31 de Janeiro de 2009

Fina estampa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:43

A primeira viagem internacional da minha vida foi para a Jamaica, para fazer uma matéria para o caderno de turismo do Globo. Dá para imaginar o quanto tudo era novidade para mim. Mesmo assim, uma das coisas que mais me impressionaram foi a roupa usada pelas mulheres: vestidos estampados, muito coloridos - nada a ver com os tons monótonos e neutros que usamos por aqui, e que vemos nos filmes americanos. Isso apesar de o país estar ali do ladinho dos Estados Unidos, origem da quase totalidade dos seus turistas.

Com o tempo, e novas viagens, fui descobrindo o quanto aquilo era mesmo excepcional. Jeans opacos, compostos com brancos e beges, costumavam compor as roupas mais indicadas para a tentativa (mesmo assim vã, por outros motivos) de não parecer turista em países estrangeiros. Com a ressalva de que não tenho muitas nações exóticas carimbadas no passaporte, lembro apenas de outro lugar onde os tons da indumentária local me impressionaram, a Tailândia - mas talvez a percepção esteja mais relacionada à cor abóbora, absolutamente vibrante, do traje dos monges, que andam em bandos pelas ruas.

Isso tudo me veio à mente ontem enquanto eu caminhava pelas ruas de Ipanema. Mulheres de vestidos longos, com estampas fortes - florais, tropicais, psicodélicas -, andavam esvoaçantes, colorindo as calçadas, tornando a paisagem interessante. Mas sei que é tudo moda passageira, e o cinza já foi anunciado como a cor da próxima estação. Que pena. Podíamos ser um desses lugares cheios de personalidade e orgulhosos da cultura local.

29 de Janeiro de 2009

Casamento à mesa

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:16

O restaurante ainda estava vazio, e por isso ela seguiu, com passos resolutos, em direção a uma mesa de canto. Ele ficou no caminho. Preferia uma mesa mais central, explicou. Como assim? Ela pareceu não acreditar, e o fitou com espanto. Há 20 anos ela disputava mesinhas de canto, as mais aconchegantes, de onde podia ter uma visão panorâmica. Não era ‘possível’ que ele não soubesse disso.

O problema é que ele ficava de costas – sempre. Precisava se contorcer para comandar o garçom, e sua única paisagem era a parede. Nunca tinha falado, mas hoje cedo, quando se olhou no espelho, decidiu que seria diferente. Apesar do impasse, o marido permanecia tranquilo, para desespero da mulher.

Ele era um grosso, ela tentou murmurar, mas a voz saiu elevada, e se espalhou, porque ainda estavam de pé. A mulher rendeu-se e sentou-se na mesa escolhida por ele, para poder brigar com alguma discrição; odiava parecer escandalosa. Esperava que estivesse sendo gentil, um cavalheiro, todos esses anos. Mas não. Ele ficava contabilizando paredes de restaurantes, torções de pescoço, para um dia jogar tudo na sua cara.

Nos instantes de silêncio instalados pela presença desconfortável do garçom, a mulher desviou o olhar, com rabo de olho, e tentou imaginar o ângulo do marido, se estivessem na mesa proposta por ela. Ah, mas não ia lhe dar razão, não nessas alturas. Se era tão ruim ficar de costas, por que não tinha falado antes? Agora ficava claro. Antigamente, a parede não o incomodava, porque a amava. Mas o amor tinha acabado, hoje, pela manhã, quando ele ficou se admirando no espelho.

O marido desconversou, disse que a mulher estava fazendo tempestade em copo d’água. Quando os pratos chegaram, o ritual mecânico dos talheres os distraiu e a ordem parecia reinar novamente. Por pouco tempo. Na hora da pedir a sobremesa, ele não quis dividir uma com ela. Queria a mousse de chocolate, inteirinha, só para ele. Ela resolveu pedir o divórcio.

26 de Janeiro de 2009

Abaixo a exclamação

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 20:20

Não, este não é mais um texto sobre as novas regras ortográficas. Mas já que andamos desabafando sobre amores ao trema e saudades de acentos perdidos, aproveito o ensejo para compartilhar um incômodo recente. Não aguento mais o excesso de pontos de exclamação.

Ok, reconheço que abuso das reticências no blog (e apenas nele, juro…), mas isso não é motivo para você, que adora colocar um ponto de exclamação para enfatizar suas evidências, pegar no meu pé.

Proponho um movimento para que todo escritor pense duas vezes quando for usar este ponto. Será que ele não está subestimando seu leitor? Que tal reler a frase e perceber que a graça ou ironia já está embutida ali, em palavras bem escolhidas, sem precisar de exclamação? Se a intenção é enfatizar, uma frase curta, com um ponto final, funciona bem melhor. Sem dúvida.

Outro dia li um livro, de uma autora psiquiatra, que abusava dos pontos de exclamação. Foi insuportável, só conseguia pensar em onde foram parar os revisores das editoras.

Mas abro uma exceção para as exclamações. No caso de e-mails, MSNs etc, elas são preferíveis ao risco de um mal-entendido, com relação ao tom do recado. Se você quer ser simpático (e talvez um pouco bobo), vá lá, tasque uma exclamação, e seu interlocutor não verá uma expressão séria por trás de uma frase interpretada de forma enviesada.

Mas só nesse caso, ok?

22 de Janeiro de 2009

Samba do desfile doido

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:28

Desfile na São Paulo Fashion Week, um dos estilistas explica como a coleção foi concebida. A ideia era falar da crise econômica mundial, mostrar como ela nos afeta e traduzir isso nas roupas. Ele falava com tanta seriedade e propriedade, que resolvi prestar atenção, até porque gosto de moda.

O estilista contou que a grife pediu a ajuda de um economista, que achou por bem explicar o que se passa no mundo por meio de um poema. Nos versos, o economista-poeta mostrava que, por causa da crise, o tudo e o nada se igualaram. Tudo virou nada, o nada virou tudo.

E quem poderia falar sobre o nada? Os cegos, claro, concluiu o estilista, tão certo quanto dois e dois são quatro. Por isso, eles continuaram sua “pesquisa” no Instituto Benjamim Constant, entrevistando cegos sobre o nada. Explicação dada, começa o desfile na Marquês de Sapucaí, quer dizer, na passarela da Bienal.

Como eram as roupas? Feias. Como a crise.

18 de Janeiro de 2009

Cauda curta

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 11:25

Eu deveria estar confortável, no meio de uma cauda muito longa, segundo a teoria de que os “hits” estão dando lugar aos produtos de nicho na esfera cultural. Mas não. De repente, de onde menos espero, vem um comentário sobre o fim da novela das oito ou o novo Big Brother Brasil. Dá vontade de viajar para Marte.

Aqui no Rio, ainda temos o carnaval. Não há como fugir dele, ou melhor dos palpitantes preparativos que o antecedem. E olha que raramente meu controle remoto “desce” aos canais abertos. O caderno de TV, em um domingo como hoje, fica intacto, no meio dos classificados. Cada vez me informo, e me divirto, mais pela internet.

Mesmo assim, até nos canais a cabo, aparecem inserções sobre o BBB. Aí aquele cronista, que você jamais suspeitaria, resolve fazer um perfil psicológico da vilã na novela (impossível não saber que seu nome era Flora). Gente, cadê a cauda longa? Bem, pelo menos a minha filha passou incólume pela era Xuxa, o que não é pouca coisa…

12 de Janeiro de 2009

Antônio Torres e a arte de ser um boa-praça

Arquivado sob: Diversão e arte, Crônicas — Marta @ 19:06

O jovem romancista Antônio Torres escrevia “Carta ao bispo” quando percebeu que precisaria da autorização de Vinícius de Morais para usar um poema dele no livro. “A hora íntima” (Quem pagará o enterro e as flores/Se eu me morrer de amores?) seria recitado por um personagem, se não houvesse restrições.

O ano era 1979, e Vinícius estava cercado de fãs no lançamento da revista masculina Status, com fotos de Fafá de Belém e texto do poetinha. Torres faz que ficou encabulado na hora de abordar o seu ídolo, e a platéia da Casa do Saber acredita, relevando se tratar do mesmo orador desenvolto e carismático à sua frente. O fato é que, nessa história, o escritor apresentou-se timidamente e surpreendeu-se com a receptividade de Vinícius.

“Que poema você quer citar no livro?”, indagou o poeta. Diante da resposta, exacerbou-se: “É o meu melhor poema! Claro que você pode publicar!” Torres ficou feliz da vida, pelo encontro festivo e pela revelação. Mas não demorou para descobrir, por Antônio Callado, que Vinícius sempre afirmava entusiasticamente ser “aquele” poema, escolhido por seu interlocutor, também o seu preferido.

Em outro “causo” contado mais adiante, para deleite dos alunos, Torres mostrou como pegou o jeito, e inverteu a situação, anos depois. Diante de um carrancudo João Cabral de Melo Neto, convicto de ser odiado pelos paulistas, apesar de todas as argumentações em contrário, Antônio Torres mudou de estratégia: “Os paulistas têm razão de odiá-lo”, afirmou. “Afinal, São Paulo não tem um ‘João Cabral de Melo Neto’.” E finalmente conquistou a simpatia do poeta. “Nunca tinha pensado nisso”, rendeu-se ele, num muxoxo.

Enquanto Torres falava, fiquei pensando em como artistas cheios de talento, como ele e Vinícius, que bem podiam cultivar o enorme ego típico da categoria, tornam-se autênticos boas-praças. Imagino que, com o tempo, eles desenvolvam o talento (de novo!) de falar o que amigos e conhecidos gostariam de ouvir.

Veja bem, eles não ‘precisam’ fazer isso. O boa-praça não é absolutamente um puxa-saco, até porque não precisa ser. Ele apenas descobriu a delícia de ser generoso com os outros, todos os outros, com o mundo, que, afinal, é a sua matéria-prima. Despeja simplicidade, generosidade e “boa-pracice” por aí, e, em troca, realimenta o seu próprio bom-humor, ganha o dia, quem sabe a inspiração para um personagem ou uma perspectiva diferente sobre o poder avassalador da vaidade humana.

Ah, a vaidade.

Depois dessa aula, lembrei da outra oficina que fiz, com um escritor com o qual sou ainda mais familiarizada, para não dizer fã de carteirinha. Moacyr Scliar também se deixava levar pelas perguntas dos alunos/admiradores, sempre ávidos por “causos”, quando revelou como se inspirava para dar conta da fila de autógrafos nos lançamentos de seus livros, sem melindrar ninguém. “O segredo é exaltar as qualidades da pessoa que pede a dedicatória”, ensinou. Gelei.

Na véspera, eu tinha ficado toda prosa com seus elogios a uma crônica do blog, lida em voz alta. “Você tem alma de cronista”, chegou a dizer. Na saída, saquei da bolsa o volume de “O texto, ou: a vida – uma trajetória literária” e pedi seu autógrafo. Ele caprichou: “À Marta, uma homenagem ao seu talento literário”. Não preciso dizer que os elogios rasgados ficaram reverberando em meu quarto, noite adentro, dificultando o meu sono.

Sem dúvida, outro boa-praça, o fabuloso Scliar.

9 de Janeiro de 2009

Satisfeita, Iolanda?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 20:10

Um homem não queria sair de casa, mas foi convencido pela mulher a assistir à peça “O livro de Jó”, com Matheus Nachtergaele. No último ato, depois de ver Matheus nu, todo ensangüentado, pendurado em pau-de-arara, próximo à platéia, ele virou-se para ela e disse, cheio de ironia: “Satisfeita, Iolanda?”.

A história é do ator Paulo José, e está no blog do Mauro Ventura. Morri de ri, e achei uma boa oportunidade de lincar para o blog, um dos melhores do portal do Globo. Ah, o post (Oswalda) tem outras frases ótimas do ator.

O homem bonzinho

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 17:17

Pelo trailer e pela sinopse, imaginei o filme “Um homem bom” (”Good”) diferente. Durante a projeção, fui tomada por uma sensação de estranhamento em relação ao tal homem do título, como se esperasse, em algum momento, que ele revelasse a sua grandeza de protagonista, para o bem ou para o mal.

Mas o homem bom, na verdade, é um homem bonzinho. Fraco e tolo, como sempre são os bonzinhos. Nascido para coadjuvante. Ele é tão comum por aí que não valeria uma crônica, um curta-metragem, não fosse o pano de fundo nazista e a forma como o personagem é inserido acidentalmente neste inacreditável capítulo da história da humanidade.

Talvez no pano de fundo tenha residido a meu desconforto em relação à história do professor de literatura que adere ao nazismo com a ingênua convicção de que não está se comprometendo. A situação limite do nazismo parece mais apropriada a personagens fortes, Mengelers e Schindlers, algozes, heróis ou vítimas com os quais possamos nos identificar ou repudiar - e depois respirar aliviados por saber como teríamos agido naquela situação terrível.

Pois o professor Halder se julga bom, e de fato cresceu ouvindo que era um bom menino, tão prestativo. Mas é manipulado o tempo inteiro, pelo regime nazista, pela amante interesseira, pela mãe doente. E sequer consegue gozar das benesses advindas de sua covardia e falta de posicionamento (se conseguisse, se tornaria mau, e encarnaria o protagonista mais óbvio que eu esperava encontrar).

Mas a vida é assim, protagonizada por pessoas que fazem o mal por falta de convicções mais fortes, por falta de discernimento, por acaso. Em geral, fazem pequenas maldades, pois não costumam ter acesso às grandes, e acreditam piamente que não estão se comprometendo. Se titubeiam, dão uma olhadela em volta, em busca do apoio de um suposto senso comum - e logo esbarram em alguém como eles, com algum raciocínio frouxo que justifique seus atos.

O filme do brasileiro Vicente Amorim incomoda, possivelmente, porque junta o holocausto ao raciocínio frouxo que justifica tanta coisa hoje em dia, e ainda lha dá a feição de um protagonista quase simpático, sensível e sonhador. A sorte dos “Halders” da atualidade é não se confrontar diretamente com realidades tão brutais, que podem ser fruto de sua omissão ou fraqueza de caráter. No caso do professor alemão, ele simplesmente não dá conta da realidade. Nua e crua, explícita em um campo de concentração, a maldade é demais para o homem bonzinho.

6 de Janeiro de 2009

Livros na rede

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:25

Sim, o livro de papel também vai acabar acabando. Tinha minhas dúvidas, mas esse artigo, que saiu ontem no caderno Digital do Globo, me convenceu definitivamente.

De certa forma, isso tudo bate com meu novo sonho de consumo: um netbook levinho, de um quilo, com um bom acesso a internet. Algo que eu possa levar na bolsa e parar para ler e escrever em qualquer lugar, a qualquer hora.

Acredito que os livros bonitos continuarão existindo. Mas quando só o que interessa é o texto, o livro eletrônico cumprirá perfeitamente o seu papel (!), se for leve e amigável, com uma tela que não pareça tela nem arda os olhos.

Depois, será como as músicas de hoje em dia. Os livros estarão de graça na internet, e caros na livraria…

2 de Janeiro de 2009

Que ideia

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:17

Eu achava que ia tirar de letra. Mas sei não. Pelos primeiros textos que li com as novas regras ortográficas, deu para perceber que algumas palavras vão doer nos olhos, incomodar, interferir no prazer da leitura.

A primeira delas, pelo visto, é ideia. As ideias desacentuadas ficam pululando no texto, parecem repetidas à exaustão, quase perdem a originalidade.

Aqui mesmo, neste blog, eu tinha minimizado as mudanças ortográficas. Fiz até piada. Agora, porém, percebo que vou sofrer com essa transição. Sério.

Réveillon em Copa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:51

Um dos muitos problemas do réveillon em Copacabana, para quem não conhece ou já se esqueceu, é conseguir sair de lá depois da queima de fogos. Por isso, é comum que os “felizardos”, convidados para uma festa (serve o quitinete de um amigo) no bairro, assumam uma estranha tarefa na manhã do dia 31: deixar o carro estacionado, antes que as entradas e saídas sejam fechadas ao trânsito.

Isso mesmo. Um bocado de gente vai para lá cedo, deixa o carro numa vaga, paga uma pequena fortuna e volta para casa. À noite, pega um táxi ou ônibus e, aí sim, ruma para a festa. Na volta, quando as pessoas estarão se estapeando por um táxi, os prevenidos sairão lépidos e fagueiros, exercendo o seu sagrado direito de ir e vir.

Uma amiga nossa, na tarde do dia 31, comemorava o fato de ter um tio morando em Copacabana. E com uma vaga sobrando. “Acabei de deixar o meu carro no prédio dele. É um ponto ótimo, no Corte do Cantagalo, bem perto da saída, nem vou pegar engarrafamento.”

No que o Zé, depois, comentou: “Muito estranho que a melhor coisa de uma festa seja o fato de se conseguir sair dela com facilidade.” Observador, esse meu marido.

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