De mãos dadas
Sempre me intrigaram os casais que não andam de mãos dadas. Em geral, não são mais namorados, e podem até estar casados há décadas, o que justificaria o gesto – ou melhor, a falta dele. Mas o casamento ou a duração da relação não parecem ser os critérios, já que podemos observar casais bem velhinhos caminhando na calçada, de mãos entrelaçadas, como tem que ser.
Sim, tem que ser. Imagino que seja uma dessas regras universais – tirando, claro, o caso das culturas mais exóticas aos nossos olhos, nas quais as mulheres são obrigadas a andar atrás de seus “senhores”, por exemplo.
Tem que ser porque o toque das mãos é o começo do amor. Costumava vir antes do beijo, na era que precedeu à da “ficação”. Só perdia para o encontro dos olhares, mas este deixa margens a dúvidas. Já as mãos, não. Se são acariciadas e retribuem o toque com igual delicadeza, o enlace está caracterizado. Se, diferente, o encontro de mãos se dá de supetão, por iniciativa masculina cheia de determinação, a promessa de namoro é logo compreendida. Namoro longo, desses com cinema e pipoca.
Mas eis que um dia as duas mãos não mais se juntam, permanecem penduradas, lado a lado. Terá sido a pressa dele, uma distração que ela não perdoou, mas também não cobrou, porque tantas mágoas já estavam acumuladas? Ou teria sido ela própria quem recusou o aconchego mecânico, entediada ou irritada que estava? Vai saber.
Tenho a impressão que mãos, uma vez largadas, não se unem mais. O casamento pode até durar, manter algum tipo de cumplicidade, mas uma distância sempre estará separando aquelas duas pessoas. Uma distância de apenas alguns centímetros e um gesto, mas que revela um tipo de não-entrega, de solidão a dois.
Quando andamos na rua com uma criança pequena, o ato de pegá-la pela mão é automático, denota proteção e cuidado. Quando se torna “grande”, a criança passa a recusar a mão do adulto (os meninos antes das meninas, veja só). Ela precisa mostrar sua independência, provar sua auto-suficiência. Principalmente, precisa deixar sua mão livre para os namorados ou namoradas que virão.
Essa sua reflexão sobre mãos largadas me lembra também uma outra que vi um dia sobre casais que gritam quando discutem, alegando só é preciso falar mais alto quando os corações estão distantes. Infelizmente manter vivos os relacionamentos dá mais trabalho do que imaginávamos, minha amiga. bjos mil. saudades.
Comentário de Anna França — 19 de Dezembro de 2008 @ 22:50