10 de Junho de 2009

A mula, o padre e o deus menino

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 19:12

Ela chega da escola com um arzinho triunfante. Dessa vez, iria conseguir impressionar os adultos. Não seria igual ao dia em que exibiu seus conhecimentos sobre os índios tamoios, nem quando revelou saber o nome dos ossos do esqueleto. O desdém dos pais estava com os minutos contados.

O novo assunto, aprendido naquela tarde, parecia ser daqueles totalmente ignorados por adultos. Não iriam fazer correções nem ficar acrescentando coisas.

- Estou fazendo um trabalho de grupo sobre a mula-sem-cabeça, para o dia do folclore – e foi erguendo as sobrancelhas, orgulhosa. - Sabia que a mula solta fogo pelo nariz? Para ela voltar a ser mulher tem que tirar um ferro que fica bem aqui – e arreganhou as narinas.

Pronto. A mãe era toda ouvidos.

- Então a mula é uma mulher?

- É uma mulher que casou com um padre – explica, didaticamente, tentando também atrair a atenção do pai, no computador.

- Mas padre não pode casar, filha.

- Não? Por quê?

- Sei lá, é como se ele já fosse casado com deus, e tem que cuidar do seu rebanho, essas coisas de igreja.

- Mãe: deus é menino, então não pode casar com padre, que também é menino – afirmou a garota.

A mãe suspirou.

- Olha, às vezes meninos casam com meninos, e meninas com meninas. Não é o mais comum, mas acontece, quando homem gosta de homem e mulher gosta de mulher.

A garota arregalou os olhos. Já ouvira falar daquilo, mas tinha esquecido.

- Mas aí não pode ter filho, né?

- Não. Quer dizer, outro dia li que duas mulheres fizeram uma inseminação… Bem, é complicado ter um filho natural, mas o casal pode adotar…

Como aquilo estava ficando chato, ela rapidamente voltou à aula de folclore:

- Sabia que a mula não consegue enxergar direito, e só vê as unhas e os dentes das pessoas? Então, quando tiver uma mula-sem-cabeça por perto, você precisa fazer assim.

A menina grudou os lábios e cerrou os punhos. A mãe deu uma risada. O pai já olhava de soslaio.

5 Comentários »

  1. Oi, Marta,

    Pensava que as temíveis mulas-sem-cabeça (no popular: mulas-de-padre) só povoavam o imaginário de quem nasceu no Junco, lá no sertão da Bahia, antes de o lugar passar a ter suas noites iluminadas pela luz elétrica. Mas vejo, pela sua crônica de 10/6, que a lenda persiste até no Rio de Janeiro, quem diria!

    Abraços,

    Antônio

    Comentário de Antônio Torres — 11 de Junho de 2009 @ 10:22

  2. A imagem da mula-sem-cabeça também fez parte da minha infância, em Juazeiro do Norte, no interior do Ceará. Sempre que faltava energia e nós inistíamos em ficar na rua, com algazarra, minha mãe nos amedrontava com a história da mula-sem-cabeça. Gostei de relembrar esse tempo de meninice lendo o seu texto.

    Comentário de Luiz Valério — 12 de Junho de 2009 @ 14:51

  3. Algo me diz que esse texto é uma metáfora, e mesmo que a senhora não tenha ou teve o desejo de assim o fazer, se vossa intenção foi o de apenas comentar um episódio doméstico, não consegui entender assim. Mulas sem cabeça, imaginário, engodo, superstição, mito, folk lore, como diria Caetano, alguma coisa está fora da ordem, foda da nova ordem mundial….

    Comentário de Ronaldo Magella — 14 de Junho de 2009 @ 09:54

  4. Antônio,
    Que honra tê-lo como leitor do blog. Pelo visto, você caiu na rede mesmo, está até fazendo comentários!
    Grande abraço!

    Comentário de Marta — 15 de Junho de 2009 @ 18:57

  5. hahahaha, eu MORRIA de medo da mula sem cabeça do Sítio do Picapau Amarelo!!!

    Comentário de Gisela Garcia — 18 de Junho de 2009 @ 18:59

RSS de comentários deste artigo. URI para link desta publicação:

Deixe um comentário

Espuminha | Dicas, atualidades e assuntos para o café