25 de Fevereiro de 2009

O bloco das mijonas

Arquivado sob: Rio, Crônicas — Marta @ 17:21

Muito se falou dos mijões do carnaval carioca. Enfileirados, voltados para muros e árvores, eles foram flagrados às centenas pelos repórteres fotográficos de plantão, com a impossível tarefa de tentar captar o insuportável cheiro de urina deixado pelos blocos nos quatro dias de folia.

(Aqui, um parêntese. Tempos atrás, quando o carnaval do Rio restringia-se a bailes e sambódromo, passei o feriado em Salvador e constatei o mesmo problema fedorento. Só que lá ninguém falava disso. A atual indignação com os nossos mijões só reforça a minha teoria de que no Rio as pessoas exercem mais sua cidadania do que em qualquer outro lugar do país. Mas tem um detalhe: eu posso criticar; você, turista que veio para cá, trate de tapar o nariz e elogiar a paisagem)

Pois bem, os mijões-foliões marcaram seu território, ignoraram banheiros químicos plantados no meio das calçadas e ajudaram a engrossar o bloco dos descontentes com o fenômeno da volta do carnaval de rua ao Rio de Janeiro. Mas, enquanto isso, como se viravam as mulheres, principal atração de qualquer carnaval que se preze?

Errou quem achou que elas, por razões culturais e históricas, aprenderam a conter suas necessidades fisiológicas – e fazer xixi só em casa. Errou também quem apostou que as mulheres bebem menos cerveja que os marmanjos: faz tempo que se igualaram ou até superaram o ritmo etílico masculino. Continuou errando quem imaginou-as ocupando maciçamente os tais banheiros químicos, aproveitando para passar batom, enquanto os pobres coitados tinham que se aliviar na moita.

Nada disso. Longe das lentes dos fotógrafos, o bloco das mijonas se valia de alguns antigos – e novos – artifícios femininos para passar despercebido. Durante a folia, lançavam mão da conhecida capacidade de olhar perifericamente (a mesma para usada para aproximar-se de pretendentes e afastar-se dos inconvenientes) para localizar o provável banheiro limpinho mais próximo. Escolhido o alvo, ajeitavam cabelo e fantasia, adotavam a expressão mais sóbria possível e partiam determinadas, geralmente em duplas.

Foi almoçando em um restaurante com porta fechada e ar condicionado, bem próximo a um bloco, que pude observar as muitas estratégias de uma mulher determinada - e ligeiramente bêbada. A primeira dupla, humilde demais, ou desesperada de menos, foi logo despachada pelo garçom. Não, não podiam usar o banheiro. Mas a regra só valeu até a chegada de uma linda bailarina de collant preto e saia de tule amarela. Estava sozinha. Rosto de boneca, emoldurado por um coque ainda perfeito, olhos vermelhos, abriu um sorriso e jurou que depois sentaria e tomaria uma água. Em vez disso, saiu de lá com uma cerveja long neck na mão, três vezes o preço da latinha vendida pelos ambulantes.

A dupla seguinte não tinha a mesma classe da bailarina, mas era bem simpática. Uma de Branca de Neve, outra de anteninhas, entraram com latinhas na mão e mal conseguiam conter o riso. Hesitaram na porta, diante do ambiente formal, mas miraram o canto oposto e seguiram em passos firmes, sem olhar para os lados. Era o canto errado. Pior que isso, longe o suficiente do banheiro para serem interceptadas pelo garçom. As súplicas não foram convincentes, até porque ambas continuavam com expressão de quem está prestes a cair na gargalhada.

Como eu estava perto da porta, acompanhando a movimentação no até então pacato restaurante, o garçom explicou, sem jeito: “Se a gente deixa entrar, uma avisa para as outras e vira um inferno.” Quase me senti culpada por poder, a qualquer momento, levantar-me e usar o disputado banheiro. E eu nem estava apertada.

Com certeza o bloco carnavalesco começava a se dispersar, já que as investidas tornaram-se mais frequentes. O maitre passou a fazer guarda na porta. Mesmo assim, em um momento de distração, adentrou a mijona mais agressiva da tarde. Peruca “nega maluca” na cor azul, olhos vidrados, tentou localizar o banheiro antes de ser percebida no ambiente, inutilmente. Mesmo contida, continuava procurando o sanitário com os olhos, como uma viciada em crise de abstinência. Saiu falando alto: “Eu sei, eu sei”. O garçom me olhou novamente, como que se desculpando.

Depois tentei lembrar como eu me virava nos meus tempos mais carnavalescos, mas o máximo de recordação que me veio à mente foram os “plantões de porta”, em que as repórteres às vezes tinham que implorar por um banheiro de padaria. O crachá do jornal, no lugar da fantasia, devia ajudar.

21 de Fevereiro de 2009

O dia em que entrei para a blogosfera

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 22:30

Ontem o Digestivo Cultural colocou no ar a minha coluna mais ajeitadinha, sobre carnaval, escrita com o coração inteiro (valeu, Dapieve). Comecei a colaborar com o site em janeiro, por convite do Julio Daio Borges, que me achou aqui no Espuminha, sei lá como. Apesar das primeiras colunas não terem sido lá essas coisas, o link para o blog me trouxe uma penca de leitores dos sonhos: desconhecidos, inteligentes, afiados, que entendiam o que eu escrevia sem precisarem ser meus amigos para isso. Houve mesmo uma leitora, a Angela, do Cultura de Travesseiro, que descobriu o meu esforço sobre-humano de colocar algum humor neste espaço.

Encantada com aquele comentário, fiquei de passar pelo blog dela, assim como dos outros, mas aí me enredei em trabalho, tratamento dentário, férias da filha, e quando vi já tinha deixado de lado – de novo – a etiqueta blogueira. Sim, eu já conheço algumas regrinhas da blogosfera: é preciso colocar links, deixar comentários, participar das discussões. O problema é que ainda me sinto tímida, deslocada na festa onde todos parecem tão à vontade, e o sorriso verdadeiro com o qual costumo retribuir gentilezas alheias não é captado no mundo virtual, fazer o quê. Ainda há a desconfiança com estranhos, a experiência de já ter cruzado com uma ou duas dessas figuras do mal com o dom de se multiplicar e atazanar a vida de quem está aproveitando a festa na rede.

Comecei este blog jurando despretensão, divulgando apenas para amigos e com muitas dúvidas sobre as (des)vantagens profissionais de tanta exposição. O número de acessos diários passou a me intrigar, e vez por outra aparecia um comentário de alguém desconhecido. Bem, devia ser amigo de amigo, pensava. Uma vez, me surpreendi com um link de um blog português, bem interessante, por sinal. Como fui parar lá? Sorri para o computador e visitei o blogueiro algumas vezes, sem deixar rastros.

Por trás desse comportamento caipira – que definitivamente não adoto na vida real – existe um grande desconforto com uma barreira que não é só minha: a tecnológica. Essa barreira está claramente dividindo a minha geração em duas: os que a enfrentam, e eventualmente até tornam-se “heavy users”, e aqueles que empurram o problema com a barriga, minimizando a sua importância. A experiência na divulgação do blog para os amigos me mostrou isso. Sempre que a receptividade de alguém (“Adorei!) me animava, em seguida vinha alguma prova contundente de que o mundo real pouco se interessava pelo assunto (“Blog? É aquela história de Orkut?”) ou pelo que eu escrevia (“Não tenho paciência com internet; mas quando você escrever um livro…”).

O que mais me desanimava, quando eu pensava em me inserir pra valer na tal blogosfera, e buscar leitores em outras praias, era a falta de traquejo com tecnologia. Não entendia metade dos termos usados pelos cadernos especializados, me perdia nos links explicativos das páginas com os assuntos que me interessavam, saía da experiência exausta – e talvez um pouco mais sabida. Li do avesso as páginas da Locaweb para configurar o blog, penei com spams até descobrir que devia ter instalado um anti-spam, levei três dias para aprender a ficar conectada via smartphone. Enquanto isso, percebia que os “iniciados” dominavam a blogosfera: por todo lado havia gente mais tecnológica e multimídia do que eu, com estratégias para aparecer em primeiro lugar nas buscas do Google, para turbinar a audiência, colocar vídeos, se relacionar na rede, ganhar dinheiro. Eu sabia apenas escrever. Estava na cara que não ia muito longe.

Foi então que percebi que a periferia da blogosfera era suficiente para mim. No meu ritmo “light user”, aprendi a colocar links num dia, e no outro a inserir fotos. Para o que mais me importava, – escrever – o esforço era zero. Apenas prazer. Bom demais da conta, eu diria, se fosse caipira de verdade. Mas aí, de repente, veio o Julio, o Digestivo e uma penca de leitores interessantes e interessados. De novo, problemas tecnológicos: cada vez que um deles coloca, junto com o comentário, o endereço do blog, o nome é omitido, como se tratasse de um anônimo. Caiu a ficha de que meus comentaristas antigos não tinham blogs, ao contrário dos novos. Editei os comentários, para os nomes aparecerem, revirei as instruções da Locaweb e não descobri a solução, que deve ser uma bobagem para os “heavy users”.

Os problemas tecnológicos vão continuar, tenho certeza. Mas agora penso que, se a coisa apertar, posso pedir uma mão para os novos amigos virtuais. Além disso, descobri que existem muitas formas de entrar para a tal da blogosfera.

18 de Fevereiro de 2009

Desejo

Arquivado sob: Femininas, Crônicas — Marta @ 16:01

Até os homens mais distraídos já notaram. Nos últimos meses, mulheres de todas as idades, credos e profissões têm desfilado por aí com dedinhos iluminados e petulantes, que parecem ter vida própria em mãos e pés comportados. Tudo por causa de Desejo, um esmalte vermelho “bem aberto”, que nem chega a engrossar no vidrinho da manicure, tamanha é a procura. “Só perde para o Renda”, me informa a mocinha do salão. Renda, para quem chegou agora, é um esmalte claro, tipo misturinha, usado há décadas pelas mulheres (nos momentos em) que preferem não chamar a atenção.

“Que horrível, parece cor de abóbora”, reage minha mãe, que no passado usava vermelhão “fechado”, mas com a idade rendeu-se ao Renda, com o perdão do trocadilho. “Que lindo, é Desejo, né?”, perguntam as amigas. Hummm… Quando a mãe censura, as amigas invejam e o carnaval se aproxima… Bem, eu apostaria que o Desejo vai bombar neste carnaval. Quem sabe o início de 2009 não ficará conhecido como o “verão do Desejo”?

Falei de homens desatentos em relação a esmaltes femininos, mas desconfio de sua inexistência. Uma mulher pode tosar o cabelo, usar vestido novo, fazer lipoaspiração, que o sexo oposto parece ignorar. Já unhas compridas e vermelhas, ou curtas e pretas, parecem atrair imediatamente o olhar dos namorados mais autistas e dos maridos mais aborrecidos. Muitos juram não gostar, mas os olhares hipnotizados cismam em trair suas convicções. Afinal, o que eles sentem em relação ao Desejo?

No fundo, pouco importa. Nada mais atraente que uma mulher com a autoestima em dia. E é isso que interessa.

16 de Fevereiro de 2009

A rua da Vera Fischer

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 13:58

Entro no táxi e informo o destino vagamente. “Toca para o final do Leblon, perto do canal.” Às vezes, porém, o tiro sai pela culatra: o motorista fica de má vontade, imagina que vai enfrentar as ladeiras íngremes do Alto Leblon e lembrar do maldito dia em que adaptou o motor para gás natural. Nessa hora, melhor revelar o nome da rua, perguntar se ele conhece. O sorriso se entreabre, o peito infla, o motorista se ajeita melhor no banco. Sim, ele conhece. A expressão de sabichão pouco varia, de um taxista para o outro. “É a rua da Vera Fischer. Não sei se a senhora sabe.”

Sim, eu sei. Nunca a vi, mas já fui informada por dezenas de taxistas a respeito. No trajeto, nem adianta adotar o ar de carioca blasé, enfadado pela convivência com celebridades. O silêncio já era. A intenção de apenas fugir do bafômetro transforma-se em um “momento Caras” - fora do cabeleireiro. Serei atualizada sobre a vida amorosa da atriz, saberei que artista ele já deixou na porta do prédio ou ouvirei uma história dos tempos em que Vera “aprontava” nas vizinhanças. Impressionante como todo taxista teve oportunidade de presenciar um “barraco” da ex-miss - assim, por acaso, de passagem em uma rua sem saída. Quando finalmente entrarmos na rua, ele comentará, balançando a cabeça: “Mas parece que agora ela sossegou.”

Minha amiga de São Paulo descobriu a fama da rua na primeira vez em que ficou hospedada lá em casa. Alguém lhe ofereceu uma carona, ela aceitou e tentou explicar onde ficava a ruazinha do Leblon. Caiu por terra a minha teoria de que a referência era uma obsessão de taxistas. “Marta, sua rua é muito chique, é onde mora a…” “…Vera Fischer”, completei, resignada. Agora, ela fica se gabando para os amigos paulistas: “Vou passar o carnaval no Rio, na rua da Vera Fischer.” Pelo visto, está na hora de parar de falar dos miquinhos na varanda, e me render à grande atração do meu endereço.

Da última vez em que recebi a sua visita, no auge de uma novela de Manoel Carlos, esmerei-me no roteiro. Como todo paulista, minha amiga adora ver artista de chinelo, empurrando carrinho de bebê. Se o olho estiver com remela, é a glória, prova definitiva de que eles são gente de verdade. Propus um café da manhã no Garcia & Rodrigues, e depois podíamos folhear revistas na Letras & Expressões, até a hora de um chopinho no Jobi. O roteiro agradou, o papo estava ótimo e fingi modéstia em relação a seus comentários sobre o charme do Rio. No entanto, nada de artista. Que dirá Vera Fischer. Seria preciso despender uma pequena fortuna por uma alface do Celeiro? Talvez valesse a pena. No almoço de sábado, a sobremesa dá direito a paparazzi grátis, equipados com lentes enormes, do outro lado da calçada.

Mas um dos problemas, meu e da minha amiga, é que andamos por fora dos artistas do momento. Já devíamos ter cruzado com uma meia dúzia, do elenco de Malhação, sem nos darmos conta. Isso sem falar nos ex-Big Brother Brasil. Como ela já parecia satisfeita com a minha história (verídica) do dia em que dividi o minúsculo banheiro do (extinto) Ateliê Culinário com Fernanda Montenegro, resolvi partir para mais um chope, no Jobi mesmo, e dispensar a salada do Celeiro. E foi ali, sob o painel de Nilton Bravo, que a julguei merecedora da revelação: famoso mesmo, no Leblon, é o garçom. Seu rosto se iluminou, e percebi que ela finalmente encontrara o que procurava. Sacou a câmera da bolsa e pediu uma foto ao lado de Paiva, provavelmente a celebridade mais fotografada do bairro. Se Vera Fischer passasse por ali, ela nem notaria.

13 de Fevereiro de 2009

Carmen Miranda até dezembro?

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 15:25

carmen miranda 1 - carmen miranda 1

Você cansou de recordar a bossa nova? Não aguentava mais ouvir falar de Capitu? Pois seus problemas não acabaram com a virada do ano. Pelo aperitivo do primeiros dias de 2009, vamos ter uma overdose de Carmen Miranda. É impressão minha ou a indústria cultural está se pautando demais pelas efemérides? Que tal ser mais criativo, pessoal?

9 de Fevereiro de 2009

Ponte aérea

Arquivado sob: Rio, Crônicas — Marta @ 11:56

Era a primeira vez das gêmeas no Rio, e o passeio para o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar teve que ser adiado. Chovia forte. Para sorte do meu amigo, o pai das duas fofas de 10 anos, havia o playground do meu prédio e a minha filha para brincar. Junte duas meninas (ou três) da mesma idade, que nunca se viram antes, em um dia de chuva, e elas saberão se divertir como nunca. Se fossem adultos, ficariam resmungando.

- Vocês podem chamar os meninos do prédio para jogar queimado - sugeri. Mas aí lembrei que as gêmeas eram paulistas. - Quer dizer, jogar queimada - corrigi, mudando o substantivo para o feminino, na forma como o jogo é conhecido em São Paulo.

Quando expliquei que algumas palavras eram diferentes, lá e cá, uma das gêmeas ficou fascinada. Queria outros exemplos. Fui desencavando as expressões do fundo do baú, ou melhor, da minha memória dos tempos da mudança, de São Paulo para o Rio. Minha filha não tinha três anos na época, mas já falava tudo, com o vocabulário infantil paulistês, que eu ia traduzindo.

- Aqui no Rio o escorregador é chamado de escorrega. Bexiga é balão ou bola de festa. Bolacha é biscoito, a não ser que seja do tipo cream cracker. E por aí vai.

As três estavam interessadíssimas e adoraram a diferença que eu guardei para o final: o “parabéns pra você”.

- Não me perguntem por que, nem qual versão faz mais sentido. Mas no fim do “parabéns”, todos cantam “é big, é big” no Rio. E não “é pique, é pique”, como em São Paulo.

Minha filha, que já cantou das duas formas mas só se lembra da versão em carioquês, achou graça do jeito “errado” de São Paulo. Até hoje ela não entende por que meus amigos de Sampa riem um bocado quando ela declara, com solenidade : “sou paulixxxxta”. Já as gêmeas queriam saber que diabos os cariocas achavam ser “grande”, em inglês, na hora do parabéns. Os risos sobravam, como se estivéssemos em uma festa de aniversário.

Não consigo deixar de olhar com ternura para as diferenças entre vocabulários e culturas das duas cidades. Afinal, fui bem feliz nos meus sete anos em São Paulo. Mas também adorei voltar e ter que lidar com um turbilhão de novas sensações: a descoberta da força das raízes, os prós e contras de ser forasteira, a certeza de nunca mais se sentir inteira em um só lugar.

Mas, deixando os sentimentalismos de lado, o fato é que a falta de um glossário pode gerar problemas bem concretos para um carioca perdido em São Paulo. Logo depois da mudança, ao abrir uma conta no antigo Bamerindus, percebi o nível de dificuldades que teria pela frente. Quando a gerente me informou da necessidade de um holerite, eu garanti, convictamente, jamais ter tido um. Nem pretendia ter, fosse lá o que fosse, algo com aquele nome. Quanto mais eu desdenhava do tal documento, mais ela me olhava de cima a baixo, como se estivesse lidando com uma dondoca. Tudo se resolveu, claro, quando tirei uma pilha de contracheques recentes de dentro de uma pastinha, junto com outros papéis.

Anos depois, quando eu já tinha aprendido a soletrar a-ê-i-ô-u, percebi ter me metido em enrascada semelhante durante um lanche, com colegas de redação da Gazeta Mercantil. Eu contava uma história que não era compreendida, tudo porque afirmei que o sujeito tinha “dado a maior cagada” em determinada situação. No Rio, isso significa que ele teve sorte, mas os paulistas só conseguiam entender que ele tinha “feito uma cagada”, feito algo muito errado. Confusão desfeita, depois fiquei pensando se a expressão carioca estaria relacionada à tradição, entre os atores, de desejar “merda”, antes de um espetáculo.

Por esses e outros ruídos na comunicação, achei muito útil poder alertar as três pequenas, desde cedo, sobre a existência do paulistês e do carioquês. Vai que elas começam a brigar só porque uma quer jogar pebolim, e a outra, totó…

3 de Fevereiro de 2009

É a morte, estúpido

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 18:22

curious case benjamin button - curious case benjamin button

Sei que “cool” mesmo é sair do cinema falando dos planos-sequências, das referências a outros diretores, no máximo da interpretação do coadjuvante que rouba a cena. Mas, no caso de “O curioso caso de Benjamin Button”, não tem jeito: é inevitável sair da experiência pensando na “mensagem”. Então, se você acha isso brega, pare por aqui. Eu, pessoalmente, adoro sair da sala escura sob o impacto do que o diretor/autor queria dizer com aquilo, e de preferência ir conversar sobre o assunto no restaurante mais próximo.

Pois vamos lá. Há várias “pequenas mensagens” no filme, algumas bastante poéticas, e por isso gostaria de revê-lo em breve. Em especial, tocou-me a percepção de quanto um dos bordões dos mais velhos - “gostaria de ter a sabedoria de hoje com o vigor físico da juventude” - é uma balela. Ficamos vociferando contra as rugas, a decrepitude física e as doenças apenas para não encarar o que realmente incomoda: a iminência da morte.

Como todo mundo sabe, no filme, baseado em conto de Scott Fitzgerald, Brad Pitt rejuvesce. Vai ficando lindo, másculo, maravilhoso, enfim, virando Brad Pitt. Porém, mesmo vivendo o auge de sua forma física aos 60 ou 70 anos, como todos nós pensamos desejar, ele é tomado pela melancolia. Por conta da vida que ficou para trás, e não voltará jamais, e da certeza de que o fim que se aproxima.

Ao “domar” o “problema” da velhice, mas não o da passagem do tempo, a fábula nos mostra o quanto perdemos tempo (olha eu aqui preocupada com ele) com um falso problema. Afinal, botox não faz ninguém viver para sempre.

Espuminha de leite | Dicas, atualidades e assuntos para o café