16 de Setembro de 2009

Outro olhar

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 19:50

Meu primeiro emprego foi em um shopping center, aos 17 anos. No BarraShopping, como vendedora de butique, antes de começar a faculdade de Jornalismo (havia passado para o segundo semestre na UFRJ), descobri como a vida podia ser diferente para quem passa e para quem fica.

Do outro lado da vitrine, me sentia como os mineiros que viam o trem passar, observando “encontros e despedidas” que se repetiam na estação. A vida era acelerada e cheia de emoção para os adolescentes que iam passear no shopping, mas o ponteiro do meu relógio não saía do lugar. Os bastidores da alegria eram tristes, tristes. Depois que os olhos se acostumavam ao neon dos letreiros, a rotina se instalava cheia de imperfeições. Notava-se a lâmpada queimada, a roupa torta na vitrine, a fiação aparente, a maquiagem borrada da vendedora.

Foi nessa época que percebi que não existiam lugares felizes, apenas pessoas alegres. Mesmo assim, continuei o faz-de-conta de buscar lugares assim para garantir a minha felicidade, em bares, shoppings, aeroportos.

Aeroporto. Sempre gostei, como todo viajante que se preze. Com o frisson da viagem iminente para um país desconhecido, encarei as três horas de aeroporto em São Paulo sem conseguir disfarçar a minha satisfação. “Que horror não existir mais voo direto do Rio”, era a minha fala, embora internamente já tivesse planejado comprar uns óculos escuros e saborear uma cerveja repassando o roteiro da viagem. Não deveríamos ter reservado mais um dia para Barcelona? Não, Madri tinha o Museu do Prado, ponderamos.

O free shop estava lotado – vários voos internacionais partiriam naquela noite, repletos de brasileiros que também aproveitavam o feriadão. Filas, burburinho, excitação. Luzes, cerveja gelada, ofertas imperdíveis, passaporte na mão.

Naquele momento eu não tinha como lembrar da minha remota experiência como vendedora de shopping center. Apenas na volta ao Brasil, quando passava a bolsa pelo mesmo Raio X em Cumbica, às 5h da madrugada, percebi o quanto aquele lugar era triste sem as pessoas que passam. Como nos shoppings, para as pessoas que ficam. No aeroporto deserto, as imperfeições se revelavam por inteiro. Os assentos tinha ficado duros e frios. Arrependida de ter dispensado o café da manhã do avião, tentei achar algo para comer na mesma loja dos óculos escuros, a única aberta. Nada. A lanchonete da cerveja abriria somente às 6h.

Não me deixei abater. Estava cansada, mas não triste. Pelo menos para mim, uma das melhores partes da viagem é poder voltar. Com um novo olhar.

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