O esbarrão foi de verdade, pois os dois estavam mesmo distraídos. Aliás, eram distraídos. Ele já estava com o sorriso armado para pedir desculpas, antes de perceber o quanto era bonita. Ela não tinha o hábito de ser tão simpática, não sorriu naquele instante, mas algum brilho nos olhos denunciou a taquicardia. Ficaram ali, paralisados, e o fato de ele estar acompanhado de uma criança, e ela ainda fumar naquele tempo, pareceu não importar.
Foi assim, mágico, no começo. Agora ela ficava no computador, noite adentro, escrevendo e-mails intermináveis, imaginando-o a lê-los com uma taça de vinho na mão. Mas as respostas não vinham, as amigas a consolavam e ela ainda precisava conter a vontade de se enfurnar em salas de cinema, com caixas de lenços na mão, para ver comédias românticas e tolas. Logo ela - que patética havia se tornado.
Ele esqueceu mais rápido, pelo menos foi o que todo mundo pensou. Reparava em mulheres parecidas com ela na rua, e por isso recebia olhares de volta, mas acabava desviando a vista - quase um otário. Quem sabe esperasse por outro esbarrão, que colocaria tudo no lugar. Mas isso já não era possível, e ele era um sujeito prático, odiava sentimentalismo e chegou a pensar que ela fosse parecida nisso, antes de começar a receber aqueles e-mails cheios de acusações absurdas.
Aquele amor ficaria esquecido para sempre, exceto por uma ocasião em que ela fez um balanço de suas paixões, conversando com a prima mais nova. E exceto também pela vez em que ele bebeu demais com o seu amigo mais sentimental. Foi quando ambos contaram como deixaram passar o grande amor de suas vidas.
A sensação pode durar segundos. Sim, tudo isso. Do nada, surge um sentimento de plenitude. Você está inteiro, se sente vivo e integrado àquele momento. Ao mesmo tempo, consegue contemplar a si próprio e ao mundo com certo distanciamento, como se estivesse em suspenso. Está cheio de si, mas sem o orgulho bobo das conquistas mundanas ― tanto que nem lhe ocorre exibir aquela emoção para ninguém. Você guarda em segredo: está feliz.
Aproveite a minha modesta tentativa de descrever o tal momento e desencave do fundo da memória o instante fugidio em que se sentiu assim. Passou, é verdade, e nem lembramos como foi. Provavelmente nos distraímos com uma buzina, uma interrupção qualquer, e nem tentamos guardar um resquício daquela emoção, como se tivesse sido um sonho. Não foi. Todos já nos sentimos assim e por isso andamos por aí como se a tal felicidade estivesse à espreita, alcançável por um lance de sorte, acaso ou destino ― a gosto do freguês e das convicções filosóficas.
Uma dessas ocasiões eu guardei bem na memória, porque a sensação veio junto com uma lufada de ar quente. Eu descia do avião no Santos Dumont, no Rio, antes dos abomináveis fingers de hoje. Tratava-se de uma rotina ― o tal instante de felicidade cisma de aparecer em situações banais. A lufada veio junto com o cheiro de maresia, e ainda era dia; talvez fosse horário de verão. Uma entrevista burocrática em São Paulo acabara se transformando em uma conversa instigante, e me ocorreu, naquela viagem de volta, a máxima: “e ainda me pagam pra isso”. (…)
(Continue lendo no Digestivo Cultural)
Meus próximos dez dias serão uma loucura. Não vou ter tempo para nada nos próximos dez dias. Não me convide para almoçar, nem tomar café, nos próximos dez dias. Não vou me permitir ler um poema curto, que dirá avançar as páginas do meu romance, nos próximos dez dias. Tenho que seguir o cronograma a risca, ter produtividade total, nada poderá dar errado na minha agenda dos próximos dez dias. Não será possível ficar resfriada, torcer o pé, brigar com o marido, fazer cafuné, comprar vestido; até os congestionamentos e uma festa de aniversário terão hora para começar e acabar nos próximos dez dias. Como vocês podem ver, serei a pessoa mais importante do mundo, tão indispensável a mim mesma, que não posso morrer nem viver nos próximos dez dias. E quando eu chegar lá, no décimo dia, poderei enfim descansar, desfrutar da sensação do dever cumprido e ter a certeza de que vivi a vida de outra pessoa, crente que era a minha.
Quando recebi o link para ver a cantora-sensação Susan Boyle, no início da semana passada, achei o vídeo curioso, mas imaginei que havia alguma armação naquela história. Provavelmente, pensei, tratava-se de uma cantora lírica profissional, devidamente enfeiada para encenar aquele papel - para o programa de calouros na TV ou mesmo para virar hit por um dia na internet. Dependendo do número de acessos, a farsa seria desmascarada pela mídia tradicional em alguns dias.
Somente quando a tal mídia tradicional endossou a história passei a acreditar nela. Não é curioso? Talvez isso esteja relacionado ao meu trauma de ter acreditado na veracidade do vídeo “Tapa na Pantera”. Talvez isso queira dizer alguma coisa sobre o longo caminho que a internet precisa percorrer para conquistar credibilidade, ou que eu preciso percorrer para encontrar a credibilidade da internet. Talvez…
Bem, o que interessa é que Susan ganhou seus 15 minutos de fama, e os mereceu muito mais do que a maioria que costuma chegar lá. Viva ela.
Se você bater na porta do vizinho que há anos recebe o jornal dobradinho pela manhã e perguntar sobre o fim dos jornais, por causa da internet, é capaz de ele achar que você enlouqueceu.
Foi mais ou menos assim que eu ouvi o Chico Buarque comentar, an passant, a discussão envolvendo o fim da canção. Nunca tinha ouvido falar disso. A cena está no “Palavra (en)cantada”, documentário imperdível que explica por que a música popular brasileira é melhor que as outras (por causa da poesia).
Depois, para completar, a minha analista contou ter visto alguns professores sinceramente abalados com a onda do ensino à distância. Parece que, após alguma imersão no assunto, a categoria perde o sono com o fim do professor.
Compositores, jornalistas, professores… alguém conhece mais alguma profissão prestes a acabar?
Adoro pequenos grandes filmes. No ano passado, por exemplo, me deliciei com “A culpa é do Fidel”. Mas é difícil ganhar espaço diante da fartura de bons blockbusters, como os da última safra do Oscar, e por isso alguns desses filmes tendem a ficar para depois, assim mesmo quando ganham o status de cult.
Nem dá para reclamar: como falar mal do empolgante “Milk”, do espetacular “Quem quer ser um milionário” (superprodução, sim), do bem contado “O curioso caso de Benjamim Button”, do ousado “Frost Nixon” ou do delicado “O leitor”? Isso só para falar dos cinco que concorriam à categoria principal (eram também imperdíveis “Dúvida”, “Foi apenas um sonho” e “O lutador”, sem contar o hors concours “Vicky Cristina Barcelona”)
Pois ontem foi dia novamente de prêmio, dessa vez para o cinema brasileiro. O prêmio Vivo é bem mais modesto (bastava ver a cerimônia no Canal Brasil para constatar), mas não vamos falar mal das poucas premiações que ainda estimulam nossa produção cultural…
O fato é que o grande vencedor foi “Estômago“, um pequeno grande filme nacional. Original, surpreendente, cheio de personagens sensacionais e despretensioso - “Estômago” tem tudo que os pequenos notáveis precisam para conquistar quem aprecia o gênero.
Então aí vão as minhas dicas, que já devem estar chegando às locadoras: “A culpa é do Fidel” e “Estômago”. Não deixe de ver, ou rever.
Não é de hoje que pais superprotegem filhos. Mas sempre há novas formas de fazer a mesma bobagem, e a última geração de superpais está retratada na edição da revista Época desta semana, em matéria infelizmente fechada para assinantes (babau repercussão na web).
Não pude deixar de reconhecer alguns pais de amiguinhos da minha filha, que tentam facilitar/controlar a vida dos filhos nos mínimos detalhes, em geral via celular. Claro que não sou santa nessa história e também me identifiquei na ansiedade para preparar a filha para o futuro, estimulando supostos potenciais e dando instrumentos para ela enfrentar suas dificuldades.
A grande questão parece ser se os filhos protegidos ficarão irremediavelmente “estragados” ou se ainda haverá chances de tomarem as rédeas de suas vidas, depois de algumas sessões de análise. Mas existe uma outra face, da mesma moeda, que acaba passando despercebida: os superpais costumam cobrar a conta.
Mesmo que os filhos consigam se tornar independentes quando adultos, dificilmente deixarão de sofrer com as chantagens típicas de pais e mães que se sentem abandonados, “depois de tudo o que fizeram”. É incrível, mas já tenho presenciado chantagens assim de mães de crianças de apenas 9 ou 10 anos. Ao sentir os primeiros sinais de autonomia do pimpolho, envolvendo situações banais como dormir na casa do amigo, elas tratam de lançar um olhar comprido, o suficiente para fomentar a tal culpa que acompanhará o pobre coitado a vida toda (apesar da terapia).
Nesse aspecto, pelo menos, tento segurar a minha onda. Ver a minha filha independente vai ser sempre o meu maior orgulho. E ninho vazio, apesar de todo o sofrimento da perda, a gente preenche com outros interesses na vida.
Antes de começar, convém me identificar: sou uma dessas mulheres de Chico. Adoro, venero, babo, sei cada verso de trás para frente. Suspeita, sim, sou muitíssimo suspeita para falar de “Leite derramado“. Se você não é do time, ou, pior, não entende o fenômeno mulheres-amam-chico-buarque, melhor parar por aqui.
Até “Budapeste”, que também é um livro maravilhoso, eu conseguia entender a nossa tendência a separar o Chico letrista do Chico escritor. Mas hoje, que estou sorvendo “Leite derramado” lentamente, para aproveitar cada gota, revelou-se claramente para mim o artista único que sempre esteve por trás de tudo.
No novo livro, cada palavra é delicadamente colocada na frase, como se elas precisassem se encaixar na música para estar ali. É uma delícia, também, perceber a mesma ternura, como sempre bem dosada, com que Chico vê os equívocos e o sofrimento de seus personagens. Isso sem falar no show de erudição, que vem de lambuja e não é tão patente nas letras do compositor.
E já que você chegou até aqui (e não parou no time dos insensíveis do primeiro parágrafo), não deixe de (re)ver o vídeo de Chico Buarque lendo o primeiro capítulo, no site do livro.
Lembro-me como se fosse ontem. Eu estava de licença-maternidade. Entre uma troca de fraldas e outra, peguei o jornal e levei um susto: a América Online tinha comprado a Time Warner por US$ 124 bilhões. Em segundos, os neurônios se conectaram e, encharcados de hormônios, chegaram à conclusão de que eu teria que mudar de área quando voltasse ao batente no jornal. Eu era setorista de varejo na Gazeta Mercantil, ou seja, cobria o setor de supermercados, shoppings e lojas em geral. Na minha mente excitada com a revolução recém-descoberta lá fora, no mundo além fraldas, todo tipo de comércio migraria para a internet em alguns meses. (…)
Leia na íntegra a minha coluna no Digestivo Cultural.
Um amigo diz que cansou de tentar elogiar as mulheres. Diz que sempre ouve, em troca, alguma ressalva como “é, mas eu estou gorda”. Em vez de um sincero “obrigada”, pode seguir-se uma ladainha de autodepreciações. “Perde a graça, nem dá vontade de fazer um elogio”, desabafa ele, repleto de razão.
Que coisa, né. As mulheres reclamam tanto dos homens, que não prestam atenção no penteado novo, e aí vem um homem contar isso. Pior é que imagino direitinho a cena que ele descreveu…
No Zuenir de hoje:
É inegável o carisma de Lula, e não se pode mais alegar que é apenas junto aos de baixa renda. Obama tem razão: ele é mesmo “o cara”. Sarkozy e Brown também parecem achar. Se bobear, até a rainha Elizabeth II acha. Fica mais uma vez demonstrado que, na oposição (afinal, é o que ele está fazendo, ao se colocar como crítico dos “brancos de olhos azuis” do G-20), não tem pra mais ninguém. A primeira vez que o então líder sindical fez palestra no Rio, nos anos 70, para uma plateia intelectualmente seleta, aconteceu algo parecido. Quanto mais ele falava mal dos intelectuais, mais era aplaudido. Ser do contra é o seu melhor papel. Como confessou jocosamente ao primeiro-ministro britânico, ele sempre esteve culpando alguém ou alguma coisa: governo, FMI, Europa, EUA. Ou denunciando, acusando, se opondo, enfim. A sua sorte no governo é não ter um Lula na oposição.
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Juro que não foi planejado. A tinta da caneta acabou e a fila de autógrafos ficou parada até que aparecesse outra. Essa era euzinha, nos meus 15 minutos de fama. Não deu para convidar os amigos, sorry, porque o lançamento foi em Cachoeira Dourada, Goiás, onde o livro se passa. Quem sabe no próximo… Obrigada aos amigos que mandaram e-mails!
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Canga-leitão. A velha “bandalha”, também conhecida por “baianada” em São Paulo, é chamada dessa forma engraçada em Goiás. Adorei a expressão e fiquei testando em frases com o nosso simpático motorista. “Você fez um canga-leitão naquele retorno? Ah, a gente ‘dá’ um canga?” Pelo visto, quando se trata de transgressão, cada povo tem seu apelido carinhoso particular.