27 de Outubro de 2009

Uma data querida

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:31

Sou mãe há exatos dez anos, e isso fez de mim uma pessoa melhor.

Lembro da dúvida que me assombrava, pouco antes de parir: em que pessoa me transformarei? Uma amiga, com bebê crescido, toda autoridade, me garantia: continuamos sendo nós mesmas, só que mães, ora.

Não foi verdade. Parque de diversões, por exemplo. Não tinha medo, de nenhum brinquedo. Ultraleve, parasailing, montanha-russa radical; nada do tipo me intimidava.

A maternidade me fez mortal. Passei a buscar incansavelmente a coerência entre ideias e atitudes. Mesmo quando minha filha ainda era um embrulhinho no berço, queria explicar o mundo para ela.

Descobri em mim uma energia e uma generosidade que deviam estar bem socadas em algum compartimento interno antes do parto. Aliás, o parto, por conta das circunstâncias e do trânsito de São Paulo, foi o primeiro exemplo dessa “força oculta da natureza”, com perdão dos clichês que perseguem a maternidade.

Precisei aprender o que ensinaria para a minha filha, e fui uma aluna aplicada - observando o mundo como nunca tinha feito antes. Quando eu titubeava, me perdia, tinha alguma dúvida; adivinha. Ela me ensinava.

Foi assim que me tornei uma pessoa melhor. E fico pensando no quanto esta “dívida” que tenho com ela é impagável. Por mais que a encha de beijos (e presentes!) no dia de seu aniversário.

26 de Outubro de 2009

Outra mulher (ou a mesma)

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:21

Você discorda da tese de que as mulheres maduras andam tristes por sentirem-se descartadas (aí embaixo)? Então aqui tem outro ponto de vista, da colunista Ruth de Aquino (com o risco de isso aqui parecer a sucursal da Revista Época).

Curioso notar que, a partir de um olhar masculino, a mulher é observada em suas muitas e novas fragilidades, numa situação quase de desamparo (e não é assim que nos sentimos às vezes?). Já sob o olhar feminino, a mulher aparece forte e lutadora, apenas exigente demais em relação à própria felicidade, quase uma reclamona (e não é assim que nos sentimos às vezes?).

22 de Outubro de 2009

Mulheres descartáveis?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:38

Mulheres de 40, 50 anos. Cansadas e cansadas. Desanimadas. Quase amarguradas. Logo elas, que viveram com tanta intensidade e verdade os seus 20, 30 anos.

Se isso faz sentido para você, dê uma olhada neste texto aqui, a coluna desta semana de Ivan Martins, editor da revista Época.

21 de Outubro de 2009

Dica para quem precisa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:59

Outro dia recebi um e-mail a partir de uma coluna que fiz para o Digestivo (“Escrever pode ser uma aventura”) e acabei não respondendo. Também, era um daqueles pedidos genéricos um tanto folgados, algo como: “gostaria de dicas para escrever uma coluna.” Mesmo assim fiquei com peso na consciência de não enviado ao menos uma resposta evasiva; sempre achei arrogante colunista que ignora os leitores.

Mas vou contar aqui algo que pode ser útil para o tal leitor: um bastidor da minha última coluna, “Gostar de homem”. Foi um daqueles raros casos (para mim) de texto que nasce de título. De repente, pensei: “Sabe de uma coisa? Vou escrever uma crônica chamada ‘Gostar de homem’”. Quer dizer, não deve ter sido assim tão de repente. Provavelmente a ideia foi surgindo aos poucos, a partir de alguns insights, como aliás eu comentei naquele especial do Digestivo sobre “Como se escreve”.

Quem me conhece offline sabe que não levo o menor jeito para polemista. Não fico confortável ao tratar de assuntos picantes nem em me expor, como anda em voga por aí. Por que diabos então escrever algo com esse título?!, pensei. Claro que vai virar recordista de leitura - o que significa que, quando digitarem meu nome no Google, lá estará, em primeiríssimo lugar: “gostar de homem”.

Lembrei de uma entrevista na TV com a atriz Lilia Cabral, lamentando uma declaração que tinha dado sobre sua experiência com homens mais novos, a propósito de sua personagem em “Divã”, mas que acabou virando o título de muitas matérias. “Estragou o meu Google, que estava tão bonitinho”, comentou, conformada. Lilia ainda pode reclamar da imprensa (sempre ela!), mas eu nem teria esse direito - no Digestivo quem escreve o título é o colunista.

Mas resolvi arriscar, confiando no bom nível dos leitores do site. Quanto ao Google, fazer o quê? Quem está na chuva é para se molhar (juro que nunca darei esse título para uma coluna). O fato é que, de tempos em tempos, fico com vontade de ousar. Já aprendi a me preservar no ambiente da internet, então talvez estivesse na hora de confiar um pouco mais na relação com os leitores. Também andava observando alguns cronistas que admiro colocando-se de maneira mais corajosa em seus textos.

O importante, pelo menos para mim, é jamais chegar perto da tal “evasão de privacidade”, expressão criada por Tutty Vasques para descrever a atual onda de exposição de intimidades para quem não tem o menor interesse nelas. Por outro lado, a zona de conforto do texto jornalístico tradicional, no qual a primeira pessoa é proibida, definitivamente não combina com a internet.

No final, a experiência valeu a pena, a coluna fez o maior sucesso e o título nem pareceu apelativo - provavelmente porque foi sincero. Então esta fica sendo a “dica” de hoje.

19 de Outubro de 2009

O primeiro livro que a elite vai comprar

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:54

E se o Kindle fizer a nossa elite econômica finalmente descobrir os livros?

E se o Kindle fizer os jovens trocarem a leitura de babagens na internet pela leitura de bons livros?

E se o Kindle fizer brotar nos leitores de livros eletrônicos o desejo de ter encadernadas as suas obras preferidas?

Pelo menos no Brasil, onde o hábito de ler é tão baixo, só consigo imaginar efeitos benéficos no lançamento dos leitores digitais de livros. Numa população imensa como a nossa, qualquer artifício (tecnológico) que induza à leitura pode ter um grande impacto. Afinal, não era o que nós queríamos? O conhecimento e os livros ajudando a educar a sociedade brasileira?

Diante de qualquer novidade, a nossa tendência é resistir: ah, o Kindle custa caro (vai baratear, e os computadores também custam e se difundiram); se der certo vai ser o fim da indústria de livros (com mais leitores, a indústria pode se reinventar); ah, eu jamais trocaria os meus livros por uma tela (que ótimo, pois eles continuarão a ser vendidos, nas livrarias e nos sites da internet).

O que mais me anima é a possibilidade de a nossa elite, que gasta rios de dinheiro com tecnologia, meio que acidentalmente descobrir o conhecimento disponível hoje em livrarias que ela não frequenta. Quem lê no Brasil é a classe média, que reclama (com razão) dos preços dos livros.

Não seria ótimo termos uma elite econômica mais culta?

8 de Outubro de 2009

Ipanema 2000

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 18:15

Não basta chover para faturar. Dia bom, ele explica para o colega, é quando o tempo engana: sol ameaçando sair, e a mulherada já coloca sandália. Aí vem a chuva, rasgando. Se parar um pouco, e o chão secar, ele nem liga. Aproveita para tomar um lanche. É o intervalo para chegar gente desprevenida, que quando sair toda embecada das lojas, dos consultórios, dos escritórios, vai ficar amontoada na porta da galeria. Pensam que vão esperar a chuva passar, mas esperam nada. Acabam comprando na mão dele, só dez reais para não encharcar o terno, não estragar o penteado, não ficar resfriado à toa.

A roupa dele é tipo uniforme, para sobressair. Vai para a chuva, em frente à marquise, e fica ali, confortável, mostrando que o guarda-chuva protege mesmo. A bermuda e o tênis brancos, além de ficarem bem em negão, combinam com o guarda-chuva prateado, do gosto da freguesia masculina e feminina. Antes, tinha que ter da cor preta e também estampadinhos, e as senhoras ficavam escolhendo a cor, era um problema. Agora, na hora que a chuva aperta, vende três de uma vez, as notas entre os dedos, para dar troco fácil.

Uma mulher já de guarda-chuva o aborda, mas eu não consigo entender o que diz. Aponta para outra, mais nova, de tamanco e short, na porta da farmácia. Que roupa, penso eu, para um dia de chuva. O vendedor vai até lá, resgatá-la. Na hora de abrir o guarda-chuva, nada de sacudir antes, que isso é coisa de mercadoria ruim. Ele abre com vontade, para provar que funciona de primeira, e a jovem sai dali aliviada, driblando as poças, com a sombrinha nova.

Se amanhã fizer tempo bom (ou seria ruim?), ele nem esquenta. Depois de uma chuvarada assim, estará no mesmo posto, com outro produto imprescindível: uma raquete elétrica, última novidade para fulminar os mosquitos.

5 de Outubro de 2009

Espíritos de porco

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:09

Frase de Ruy Castro, na coluna do Ancelmo de hoje, a propósito da pergunta “O que você deseja para o Rio em 2016?”:

- Eu pediria mais otimismo e confiança das pessoas em geral, e menos espírito de porco.

Foi na mosca. Na sexta-feira, enquanto a grande maioria dos cariocas torcia pela escolha da cidade para sediar as Olimpíadas, uma meia dúzia fazia de tudo para tentar estragar a festa, com seu ceticismo e suas observações pessimistas.

Essas pessoas são praticantes de um esporte muito particular, o “espírito porquismo”, que felizmente não faz parte dos jogos olímpicos. Sequer conseguem disfarçar a torcida contra. Afinal, para provar que estão certos, tudo tem que dar errado.

Como odeiam os políticos, e o Lula em particular, torcem contra… o Brasil! No caso de sexta, a torcida era contra o Rio mesmo, que não tem mais jeito, só vai piorar, e no máximo haverá uma maquiagem que endividará a cidade para sempre…

Pois tenho uma sugestão para os espíritos de porco: que tal se mudar para Chicago? Quem sabe Tóquio ou Madri? Levem essa uruca pra longe de nós!

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