31 de Dezembro de 2008

Virada

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 08:49

Quando tive minha primeira crise de coluna, aos 40 anos, fiquei obcecada por encontrar o motivo. Descobrir o movimento exato que eu tinha feito na ginástica, e que deveria passar a evitar, por exemplo. Muitos exames, consultas e leituras sobre coluna lombar depois, a frase do primeiro médico que visitei começou a ecoar na minha mente, pois de alguma forma se repetia na minha apuração sobre o assunto.

“Você não pode dormir de bruços”, disse o médico. “Isso é ridículo. Durmo de bruços há 40 anos”, repliquei. “Pois esse é o problema: dormir de bruços por 40 anos.” Meu mundo caiu, minha cama virou do avesso, e achar posição à noite tornou-se um inferno particular.

Mas o bom da maturidade (sempre temos que achar algo de bom na maturidade) é que você descobre, simultaneamente, a dificuldade e a capacidade de mudar. Aos 40, eu podia dar a minha virada na cama, na vida, na forma de pensar, na profissão. Hoje, quando vislumbro todas as possibilidades de mudanças, me sinto que nem adolescente. Excitada e temerosa, mas com a vida inteira pela frente.

Então hoje, seja lá qual for a sua idade, dê-se ao luxo de sentir-se assim, com uma vida inteira pela frente. Faça planos e acredite na sua capacidade de realizá-los. Se até eu consegui passar a dormir de lado, como mandam os ortopedistas, você há de fazer valer a sua lista de resoluções. Feliz 2009!

29 de Dezembro de 2008

História de Natal

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:17

Ultrapassados os 60 anos, ele já tinha acumulado algum pé de meia e uma família relativamente numerosa, contando filhos, cunhadas e netos. Os primeiros netos. Tirou do bolso R$ 49 mil para convidar os 14 parentes mais próximos para uma semana – a de Natal – no Club Med. Na verdade, parcelou em dez vezes, no cartão.

Estava preocupado com a crise financeira. Mas, quando, na hora do jantar, a cunhada aparecia com a netinha de poucos meses no carrinho, ele sorria que nem criança. A família conversava pouco à mesa, demonstrando alguma formalidade, talvez tédio. Entre a sobremesa e o café, o avô pegava a bebê no colo, com conhecimento de causa (deixava-a de frente, como em uma cadeirinha), e passeava pelo restaurante. A cada três ou quatro passos, dava um beijo na carequinha da neném.

Todo jantar a cena se repetia. Fiquei pensando se aquele não seria o momento em que ele concluía que valera a pena. O pacote caro, a vida voltada para o trabalho, alguns sonhos da mocidade definitivamente enterrados.

Mas há muitos natais ele parou de pensar naqueles sonhos. Neste Natal, de 2008, descobria em si uma ternura adormecida, quem sabe desde a sua própria infância. E percebia que nada no mundo podia ser mais doce do que o cheirinho da neta, inspirado profundamente antes de cada beijinho no salão.

21 de Dezembro de 2008

Natal sem computador

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:13

Sabe aquela história de entrar em recesso? Sempre morri de inveja de quem entra em recesso, apesar de nunca ter compreendido bem a expressão. Pois chegou a minha vez. Volto por aqui no dia 29. Uma semaninha sem computador. Sem cybercafé, computador de hotel, nada. Vamos ver se consigo.

Feliz Natal para todos!

18 de Dezembro de 2008

Em cartaz, férias escolares

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:52

Férias escolares, crianças em casa. Peço a ajuda da babá para a programação infantil. Ela lembra da nossa conversa sobre a importância de tomar iniciativas e corre ao jornal, para checar os filmes nos cinemas.

- Além de Madagascar 2, tem vários filmes para crianças em cartaz - certifica-se, satisfeita.

- Quais? - pergunto. E ela começa a ler:

- “Feliz Natal”, “O menino do pijama listrado”, “Branca de Neve depois do casamento”…

Pano rápido. Depois, dizem que não sei delegar.

16 de Dezembro de 2008

Vigilância e cumplicidade

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 16:52

Um professor coloca pedras grandes dentro de um recipiente vazio, até não mais caber, e pergunta aos alunos se está cheio. Eles respondem que sim. Mas o mestre pega um saco de pedrinhas pequenas e mostra que cabe muito mais. E agora, está cheio? Alguns ainda arriscam em concordar, até ele repetir o truque com areia, e depois água.

Terminada a primeira etapa da experiência, o professor volta-se para outro recipiente, idêntico, e enche-o de água. Dessa vez, nada mais caberá ali – areia, pedrinhas ou pedras grandes.

Muito bem, diz a orientadora do Vigilantes do Peso, quem sabe o que representam as pedras grandes, que precisam vir antes para ocupar o espaço? Uma jovem, de mãos dadas com o namorado (ambos pouco acima do peso e com ares de novatos), responde baixinho: são as saladas? A palestrante não ouve, porque uma senhora obesa dá a resposta certa, com a voz impostada: as pedras somos nós!

Eu teria apostado na salada. Mas o Vigilantes é assim, cheio de parábolas da internet e metáforas bregas, como um livro de autoajuda - com a diferença de que funciona. Uma vez fui a uma reunião do Narcóticos Anônimos, para fazer uma matéria (juro), na sacristia de uma igreja no Grajaú. Ali, com permissão para observar a rodinha, percebi por que esses grupos costumam ter bons resultados, apesar de congregar pessoas tão diferentes.

Acima de tudo, de tudo mesmo, existe a busca por identificação, cumplicidade e compromisso. Simples assim. Mudar hábitos, ou vícios, é difícil para todo mortal, rico ou pobre, simples ou sofisticado. Nos AAs da vida, as pessoas se despem de preconceitos, relevam as diferenças e se apóiam umas nas outras.

Nessa hora, dá para acreditar que o homem é mesmo um ser gregário, e não alguém prestes a atirar em outro da mesma espécie por causa de uma briga de trânsito.

***

Sobre o Vigilantes, sempre tive curiosidade, mas temia olhares hostis do tipo o-que-essa-magra-está-fazendo-aqui. Mas foi tranqüilo. Pelo menos em Ipanema, estar três quilos acima do peso (de novo…) já é suficiente para os outros levarem a sua preocupação a sério.

11 de Dezembro de 2008

De mãos dadas

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 17:06

Sempre me intrigaram os casais que não andam de mãos dadas. Em geral, não são mais namorados, e podem até estar casados há décadas, o que justificaria o gesto – ou melhor, a falta dele. Mas o casamento ou a duração da relação não parecem ser os critérios, já que podemos observar casais bem velhinhos caminhando na calçada, de mãos entrelaçadas, como tem que ser.

Sim, tem que ser. Imagino que seja uma dessas regras universais – tirando, claro, o caso das culturas mais exóticas aos nossos olhos, nas quais as mulheres são obrigadas a andar atrás de seus “senhores”, por exemplo.

Tem que ser porque o toque das mãos é o começo do amor. Costumava vir antes do beijo, na era que precedeu à da “ficação”. Só perdia para o encontro dos olhares, mas este deixa margens a dúvidas. Já as mãos, não. Se são acariciadas e retribuem o toque com igual delicadeza, o enlace está caracterizado. Se, diferente, o encontro de mãos se dá de supetão, por iniciativa masculina cheia de determinação, a promessa de namoro é logo compreendida. Namoro longo, desses com cinema e pipoca.

Mas eis que um dia as duas mãos não mais se juntam, permanecem penduradas, lado a lado. Terá sido a pressa dele, uma distração que ela não perdoou, mas também não cobrou, porque tantas mágoas já estavam acumuladas? Ou teria sido ela própria quem recusou o aconchego mecânico, entediada ou irritada que estava? Vai saber.

Tenho a impressão que mãos, uma vez largadas, não se unem mais. O casamento pode até durar, manter algum tipo de cumplicidade, mas uma distância sempre estará separando aquelas duas pessoas. Uma distância de apenas alguns centímetros e um gesto, mas que revela um tipo de não-entrega, de solidão a dois.

Quando andamos na rua com uma criança pequena, o ato de pegá-la pela mão é automático, denota proteção e cuidado. Quando se torna “grande”, a criança passa a recusar a mão do adulto (os meninos antes das meninas, veja só). Ela precisa mostrar sua independência, provar sua auto-suficiência. Principalmente, precisa deixar sua mão livre para os namorados ou namoradas que virão.

9 de Dezembro de 2008

Inflação, numa hora dessas

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:41

Em tempos de crise, meus olhos foram atraídos pela promessa: embalagem econômica. Ótimo, assim o hidratante dura o verão inteiro, pensei. Mesmo assim, demorei-me um pouco mais em frente à gôndola da farmácia, o suficiente para notar, um pouco acima, o mesmo produto, da Johnson&Johnson, na embalagem pequena, por R$ 5,60.

Peralá. Será possível? Fiz as contas. Por 400 ml eu pagaria R$ 12,00. Valia mais a pena levar dois hidratantes pequenos, de 200 ml cada, e dispensar a “oferta”.

- Moça, será que esse preço não está errado? Essa embalagem não é nada econômica.

- Deixa eu checar. É, é isso mesmo. A senhora me desculpe, mas aumentaram todos os preços esta semana, e agora só dá confusão.

Discretamente, pousei a cestinha com xampu e condicionador em um canto e saí de fininho. Um dia ainda arrumo tempo para comparar preços de verdade e ser uma consumidora mais esperta.

8 de Dezembro de 2008

Dezembro feliz

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:21

- Mãe, a última música da apresentação é “Noite feliz”. Vê se não chora, tá?

A recomendação me pegou de surpresa. Logo eu, que sempre fugi das emoções baratas do Natal, era candidata à “pagação de mico” que minha filha tanto passou a temer depois de completar … 9 anos! (Imaginem o que vem por aí)

Ok, confesso. Eu tinha deixado os olhos marejar na quinta-feira, no auto de Natal da escola. Vá lá, talvez tenham escorrido algumas lágrimas. Também, a minha “bebê” estava fantasiada de estrela cadente, ao lado de duas anjinhas a caráter, quando todas as crianças receberam suas flautas das mãos da professora, para o grande final. “Noite feliz”.

Agora, era a vez da apresentação de piano. Lá estava eu, tentando achar um espaço entre as filmadoras e máquinas fotográficas dos papais orgulhosos, enquanto me esforçava para calibrar as emoções, evitando lágrimas e micos.

Fim de ano, não tem escapatória, para mães e crianças superagendadas. Apresentação disso e daquilo, sem contar as festinhas de aniversário antecipadas. Para quem não sabe, o antigo inconveniente de fazer aniversário nas férias escolares foi superado: as crianças comemoram um, dois meses antes. Ou seja, em dezembro.

Acontece que em dezembro também temos que trabalhar em 20 dias o equivalente a 30, fazer compras de Natal, programar a viagem das férias, participar de confraternizações e enfrentar o pior trânsito de todos os tempos.

Acho que acabo de descobrir porque ando chorando com musiquinhas de Natal…

5 de Dezembro de 2008

Crise, que crise

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:51

O trânsito em Ipanema está um caos, nas calçadas as pessoas se esbarram com as sacolas cheias de presentes, parece que já estamos na véspera do Natal.

Sei que a crise financeira desembarcou pra valer no país e conheço até gente que foi demitida por causa dela (e não a pretexto dela). Mas a realidade que se impõe nas ruas é outra. O clima é de festa, otimismo, dinheiro no bolso.

Vamos viver dias esquisitos este mês, de notícias contraditórias. Resta saber de que tom ficará a maré, depois que as duas correntezas se encontrarem. Turva, contaminada pelo desemprego, ou clara, depois que as más notícias se diluírem nesta onda de consumo tão vistosa?

Respostas convictas, ou extremadas, a esta questão dividem hoje as pessoas em duas categorias bem distintas: os pessimistas e os otimistas. De que lado você está?

Nessas horas, sempre me lembro que uma reportagem que mostrava, retrospectivamente, as grandes previsões catastrofistas que nunca de concretizaram. Virus que destruiriam o mundo, explosões demográficas e por aí vai. Para otimistas incorrigíveis, como eu, é o suficiente para não mudar.

1 de Dezembro de 2008

Pode ser tendência

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 16:01

Há algum tempo parei de assinar a Veja. Demorei. Embora indignada com a revista, eu tinha aquela sensação de se tratar de leitura obrigatória, como antigamente supunha ser o Jornal Nacional. Temendo crises de abstinência aos domingos, depois de anos de vício, assinei a Época.

Mas continuava com aquela coceirinha de folhear a Veja, quem sabe por um impulso masoquista. Comecei a encontrá-la nos cafés de Ipanema e dar uma olhadinha. Adorei a sensação de não ser assinante oficial, ideologicamente falando, e poder acompanhar os assuntos da revista - ficar indignada com a linha editorial, mas ler também alguma matéria interessante.

A tal folheada pode levar dez minutinhos ou uma hora, dependendo do interesse que a edição despertar. Não é que o espírito francês de deixar os clientes à vontade, pagando apenas por uma xícara de café, pegou no Rio? Ou seja, por módicos R$ 3 tomo um expresso e ainda leio a Veja, que custa R$ 8,40 nas bancas.

Para completar, sinto-me ecologicamente correta. Toda vez que coloco no lixo uma pilha de revistas quase novas, e constato que ninguém mais leu, morro de culpa. Chego a lamentar não ter um consultório, ou outro negócio com sala de espera, para compartilhar as revistas com os pacientes/clientes.

Já nos cafés, as revistas estão do jeito que deveriam estar - usadas, lidas e relidas. Nos salões de cabeleireiro, então, nem se fala, embora ali só encontremos as Caras da vida. Aliás, alguém mais, além dos salões, assina a Caras?

Resultado: agora já penso em reservar outro café semanal para ler - ou folhear - a Época. E parar de assinar. A verdade é que não existe revista semanal indispensável, que precisa ser lida ainda no domingo. Isso era antes da internet.

Hoje, a semanal está mais para prazer do que obrigação. E uma leitura assim, leve e casual, parece própria de ser compartilhada em “salas de leitura” - e aí está uma oportunidade que os cafés já perceberam.

Em uma galeria em frente ao meu escritório, existem dois cafés. A Browneria, que deixa em cima das mesinhas Veja e Caras da semana, está sempre lotada. O Armazém do Café, com meia dúzia de revistas velhas, fica vazio. Pode ser coincidência. Mas também pode ser tendência.

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