Do conto do vigário ao “fishing”
Imagine um profissional que, para ser bem sucedido, precisa conhecer os recônditos mais obscuros da alma humana. O lugar onde mora a curiosidade pelo mórbido, a atração pelo grotesco, a perversidade, as fantasias sexuais não assumidas, a ganância e tantos outros impulsos devidamente domesticados pelas regras sociais.
Assim eu suponho que sejam os hackers (ou seria crackers?) especializados na prática de “fishing”. Mesmo que você não tenha sido vítima, com certeza sabe do que estou falando. Trata-se da tentativa de infiltrar um vírus no seu computador (para roubar senhas de banco, por exemplo) a partir de um link falso.
E o que faz alguém ter o impulso de clicar em um link desconhecido, mesmo sabendo das muitas armadilhas da internet? A observação mais atenta das promessas usadas pelo “fishing” pode nos revelar como esses profissionais do mal conseguem driblar a racionalidade humana.
Ontem, por exemplo, recebi um e-mail com o remetente “G1 Notícias”. Como não assino qualquer newsletter do site, identifiquei na hora a sua falsidade. E o que prometia o link? Imagens de corpos dos passageiros do avião da Air France que caiu no oceano Atlântico. Fiquei chocada com a estratégia – mais ainda quando pensei que deveria funcionar.
Acredito que a internet reflete o mundo como ele é: a diferença fica por conta da facilidade de se adentrar no submundo, com apenas um clique. A geração que cresce junto com a internet saberá conviver com essa situação com naturalidade, aprenderá a se preservar e terá consciência de que o clique é uma escolha, importante como outras na vida.
Nós, que temos um cérebro com conexões diferentes, ficamos assustados. Às vezes dá vontade de desligar o computador e sair correndo para a vida “real”. Uma vez quase cliquei em um link falso, que confirmava a compra de uma passagem da Gol. Era sábado, estava despreocupada em casa, e na tela do celular o e-mail parecia autêntico.
Ou seja, vidas real e virtual já se misturaram faz tempo, e só resta a nós (não dotados dessa inteligência natural para lidar com as muitas nuances da internet) mantermos a vigilância. Inclusive no fim de semana.
E lembrar que foi da vida real que saíram muitas das técnicas empregadas pelo “fishing”. O velho conto do vigário, por exemplo, sempre se valeu da tática de despertar a cobiça em sua vítima, a possibilidade de um ganho fácil. Muito mais do que apelar para a sua ingenuidade.