1 de Junho de 2009

Junho com jeito de agosto

Arquivado sob: Cotidiano, Jornalismo — Marta @ 19:36

O dia começou sinistro. Logo cedo, uma chuva forte caiu sobre o Rio, apagando qualquer vestígio da incensada luminosidade de maio. Nas bancas, nada de Gazeta Mercantil: o fim do jornal se confirmava. Nos Estados Unidos, outra GM, a dos carros, oficializava a sua derrocada, com pedido de concordata.

Se faltava alguma notícia para provar que junho chegou com ares de agosto, ela apareceu de forma contundente, para nos lembrar da única coisa realmente irreversível na vida. Um avião jazia no mar, com 228 pessoas que haviam embarcado no Rio.

A ideia de que duzentas famílias, naquele instante, experimentavam a pior das sensações humanas fez o dia cinza e sinistro parecer adequado. Não gosto especialmente de pensar na morte, tampouco de fugir desse pensamento, mas em um dia como hoje nos sentimos unidos no luto, por mais que isso pareça um clichê.

De tempos em tempos, por conta de uma tragédia próxima, ou nem tão próxima assim, somos arrastados para uma reflexão sobre a morte. Isso acontece comigo desde o dia em que descobri que não era imortal, 13 anos atrás. Passei a temer os acidentes e a morte, ou pelo menos ter consciência desse temor.

Os próximos dias serão difíceis. Ficaremos obcecados pelo noticiário, vamos tentar pensar em outra coisa, buscaremos os culpados. A vida logo vai nos arrastar para longe dessa reflexão/aceitação, e respiraremos aliviados. Os que perderam parentes, amigos e amores sofrerão mais e por mais tempo.

A estes, não há o que dizer. Sempre achei que a única expressão de condolência, com algum efeito, é abraço apertado. Mas outro dia vi uma expressão de pêsames on line que pode chegar perto. Um amigo teclou ao outro: putz, que merda. Então, na falta de outra, fiquemos com essa. Putz, que merda.

***

Trabalhei na Gazeta Mercantil apenas quatro anos, bem menos do que no Globo, por exemplo, onde foram nove. Mas muita gente me identifica como “gazeteana”. De fato, vivi ali os meus melhores anos de jornalismo, em vários sentidos. A “morte” da Gazeta mexeu muito comigo, mas tudo que eu pudesse falar sobre ela está neste texto perfeito do jornalista Thales Guaracy.

1 Comentário »

  1. Não tenho medo de morrer, ao contrário, anseio por isso. Aprendi com a Doutrina Espírita que não existe morte, melhor, ela me ensinou e me fez entender o fenômeno morte, as mortes coletivas, trágicas, simples, e aprendendo sobre a morte, aprendi que viver é a coisa mais importante da vida. Nessa hora de dor, mesmo não conhecendo as pessoas, as famílias, fica a nossa prece, a nossa oração.

    Comentário de Ronaldo Magella — 2 de Junho de 2009 @ 08:44

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