O último filme sobre o velho e bom jornalismo
Ele é um veterano jornalista cabeludo, sujo e solitário. Ela é uma jovem blogueira bonita, mal paga e inexperiente. Ambos trabalham para a mesma organização, nas versões papel e online, em tempos de transformações e crise no jornalismo americano. Acabam obrigados a compartilhar a investigação de um crime.
Esse é o ponto de partida de “Intrigas de Estado”, um filme com ares de derradeiro no gênero que abrigou clássicos como “Todos os homens do presidente” e “O jornal”. Parece também uma melancólica homenagem ao bom jornalismo, cuja morte iminente é motivo de ironias destiladas por personagens propositadamente carregados dos estereótipos da profissão.
O mocinho da história é encarnado pelo ator Russell Crowe, que despreza a blogueira e o futuro que ela representa. “Ela é barata e faz uma matéria por hora”, “defende” a diretora da redação, vivida pela ótima Helen Mirren. O velho repórter acaba se rendendo à parceria, depois de deixar claro que estarão atrás de fatos - e não de fofoca ou opinião. Quando os conflitos entre a dupla se dissipam, surgem os verdadeiros vilões: o poder econômico e os interesses políticos, que desdenham da imprensa enfraquecida.
Achei simbólica a estreia desse filme na semana em que a imprensa brasileira precisou se unir para conter os métodos de um blog criado pela maior empresa do país. A Petrobras obteve o apoio maciço da blogosfera, que viu na estatal uma aliada contra o poder dos impressos. Menciono esse apoio de forma intuitiva: como tudo que acontece na rede, a onda de manifestações não se tornou institucional, nem gerou um debate mais aprofundado. O blog corporativo foi identificado como o “David” (Petrobras) contra “Golias” (os jornais), o que gerou simpatia, refletida em posts e comentários com simplificações do conflito que se replicaram pela web.
No final da semana, a imprensa posou de vitoriosa, porque a Petrobras voltou atrás na sua intenção de usar o blog para “furar” os jornais – algo tão estapafúrdio que o desfecho não poderia ser outro. No entanto, o fato de o enfrentamento ter acontecido, e de os jornais precisarem expor argumentos em suas páginas, transformando-se em notícia (algo que a mídia abomina), acabou revelando o processo de enfraquecimento do “quarto poder” também no Brasil.
Ou seja, qualquer semelhança com “Intrigas de Estado” não é mera coincidência.
