Tuvalu e nós
As chances de sabermos da existência de Tuvalu eram mínimas. Digamos que você tivesse uma oportunidade de ir à Austrália. Teria que ficar lá tempo o suficiente para alguém sugerir: por que não dá um pulo no arquipélago de Tuvalu? Ok, mas ninguém faz turismo naquelas ilhas, onde só existe um hotel chinfrim, apesar da paisagem paradisíaca igual a milhares de outras ilhas na região. Então a sugestão viria por conta do seu interesse por… história!
Isso, você é um historiador, atrás de um novo ponto de vista sobre os conflitos no Pacífico durante a Segunda Guerra, depois do ataque à base militar de Pearl Harbor. Sim, Tuvalu, pertinho do Havaí, foi um estratégico campo de batalha em 1943, e os japoneses chegaram a atacar nove vezes o arquipélago ocupado por americanos.
Mas essa história já foi contada, e, convenhamos, os custos de uma viagem assim não são cobertos por um interesse acadêmico. Mais factível seria o seu interesse econômico pelo país, que produz… bem, Tuvalu não produz nada. Alguns barcos de pesca, um cultivo rudimentar de cocos, e nada mais. No entanto, você é representante de um poderoso grupo de comunicações, que desde o crescimento da internet ficou intrigado com o domínio dado de mão beijada à pequena nação perdida no oceano.
Os endereços da internet em Tuvalu podem usar a terminação “.tv”, embora os poucos sites locais, iniciativa de alguns dos 12 mil habitantes, sejam escritos em tuvaluano. Que desperdício, comentou um marketeiro em uma reunião, e lá foi você, com a pastinha debaixo do braço, negociar com o primeiro-ministro de Tuvalu. Pensou em levar uns espelhinhos, mas achou melhor chegar com uns US$ 50 milhões, o que foi suficiente para fechar o acordo de cessão do domínio por dez anos, e dobrar o PIB do estado tuvaluense na década.
Talvez esta fosse sua única chance de descobrir a existência de Tuvalu. No entanto, desde ontem, eu, você e o mundo fomos apresentados ao minúsculo arquipélago (26 quilômetros quadrados!) que será o primeiro a sumir do mapa por causa do aquecimento global. Quem tem vertigem de altura não corre riscos em Tuvalu: o seu “cume” fica a 5 metros de altitude. Coube ao destino dar fama à nação às vésperas de sua extinção. Caberá ao mundo, na Conferência de Copenhague, mudar a triste sina de Tuvalu – agora, tão próximo de nós.