31 de Março de 2009

Um mala na sala

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:17

Estávamos em três conversando sobre cursos que fizemos recentemente, os mais diferentes, e chegamos à mesma conclusão: sempre há um (ou mais) mala na platéia que consegue atrapalhar a aula, a ponto de tornar a experiência uma espécie de tortura. Seja com perguntas tolas ou, pior, “colocações”, a figura (há boas chances de ser mulher) costuma ser intolerável – menos para o professor ou palestrante, em geral com uma paciência de Jó. “Claro, essas pessoas é que sustentam os cursos”, disse a minha amiga. “E os alunos que fogem por causa dos malas, não contam?”, questionei.

Chegamos a algumas hipóteses sobre o que atrai a malice para cursos e eventos.

1) O mala acha que vai ser descoberto pelo professor, a quem tenta impressionar de todas as formas

2) O mala quer um emprego e está fazendo networking (jure para ele que você não é ninguém e está desempregado)

3) O mala passou o dia inteiro na internet e simplesmente PRECISA falar

27 de Março de 2009

Espelho

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 15:43

Um dia eu estava dando sopinha para a minha bebê, quando ela pegou a colher e tentou enfiar na minha boca. Entrei na brincadeira e ela pronunciou uma de suas primeiras palavras, enquanto eu engolia a sopa: “Iiiiichu!”. Só então percebi o meu hábito de falar “isso”, em tom de aprovação, a cada colherada que ela abocanhava.

Pois bem, na semana passada, eu tentava convencer a mesma filhota a fazer um programa quando soltei um “vai ser maneiro”. Pra quê. “Mãe, eu proibo você de dizer ‘maneiro’. Mães não falam ‘maneiro’.” Ela estava brincando, claro, até porque é um docinho de coco. Mas foi interessante perceber a inversão de papéis.

A gente descobre que a filha tem 9 anos quando ela para de nos imitar, e nós adotamos gírias para sermos ouvidos…

25 de Março de 2009

Cosquinha

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 15:31

Tenho ido pouco ao teatro, e outro dia me vi confessando o motivo para amigos. Por alguma razão, neste tipo de programa passo com frequência pela situação de toda a plateia rir, menos eu. A cena pode fica ainda mais constrangedora quando acontece de eu soltar uma gargalhada sozinha, me destacando desconfortavelmente da multidão.

O pior é que eu até entendo as supostas piadas, só não acho aquela graça toda, que justifique a efusividade dessas plateias que frequentam comédias no Rio. No máximo consigo esboçar um sorriso. Meu amigos me garantiram que andei assistindo aos espetáculos errados, me deram uma listinha das boas peças em cartaz e juro que vou tentar novamente.

Mas o fato é que nunca achei graça de alguns tipos de humor, nem quando era menina. Por exemplo: o pastelão, em mim, não provoca a menor reação. Claro que se for um bom palhaço, ou o Carlitos, vou achar comovente, alegre, e ponto final. Sem risos histéricos. E os humoristas antigos da TV, tipo Chico Anísio, sempre me entediaram profundamente.

Já aquela tirada genial… Ela pode me tirar do sério, de verdade. Deixar-me com ataque de riso, daqueles de chorar. Posso gargalhar dois dias depois, quando me lembrar dela novamente.

Outro dia ouvi uma boa definição deste tipo de humor, numa entrevista que o Marcelo Tas deu para a TV UOL. Seria como uma cosquinha entre neurônios, como se um dissesse para o outro: ih, acho que caiu uma ficha! Mas a risada só brota quando entendemos alguma coisa que não sabíamos antes. Ou seja, piada velha não funciona.

Pra variar, ser criativo é tudo.

19 de Março de 2009

A rede, na real

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:40

Para muita gente, muita mesmo, internet é sinônimo de Orkut. Nós, que escrevemos ou lemos blogs, ficamos sem noção dessa realidade. Longe da diversificação e da riqueza de possibilidades da rede, essas pessoas engordam as estatísticas espantosas de internautas no Brasil, mas conhecem apenas o universo - e as limitações - daquela rede social.

A estatística intuída foi parar na coluna do Luiz Alberto Marinho, do Blue Bus, esta semana: em janeiro, 71,5% dos internautas residenciais acessaram o Orkut, segundo pequisa do Ibope NetRatings. O diretor do instituto lembrou que o Orkut é para a internet brasileira mais do que a Globo é para a TV.

Não sei você, mas eu, sempre que tenho acesso a um computador em um espaço coletivo (agora até no cabeleireiro tem), constato que o último internauta por ali estava no Orkut. Ontem, olhando de rabo de olho para telas alheias, fiquei dividida. De um lado, a esperança: uma dupla explorava o Google Earth. Do outro, com fone no ouvido, um rapaz via o repórter Vesgo, no Youtube.

16 de Março de 2009

Convenção

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:08

Eles chegaram ao hotel em ônibus fretados, desceram em algazarra e logo tinham tulipas de chope na mão. “Tudo por conta da Golden Cross”, gritou o mais corpulento, tentando ser ouvido pela turba. Eram 300 vendedores de plano de saúde, usando camisetas brancas com a inscrição “Os Vencedores”.

Nunca fui tão rápida em um check-out na minha vida.

Ler ou escrever

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:01

Uns 12 anos atrás, tive uma crise de tendinite no braço direito e descobri que a coisa mais importante da minha vida era escrever. Agora, que estou tentando me acostumar com meus primeiros óculos, acabo de perceber que estava errada: impossível mesmo é viver sem ler.

Ficar sem escrever, alguns dias, até dá. Mas ler? Passei o fim de semana tentando “descansar a vista” para estancar uma dor de cabeça - em vão. Senti-me como uma inválida, sem ter o que fazer, tentada pelo livro ao lado, o jornal, o blackberry, a revista.

Tomara que eu não precise quebrar uma perna para descobrir a importância delas…

11 de Março de 2009

Ainda em fase de adaptação

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:56

Ontem, escrevendo uma matéria, tive o prazer inenarrável de usar trema, em um sobrenome alemão. Acho que citei o sujeito mais do que precisava só pela delícia de respingar o “u”.

Em compensação, não pude evitar uma “ideia” no texto. Passei a implicar horrores com a palavra. A reforma ortográfica chamou a atenção para a falta de criatividade por trás dela. “Ideia” tornou-se quase “coisa”, de tão genérica, preguiçosa e comum.

Pode reparar: nenhuma outra, alterada pela reforma, é tão usada em jornais, revistas e internet. Sempre dá para substitui-la por outra palavra mais precisa, mais pertinente, e quem sabe com um acento bem bonito…

9 de Março de 2009

Explorando crianças

Arquivado sob: Diversão e arte, Jornalismo — Marta @ 20:47

A publicidade há tempos percebeu que colocar um bebê fofo em comercial de inseticida aumenta as vendas do produto. Em outro exemplo extremo, o mendigo da esquina vê as esmolas engordarem quando pede emprestada uma criancinha para embalar na calçada. Acostumamos-nos a este tipo de exploração, algumas mais nocivas do que outras, e deixamos pra lá.

Mas acho que existe um limite aceitável para este tipo de exploração na mídia. Cheguei a pensar que tinha um problema particular - a maternidade havia me tornado sensível demais ao assunto -, mas depois percebi que isso apenas me ajuda a identificar um tipo de apelação baixa e intencional, cada vez mais comum, que abala o nosso senso crítico em relação aos interesses em jogo.

Refiro-me aqui a dois episódios - um deles infinitamente menor, por ser ficcional.

No exemplo menor, estão filmes que ultrapassam o limite do bom gosto ao explorar nossos sentimentos em relação a crianças. Quando fui assistir “Quem quer ser um milionário”, já sabia das supostas influências de “Cidade de deus”, e da discussão sobre a tal estética da miséria. Antes fosse só isso. Na verdade, lá está o mesmo truque de mostrar criancinhas inocentes sendo vítimas de uma violência brutal, tudo bem maniqueísta (homens maus como picapaus aleijando criancinhas puras e ingênuas) e com ar documental, como se não houvesse outra forma de contar aquela história sem dar o devido soco no estômago do espectador.

Os dois filmes (ainda assim) são espetaculares e não precisavam das tais cenas para sensibilizar a plateia.

O segundo caso é mais delicado: o da menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto, grávida de gêmeos e acusada de homicídio pela igreja católica depois do aborto. Miséria humana total, daquelas que embrulham o estômago. A imprensa não especializada em “mundo cão” cumpria seu papel de informar, denunciar, colocar o debate em pauta. Mas aí começaram as apelações: o arcebispo que quer aparecer, e consegue, a necessidade de suitar a qualquer preço, as imagens do corpinho da menina, os especialistas-urubus palpitando.

Apelar para a nossa indignação diante da violência com crianças sempre dá audiência. Mas e o limite, do bom senso e do bom gosto? Será que só eu fico pensando na criança, que precisa ficar em paz, e não na televisão?

Nem dá para acusar só a mídia brasileira de extrapolar. A família do menino Sean parece que resistiu o quanto pôde a expô-lo. Mas a exploração da sua imagem, nos Estados Unidos, levou a um contra-ataque. Sem a tentação de cair no nacionalismo que envolve disputas internacionais (vide o caso da brasileira na Suíça), está claro o pouco interesse do pai no bem-estar do menino. Tomara que apareça um rei Salomão para julgar o caso.

7 de Março de 2009

Vik Muniz

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 20:04

A má notícia é que amanhã é o último dia no Rio. A boa, para os paulistas, é que exposição de Vik Muniz chega ao Masp em abril. É imperdível. Passei a semana toda impactada pelos trabalhos do artista.

Fui ver sem muita expectativa, mais pela curiosidade de saber quem era esse brasileiro que virou queridinho em Nova York. Pois Vik virou celebridade porque desconcerta as pessoas, tira-as do seu lugar e as transporta para dentro do seu processo criativo.

Ao compartilhar conosco esse processo, percebemos o toque do gênio, de alguém que viu o que ninguém viu, de quem consegue extrair poesia do detalhe e chegar a um todo arrebatador. É como se ele desconstruísse o mundo para recontá-lo.
Mas não dá para descrever. Tem que ver, e sentir. Vá lá.

4 de Março de 2009

Quem sabe na página seguinte

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:08

Pode ser impressão (ou pressão, dos prazos), mas acho que está mais difícil pesquisar na internet. Houve um tempo em que, com as palavras-chaves certas no Google, pimba, achava-se facilmente o assunto ou a fonte procurada.

Agora é preciso passar os olhos, dinamicamente, por páginas e páginas com sites e blogs irrelevantes, que podem até mencionar ou analisar superficialmente o objeto da pesquisa, mas não servem como fonte confiável. A cada clicada em falso, perdemos segundos preciosos até identificar que se trata apenas de um sujeito esbravejando sobre o tal assunto.

Posso estar na contramão do vale-tudo por audiência, mas sinceramente não espero que o meu blog atrapalhe o caminho de quem está procurando uma notícia ou um conteúdo oficial na internet.

Imagino que os meninos do Google estão atentos a isso, afinal não querem que eu desista das buscas. Mas desconfio que os sites que produzem conteúdo original, especialmente os veículos de comunicação, têm culpa no cartório. Ao entrar no jogo da internet pela metade (fechando o conteúdo, ignorando os truques para ganhar destaque), acabam tornando-se irrelevantes nas buscas.

A aposta faz sentido: querem valorizar um conteúdo que custa caro produzir, e que ainda não se paga de outra forma na internet. Mas é também arriscada: antes de se renderem aos pagamentos - ou micropagamentos -, as pessoas podem se acostumar com informações não tão confiáveis - ou aprender a confiar em algumas delas.

Como este não é o meu caso, lá vou eu, para a página seguinte, em busca do meu tempo perdido (escrevendo este post).

3 de Março de 2009

Bolinhas de sabão

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 20:32

O ano começou pra valer, dizem. Mesmo assim, o verão cisma de continuar bombando no Rio, como se fossem férias. Tento ignorar, me concentrar no trabalho, quase consigo, quando, de repente…

Bolinhas de sabão. Centenas, por toda a parte. Meu escritório fica no sétimo andar, mas elas passam zunindo em direção ao céu. Vou até a janela e tento identificar o fenômeno. Uma criança jamais teria tanto fôlego, então deve ser um vendedor do produto, com algum demonstrador potente, penso eu.

Nada. Novas bolinhas não surgem, então é impossível achar a sua fonte, embora as primeiras permaneçam brincando com o vento, em plena Visconde de Pirajá. Deixo para lá, volto ao computador, sento, e a festa das bolinhas recomeça, salpicando o cinza dos prédios e alguns pedaços de céu azul.

Na hora do almoço, vasculho a calçada, quem sabe encontro o tal um camelô, mas o mistério continua. As pessoas passam apressadas, afinal o ano já começou e Ipanema não é nenhum parque de diversões.

Só no dia seguinte iria descobrir que as bolhas saíam de um desses painéis de publicidade com relógio digital e temperatura. Propaganda de sal de fruta… Nem sei se é novidade, mas há tempos não me entretia tanto com uma ação publicitária.

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