29 de Setembro de 2009

E o Juruna tinha razão…

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 19:49

Nos meus tempos de jornal diário, confesso que eu tinha um certo desprezo por repórter dependente de gravador. Diante de entrevistados surpresos com a minha destreza em anotar sem olhar o bloquinho, e desconfiados do resultado daquilo, eu explicava: “Tenho uma memória ótima, mal preciso consultar as anotações.” Na verdade eu confiava mesmo era na minha capacidade de já ir editando mentalmente a matéria, que seria redigida pouco tempo depois.

O resultado costumava ser bom, mais interessante do que quando as matérias tinham foco nas declarações, e por isso dependiam do gravador - como é o caso de entrevistas com “autoridades”. É difícil ir muito além, quando se perde tempo interpretando cada vírgula de uma gravação… Transcrever entrevistas é chato e demorado: os profissionais disso (eles existem) estimam em cinco horas o tempo para “tirar” uma hora de áudio de boa qualidade. Mas a minha implicância com o gravador, provavelmente, também estava relacionada ao meu cansaço em relação às “hard news”, o que é outra história.

Voltando ao gravador, a novidade agora é que aprendi a respeitá-lo, depois destes últimos anos fazendo entrevistas mais aprofundadas, tanto para os livros como para os perfis que escrevo para a revista Capital Aberto. Quando há tempo (como é bom haver tempo), é possível descobrir coisas incríveis numa entrevista que, de forma apressada, passariam completamente despercebidas.

Por exemplo: é comum, na hora em que está finalizando um longo raciocínio (provavelmente repetido à exaustão para outros interlocutores), o entrevistado concluir com uma frase que “entrega” tudo o que ele não falou. A “alma” daquela história, o que ele gostaria de dizer e não disse, está tudo ali, já quase sumindo do gravador, porque o tom de voz foi se reduzindo e alguma parte menos consciente do cérebro dele precisou colocar um ponto final naquilo. Aliás, nesta hora, aprendi, é importante não interromper nem “ajudar” a completar a frase. Quanto menos audível aquele finalzinho, mais interessante pode ser.

Outra coisa bárbara é que, de tanto ouvir a sua própria performance de entrevistadora, você vai se aprimorando. Hoje percebo o quanto eu “me achava”, só porque conseguia um ou outro furo deixando o entrevistado à vontade. Na verdade eu tinha dificuldade de ouvir algo que fosse realmente novo; conduzia as perguntas para o que eu já sabia, os assuntos que dominava. Mais uma vez, a técnica a serviço da pressa…

Mas o melhor de fazer a transcrição de uma entrevista é se dar ao luxo de usar bem pouco dela. Pinçar só o que interessa. O que é verdadeiro, o que fez sentido para você e fará a diferença para os que vão lê-lo.

Dito isso, ressalto que continuo achando muito chata (de escrever e de ler) a maioria dos pingue-pongues “ipsis-litteris”, em geral feitos com “autoridades” que costumam valer o esforço da transcrição de entrevistas inteiras. Uma boa edição, pelo menos, é fundamental.

Fazer transcrição é mesmo enjoado, e para isto não arrumei solução. Raramente terceirizar a tarefa vale a pena: dependendo do assunto, e de quem fez o trabalho, as chances de você precisar ouvir a gravação para tirar dúvidas são grandes. Sem falar no risco de ficar sem o tal finzinho da frase, ao qual só dão atenção os psicanalistas (e os jornalistas mais atentos).

26 de Setembro de 2009

Free?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:48

A Wikipedia pode estar entrando em decadência, eu li hoje na revista Época. Demorei tanto para entender o fenômeno da colaboração na internet, até para conseguir festejá-lo sem desconfianças, e agora descubro que ele se revela passageiro.

O espírito colaborativo, que dissemina o conhecimento de forma democrática na rede, foi responsável pela revolução de nossos hábitos em tempo recorde. Não havia como alguém resistir ou ser “contra” algo tão benéfico à humanidade como a internet. Era o almoço grátis, um sistema autoimune que expurgava interesses escusos, a utopia da maioria se impondo em plena era do fim das ideologias.

O que está acontecendo agora? Parece que os voluntários cansaram. Talvez estivessem motivados apenas pela novidade. A lógica capitalista e individualista pode estar se sobrepondo às vantagens do compartilhamento. “O que eu ganho por gastar tanto tempo criando verbetes anonimamente na Wikipedia?” Será que no fundo todos nós, colaboradores, voluntários e, por que não, blogueiros, não éramos movidos apenas pelo sonho da fama ou do dinheiro que viria no futuro, como aconteceu com os meninos do Google?

Os blogs também estariam morrendo, dizem por aí. Se é para não ganhar dinheiro, o Twitter é mais divertido… Tenho visto antigos defensores da gratuidade incondicional na rede capitulando. Se todo mundo fechasse o conteúdo, eu também o faria, já ouvi. Com alguma rentabilidade, daria para oferecer mais qualidade, mais profissionalismo etc.

Você pagaria uma pequena anuidade para consultar uma Wikipedia com um padrão de qualidade indiscutível? Eu, que tenho uma filha em idade escolar, pagaria. O modelo colaborativo migraria para o empresarial, é verdade, com todos os prós e contras da busca de lucratividade. Por outro lado, esta nova Wikipedia jamais se viabilizaria se nascesse de um modelo empresarial clássico, da era industrial, inchado de funcionários burocratas com altos salários.

Fico imaginando como isso tudo será analisado, daqui a alguns anos, pelos pesquisadores. A fase da colaboração seria vista como uma transição, que ajudou a divulgar a internet e possibilitou o surgimento de novos modelos de negócios. Alguém vai lembrar, saudoso: “Era tudo de graça!” Outro retrucará: “Mas a qualidade era horrível”. Ou então: “Não era confiável”. E ainda: “Só o Google ganhava dinheiro…”.

Todos concordariam que o fim da internet colaborativa acabara com o sonho da inclusão social, já que apenas a elite estaria de fato acessando o conhecimento de excelência na rede. O grátis, nessas alturas, seria apenas um aperitivo – como já acontece em alguns sites. Seria como um shopping center: os pobres podem passear nele, mas só olham as vitrines. No máximo, conseguem comer no McDonald’s. Argh.

20 de Setembro de 2009

Dia de fúria

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:12

Ensinei uma amiga, cujo telefone fixo é infernizado por ligações de telemarketing, algumas técnicas para se livrar rapidamente dos vendedores. Ao primeiro sinal do burburinho ao fundo que caracteriza esses telefonemas, eu costumo de me adiantar:

- Obrigada, mas não compramos nada por telefone aqui em casa.

Em geral, é o suficiente. Mas às vezes o vendedor insiste:

- A senhora não quer nem ouvir a oferta?

- Nâo, eu não gosto de ofertas - me condicionei a responder, o que deixa o atendente completamente sem chances de prosseguir.

A minha amiga andava satisfeita com a economia de tempo e de estresse que as respostas certas estavam lhe proporcionando. Esta semana, porém, uma vendedora de telemarketing dos cartões Bradesco resolveu replicar:

- Eu não estou vendendo pano de prato para colocar na sua porta, palhaça.

A “palhaça” olhou o relógio, anotou a hora e foi à luta. Não dá para garantir que o desfecho seja verdadeiro, mas o fato é que a ouvidoria do Bradesco retornou a reclamação 24 horas depois, comunicando que a gravação daquele telefonema havia sido localizada, e que a funcionária fora “desligada” do trabalho.

Já fiz matéria em callcenter e sei que a vida desses trabalhadores não é fácil. Mas vamos combinar: no seu dia de fúria, chute a lata de lixo, esmurre o armário ou xingue o chefe (ele é pago para isso). Mas não acabe com a paz de um inocente do outro lado da linha.

16 de Setembro de 2009

Outro olhar

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 19:50

Meu primeiro emprego foi em um shopping center, aos 17 anos. No BarraShopping, como vendedora de butique, antes de começar a faculdade de Jornalismo (havia passado para o segundo semestre na UFRJ), descobri como a vida podia ser diferente para quem passa e para quem fica.

Do outro lado da vitrine, me sentia como os mineiros que viam o trem passar, observando “encontros e despedidas” que se repetiam na estação. A vida era acelerada e cheia de emoção para os adolescentes que iam passear no shopping, mas o ponteiro do meu relógio não saía do lugar. Os bastidores da alegria eram tristes, tristes. Depois que os olhos se acostumavam ao neon dos letreiros, a rotina se instalava cheia de imperfeições. Notava-se a lâmpada queimada, a roupa torta na vitrine, a fiação aparente, a maquiagem borrada da vendedora.

Foi nessa época que percebi que não existiam lugares felizes, apenas pessoas alegres. Mesmo assim, continuei o faz-de-conta de buscar lugares assim para garantir a minha felicidade, em bares, shoppings, aeroportos.

Aeroporto. Sempre gostei, como todo viajante que se preze. Com o frisson da viagem iminente para um país desconhecido, encarei as três horas de aeroporto em São Paulo sem conseguir disfarçar a minha satisfação. “Que horror não existir mais voo direto do Rio”, era a minha fala, embora internamente já tivesse planejado comprar uns óculos escuros e saborear uma cerveja repassando o roteiro da viagem. Não deveríamos ter reservado mais um dia para Barcelona? Não, Madri tinha o Museu do Prado, ponderamos.

O free shop estava lotado – vários voos internacionais partiriam naquela noite, repletos de brasileiros que também aproveitavam o feriadão. Filas, burburinho, excitação. Luzes, cerveja gelada, ofertas imperdíveis, passaporte na mão.

Naquele momento eu não tinha como lembrar da minha remota experiência como vendedora de shopping center. Apenas na volta ao Brasil, quando passava a bolsa pelo mesmo Raio X em Cumbica, às 5h da madrugada, percebi o quanto aquele lugar era triste sem as pessoas que passam. Como nos shoppings, para as pessoas que ficam. No aeroporto deserto, as imperfeições se revelavam por inteiro. Os assentos tinha ficado duros e frios. Arrependida de ter dispensado o café da manhã do avião, tentei achar algo para comer na mesma loja dos óculos escuros, a única aberta. Nada. A lanchonete da cerveja abriria somente às 6h.

Não me deixei abater. Estava cansada, mas não triste. Pelo menos para mim, uma das melhores partes da viagem é poder voltar. Com um novo olhar.

4 de Setembro de 2009

Este blog não vai morrer

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:39

Muita gente anda decretando por aí a morte dos blogs. Eu continuo adorando o timing e o formato da ferramenta. O que pode estar acontecendo é uma saudável depuração de estilos: quem se identifica mais com o ritmo do Twitter ou com a animação do Facebook pode mesmo deixar de ler e, principalmente, escrever blogs.

Não é o meu caso.

Admito que já não atualizo o Espuminha com a frequência do passado, mas isso não significa que eu esteja fraquejando. Apenas descobri que a postagem diária não é tão obrigatória quanto eu imaginava. Aliás, este é um dos dilemas do blogueiro: a obrigação de manter uma periodicidade exagerada pode levá-lo a escrever qualquer bobagem, mas a pressão também acaba gerando alguns textos bem bacanas.

Isso tudo é para dizer que este blog não vai morrer, mas tirar as suas primeiras férias oficiais, de apenas dez dias, depois de dois anos e quatro meses. Quando voltar, conto alguma coisa sobre a Espanha.

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