Na internet, para sempre
Está todo mundo impressionado com a agilidade que a internet ganhou com o Twitter. O “furo” da morte de Michael Jackson, ontem, foi atribuído a um blog de celebridades americano, e espalhou-se feito rastilho de pólvora, graças aos seguidores da rede social.
Está todo mundo impressionado, menos eu. Eu ando surpresa é com outro aspecto, quase oposto, da internet: a perenidade.
Quando surgiu (para mim), a internet já chegou com a embalagem de “tempo real”, graças às agências de notícias. Uns 15 anos atrás, lembro de ir para coletivas de imprensa com um celular “tijolão” na bolsa, com a incumbência de passar um “flash” para a Agência Globo, enquanto apurava a matéria para o jornal. Talvez por conta disso, e do meu cansaço com a cobertura “hard news”, naqueles primórdios decretei que a internet não era a minha praia: nela, o importante era a velocidade, não a profundidade. Dizia-se que os textos tinham que ser telegráficos (140 toques, como o Twitter?) e ficavam velhos instantes depois de serem lidos na tela.
Quando comecei a blogar, há dois anos, percebi que esse caráter descartável da internet era bem relativo. Daqui a alguns meses ninguém vai querer ler um texto que começa com “a morte do Michael Jackson ontem”, certo? Não tenho mais essa convicção. Comecei a perceber que novos leitores do Espuminha, apesar das referências temporais nas postagens antigas, embalavam na leitura, iam até o fim do blog. Como fazemos com um livro de crônicas.
Depois vieram as redescobertas de textos antigos. Quando o Júlio Daio, editor do Digestivo Cultural, pediu a minha autorização para colocar “Jornalista e empreendedor?” no site, fiquei feliz, mas um pouco dividida. Aquele texto era velho, eu nem sabia se ainda concordava com aquilo! Fui percebendo que o preconceito era meu, acostumada que estava com a inevitabilidade de virar embrulho de peixe no dia seguinte. O resultado de ter (re)lançado o depoimento na rede pode ser visto nos comentários emocionados de pessoas que se identificaram - e ainda se identificam - com o que eu escrevi.
Assim acontece, de tempos em tempos: graças às buscas no Google, um texto antigo ganha admiradores, links, comentários. Fiquei especialmente feliz quando, há poucos dias, o escritor Antônio Torres elogiou essa crônica que eu tinha escrito em janeiro, em que citava uma aula sua. Tudo porque um irmão dele, o blogueiro Tom do Junco, descobriu o texto em suas buscas na internet, e pediu para colocá-lo em seu blog. Com a movimentação de novos leitores, a crônica acabou sendo lida também por Moacyr Scliar, que enviou uma mensagem adorável para a minha última coluna do Digestivo.
A ideia da internet como importante registro histórico é hoje mais empolgante para mim do que sua instantaneidade. Outro dia comprei um livro da poeta Ana Cristina César que reproduz seus escritos exatamente como foram encontrados por sua mãe, em uma pasta cor de rosa. Fiquei imaginando que, um dia, poderemos descobrir na internet poemas soltos de artistas que não foram devidamente reconhecidos em vida, “pastas rosas” no fundo da gaveta de portais literários…
Na internet, quem determina a perenidade de um texto são os leitores - os de hoje e os do futuro.
A grande maravilha da internet é que as noções de temporalidade e territorialidade foram rompidas. Um texto nunca perde a sua atualidade, dependendo do leitor que entra em contato com ele. Quanto à instantaneidade, é um aspecto importante para quem faz jornalismo online, mas não é o único. O que considero realmente importante na web é a possibilidade de interação e de intercâmbio entre os vários produtores de conteúdo, sejam eles jornalistas ou não, escritores ou não. Agora todo mundo é emissor e receptor ao mesmo tempo. Uma revolução sem precedentes nos processos de comunicação.
Comentário de Luiz Valério — 6 de Julho de 2009 @ 23:10
Pois é: o que é bom a gente tem que divulgar.
O Tote ficou encantado com você, principalmente depois que você escreveu pra ele.
Axé!
Comentário de Tom — 23 de Julho de 2009 @ 13:12