8 de Junho de 2009

O “outro lado”? Só no dia seguinte

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 18:47

Os blogueiros escolheram o lado errado. Afoitos que andam em criticar a imprensa, e sem muito conhecimento de como se faz jornalismo investigativo, resolveram apoiar a Petrobras, que oficializou uma nova conduta no seu relacionamento com jornalistas: vai responder em um blog corporativo qualquer solicitação da imprensa, antes que a reportagem seja veiculada.

É muita ingenuidade acreditar que isso está relacionado apenas a uma busca de transparência por parte da estatal, alvo de uma CPI no Congresso. Parece ser esse o caso dos blogueiros que correram para defender a estatal, se posicionando contra os jornalistas das redações, que estão indignados.

Quando uma reportagem é exclusiva, fruto de uma investigação, o espaço destinado a ela é muito maior. É o velho e bom furo, daqueles que escreveram a história de muitas democracias. Se a notícia for bombástica, os outros veículos são obrigados a “ir atrás”, como se diz no jargão das redações. Tudo que empresas e governos não querem quando a matéria afeta a sua imagem.

Durante uma investigação, um jornalista (ou blogueiro!) precisa manter em sigilo a sua apuração, até porque ela ainda não foi concluída. Não é de hoje que organizações e pessoas atingidas por denúncias verdadeiras usam artifícios como o “vazamento” para tentar esvaziar o “furo” antes de sua veiculação, e diminuir a sua repercussão.

A novidade é a oficialização dessa estratégia - que, se for mantida, vai azedar uma relação muito mais delicada do que a de jornalistas e blogueiros, que é a entre jornalistas e assessores de imprensa.

Se a moda pega, teremos o fim dos “furos” (e das investigações). Ou, o que é mais provável, uma briga feia. Jornalistas passarão a não ouvir mais o “outro lado”, para garantir que as assessorias não divulguem sua pauta para veículos concorrentes. O direito de resposta será oficializado como uma “suite”, para prejuízo do leitor e da qualidade da reportagem.

Como isso ficará juridicamente? Boa pergunta, já que vivemos hoje um vazio jurídico sobre o assunto. E o que isso tudo tem a ver com a briga entre blogueiros e jornalistas? Rigorosamente nada.

5 Comentários »

  1. Como jornalista, mesmo sem muita experiência, nem autoridade ou crédito para falar do assunto, entendo, vejo, que a profissão passa por um momento de crise identitária. Acredito que a profissão precisa se reconstruir, reconstruir-se a si mesma no momento atual. Todo blogueiro é jornalista e todo jornalista é blogueiro? Quando uma empresa do naipe de Petrobras procura um blog, o que ela quer dizer com isso, que discurso é esse que está sendo enunciado, que os jornais e jornalistas não merecem crédito, que o governo quer desprezar a imprensa tradicional, quer desviar o foco, quer encontrar outras vias e meios de chegar ao público, ou quer ainda colocar o público contra imprensa? Um blog pode informar, mas será que um blogueiro tem senso jornalístico, do jogo do poder, dos bastidores da política? Senso crítico todo mundo tem, basta pensar e ler filosofia, mas que crítica seria essa? Outro dia vi um site de notícias estampar, seja um reporte, mande para nós seu texto, sua foto, seu vídeo e nós a publicaremos, o que isso quer dizer? O jornalismo do futuro será apenas alguém que vai colocar coisas no ar, coisas enviadas por outras pessoas? E a investigação, a pesquisa, o cruzamento de dados e informações, como ficarão? São muitas interrogações. Quando era aluno de jornalismo se criticava muito a falta de leitura dos profissionais, me pergunto se isso mudou hoje, e me interrogo quantos se sentam ou param para ler um livro, romance, quando no dia a dia estão envolvidos com emails, sites de busca, relacionamento, MSN, e esquecem do bom e velho livro. Aí fica pergunta, quando teremos outro Nelson Rodrigues, ele, que segundo a sua biografia, O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, lia os clássicos da literatura universal embaixo de um poste de luz elétrica. Então, me interrogo, o que será o jornalista do futuro, como será, o que fará, como se comportará, estará a profissão perdendo o seu glamour, pois hoje todos podem divulgar, noticiar, publicar, então, pra que jornalistas, repórteres, escola de jornalismo?

    Comentário de Ronaldo Magella — 9 de Junho de 2009 @ 10:52

  2. Não quero brigar com ninguém e nem acho que um lado está totalmente correto enquanto o outro está completamente errado. Mas outro dia li que haviam postado informações erradas na Wikipedia. Quem foi? Não soube que tivessem descoberto.
    De qualquer forma, acho que o caso Petrobras, como citou a Marta, não cabe aí. Os interesses brasilienses não são filosóficos. São paupáveis. Por isso, me preocupa mais as regras do jogo que parecem ter caído por terra.
    Mas como toda ação tem de retorno uma reação, o jogo ainda não acabou e certamente haverá mais fogo cruzado.

    Comentário de Mirna — 9 de Junho de 2009 @ 12:29

  3. O que a Petrobras está fazendo já foi feito, não na forma de blog, mas no site do Planalto, pelo ministro Franklin Martins. Se não me engano, foi uma entrevista que o presidente Lula concedeu à revista Piauí e que foi publicada na íntegra, só que ali não houve problema porque a revista fez o dever de casa do jornalismo. Talvez essa historia do blog seja um novo nicho, como pode ser o twiter, ou daqui a um tempo o wave, que ainda não começou, assim como tantas outras ferramentas. Marta, acho que esse episódio até que valorizou a ferramenta Blog, tão popular hoje entre os internautas.
    Penso que não devemos ser ingênuos, não podemos acreditar que a empresa esteja apenas preocupada com a transparência. Mas não sejamos tolos de acreditar que os jornais estão tão irritados porque estão se sentidos ameaçados na “liberdade de imprensa”. Quem é jornalista sabe, e na área de economia isso é ainda mais presente, que existem vários filtros (leia-se interesse da empresa e linha editorial) antes de a notícia virar o texto que vai aparecer no dia seguinte no jornal. E se os jornais têm o direito de ter o on line, a empresa tem direito também de construir uma ferramenta, on line porque não?, para que suas informações sejam publicadas. Poderiam ter usado a página, mas numa estratégia, que considero bem sucedida, de marketing, criaram o blog. Mas isso só foi necessário porque não adiantava nada dar as explicações porque a matéria ganhava destaque e só dava a informação/versão da companhia, como se fosse já uma suíte, não na página principal, e nem com destaque ou alto de página. E sem foto também, para tirar ainda mais o interesse de alguém ler aquilo ali.Foi assim com a primeira reportagem, há dois domingos.
    Só quem não passou por uma redação de grande imprensa para pensar que uma notícia é apenas um punhado de fatos de um lado versus/ou não a perspicácia jornalística do outro. Os jornalistas têm interesses, alguns não têm apenas os da empresa onde atuam, mas também o das consultorias que prestam a empresas na área em que atuam.
    A Petrobras usou uma arma contra a desinformação, mas não vai conseguir com isso mudar o rumo das notícias contrárias, até porque a imprensa não gosta que ouse contestá-la.
    Trata-se de uma disputa de poder, dos dois lados, ou no popular, é briga de cachorro grande. Li o blog e vi entre os comentários o de um acionista, que estava preocupado com as notícias e que agora, diz ele, considera que entendeu o que está acontecendo com a empresa. Bom, cá prá nós, dá para acreditar em CPI? Esses políticos adoram ter um holofote, trabalhar que é bom, legislar que é bom. Eu mesma vivi isso na pele recentemente, quando tentei bloquear cartões de crédito e conta báncária falsos criados em meu nome. Ouvi do policial da delegacia especializada em defesa do consumidor que a lei não me amparava para registrar uma queixa. Faltava uma lei! Tive que ouvir do policial que a vítima era a loja, já que eu não tive dano, na visão dele, claro. Agora, para “eu não pgar”, eu tenho que perder horas e paciência com funcionários de call center, enviar fax escrito de próprio punho, com cópia de documentos, para cada um dos órgãos envolvidos. Tem que ir pessoalmente ao local, como no caso da Vivo, que não cancelava as duas linhas compradas em meu nome por alguém que não fui eu. Fiz até um blog, o Pequenos Aborrecimentos? para deixar registrados aqueles dias e horas perdidos. O título do blog eu explico: quando ouvi do policial: “senhora, nem adianta processar porque o juiz entende isso como pequeno aborrecimento”, não tive dúvida de como colocar a minha indignação prá fora, criei um blog. Só não sou a Petrobras e nem a Marta Barcellos que tem blogs super lidos. O meu blog foi um “blog protesto”, (mais uma nova categoria??). Terminei quando terminaram as contas. Mas os problemas…

    Comentário de monica — 9 de Junho de 2009 @ 13:18

  4. Mônica, o site do Planalto publica (na íntegra) as entrevistas exclusivas do presidente depois da publicação pelo veículo. Também acho ótima essa iniciativa, uma transparência importante, e que deve incomodar muitos coleguinhas.

    Mas o blog da Petrobras só conseguiu essa repercussão toda quando começou a furar os jornais, com informações passadas pelos próprios jornalistas. Jogaram fora uma boa ideia e deram munição para os jornais, que já andavam incomodados em perder o monopólio na divulgação das informações.

    Eu apostaria que a Petrobras vai voltar atrás, não no blog, que é legítimo, mas na postura de divulgar as informações previamente. O relacionamento de uma grande empresa com a imprensa não pode virar essa guerra, com um não confiando no outro nem para passar uma pauta.

    Aliás, se persistir na estratégia, a Petrobras terá que acabar também com as pautas exclusivas que são oferecidas aos jornalistas…

    Quanto aos blogs, continuo fã, mas sei de carteirinha como a gente não deve usá-los para atropelar relacionamentos, como se fossem um “vale-tudo”.

    Comentário de Marta — 9 de Junho de 2009 @ 14:05

  5. Marta,

    De fato, esta é uma ótima oportunidade para lembrar a importância do jornalismo investigativo (e não do denuncismo) para muitas democracias. Só tenho dúvida se a questão é mesmo entre jornalistas e blogueiros e, mais ainda, se pode ser tomada como um embate entre assessorias e jornalistas. Quem domina a etiqueta do jornalismo (não existe uma regra escrita para isso), sabe que uma estratégia como essa só pode ser adotada por quem detém, de fato, o poder de decisão porque, se não der certo, o risco é grande. É como o jornalista que liga às sete da noite para saber a posição da empresa. Até dá certo, mas a má fé está caracterizada. Como a má fé ganha uma dimensão muito maior quando sujeita ao julgamento público, acho que só adota uma posição como essa quem não teme nenhum tipo de controle (nem o moral). Houve uma quebra de protocolo entre duas instituições nacionais (a imprensa e a Petrobras), é bom pensarmos que jogo é esse que está sendo jogado.

    Comentário de Vitória — 9 de Junho de 2009 @ 17:44

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