O bloco das mijonas
Muito se falou dos mijões do carnaval carioca. Enfileirados, voltados para muros e árvores, eles foram flagrados às centenas pelos repórteres fotográficos de plantão, com a impossível tarefa de tentar captar o insuportável cheiro de urina deixado pelos blocos nos quatro dias de folia.
(Aqui, um parêntese. Tempos atrás, quando o carnaval do Rio restringia-se a bailes e sambódromo, passei o feriado em Salvador e constatei o mesmo problema fedorento. Só que lá ninguém falava disso. A atual indignação com os nossos mijões só reforça a minha teoria de que no Rio as pessoas exercem mais sua cidadania do que em qualquer outro lugar do país. Mas tem um detalhe: eu posso criticar; você, turista que veio para cá, trate de tapar o nariz e elogiar a paisagem)
Pois bem, os mijões-foliões marcaram seu território, ignoraram banheiros químicos plantados no meio das calçadas e ajudaram a engrossar o bloco dos descontentes com o fenômeno da volta do carnaval de rua ao Rio de Janeiro. Mas, enquanto isso, como se viravam as mulheres, principal atração de qualquer carnaval que se preze?
Errou quem achou que elas, por razões culturais e históricas, aprenderam a conter suas necessidades fisiológicas – e fazer xixi só em casa. Errou também quem apostou que as mulheres bebem menos cerveja que os marmanjos: faz tempo que se igualaram ou até superaram o ritmo etílico masculino. Continuou errando quem imaginou-as ocupando maciçamente os tais banheiros químicos, aproveitando para passar batom, enquanto os pobres coitados tinham que se aliviar na moita.
Nada disso. Longe das lentes dos fotógrafos, o bloco das mijonas se valia de alguns antigos – e novos – artifícios femininos para passar despercebido. Durante a folia, lançavam mão da conhecida capacidade de olhar perifericamente (a mesma para usada para aproximar-se de pretendentes e afastar-se dos inconvenientes) para localizar o provável banheiro limpinho mais próximo. Escolhido o alvo, ajeitavam cabelo e fantasia, adotavam a expressão mais sóbria possível e partiam determinadas, geralmente em duplas.
Foi almoçando em um restaurante com porta fechada e ar condicionado, bem próximo a um bloco, que pude observar as muitas estratégias de uma mulher determinada - e ligeiramente bêbada. A primeira dupla, humilde demais, ou desesperada de menos, foi logo despachada pelo garçom. Não, não podiam usar o banheiro. Mas a regra só valeu até a chegada de uma linda bailarina de collant preto e saia de tule amarela. Estava sozinha. Rosto de boneca, emoldurado por um coque ainda perfeito, olhos vermelhos, abriu um sorriso e jurou que depois sentaria e tomaria uma água. Em vez disso, saiu de lá com uma cerveja long neck na mão, três vezes o preço da latinha vendida pelos ambulantes.
A dupla seguinte não tinha a mesma classe da bailarina, mas era bem simpática. Uma de Branca de Neve, outra de anteninhas, entraram com latinhas na mão e mal conseguiam conter o riso. Hesitaram na porta, diante do ambiente formal, mas miraram o canto oposto e seguiram em passos firmes, sem olhar para os lados. Era o canto errado. Pior que isso, longe o suficiente do banheiro para serem interceptadas pelo garçom. As súplicas não foram convincentes, até porque ambas continuavam com expressão de quem está prestes a cair na gargalhada.
Como eu estava perto da porta, acompanhando a movimentação no até então pacato restaurante, o garçom explicou, sem jeito: “Se a gente deixa entrar, uma avisa para as outras e vira um inferno.” Quase me senti culpada por poder, a qualquer momento, levantar-me e usar o disputado banheiro. E eu nem estava apertada.
Com certeza o bloco carnavalesco começava a se dispersar, já que as investidas tornaram-se mais frequentes. O maitre passou a fazer guarda na porta. Mesmo assim, em um momento de distração, adentrou a mijona mais agressiva da tarde. Peruca “nega maluca” na cor azul, olhos vidrados, tentou localizar o banheiro antes de ser percebida no ambiente, inutilmente. Mesmo contida, continuava procurando o sanitário com os olhos, como uma viciada em crise de abstinência. Saiu falando alto: “Eu sei, eu sei”. O garçom me olhou novamente, como que se desculpando.
Depois tentei lembrar como eu me virava nos meus tempos mais carnavalescos, mas o máximo de recordação que me veio à mente foram os “plantões de porta”, em que as repórteres às vezes tinham que implorar por um banheiro de padaria. O crachá do jornal, no lugar da fantasia, devia ajudar.

