A indústria do que não tem preço
Sabe o sonho de ter uma pousada? A maioria já acalentou: ser dono do próprio negócio, viver longe do estresse da cidade, ter uma espécie de casa ampliada, aconchegante, para receber os amigos e fazer outros (os hóspedes, que serão sempre simpáticos). Algo assim não tem preço, não é mesmo?
Se o voo solo assusta, há outra alternativa para poder finalmente dar uma banana para o chefe e ser dono do próprio nariz. É só pegar as economias e investir numa franquia, negócio já formatado e sem riscos, pelo menos é o que dizem por aí.
Mas se você não se julga um sonhador, nem empreendedor nato, talvez tenha outra espécie de plano: passar em um concurso público e ter um salário garantido para o resto da vida, sem medo do amanhã. Verdade que passar na prova é difícil, mas estabilidade não tem preço…
Esses são apenas alguns sonhos na esfera do trabalho. Enquanto pensamos neles, nos contentamos com os pequenos, que cabem na inevitável gastança de fim de ano. Por exemplo, a sua filha, sua princesinha, fazendo parte de um grande espetáculo de dança, depois de um ano inteiro de aulas numa escola de prestígio. Ela, linda em seu figurino; perfeita em sua coreografia.
É justo no momento em que você se sente dentro de uma campanha da Mastercard que vem a facada. Sim, tem preço. Depois de pagar um absurdo pelo figurino, outro tanto pelo aluguel do teatro, sem falar na sapatilha – uma pechincha perto disso tudo, mas o fato é que você ainda teve que bater perna e gastar por fora –, alguém lhe oferece um DVD com todos os momentos “não tem preço” gravados - com qualidade profissional, claro.
Você acabou de comprar um buquê de flores providencialmente à venda na porta do teatro (se as outras meninas vão ganhar, como a sua princesinha vai ficar sem?), e aí finalmente percebe: foi fisgado pela indústria do não tem preço.
A rigor, ninguém o enganou, e capitalismo eficiente é isso aí. O crescimento do mercado de serviços e produtos infantis só comprova a culpa crescente dos pais que trabalham muito, sem falar na possibilidade de realização por meio do sucesso dos filhos. Quanto vale o sorriso do seu filho diante do brinquedo tão sonhado, desembrulhado embaixo da árvore de Natal? Ah, não tem preço, você aprendeu com a campanha publicitária.
É verdade que a criança tem vários brinquedos parecidos e vai se desinteressar do novo rapidamente, como aconteceu com os anteriores. Mas… e o sorriso? E o Natal? Só um insensível acharia que algo assim tem preço. Um insensível ou alguém com um bom senso de oportunidade, para filmar o tal espetáculo da escola de balé e cobrar R$ 90 pelo DVD.
“É meio tabelado, paguei a mesma coisa pela apresentação da minha filha”, tentou me conformar uma amiga. Eu me rendi, mas depois fiquei pensando nas outras indústrias, que exploram (no bom sentido) sonhos menos realizáveis, como aquelas relacionados ao trabalho que mencionei lá no começo.
Recentemente descobri uma bela estrutura montada para, digamos, ajudar uma pessoa a se tornar um escritor. Como no caso dos que almejam passar em concursos públicos, alguns poucos podem, de fato, chegar lá. A arrasadora maioria, porém, vai apenas injetar dinheiro na indústria que se formou em torno do sonho.
Mas é complicado julgar os que “exploram” e alimentam o sonho alheio, mesmo sabendo quando ele é absolutamente inalcançável. Será que o professor do curso “Como se tornar dono de uma pousada” deveria alertar os alunos sem a menor chance de sucesso na empreitada? Quem negocia uma franquia deveria confessar que a maioria dos franqueados se esfalfa de tanto trabalhar em troca de uma remuneração menor que o antigo salário?
Muitas vezes, paga-se para sonhar, para dar um sentido à vida, para ter o status de quem está ambicionando algo grandioso.
Olá Marta. Adoro o conteúdo o seu blog. Como blogueiro, sei que o que conta mais é a qualidade do que escrevemos. Porém, o visual do nosso blog também tem relevância para atrair visitantes. E eu gostava muito do layout anterior. O que aconteceu com ele?
Comentário de Luiz Valério — 28 de Dezembro de 2009 @ 13:09
Luiz, eu estava cansada do visual antigo, por isso a mudança. Mas vou avaliar melhor o layout atual, tá? Muito obrigada, pela leitura e pela sugestão! Um ótimo 2010 para você.
Comentário de Marta — 29 de Dezembro de 2009 @ 22:20