31 de Agosto de 2009

Convergência semântica

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 23:14

- Acho que cliquei o número errado - disse a minha filha, depois de não conseguir completar uma ligação.

- Não se diz “clicar” o telefone. É discar - ensinei. Mas depois vacilei. Não tinha certeza se era o verbo certo, já que há tempos os telefones não têm mais discos, e sim teclas. Talvez devêssemos dizer “teclar”, como no MSN. Mas era esquisito.

Não achava solução. Ok, podia-se usar “telefonar” ou “ligar”, mas nenhuma das duas palavras expressava exatamente o ato mecânico de digitar os números. Epa, seria “digitar”? Não, também não caía bem.

De repente me lembrei que o ato de apertar, número a número, também está com os dias contados. Com o telefone gravado na agenda do celular, basta apertar uma ou duas teclas. Ou dar um clique.

Moral da história: o mais recomendável é observar a solução que a garotada vai dar. Ou seja, esperar a minha filha me ensinar a palavra certa.

28 de Agosto de 2009

O mundo sem você

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:44

2012 cristo - 2012 cristo

Os maias previram que o mundo acabaria em 2012, eu soube hoje, a propósito de um filme-catástrofe que estreia em novembro, com direito a Cristo Redentor tombando sobre a Baía de Guanabara (repare nas proporções).

Impressionante como profetas, religiões e civilizações antigas já fizeram previsões assim. Apesar do fracasso evidente desses futurólogos, de vez em quando uma seita maluca insiste no erro e garante: vamos todos morrer na data tal. Eu diria que até os “terroristas” ecológicos, no fundo, se valem da ameaça do fim do mundo com algum gostinho, embora seus propósitos sejam melhores do que os interesses que moviam os videntes de araque do passado - sabe-se lá que mordomias conseguiram enquanto a tal data não chegava.

Talvez a cascata emplaque tanto porque a ideia de o mundo acabar, e todos morrermos juntos, não é de todo má. Outro dia, em uma reflexão sobre a falta de sentido da existência, o escritor Arthur Dapieve falou da angústia que temos em pensar na vida (dos outros, do mundo) após a nossa morte. Pelo menos foi isso que ‘eu li’, não estou certa se era o que ele queria dizer (viva o leitor).

A crônica no Globo, creio, não está acessível na internet, mas lembro que ele pinçava um verso de Antônio Cícero, cantado por Marina, que sintetizava tudo (viva a poesia): “As coisas não precisam de você”. Insuportável, não? Melhor pensar que o mundo vai acabar, mesmo que se viva um pouco menos.

26 de Agosto de 2009

Não por acaso, à deriva

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 19:37

Quando “O ano em que meus pais saíram de férias” entrou em cartaz, três anos atrás, havia uma piada recorrente: era o melhor filme argentino já feito no Brasil. Na época, o cinema argentino ainda bombava.

Adorei o filme (e a sua indicação para nos representar no Oscar, embora ele não tenha chegado à grande final), e percebi, na semana passada, que sou mesmo fã da categoria “filme-argentino-feito-no-Brasil”.

Tudo porque, no mesmo fim de semana, assisti a dois títulos nacionais delicados e comoventes, como convém à categoria. No cinema, fui de “À deriva”. No Telecine, revi “Não por acaso”.

Ainda bem que existe o delicioso assunto “cinema”, quando a gente só tem dez minutos para escrever um post…

21 de Agosto de 2009

Cantada, numa hora dessas

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:49

Gripe forte. Assustada com o noticiário, minha amiga pensou em ir ao médico, quando foi aconselhada a telefonar para o Disque Gripe Suína, serviço de teleatendimento instalado pelo governo do Estado do Rio. Ela queria saber se deveria se dirigir ou não a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

Para a sua surpresa, o serviço telefônico funcionava direitinho. O atendente pegou seus dados: nome, endereço, telefone, idade, sintomas. Parecia estar seguindo um formulário padrão. Ao final, informou-a de que o quadro não parecia ser o da gripe.

Como se sentia mal, ela resolveu passar o dia em casa, descansando. À tardinha, o atendente do Disque Gripe Suína ligou. Perguntou se ela estava se sentindo melhor. Ela respondeu que tinha os mesmos sintomas, e quis saber se deveria ir ao médico agora. Ele disse que não, que só telefonou para saber como ela estava, porque a sua voz era muito bonita. Já tinha trabalhado em rádio, e sabia tudo sobre as pessoas apenas pela sua voz, afirmou, caprichando na entonação de locutor.

Um tanto perplexa com o que estava acontecendo, minha amiga perguntou se o serviço tinha o procedimento de monitorar os pacientes. Não, não tinha. O seu caso era, digamos, especial. Ele perguntou se podia ligar de novo. Nessas alturas, ela já estava assustada: lembrou que o atendente tinha seus dados pessoais. Reuniu então toda a energia que a gripe lhe permitia para cortar a cantada. Não, ela não queria que telefonasse de novo.

Deu certo. Provavelmente, o atendente-médico-locutor foi monitorar outra paciente.

17 de Agosto de 2009

Um Rio de cinema

Arquivado sob: Rio — Marta @ 13:06

Ontem revi o filme “Vicky Cristina Barcelona”, de Woody Allen. O motivo de escolher o DVD na locadora foi um tanto fútil: queria observar melhor as paisagens de Barcelona, que vou ter o prazer de conhecer em setembro.

Claro que não dá para ver um Woddy Allen sem notar os diálogos, e no caso deste filme há ainda os comentários de um narrador sobre as duas personagens principais. Impossível ignorar também Javier Bardem e Penelope Cruz - aliás, que casal sensacional. Mas os cartões postais de Barcelona estão todos lá, como se o diretor deixasse bem claro que foi pago para isso.

Fiquei imaginando como serão as grandes produções internacionais “sobre” o Rio de Janeiro anunciadas recentemente. Segundo essas notícias, as negociações para Allen filmar aqui já estariam adiantadas, enquanto o filme “Rio, eu te amo”, nos mesmos moldes de “Paris, je t’aime”, começa a ser rodado em 2010 dentro do projeto “Cities of love”, que reúne curta-metragens de diferentes diretores ambientados na mesma cidade.

A novidade cultural faz todo o sentido, porque o Brasil está na moda no mundo e não fomos tão afetados pela crise financeira. Penso que o Rio tem todas as condições de se valer dessa onda, capitalizar o interesse em torno do seu charme (ou dos seus contrastes), atrair investimentos, minimizar suas mazelas.

Que o Rio-zona-sul é lindo todo mundo sabe. Agora podemos ter a chance de ampliar essa realidade, aproveitar a vitrine para melhorar o “resto” (que é a cidade de fato). Pode acontecer. Mas também posso ser eu, otimista demais, diante de um dia lindo de verão típico do inverno carioca.

11 de Agosto de 2009

A vida em obras

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:47

É preciso modernizar. Quebrar paredes, seguir as novas tendências da arquitetura, colocar pisos de última geração, embutir armários e estantes, esconder a fiação das tomadas elétricas. Não há como viver em apartamentos sem muitas, muitas tomadas. E elas devem estar nos lugares certos, porque fios aparecendo são coisa feia de se ver.

Por isso, é preciso quebrar. O que já foi quebrado quatro, cinco anos atrás. E eu, embaixo.

Pergunte a alguém que está enfrentando uma obra do vizinho se não aceitaria um pacto: todos, no prédio, se comprometeriam a deixar seus apartamentos antiguinhos. Em troca, não precisariam ouvir o interminável bate-estaca martelando suas cabeças, azucrinando seus ouvidos, sem sequer ter acesso ao cronograma, que de qualquer forma não será cumprido.

Talvez, na hora do sufoco, qualquer um aceitasse o acordo. Teríamos apartamentos como os de antigamente: um tapete persa bastava para deixá-los chiques, a nova TV não exigia projeto para ser embutida na parede, e o freezer, na falta de espaço na cozinha, que fosse para a dispensa ou área de serviço (em apartamentos antigos havia uma dispensa).

Mas não se ilude quanto ao pacto que deixaria arquitetos à míngua. Logo um vizinho o quebraria, tentado em exibir às visitas, nas festas de fim de ano, uma sala igual à da novela, com a mesma iluminação espetacular mostrada na revista, sem falar no lavabo que resolveria todos os seus problemas, afinal que absurdo não ter um lavabo.

O morador do lado se vingaria imediatamente, e logo teríamos várias obras no prédio, que ganharia uma caçamba de entulho permanente na calçada. Isso porque, quando o último morador acabasse a sua reforma, já seria hora de o primeiro, o tal que desrespeitou o acordo, dar uma modernizada no seu projeto, totalmente ultrapassado.

6 de Agosto de 2009

Sarney me persegue

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 11:03

Não, hoje não quero ser mal-humorada. Gostaria de escrever algo leve, engraçado, curioso. Não sobre o Sarney nem a crise de absurdos no Senado.

Resisto, divago, busco um assunto. Em vão. Só me ocorre Sarney e Sarney. Lembro que é quinta-feira e vou ler a coluna do Luis Fernando Veríssimo. Ele conseguiu, grande Luis Fernando. A crônica, obviamente deliciosa, é sobre bichinhos de estimação.

Penso em imitá-lo, na maior cara-de-pau. Vou falar da Tatá e da Fifi. Não há qualquer indício de que nossos jabuti e peixinho de aquário sejam fêmeas, mas para a minha filha, até prova contundente em contrário, qualquer bichinho fofo é “menina”. Ela bem que faz campanha por um cachorro (provavelmente cadela), mas não sou de fazer todas as suas vontades.

Já o Sarney… Sabe como é, família grande e unida. A família Sarney é dona do Maranhão, do Amapá, do Brasil. Com tantas terras, dá para ajudar todo mundo. Até o namorado da neta, “que recebe elogios dos seus chefes ” (por que será), foi gentilmente contemplado. “Não existe o pedido de uma neta que qualquer um de nós deixe de ajudar”, lembrou ontem o avô bondoso.

Ops, ia esquecendo a minha determinação. Não me deixarei consumir pela indignação e pela ira, não hoje. Quero começar bem o dia, portanto preciso encontrar um assunto banal, seguro, que não desperte sentimentos extremos, como aqueles que buscamos diante do interlocutor desconhecido numa sala de visitas.

Já sei, o tempo. Perfeito. Nada funciona tão bem, nessas ocasiões, como algum comentário em torno do clima. Ainda mais em um inverno tão chuvoso, índices pluviométricos nas alturas, quem sabe reflexo do aquecimento global. Um bom cronista saberia discorrer, por parágrafos, sobre as peças que a meteorologia nos pregava no passado, e como as previsões melhoraram nos últimos anos.

Eu, por exemplo, sempre olho a previsão do tempo no jornal, antes de colocar o guarda-chuva na bolsa. O problema é que, até chegar lá, acabo folheando as páginas de política, e vendo o Sarney se gabar de nunca ter processado jornalistas. Quê? Mas ele já moveu várias ações na Justiça! Na época da ditadura chegou a colocar um deles na cadeia!

Desisto. Não vou conseguir. Quem sabe amanhã tento escrever sobre futebol.

3 de Agosto de 2009

Voo solo, legislação antiga

Arquivado sob: Opinião — Marta @ 17:42

O mundo do trabalho está mudando. A sociedade industrial deu lugar à sociedade da informação e do conhecimento. A produção está deixando de ser executada dentro de fábricas para ser feita a partir de redes de trabalho.

Some a isso o impacto das novas tecnologias, que permitem a produção à distância, e teremos uma redução expressiva dos “Empregos” como os reconhecemos - com chefe, horário de entrada e saída, carteira assinada e um suspiro de alívio da família por causa do plano de saúde.

Sinônimo de alguma estabilidade, sem dúvida, mas não como era no passado.

Os mais jovens já perceberam que ter como objetivo a carteira assinada pode ser frustrante, ou mesmo impossível, dependendo da vocação e da área em que se pretende trabalhar. A área cultural é apenas uma delas, e foi alvo da manchete do Globo de ontem, denunciando o que todos já sabiam: prestadores de serviços precisam comprar notas fiscais de empresas de fachada para serem remunerados por seus clientes.

Estou impressionada com a insensatez gerada pela busca de culpados: quem são os sonegadores?, quem são os exploradores?, quem está desviando dinheiro? Meu temor é que ninguém perceba a premência de uma discussão ampla sobre a deficiência da nossa legislação, que apenas oferece brechas (as que viraram escândalo) para gente que está “Ganhando a Vida sem Emprego“.

É verdade que muitos foram vítimas de empresas que “flexibilizaram” na marra as relações de trabalho com seus empregados, que continuam com as mesmas obrigações de antes. Talvez por ganância da empresa, talvez porque era a forma de burlar a tal carga tributária absurda. Nesses casos, a denúncia até faz sentido, embora seja prudente buscar uma solução para manter esses “empregos”.

Mas penso que esses trabalhadores, hoje, são a minoria. Os novos prestadores de serviços que surgem nas novas redes de trabalho não são mais vítimas de um patrão malvado. Na prática, estão sendo mais prejudicados pela legislação trabalhista, que praticamente inviabiliza a sua existência oficial, e também pelo estigma gerado por ela.

Até hoje temos a tendência a achar que quem não tem carteira assinada está “vivendo de bicos”. Nem sempre é assim. Entre o desempregado que apenas “se vira” e o pequeno empreendedor com sua empresa legalizada, existe uma multidão de prestadores de serviços, terceirizados, “PJ” (pessoa jurídica) e autônomos.

Trata-se de gente que trabalha, ganha dinheiro mas não tem status definido, porque é estigmatizada por uma legislação que não a reconhece. E que agora ainda aparece como vilã nos jornais porque “comprou uma nota”.

Será que vamos perder a oportunidade de discutir esse assunto com profundidade?

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