29 de Maio de 2009

Catedral

Arquivado sob: Comportamento, Viagens — Marta @ 17:20

Entrei na catedral, belíssima, pensando numa forma de guardar aquele momento na lembrança. A máquina fotográfica na bolsa, eu sabia, seria completamente inútil. Já havia tentado, em outra ocasiões, registrar detalhes, ângulos diferentes, mas o clique apenas se somava a outros tantos, digitalizados. Outras fotos de igreja. Nada que traduzisse, mesmo que remotamente, o ambiente silencioso e escuro, refúgio perfeito para meus sentimentos exaustos.

Se ao menos houvesse um concerto de órgão, como aconteceu em uma igreja de luzes amarelas que jamais se apagará de minha memória. Ou aquele casamento estranho (húngaro!), cuja celebração ecoava no templo grande demais para o número de convidados, com mulheres sentadas em seus vestidos espalhafatosos e homens enfileirados no altar.

Mas aquela catedral, em Santiago, seria apenas mais uma, mesmo linda e me deixando de olhos marejados. Minha memória me trairia, apegada a curiosidades mundanas, e não a sentimentos profundos.

Em uma última tentativa, fixei-me em uma mulher de cabelos compridos e rosto largo, que chorava baixinho em frente à imagem de Santa Teresa, na lateral da nau. De longe, fiquei observando-a, disfarçando a minha condição de turista. Mas percebi que também ela não seria suficiente. Não lembraria delas, catedral e mulher, daqui a dez anos, quando estiver contando a alguém que, sim, já fui a Santiago, e gostei muito - ou não tanto assim.

Já resignada com a lembrança perdida para sempre, flagrei-me pensando nos motivos que levavam aquela mulher às lágrimas. Talvez a morte de alguém querido, a vontade de ir embora também, depois de uma vida curta e cheia de tragédias. Ou, nada disso, ela enfrentava sua primeira adversidade, depois de uma vida de paparicos, e não sabia o que fazer com um sentimento de amor contrariado.

Foi então que descobri, de repente, que a catedral chilena não me escapuliria tão fácil assim. Em alguma daquelas gavetas secretas da memória, ela ficaria guardada, junto com a mulher sofrida, se fazendo de esquecida numa mente ocupada demais e repleta de preocupações. Mas um dia, diante do computador, ela estaria numa história, entrelaçada com outras lembranças, igualmente reservadas por emoções inconfessáveis. Inconfessáveis para mim. Mas não para a mulher de cabelos compridos e rosto largo, que finalmente contará tudo o que sentia.

26 de Maio de 2009

Sonhos de liberdade

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:35

Com 20 e poucos anos, o meu sonho de liberdade era ter um carro. Poder ir e vir, na hora que quisesse, sem me preocupar com carona, horário de ônibus etc. Comecei a economizar aos 17 anos para comprar o tal carrinho, um Chevette Hatch tão simbólico que sua lembrança até hoje me enche de emoção. Anos depois, vendi o carro para um amigo que o bateu em seguida. Lembro-me de ter ligado para ele furiosa: como tinha feito aquilo com o “meu” Chevette?

Pois a conquista da liberdade pode ganhar muitos formatos, e nesta semana ela se materializou para mim em um netbook, de 1,1 quilo, quase imperceptível dentro da bolsa. Ontem eu me sentia como uma garota gazeteando aula, atrás de redes wireless para poder conectá-lo e trabalhar fora do escritório. Agora, vou poder ir e vir (na internet), na hora que quiser, sem as limitações da tela do smartphone. Meu Acer AspireOne é meu novo Chevette Hatch!

Claro que as limitações logo aparecerão (uma vez enguicei em frente ao Maracanã, na hora do rush) e conquistas assim têm um custo (R$ 1.200, no shopping de informática da Barra), mas agora é hora de curtir. Essa sensação de vento no rosto é muito boa.

21 de Maio de 2009

Sem noção?

Arquivado sob: Femininas, Cotidiano — Marta @ 13:12

O ministro das Comunicações, Helio Costa, aconselha a juventude a deixar de “ficar pendurada na internet” para ver mais televisão e ouvir rádio. A escritora Maria Mariana afirma que pegar no chão a cueca suja do marido é um “aprendizado de paciência e dedicação”. O que Helio e Maria Mariana têm em comum? Ambos estão bitolados em seus mundinhos, mas mesmo assim acreditam que suas opiniões são relevantes. Que bom que temos a internet, para meter o pau neles.

O cargo de um e o passado profissional da outra, teoricamente, os habilitariam a falar sobre os seus temas sem deixar escapar tanta bobagem. Mas o problema acontece quando as pessoas são acometidas de um egocentrismo que as impede de olhar em volta, e ter a humildade de reconhecer que suas experiências pessoais ou impressões superficiais não são relevantes – pelo menos enquanto forem só isso: pensamentos toscos que não passaram por qualquer tipo de elaboração.

Consigo imaginar Maria Mariana exercitando a paciência necessária para manter qualquer casamento, lá do jeito dela, ainda mais com quatro (lindos) filhos a tiracolo. Ou o ministro legitimamente irritado com algum jovem próximo que passa o dia vendo baixarias na internet. Ambos podiam ter ficado quietos. O caso do ministro, claro, é mais grave: ele tinha obrigação de conhecer o assunto, antes de generalizar a internet como algo nocivo aos adolescentes (em contraposição à … televisão!).

Mas acho que a escritora, tão antenada na adolescência, também virou uma “sem-noção” – algo um tanto natural, depois de nove anos sem trabalhar, cuidando de filhos… Para chegar a uma conclusão, leia a polêmica entrevista que saiu na Época, e também a versão dela, dos fatos e da edição da matéria.

19 de Maio de 2009

Coleção

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:59

A amiga da minha filha chega lá em casa com a mochila cheia de brinquedos e seis livrinhos de uma coleção que faz o mais sucesso entre as meninas, chamada Go Girl. Conta, orgulhosa, que faltam poucos para completar a coleção. Que ótimo, eu penso. No lugar de figurinhas e joguinhos de computador, finalmente uma mania saudável entre os “tweens”.

- Que bacana. E de qual desses livros você mais gostou?

- Eu ainda não li nenhum.

E aproveitou para exibir as roupinhas novas do urso de pelúcia, que também tinha comprado no shopping….

14 de Maio de 2009

Sem história para contar

Arquivado sob: Viagens, Crônicas — Marta @ 17:59

Foi por pouco. Eu estava em Puerto Varas, no Sul do Chile, quando a terra tremeu na capital Santiago, de onde tinha saído na véspera. Que azar. Quase tenho uma boa história para contar na volta.

O motorista só comentou sobre o terremoto por acaso, pois o nosso destino era um vulcão e os passageiros pareciam estar atrás de alguma emoção. “Quando há um tremor, a gente logo identifica quem é brasileiro”, zombou. “São os que saem correndo.” Depois do susto, quase emendei, eles retornam ao Brasil com uma ponta de orgulho. Afinal, viveram uma dessas aventuras internacionais, daquelas de espalhar para a vizinhança.

O chileno tem certa razão, o brasileiro é mesmo engraçado. Vive reclamando das próprias mazelas, mas quando o assunto é nevasca, furacão, terremoto, a tragédia é tratada com solenidade, como se, nesse caso, pairassem ali os desígnios de deus. Ou seja, bem diferente da enchente provocada por bueiro entupido, culpa das autoridades e dos mal-educados que jogam lixo no meio da rua, ô povinho.

Claro que não é bem assim, mas já que estamos falando do tal brasileiro típico em viagens… “Na nossa última vez em Nova York levamos uma mala vazia só para as compras, não é, benhê?”, diz a brasileira no banco de trás. É a senha para o marido dar pormenores sobre a configuração do Mac, que dividiria espaço com as roupas de grife, na tal mala extra. Caramba, será que sou a única brasileira que não gosta de fazer compras quando viaja?

Sem histórias de compras para compartilhar, fixei-me no vulcão, que se aproximava. Pelo menos era o que o motorista nos garantia, já que uma imensa nuvem persistia em seu topo, alcançável apenas por escalada. “Um casal de brasileiros já morreu tentando chegar lá”, ele avisa. Será que continuava zombando?

O fato é que teríamos que nos contentar com as histórias das lavas no caminho – essas sim, visíveis, no relevo bastante exótico aos nossos olhos tupiniquins. Acabamos retornando ao hotel sem grandes histórias para contar. Nenhum tremorzinho, uma erupçãozinha, nada…

***

Em tempo: o tal vulcão era o Osorno, e não recomendo o passeio em maio!

11 de Maio de 2009

Um hotel para chamar de seu

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 18:33

Os hotéis, como tudo mais, estão cada vez mais globalizados e padronizados. O lado bom é não ter maiores aborrecimentos com a água que não esquenta, a cama que range, o cheiro de mofo. O lado ruim é que não há qualquer resquício da cultura local no quarto, na recepção ou no serviço prestado por funcionários invisíveis e bem treinados.

Sempre se pode optar por um hotelzinho no centro histórico em vez de procurar uma bandeira conhecida (de Ibis a Marriot, algum caberá no orçamento da viagem). Os hotéis com o dono no balcão ainda resistem, apesar da concorrência. Mas se você é o típico turista acidental, que busca o ambiente mais familiar possível enquanto tira fotos iguais às do guia de viagem, não há o que pensar: hospede-se sempre em hotéis da mesma rede, e as novidades se restringirão às frutas no café da manhã.

Mas se você busca um turismo mais verdadeiro, vem o dilema na hora da reserva: arriscar-se a ser brindado com um quarto sujo? Ter que reclamar por um apartamento melhor depois de horas e horas de viagem? Sim, porque nestes pequenos hotéis, muitas vezes recomendados por amigos, os quartos variam de tamanho e de qualidade de forma aburda. Minha melhor hospedagem em Paris, por exemplo, aconteceu depois que reclamei de um quarto de quina, mínimo e emparedado. Fui transferida para um quarto duplo, de frente, pela mesma tarifa.

Conheço muito viajante de carteirinha que, como eu, tem se rendido às bandeiras de redes hoteleiras internacionais, muitas vezes afastadas do centro. Só não vale sair do hotel para entrar em ônibus de excursão, com guia e turistas brasileiros. Aí já é demais.

No Chile, fiquei hospedada em hotéis de redes locais, com o tal padrão internacional. Em Santiago, especialmente, tratava-se de um típico hotel para executivos, com serviço eficiente e absolutamente seco. As provas da padronização? Cobertas presas à cama e papel higiênico cuidadosamente dobrado em “V” na ponta. Um dia ainda descubro como coisas assim se tornaram padrão

3 de Maio de 2009

Viajar para poder voltar

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 23:01

A mala está pronta e o destino é deconhecido. Melhor, impossível. É gostoso revisitar um lugar, mas a experiência ganha outra intensidade quando se vai pisar em um aeroporto pela primeira vez. Para compartilhar a minha excitação (estarei no Chile esta semana), deixo aqui algumas frases selecionadas pelo escritor Moacyr Scliar no delicioso “Dicionário do viajante insólito”.

“Viajar expande a nossa capacidade de simpatia, redemindo-nos da reclusão e da modorra dos limites da nossa personalidade.” (José E. Rodo)

“Viajamos para nos livrarmos de nós mesmos, mais do que para nos livrarmos dos outros.” (William Hazlitt)

“Quem viajou muito pode mentir com impunidade.”(provérbio francês)

“Viajo para voltar.” (William Trevor)

“Só começamos a gostar de uma viagem três semanas depois de ter voltado.” (George Ade)

“A Patagônia convém à minha imensa tristeza. A Patagônia e os Mares do Sul.” (Blaise Cendrars)

“Viajar é uma coisa brutal. Perdemos o conforto do lar e dos amigos, somos forçados a confiar em estranhos. Estamos sempre fora do nosso equilíbrio.” (Cesar Pavese)

“A viagem é uma sequência de desaparecimentos irreparáveis.” (Paul Nizan)

“Viajar é conversar com os séculos.”

“Viajar não é necessário, a não ser para as imaginações limitadas.” (Colette)

“Viajou. Conheceu a melancolia dos navios, o aturdimento das paisagens e das ruínas, a amargura das simpatias interrompidas. Voltou.” (Gustave Flaubert)

“Partir é morrer um pouco.” (E. Haraucourt)

“Se é terça-feira, isto deve ser a Bélgica.” (título de filme)

“Todos os caminhos levam a Roma, mas cada dia o engarrafamento é pior.” (Millôr Fernandes)

“Quem viaja por terras estranhas vê o que quer - e o que não quer.” (Guimarães Rosa)

“Não viajamos só pelo prazer de ver, mas pelo prazer de contar.” (G. K. Chesterton)

“O viajante vê o que vê, o turista vê o que veio ver. (G.K. Chesterton)

“Como todos os grandes viajantes, vi mais do que lembro e lembro mais do que vi.” (Benjamin Disraeli)

“O mundo é um livro. Quem não viaja só lê uma página.” (Santo Agostinho)

“Viajar instrui - afirmam. Basta olhar para o turista para verificar a extensão dessa balela.” (Mário da Silva Brito)

“Existem duas categorias principais de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar.” (Érico Veríssimo)

“O homem não precisa viajar para crescer; ele traz consigo a imensidão.” (François-René de Chateaubriand)

Escolha a sua frase, planeje a próxima viagem e tenha uma boa semana.

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