No chão
Publicado por Marta em 28 Nov 2008 | sob: Cotidiano
Poucas coisas são tão desconcertantes quanto levar um tombo. Não quando se está praticando um esporte ou fazendo movimentos fora da rotina, de risco calculado. Para estes, sempre há uma pontinha de preparação do espírito.
Mas quando se está distraído, em uma tarefa banal como caminhar ou descer escadas, o tombo nos tira do prumo. É quando acreditamos na existência das tais frações de segundo, porque as vivenciamos inteirinhas, como em câmara lenta. Várias partes do corpo - especialmente mãos e joelhos - são acionadas intuitivamente, tentando minimizar os efeitos da queda.
Mas se o corpo tenta se adaptar à situação, a mente, não. Fica enviando comandos inúteis ao corpo já vencido, numa tentativa vã de se reequilibrar. Já vi gente estatelada no chão com aquela expressão de “isso não pode ter acontecido”.
Quando eu era pequena, caía muito. Eram os tempos das botinhas ortopédicas e logo me colocaram um par delas, porque eu teria as pernas tortas. Mais tarde, como mãe, soube que tudo não passava de balela, que as pernas tortas e os pés chatos na infância consertam-se sozinhos, com o tempo.
Mas crianças pouco se machucam. Já os velhos podem morrer com um tombo no banheiro. Agora há pouco vi uma senhora, com mais de 70, levar um tombo inacreditável na calçada de pedras portuguesas do Leblon. Magra, um pouco curvada, vestida clássica e impecavelmente, carregava em uma das mãos um daqueles sacos grandes que guardam exames de imagens de laboratório. Penso que chutou o saco, ou tropeçou nas pedras irregulares.
Ela caiu reta, como uma porta derrubada por um chute. Nada de mãos, joelhos, reação. Os brincos, de pressão, dourados e grandes, voaram longe. Foi tão espetacular, com o perdão do viés positivo do adjetivo, que uma pequena multidão correu para socorrê-la.
O lábio inferior sangrava e alguém trouxe gelo (de onde?) em um saco plástico meio sujo. Quase intervim, mas ela agradeceu e o colocou na boca, com um gesto automático, ainda deitada no chão. Continuava sem conseguir reagir. Imaginei-a pensando “isso não pode ter acontecido”. Ainda outro dia eu era jovem, bonita e atlética, e agora estou no chão, cercada de olhares piedosos.
Um deles era o meu. Foi muito difícil conter as lágrimas depois.
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