Dica para quem precisa
Outro dia recebi um e-mail a partir de uma coluna que fiz para o Digestivo (“Escrever pode ser uma aventura”) e acabei não respondendo. Também, era um daqueles pedidos genéricos um tanto folgados, algo como: “gostaria de dicas para escrever uma coluna.” Mesmo assim fiquei com peso na consciência de não enviado ao menos uma resposta evasiva; sempre achei arrogante colunista que ignora os leitores.
Mas vou contar aqui algo que pode ser útil para o tal leitor: um bastidor da minha última coluna, “Gostar de homem”. Foi um daqueles raros casos (para mim) de texto que nasce de título. De repente, pensei: “Sabe de uma coisa? Vou escrever uma crônica chamada ‘Gostar de homem’”. Quer dizer, não deve ter sido assim tão de repente. Provavelmente a ideia foi surgindo aos poucos, a partir de alguns insights, como aliás eu comentei naquele especial do Digestivo sobre “Como se escreve”.
Quem me conhece offline sabe que não levo o menor jeito para polemista. Não fico confortável ao tratar de assuntos picantes nem em me expor, como anda em voga por aí. Por que diabos então escrever algo com esse título?!, pensei. Claro que vai virar recordista de leitura - o que significa que, quando digitarem meu nome no Google, lá estará, em primeiríssimo lugar: “gostar de homem”.
Lembrei de uma entrevista na TV com a atriz Lilia Cabral, lamentando uma declaração que tinha dado sobre sua experiência com homens mais novos, a propósito de sua personagem em “Divã”, mas que acabou virando o título de muitas matérias. “Estragou o meu Google, que estava tão bonitinho”, comentou, conformada. Lilia ainda pode reclamar da imprensa (sempre ela!), mas eu nem teria esse direito - no Digestivo quem escreve o título é o colunista.
Mas resolvi arriscar, confiando no bom nível dos leitores do site. Quanto ao Google, fazer o quê? Quem está na chuva é para se molhar (juro que nunca darei esse título para uma coluna). O fato é que, de tempos em tempos, fico com vontade de ousar. Já aprendi a me preservar no ambiente da internet, então talvez estivesse na hora de confiar um pouco mais na relação com os leitores. Também andava observando alguns cronistas que admiro colocando-se de maneira mais corajosa em seus textos.
O importante, pelo menos para mim, é jamais chegar perto da tal “evasão de privacidade”, expressão criada por Tutty Vasques para descrever a atual onda de exposição de intimidades para quem não tem o menor interesse nelas. Por outro lado, a zona de conforto do texto jornalístico tradicional, no qual a primeira pessoa é proibida, definitivamente não combina com a internet.
No final, a experiência valeu a pena, a coluna fez o maior sucesso e o título nem pareceu apelativo - provavelmente porque foi sincero. Então esta fica sendo a “dica” de hoje.
olá, olha nós na fita…deixei aqui um comentário sobre o seu texto Gostar de Homem, mas não passou pela censura sem problemas, talvez não fosse o local apropriado, melhor no Digestivo, mas enfim. Mesmo sem lhe ver mais gorda ou lhe conhecer mais magra, sinto uma empatia por ti, por vós, por este blog…rs…em tempo, vc toca em alguns ponto interessantes para a nossa reflexão, as questões da polêmica, da privacidade, da audiência, da responsabilidade, do cuidado, do respeito, coisas que não estamos prestando a devida atenção, queremos mesmo é estar na fita, custe o que custar…
Comentário de Ronaldo Magella — 22 de Outubro de 2009 @ 14:18