31 de Dezembro de 2009

Previsões

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:31

Nada é mais previsível do que o Natal. Sabemos exatamente qual será o cardápio da ceia, que o assado estará cheiroso, mas um pouco seco; que vamos encontrar aquele parente chato, mas pelo menos dará pra falar mal dele depois; que falta de assunto se resolve com um vinho gelado, ou cerveja mesmo; que alguém nos oferecerá panetone, mas já que é para enfiar o pé na jaca, melhor optar pela rabanada; que no fim do dia teremos a sensação de dever cumprido e pança cheia, típica da data, e então será hora de pensar no réveillon.

Você bem que tentou antecipar as compras de Natal, mas faltou tempo ― sabe como é o mês de dezembro… Nos telejornais, imagens de shoppings lotados mostraram o sufoco que você passou, meia hora para conseguir uma vaga, fila até nas escadas rolantes e mesas compartilhadas com estranhos na praça de alimentação, enquanto o esforço para ser criativo e econômico nas lembrancinhas ia por água abaixo. Quando as liquidações começaram, no dia 26 de dezembro, tudo pela metade do preço, você jurou que no ano que vem fará diferente, pretende sumir do mapa natalino e reaparecer depois ― com alguns óleos relaxantes, do spa onde se refugiou, para eventuais trocas de presentes tardias.

Pensando melhor, você não é mais um adolescente rebelde, e nesta época do ano convém admitir que, vá lá, família não é tão ruim assim. Então lembrará que as crianças se divertiram, que o parente chato, no fundo, bem lá no fundo, até que é gente boa, e o problema agora é decidir o que fazer com os presentes inúteis que ganhou e jurou ter gostado. Pode tentar trocar na loja, aproveitar para comprar uma roupa branca para o ano novo e para isso precisará… encarar o shopping! Pois é, nem mudou o ano e está fazendo tudo o que mais odeia, de novo.

Ok, você reconhece a recaída, mas jura que em 2010 será diferente. Para garantir, faz (ou atualiza?) a sua lista de resoluções. A vida passa rápido, é preciso ser feliz já, focar no que vale a pena, e essas mensagens de Natal que odiou responder acabaram deixando-o meio meloso. Seria 2010 o ano de sua guinada? Pensar de forma mágica ajuda, por isso você vai entremear a sua lista de obrigações chatas, que não serão cumpridas (perder três quilos, poupar 20% do salário), com iniciativas mais exóticas (conhecer um país, tocar um instrumento). Afinal, fazer essas listas é como jogar na Mega-Sena; a única serventia é poder sonhar um pouco.

Confesso que, entre as listas obrigatórias de fim de ano, tive dificuldades com a sugerida pelo Especial do Digestivo, com “melhores de 2009″, já que meu retrovisor anda um tanto embaçado. Como a bola de cristal está tinindo, vamos às minhas previsões para o ano novo, outra lista deliciosa de fazer:

Em 2010, meia dúzia de celebridades vai dar mancada no Twitter e ficará um pouco mais célebre por causa disso.

Em 2010, famoso deixará definitivamente de ser adjetivo para ser considerado um substantivo.

Em 2010, a audiência da Globo terá novo recorde negativo, e ainda assim todo mundo à sua volta saberá o nome do protagonista da novela das oito, e achará pedante você fingir que não sabe.

Em 2010, a morte do livro será decretada 57 vezes por especialistas em mídias digitais.

Em 2010, o cinema alternativo vai tentar ser mais comercial, mas sem fazer concessões à arte, e o cinema comercial com pinta de alternativo vai ganhar o Oscar.

Em 2010, você vai assistir ao filme sobre a vida de Lula.

Em 2010, uma nova rede social vai substituir o Facebook, invadido pelos pobres do Orkut.

Em 2010, a política vai tomar conta da sua caixa postal, você vai acabar se envolvendo no assunto apesar de tudo o que disse antes, e defenderá o candidato menos ruim na mesa do bar.

Em 2010, comentários sobre o tempo deixarão de ser (falta de) assunto de elevador para ganhar ares de papo-cabeça-ambientalista-engajado.

No final de 2010, quando os críticos forem fazer as listas de melhores da década, algum espírito de porco lembrará que elas foram feitas um ano antes.

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Já que a coluna acabou versando sobre os inevitáveis lugares-comuns de fim de ano, não poderia deixar de citar ― e recomendar ― um livro no qual estou viciada: O Pai dos burros ― Dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck. Para quem escreve, é uma diversão tê-lo ao lado do computador. Ao menor sinal de clichê brotando no texto, pego correndo o “dicionário” e fico eufórica ao constatar que, sim, ele está lá, devidamente catalogado.

O maior prazer, porém, não é evitar clichês e perceber a qualidade que o texto ganha sem esses penduricalhos. É poder empregá-los mesmo assim, consciente de sua função de “proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo o tempo a essa exigência, logo estaríamos exaustos” (Hannah Arendt, em A vida do espírito, citada no prefácio).

Já pensou como o Natal seria (mais) exaustivo sem o “Feliz Natal”? Pois então, sem pedir perdão pelo lugar-comum, um feliz Natal e um próspero ano novo para você.

***

Em tempo: encontrei nesta coluna pelo menos quatro “antipérolas” citadas por Werneck em seu livro. São elas: “enfiar o pé na jaca”, “dever cumprido”, “sumir do mapa” e “por água abaixo”. Quem sabe você descobre outras.

(coluna publicada no Digestivo Cultural em 25/12/2009)

26 de Dezembro de 2009

A indústria do que não tem preço

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:10

Sabe o sonho de ter uma pousada? A maioria já acalentou: ser dono do próprio negócio, viver longe do estresse da cidade, ter uma espécie de casa ampliada, aconchegante, para receber os amigos e fazer outros (os hóspedes, que serão sempre simpáticos). Algo assim não tem preço, não é mesmo?

Se o voo solo assusta, há outra alternativa para poder finalmente dar uma banana para o chefe e ser dono do próprio nariz. É só pegar as economias e investir numa franquia, negócio já formatado e sem riscos, pelo menos é o que dizem por aí.

Mas se você não se julga um sonhador, nem empreendedor nato, talvez tenha outra espécie de plano: passar em um concurso público e ter um salário garantido para o resto da vida, sem medo do amanhã. Verdade que passar na prova é difícil, mas estabilidade não tem preço…

Esses são apenas alguns sonhos na esfera do trabalho. Enquanto pensamos neles, nos contentamos com os pequenos, que cabem na inevitável gastança de fim de ano. Por exemplo, a sua filha, sua princesinha, fazendo parte de um grande espetáculo de dança, depois de um ano inteiro de aulas numa escola de prestígio. Ela, linda em seu figurino; perfeita em sua coreografia.

É justo no momento em que você se sente dentro de uma campanha da Mastercard que vem a facada. Sim, tem preço. Depois de pagar um absurdo pelo figurino, outro tanto pelo aluguel do teatro, sem falar na sapatilha – uma pechincha perto disso tudo, mas o fato é que você ainda teve que bater perna e gastar por fora –, alguém lhe oferece um DVD com todos os momentos “não tem preço” gravados - com qualidade profissional, claro.

Você acabou de comprar um buquê de flores providencialmente à venda na porta do teatro (se as outras meninas vão ganhar, como a sua princesinha vai ficar sem?), e aí finalmente percebe: foi fisgado pela indústria do não tem preço.

A rigor, ninguém o enganou, e capitalismo eficiente é isso aí. O crescimento do mercado de serviços e produtos infantis só comprova a culpa crescente dos pais que trabalham muito, sem falar na possibilidade de realização por meio do sucesso dos filhos. Quanto vale o sorriso do seu filho diante do brinquedo tão sonhado, desembrulhado embaixo da árvore de Natal? Ah, não tem preço, você aprendeu com a campanha publicitária.

É verdade que a criança tem vários brinquedos parecidos e vai se desinteressar do novo rapidamente, como aconteceu com os anteriores. Mas… e o sorriso? E o Natal? Só um insensível acharia que algo assim tem preço. Um insensível ou alguém com um bom senso de oportunidade, para filmar o tal espetáculo da escola de balé e cobrar R$ 90 pelo DVD.

“É meio tabelado, paguei a mesma coisa pela apresentação da minha filha”, tentou me conformar uma amiga. Eu me rendi, mas depois fiquei pensando nas outras indústrias, que exploram (no bom sentido) sonhos menos realizáveis, como aquelas relacionados ao trabalho que mencionei lá no começo.

Recentemente descobri uma bela estrutura montada para, digamos, ajudar uma pessoa a se tornar um escritor. Como no caso dos que almejam passar em concursos públicos, alguns poucos podem, de fato, chegar lá. A arrasadora maioria, porém, vai apenas injetar dinheiro na indústria que se formou em torno do sonho.

Mas é complicado julgar os que “exploram” e alimentam o sonho alheio, mesmo sabendo quando ele é absolutamente inalcançável. Será que o professor do curso “Como se tornar dono de uma pousada” deveria alertar os alunos sem a menor chance de sucesso na empreitada? Quem negocia uma franquia deveria confessar que a maioria dos franqueados se esfalfa de tanto trabalhar em troca de uma remuneração menor que o antigo salário?

Muitas vezes, paga-se para sonhar, para dar um sentido à vida, para ter o status de quem está ambicionando algo grandioso.

21 de Dezembro de 2009

Viva a Cacau Show

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:51

A Conferência de Copenhague fracassou, então na próxima deviam fazer na Cacau Show, que é mais popular e o chocolate também é ótimo. Essa eu li hoje na coluna Gente Boa, do Globo, e dei umas boas risadas, porque estava com raivinha.

Na sexta-feira tinha ido tomar um café na Kopenhagen, como fiz sistematicamente ao longo de 2009, e… a mocinha não quis me servir. “Perto do Natal a gente só vende café se estiver vazio”. Havia duas pessoas comprando caixas de chocolates, enquanto a máquina de expresso permanecia ligada sem ser ativada.

Fiquei tão desconcertada que não reagi. Imagina você pedir um copo dágua e a pessoa responder: hoje não. Recusar-se a servir um cafezinho, porque dá para faturar mais vendendo bombom, é uma grosseria semelhante, fiquei pensando depois. Era o fim da picada.

Fiquei pensando depois porque sou do tipo que nunca tem a resposta na ponta da língua, e fica remoendo o que devia ter dito na hora. Abatida, rumei para o Armazém do Café (com alguma convicção de que lá seria bem atendida, apesar do tumulto natalino) e na volta fui obrigada a passar novamente pelo quiosque da Kopenhagen, para subir a escada rolante que dá acesso ao escritório.

Olhei de soslaio e percebi que serviam café - pelo visto, os chocolates carésimos não estavam vendendo tanto assim. A mocinha do caixa me viu e explicou: agora estamos servindo. Desfiz o beicinho e finalmente as palavras - já postas na ponta da língua - saíram: era o fim da picada.

15 de Dezembro de 2009

Flores de plástico não morrem

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:14

Eu precisava comprar flores. Queria chegar com um lindo buquê de rosas vermelhas na mão, e pensei que não seria problema conseguir um na efervescência comercial de Ipanema. Foi aí que descobri que as floriculturas estão em extinção.

Não, eu não sabia. Elas foram substituídas pela venda de flores nas esquinas, em vasos plantados, ou por quiosques chiques com orquídeas nos shopping centers. A velha e boa floricultura, na qual escolhíamos os botões de rosa com conhecimento de causa – prever quais deles desabrochariam era uma arte -, deixou de ser um bom negócio faz tempo.

Flores são perecíveis, os pontos comerciais de Ipanema são uma fortuna e a especialização não vale a pena, me explica o vendedor da única floricultura que resiste em Ipanema (depois de muito bater perna, descobri uma, na Rua Farme de Amoedo).

Às floriculturas, o mesmo destino dos açougues. Onde foram parar os açougues?

10 de Dezembro de 2009

Tuvalu e nós

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:16

As chances de sabermos da existência de Tuvalu eram mínimas. Digamos que você tivesse uma oportunidade de ir à Austrália. Teria que ficar lá tempo o suficiente para alguém sugerir: por que não dá um pulo no arquipélago de Tuvalu? Ok, mas ninguém faz turismo naquelas ilhas, onde só existe um hotel chinfrim, apesar da paisagem paradisíaca igual a milhares de outras ilhas na região. Então a sugestão viria por conta do seu interesse por… história!

Isso, você é um historiador, atrás de um novo ponto de vista sobre os conflitos no Pacífico durante a Segunda Guerra, depois do ataque à base militar de Pearl Harbor. Sim, Tuvalu, pertinho do Havaí, foi um estratégico campo de batalha em 1943, e os japoneses chegaram a atacar nove vezes o arquipélago ocupado por americanos.

Mas essa história já foi contada, e, convenhamos, os custos de uma viagem assim não são cobertos por um interesse acadêmico. Mais factível seria o seu interesse econômico pelo país, que produz… bem, Tuvalu não produz nada. Alguns barcos de pesca, um cultivo rudimentar de cocos, e nada mais. No entanto, você é representante de um poderoso grupo de comunicações, que desde o crescimento da internet ficou intrigado com o domínio dado de mão beijada à pequena nação perdida no oceano.

Os endereços da internet em Tuvalu podem usar a terminação “.tv”, embora os poucos sites locais, iniciativa de alguns dos 12 mil habitantes, sejam escritos em tuvaluano. Que desperdício, comentou um marketeiro em uma reunião, e lá foi você, com a pastinha debaixo do braço, negociar com o primeiro-ministro de Tuvalu. Pensou em levar uns espelhinhos, mas achou melhor chegar com uns US$ 50 milhões, o que foi suficiente para fechar o acordo de cessão do domínio por dez anos, e dobrar o PIB do estado tuvaluense na década.

Talvez esta fosse sua única chance de descobrir a existência de Tuvalu. No entanto, desde ontem, eu, você e o mundo fomos apresentados ao minúsculo arquipélago (26 quilômetros quadrados!) que será o primeiro a sumir do mapa por causa do aquecimento global. Quem tem vertigem de altura não corre riscos em Tuvalu: o seu “cume” fica a 5 metros de altitude. Coube ao destino dar fama à nação às vésperas de sua extinção. Caberá ao mundo, na Conferência de Copenhague, mudar a triste sina de Tuvalu – agora, tão próximo de nós.

9 de Dezembro de 2009

Má educação

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:44

Pode ser o mês de dezembro, a desculpa da pressa, mas o fato é que os mal educados parecem ter se multiplicado nos últimos dias. A observação rolou numa rodinha, onde houve unanimidade a respeito do assunto. Uma das pessoas, que precisou usar muletas, contou ter passado sufoco nas ruas do Leblon: era atropelada pelos passantes. “Só faltava me darem uma rasteira por eu estar atrapalhando a passagem.”

No trânsito, nas filas e nas lojas, parece que todos estão crescendo nos cascos, com o pavio curto, como se a farinha fosse pouca, meu pirão primeiro. As expressões do tempo da vovó me ocorrem agora, provavelmente, porque lembro dos tempos de menina, quando aprendi a respeitar os mais velhos, ceder a vez, ser gentil com quem está me servindo - enfim, essas coisas em desuso.

Tudo bem que o tempo é curto em dezembro, que as chuvas atrapalham horrores a vida da gente, mas e quanto ao espírito natalino? Aquela simpatia toda vale só para o dia do amigo oculto/secreto? Olha que eu gosto de Natal, mas já estou pensando em pular direto para janeiro.

4 de Dezembro de 2009

Palmada

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:26

“Plaft!” A mulher sapeca um tapa no braço do filho, que tentava alcançar uma batata frita antes que o prato pousasse na mesa. A mão espalmada, ou o relativo silêncio da lanchonete, aumenta a percepção do golpe. Imediatamente ela percebe que exagerou na dose - ou na técnica do barulho, que deve funcionar em casa que é uma beleza. Mas, em lugares públicos…

Mesmo vindo de lado, o meu olhar atônito deve ter sido detectado, provavelmente rebatido nos olhos da terceira ocupante da mesa. Os lábios, contraídos na hora do tapa, ficam moles, ela se ajeita na cadeira ao lado do menino em prantos e dá um beijinho. Pede desculpas. As lágrimas do garoto ainda correm, mas ele para de chorar e começa a comer, concentrado. Está com fome. Está acostumado.

Ela passa a acariciá-lo. Parte a carne, bem picadinha, mil vezes. Sinto uma necessidade súbita de ir embora dali, como se a minha plateia não condissesse com o teatro encenado. Melhor deixá-los à vontade, e torcer para o menino crescer rápido e ganhar dinheiro para pagar a própria terapia.

1 de Dezembro de 2009

Sem luz no fim do apagão

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:31

Não sei você, mas ontem foi meu quarto apagão, em 20 dias. O primeiro, aquele pelo qual todos passaram, teve um quê de excitante. Quebrou a rotina, remexeu em memórias da infância, suscitou reflexões sobre nossa dependência da tecnologia.

O segundo apagão, em Ipanema, atrapalhou muuuito o meu trabalho. Morri de calor enquanto o notebook tinha bateria, tentei me virar sem internet, mas acabei atrasando o prazo para entregar um texto.

O de ontem foi no mesmo horário do terceiro, depois das 23h, e o transtorno maior foi ficar sem ar condicionado e dormir cedo. Só que não tinha mais graça. As tais memórias da infância, mais nítidas e menos fantasiosas, me fizeram recordar como era terrível viver sem luz e telefone a cada temporal, nos tempos em que morava no Alto da Boa Vista.

Agora eu moro no Leblon, o bairro que “fala alto”, e não consigo me conformar com a situação. Ontem tentei ler à luz de vela, lembrei de deixar desligados os interruptores, procurei usar a “expertise” adquirida a contragosto nos últimos dias. Mas me recuso a me adaptar. Não, eu não vou comprar um lampião para ler à noite.

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