Adorável Julia
Enfim estreia hoje o filme “Julie & Julia”, que com certeza dará à atriz Meryl Streep sua 16ª (!) indicação ao Oscar. É um filme delicioso (programe um belo jantar para depois) e eu escrevi sobre ele nesta coluna do Digestivo.
Enfim estreia hoje o filme “Julie & Julia”, que com certeza dará à atriz Meryl Streep sua 16ª (!) indicação ao Oscar. É um filme delicioso (programe um belo jantar para depois) e eu escrevi sobre ele nesta coluna do Digestivo.
Praça de alimentação do Aeroporto de Congonhas. Como vou tomar apenas um refrigerante, o preço me chama a atenção: R$ 4,75, uma latinha. Não estou com pressa, então decido fazer valer os meus direitos de consumidora indignada e suspendo o pedido. Vou no café ao lado. Depois no outro. O preço é exatamente o mesmo. Tabelado? Ah, o dono de todos os estabelecimentos é o mesmo, me informa a mocinha do caixa, com um sorriso cúmplice.
Quase resigno-me, mas aí lembro de uma descoberta do ano passado, numa época em que ia muito a São Paulo no esquema bate-volta. Saturada dos lanchinhos de avião e aeroporto, pensei em almoçar no restaurante do terceiro andar. Já ia entrando no salão vazio, as mesas impecáveis com toalhas brancas e taças de vinho denunciando o preço do buffet, quando dois ou três comissários de bordo passam por mim e seguem em direção a uma entrada ao lado esquerdo do restaurante.
O que haveria ali? Fui xeretar, e acabei descobrindo um restaurante superagradável, ao ar livre, com saladinhas, arroz, feijão, carne ensopada, e preço de quilo honesto. Tudo que um viajante precisa, quando não aguenta mais sanduíches secos, salgados gordurosos e lugares barulhentos. É claramente voltado aos funcionários do aeroporto, e só a eles, daí ser tão escondido. Mas qualquer um pode entrar e até fazer um lanche. Quanto ao refrigerante …
- Custa R$ 4 - me responde o caixa.
- Fiquei curiosa, porque lá embaixo é tabelado a R$ 4,75. Parece que é tudo do mesmo dono.
- Aqui também. Mas mesmo assim é tudo mais barato.
Então está dada a dica do dia, para quem costuma passar por Congonhas. E assim faço valer a linha fina do blog, depois de uma longa temporada sem dicas ou tentativas de conselhos.
Tinha que resolver isso já, antes do almoço, antes do café pós-almoço. Sorte ter finalmente lembrado na hora certa, em frente a uma loja de bolsas, sapatos e, claro, carteiras. O porta-moeda furado passava o dia esquecido dentro da carteira, até a hora do cafezinho. “Sim, tenho trocado”, garantia. Mas cadê ele? Nada. O tumulto na Kopenhagen aumentando e eu atrasando a fila. Que ideia também, café a R$ 2,90.
A urgência tomou conta de todo o meu ser consumista - que nem precisa de tanto estímulo assim para se manifestar. Entrei na loja decidida a dar um basta naquela situação. Como alguém vive nos dias atuais sem um porta-moeda decente na carteira? Lembrei do Zé, com as moedas soltas nos bolsos e pensei em como o ser humano pode passar uma vida inteira acostumado a pequenos grandes desconfortos.
Todos os modelos de carteira femininos tinham porta-moeda. Huummm. Mas não vou fazer ilações, porque não cheguei a checar as opções masculinas; só desconfio. Fui atraída pela mais bonita. Tá bom, confesso, era pink. Mas assim, moderna, como o rapazinho apressou-se em classificá-la, em um raro caso de acerto entre o discurso do vendedor e os valores do comprador. Da última vez que uma vendedora tentou me convencer a comprar uma blusa porque a coleção era inspirada na Índia da novela, saí correndo da butique.
Mas nem só de aparência vivem as vendas de uma carteira. Há também os compartimentos na parte interior. Eu poderia aproveitar para fazer um up-grade que me proporcionaria uma otimização dos recursos internos, introduzindo novas facilidades na minha vida de consumidora e cidadã-portadora-de-documentos-sempre-válidos. Quem sabe descobriria soluções para problemas que nunca cogitei ter, como os homens que sacolejam moedas nos bolsos de calças.
Up-grade? Ops. Imediatamente lembrei da angustiante jornada travada ao longo da semana com (contra?) o computador novo. A sensação de estranhamento, desamparo, solidão. Se já fico contrariada diante de qualquer alteração no layout de meus portais preferidos, que dirá mudança de sistema operacional, teclado, formato de tela, e-mail, tudo junto. Nada como espaços familiares para práticas antigas, como escrever.
Em instantes, imaginei-me tateando pelo cartão de crédito como quem busca o ponto de interrogação no teclado. Talvez quisesse me livrar daquele porta-cheque como tentei desinstalar a barra de ferramentas inútil, ocupando espaço na preciosa tela – feita para parágrafos, na minha concepção, não para propaganda de antivírus pseudográtis. Sem falar nas divisões da carteira sem uso óbvio, que seriam como os ícones clicados mil vezes em vão, enquanto não encontrava algo tão acessível no meu saudoso e jurássico computador anterior.
Já estava quase surtando e optando por ficar com a carteira antiga, quem sabe com o porta-moeda costurado por um sapateiro, se é que eles ainda existem. Foi então que o paciente vendedor, ainda atordoado com meu desabafo fora de hora sobre arquivos perdidos, abriu uma carteira linda com a divisão interna idêntica à minha. Idêntica, fui conferindo com olhos e mãos, maravilhada.
Por fora, todos me julgariam moderna, mas por dentro eu poderia usufruir da minha inconfessável caretice, da segurança dos espaços dominados, do aconchego das experiências conhecidas. Sim, sei que os avanços tecnológicos são para o meu bem, que em pouco tempo nem recordarei mais a dor dessa transição, mas agora me daria ao direito de resistir um pouco, de admitir minha condição de geração pré-computador e optar pelo antiguinho. Pelo menos na carteira.
Essa mesma!, exclamei, satisfeita. Nada como uma boa compra.
Eu chorei. Com o trailer. O lançamento do filme “Lula, o filho do Brasil” está deixando indignados, com certa razão, os adversários políticos do governo, já em clima de eleição. E também a elite que nunca engoliu o presidente. Não por causa do mensalão, dos arroubos autoritários do PT ou da adesão à filosofia de que os fins justificam os meios. Mas justamente por causa da trajetória narrada no filme.
Uma trajetória, reconheçamos, emocionante. E que está no cerne do “fenômeno Lula” e de todos os microfenômenos que o acompanham: o carisma popular, o “teflon” antiescândalos, a liderança internacional.
Quando fui ao cinema assistir “Os dois filhos de Francisco”, com a história da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, talvez eu fosse como essa elite que entrará na sala escura a contragosto, só para depois dar o seu pitaco. Pois lá dentro, diante de um drama real muito bem contado, o nó que se formou em minha garganta foi colossal, porque tinha também o gosto do meu preconceito.
Pode ser que alguém consiga ver o filme atento apenas às omissões históricas ou às cenas apelativas, e assim sair de lá incólume e com o espírito crítico intocado. Mas acho que vai ser difícil.
“Você não escreveu sobre suas impressões de Madri”, cobrou-me uma amiga. É verdade. Aí lembrei que tinha achado esquisito quando um conhecido, habitué de viagens exóticas, comentou ter como regra jamais tirar fotografias, e nem mesmo fazer anotações ― e olha que ele escreve bem. Agora, eu me identificava. Além de não escrever sobre, também não imprimi as fotos da Espanha.
Já venho postergando a impressão de fotografias há mais de ano. Sempre acho muito caro, para algo tão disponível no onipresente computador. Aliás, as tais fotos, desta última viagem, mostrei para algumas pessoas no meu netbook-de-um-quilo. Mas fiquei em dúvida com relação ao efeito de abri-lo no restaurante, interrompendo a conversa do grupo: talvez eu estivesse reproduzindo demais a cena de sacar da bolsa aqueles álbuns de fotos pesadões, que assustavam mas pelo menos podiam ser folheados displicentemente pelos amigos. Pior, pode ter ficado parecido com as antigas sessões de slides (nossa, põe antiga nisso).
Mas voltando às impressões de fatos e fotos, nestes tempos em que imperam a concisão e a rapidez, uma frase de impacto tornou-se indispensável para fisgar a atenção da audiência ― o que vale também para narrativas de viagem. A rapidez, confesso, não me atrai tanto como no passado, mas a busca da concisão é sempre um bom desafio. Pois, mais de uma vez, flagrei-me pensando sobre a minha impressão da Espanha. Veja bem, não “as impressões”, mas “a impressão”.
Claro que isso é pretensioso. Mas, quando pisamos pela primeira vez em uma grande cidade europeia, não há meio termo: ou você dá sorte de tropeçar em uma experiência inusitada/emblemática ou cai no lugar comum de uma sessão de slides. A propósito disso, lembro da decepção da minha amiga quando, no último dia da viagem, encontrou uma preciosa lista de “dicas” de Madri esquecida no fundo da mala. Teríamos perdido a oportunidade de conhecer algo sensacional e escondido? Nada disso. A lista, feita com esmero por alguém que acabara de voltar da Espanha, reproduzia ipsis literis os lugares obrigatórios dos guias turísticos.
Aqui é hora de admitir que, sim, tínhamos feito os mesmos programas. De todos os turistas. Mesmo assim, pensei, eu poderia acrescentar o meu olhar para tornar interessante um relato de viagem. Poderia, por exemplo, escrever sobre como fiquei impressionada com o Museu do Prado; sobre a sensação de descobrir que obscuros recantos da alma humana eram acessados somente por artistas do passado; sobre pensar em onde escondemos hoje sentimentos assim tão pungentes; e se a desculpa da rapidez e da necessidade de concisão nos ajudaria a camuflar ou esquecer a nossa sombria natureza em comum com esses antepassados, permitindo-nos apenas alguma emoção diante de uma pintura imponente em um museu.
Mesmo assim, eu corria o risco de parecer óbvia, até pretensiosa, querendo falar de arte, leiga que sou. Além do que, estaria omitindo outras impressões ― dessas que impregnam os sentidos e ficam incutidas na memória ― menos exuberantes. Porque nossos sentidos (visão, audição, olfato, gosto e tato) não querem saber de motivações intelectuais, eles se atêm a banalidades. A verdade é que a primeira palavra que me vem à mente hoje, quando penso em Madri, é: poeira. Comia poeira sempre que saía do meu hotel bem localizado, no Centro, onde a prefeitura promovia imensas obras sem tapumes, com operários quase esbarrando nos pedestres, e o clima seco só tornava a experiência mais penosa.
Foi assim que comparei Madri com a Berlim que conheci como um grande canteiro de obras, poucos anos após a derrubada do Muro. Mas não me recordava de ter sofrido tanto com aquele transtorno, talvez porque o governo local fazia dele um acontecimento, com direito a passeios de barco para apreciar os gigantescos guindastes em ação, mostrando os projetos em andamento, e dessa forma os turistas se sentiam parte da história de reconstrução da “nova” capital alemã.
Novamente meus sentidos cismaram de encontrar semelhança entre Madri e Berlim, tão diferentes na essência, quando ia atravessar uma avenida, e fui atraída por pios de pássaros que vinham do sinal de pedestres, programado para alertar deficientes visuais. Na Berlim pós-Muro, o “homenzinho do semáforo” ― ora verde, ora vermelho, mas sempre de chapéu ― tornava-se então cult, e era adotado na sinalização da parte ocidental, além de enfeitar todo tipo de souvenir. Pelo menos na época, tratava-se de um símbolo da integração, que guardei com encanto em algum lugar da memória, aguçada novamente pelos pios de Madri.
Os barulhos e os cheiros de uma cidade inquietam os visitantes, talvez porque jamais farão parte de um álbum de recordações. Em Madri, era impossível ignorar o forte odor de cigarro nas ruas de pedestres totalmente vazias, à noite, com o comércio já fechado. De Bangcoc, jamais vou esquecer o cheiro nauseante de gordura e temperos vindos de barraquinhas que fritavam quitutes, devidamente listados como temerosos em guias turísticos.
Tudo fica mais fácil (para o viajante atrás de certezas) quando se consegue identificar a origem dos cheiros e barulhos. Em Budapeste, porém, passei quatro dias intrigada com as sirenes ― de ambulâncias e carros de polícia, creio, já que é impossível ler os letreiros em húngaro. Pelo menos para a sensibilidade de meus ouvidos, havia sempre uma viatura apressada pelas ruas. A minha curiosidade, no entanto, não parecia sensibilizar mais ninguém: era como se as sirenes fossem casuais para todos; repetiam-se apenas em minha mente paranoica. Mistério.
Mas nada se compara ao registro deixado por uma experiência extrema com um clima diferente do nosso. Há poucos dias, numa Ipanema surpreendida por uma onda de calor em plena primavera, pude observar gringos saindo da praia com a marca indelével de sua viagem. Com certeza, jamais esquecerão o dia em que pegaram uma queimadura daquelas, na cidade maravilhosa e escaldante, e mesmo assim contarão essa história com saudades, depois que a pele estiver branquinha novamente. Não será diferente dos brasileiros que costumam se gabar de quando tiveram os sapatos enlameados pela neve imprevista, sem disfarçar o prazer de ainda ter uma sensação do passado tão vívida na memória, e poder usufruir dela com os pés quentinhos, plantados em seu país tropical.
Quem sabe, em vez de ignorância, não é o desejo de guardar uma forte impressão que leva os viajantes a desafiarem o clima de um lugar desconhecido. Em Londres, por exemplo, apesar das manjadas histórias sobre suas hostis condições climáticas, consegui amealhar uma recordação assim em um início de outono. O “mico”, não por acaso, envolveu um cartão postal: sem táxi por perto, tive que atravessar a London Bridge depois de um jantar, para pegar o metrô. Claro que eu estava com uma roupa inadequada para a chuva que começaria a me açoitar logo no começo da ponte. Quando finalmente sentei no vagão quentinho, a surpresa: a roupa encharcada tinha secado em questão de minutos. Inesquecível.
(Publicado no Digestivo Cultural em 13/11/2009)
- E o apagão, hein?
- Pois é, que coisa.
Alguns segundos são o tempo suficiente para duas pessoas se lembrarem de que não, ainda não falaram sobre o assunto com ‘aquele’ interlocutor. Aí começa o papo-apagão. Um deles sempre larga em vantagem, por ter lido mais detidamente uma reportagem ou ouvido uma entrevista inteirinha com um “especialista”.
Se na TV qualquer político pode dar entrevista como especialista, que mal há em todos nós virarmos um, não é mesmo? Desde ontem tornamo-nos especialistas em geração e transmissão de energia elétrica, sem falar nos aprofundados conhecimentos meteorológicos exibidos ao menor sinal de arrefecimento da conversa.
Nada como a versatilidade: até outro dia, quando estávamos sob o impacto da queda de um avião, sabíamos tudo sobre controle do espaço aéreo. Ah, e sobre raios também, que derrubam torres de transmissão e aviões – veja você como entender de descargas elétricas pode ser útil socialmente.
Na próxima encarnação, juro que quero nascer assim, sabida e com “opinião formada” sobre tudo.
A ideia era ter, em vídeo, o concerto número 2 de Brahms para piano, executado pela Filarmônica de Berlim. No dia seguinte, o arquivo havia sido baixado, inteirinho, para satisfação do fã de música clássica, recém-deslumbrado com as possibilidades gratuitas da internet.
Mas eis que, na hora de assistir à obra… tratava-se de um vídeo pornô. Apesar do título (concerto número 2, Brahms etc), sequer trilha sonora tinha. Só gemidos.
É por essas e outras que a internet paga ainda vai encontrar seu público (o que prefere Brahms à pornografia).
Da coluna de hoje de Arnaldo Jabor, irritado (com toda razão) em relação aos textos apócrifos e fakes que se passam por ele na internet:
“O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação ‘em rede’ para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente, os burros eram humildes: se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas on line.”

Imagine que você enxerga algo que ninguém vê. Para você, aquela ideia é clara e consistente, mas parece um delírio ou excentricidade para todos os outros. A sua visão privilegiada provavelmente é fruto de algum tipo de exclusão: foi rejeitado pelo grupo por ser nerd, pobre, feio ou simplesmente diferente.
Se permanecer de fora, você continuará sendo um esquisito e não conseguirá fazer a revolução que lhe é óbvia e necessária. Por outro lado, no esforço para se inserir, será tentador abrir mão de suas convicções, e finalmente ser aceito e amado.
O verdadeiro “revolucionário”, no sentido de pessoa que consegue empreender mudanças na sociedade, é aquele que não se deixa “cooptar” pelo antigo e estabelecido, mas sabe negociar com os símbolos do “passado” para ter condições de mudar o futuro (o seu e o dos outros).
São pessoas admiráveis. Eu, por exemplo, consigo no máximo abraçar tendências. Não me vejo segura e desapegada de afetos a ponto de ir contra tudo e todos em nome de algo absolutamente novo. Pensaria: não estou louca? Ou: vale a pena?
Fiquei pensando nisso tudo depois de ver no cinema “Coco antes de Chanel”, a história da estilista que mudou a forma de as mulheres se apresentarem ao mundo. Pelo menos sob a lente da diretora Anne Fontaine, Coco Chanel foi assim, e muitas das negociações às quais se submeteu tiveram relação com o fato de ser mulher numa época em que isso era um absoluto limitador da existência humana (sempre me impressiono ao constatar como essa “pré-história” é recente).
Nos nossos tempos, em que a busca da felicidade vem em primeiro lugar (é tudo o que desejamos aos nossos filhos, não é mesmo?), os revolucionários autênticos tornaram-se raros. A ironia é que, ao mesmo tempo, o marketing da mudança está por toda a parte.