4%, mesmo índice dos países ricos, se tudo correr como o previsto.

Difícil conter o otimismo, o espírito ufanista. Mas o fato é que os indicadores da economia batem com o que vemos nas ruas. E eu que imaginava que o futuro do país do futuro nunca chegaria. Viva o verão do sorvete de iogurte.

9 de Janeiro de 2010

Manhattan emergente

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:03

Se é verdade que, no novo jogo de forças global, chegou a vez do Brasil, em contraposição à derrocada americana, a zona sul do Rio é a nova Manhattan. No verão do aquecimento - da economia e do clima -, Ipanema tornou-se um lugar efervescente. E caro.

Ouvem-se todas as línguas, na praia, no comércio, nos restaurantes. O comércio, por sinal, mal dá conta das vendas. Havaianas fazem a festa dos turistas. Os preços sobem, com a demanda. O metro quadrado no Leblon continua em alta, inacreditavelmente. Crise, que crise.

Mas não espere de uma Manhattan emergente o mesmo charme compacto de sua matriz americana. A diversidade interessante convive com calçadas mal acabadas, camelôs que fogem do rapa, lojas feias ao lado das descoladas, lixo nas ruas, pedintes, medo de assalto.

Quem sabe não está nas contradições o novo charme emergente, que fez de Lula um inesperado líder global? O mundo dos ricos ruiu, algo precisava ficar no lugar, e surgimos nós, com nossas favelas e caipirinhas.

4 de Janeiro de 2010

A tsunami de Angra

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 09:50

O apresentador da TV insiste, atônito:

- Mas não deveriam ter feito uma obra de contenção na encosta?

O especialista bem que gostaria de atender à súplica do jornalista, dar a resposta pela qual anseiam os espectadores, dizer que sim, a culpa é das autoridades competentes, mas simplesmente não pode. A tal obra seria inviável, ninguém pensaria em fazê-la, não havia desmatamentos na região, as explicações apenas envolviam os movimentos da natureza. Indomável, como a tsunami.

Gastamos a vida em busca de um sentido. Na falta dele, um culpado. O governo, a especulação imobiliária, os destruidores da natureza, alguém que poderia ter evitado a tragédia, porque elas sempre deveriam ser evitáveis, e não gratuitas. Alguém tem que pagar por elas, tão caras, nem que seja moralmente.

Se não foi um vírus, transmitido por alguém a quem se pode tudo atribuir, que tenha sido erro médico. Que o câncer tenha sido fabricado pelo rancor da própria vítima, ela também culpada. Ou quem sabe a explicação resida na carga genética, e também aí teremos um raciocínio para nos aplacar, na falta da fé religiosa. Foi deus quem quis já não satisfaz a maioria.

Tudo, menos o acaso. Menos dizer que a morte faz parte da vida. Isso sim, é insuportável, insuficiente para anestesiar a dor.

Que os parentes das vítimas (de que algoz?) de Angra consigam conviver com ela, a dor.

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