A publicidade há tempos percebeu que colocar um bebê fofo em comercial de inseticida aumenta as vendas do produto. Em outro exemplo extremo, o mendigo da esquina vê as esmolas engordarem quando pede emprestada uma criancinha para embalar na calçada. Acostumamos-nos a este tipo de exploração, algumas mais nocivas do que outras, e deixamos pra lá.
Mas acho que existe um limite aceitável para este tipo de exploração na mídia. Cheguei a pensar que tinha um problema particular - a maternidade havia me tornado sensível demais ao assunto -, mas depois percebi que isso apenas me ajuda a identificar um tipo de apelação baixa e intencional, cada vez mais comum, que abala o nosso senso crítico em relação aos interesses em jogo.
Refiro-me aqui a dois episódios - um deles infinitamente menor, por ser ficcional.
No exemplo menor, estão filmes que ultrapassam o limite do bom gosto ao explorar nossos sentimentos em relação a crianças. Quando fui assistir “Quem quer ser um milionário”, já sabia das supostas influências de “Cidade de deus”, e da discussão sobre a tal estética da miséria. Antes fosse só isso. Na verdade, lá está o mesmo truque de mostrar criancinhas inocentes sendo vítimas de uma violência brutal, tudo bem maniqueísta (homens maus como picapaus aleijando criancinhas puras e ingênuas) e com ar documental, como se não houvesse outra forma de contar aquela história sem dar o devido soco no estômago do espectador.
Os dois filmes (ainda assim) são espetaculares e não precisavam das tais cenas para sensibilizar a plateia.
O segundo caso é mais delicado: o da menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto, grávida de gêmeos e acusada de homicídio pela igreja católica depois do aborto. Miséria humana total, daquelas que embrulham o estômago. A imprensa não especializada em “mundo cão” cumpria seu papel de informar, denunciar, colocar o debate em pauta. Mas aí começaram as apelações: o arcebispo que quer aparecer, e consegue, a necessidade de suitar a qualquer preço, as imagens do corpinho da menina, os especialistas-urubus palpitando.
Apelar para a nossa indignação diante da violência com crianças sempre dá audiência. Mas e o limite, do bom senso e do bom gosto? Será que só eu fico pensando na criança, que precisa ficar em paz, e não na televisão?
Nem dá para acusar só a mídia brasileira de extrapolar. A família do menino Sean parece que resistiu o quanto pôde a expô-lo. Mas a exploração da sua imagem, nos Estados Unidos, levou a um contra-ataque. Sem a tentação de cair no nacionalismo que envolve disputas internacionais (vide o caso da brasileira na Suíça), está claro o pouco interesse do pai no bem-estar do menino. Tomara que apareça um rei Salomão para julgar o caso.