28 de Novembro de 2008

No chão

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:43

Poucas coisas são tão desconcertantes quanto levar um tombo. Não quando se está praticando um esporte ou fazendo movimentos fora da rotina, de risco calculado. Para estes, sempre há uma pontinha de preparação do espírito.

Mas quando se está distraído, em uma tarefa banal como caminhar ou descer escadas, o tombo nos tira do prumo. É quando acreditamos na existência das tais frações de segundo, porque as vivenciamos inteirinhas, como em câmara lenta. Várias partes do corpo - especialmente mãos e joelhos - são acionadas intuitivamente, tentando minimizar os efeitos da queda.

Mas se o corpo tenta se adaptar à situação, a mente, não. Fica enviando comandos inúteis ao corpo já vencido, numa tentativa vã de se reequilibrar. Já vi gente estatelada no chão com aquela expressão de “isso não pode ter acontecido”.

Quando eu era pequena, caía muito. Eram os tempos das botinhas ortopédicas e logo me colocaram um par delas, porque eu teria as pernas tortas. Mais tarde, como mãe, soube que tudo não passava de balela, que as pernas tortas e os pés chatos na infância consertam-se sozinhos, com o tempo.

Mas crianças pouco se machucam. Já os velhos podem morrer com um tombo no banheiro. Agora há pouco vi uma senhora, com mais de 70, levar um tombo inacreditável na calçada de pedras portuguesas do Leblon. Magra, um pouco curvada, vestida clássica e impecavelmente, carregava em uma das mãos um daqueles sacos grandes que guardam exames de imagens de laboratório. Penso que chutou o saco, ou tropeçou nas pedras irregulares.

Ela caiu reta, como uma porta derrubada por um chute. Nada de mãos, joelhos, reação. Os brincos, de pressão, dourados e grandes, voaram longe. Foi tão espetacular, com o perdão do viés positivo do adjetivo, que uma pequena multidão correu para socorrê-la.

O lábio inferior sangrava e alguém trouxe gelo (de onde?) em um saco plástico meio sujo. Quase intervim, mas ela agradeceu e o colocou na boca, com um gesto automático, ainda deitada no chão. Continuava sem conseguir reagir. Imaginei-a pensando “isso não pode ter acontecido”. Ainda outro dia eu era jovem, bonita e atlética, e agora estou no chão, cercada de olhares piedosos.

Um deles era o meu. Foi muito difícil conter as lágrimas depois.

26 de Novembro de 2008

Carteirinha (falsa) no lixo

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:50

Eu não tenho carteirinha de estudante. Não tenho uma desde… que saí da faculdade! Põe tempo nisso…

Parece meio óbvio, mas não é. Nos últimos anos, ouvi várias justificativas de amigos para “arrumar” uma carteirinha, e pagar meia entrada no cinema, no teatro etc. Talvez eu pudesse pedir uma no curso de inglês, sugeriu uma amiga. Nada mais justo, disse outro, já que o preço da inteira está um absurdo, justamente porque ninguém paga o ingresso integral. Na prática, a meia tinha virado inteira, e o valor dobrado era para trouxas.

Mas eu sou assim, certinha (trouxa?), e sabia que jamais ficaria à vontade naquela situação. Hoje li no jornal a solução, paliativa, encontrada para o problema: apenas 40% dos ingressos serão reservados para “estudantes”. Ou seja, os pobres dos estudantes (sem aspas) vão ter que correr para chegar na frente dos estudantes com aspas, nem tão pobres assim.

Claro que a solução definitiva passa por fiscalizar a autenticidade das tais carteirinhas, mas parece que isso não é tão simples e rápido. A reserva de 40% é considerada uma medida emergencial, para aliviar a classe artística, e obviamente passa longe da pretensão de se fazer justiça.

Já que é assim, pensei em outra medida, que ajudaria a separar o joio do trigo. Por que não eliminar o benefício, de cara, para quem tem mais de 25 ou 30 anos? Sim, porque, vamos combinar, que tem mais de 30, e ainda se identifica como estudante, está mais para desempregado - mesmo que esteja fazendo um cursinho de computação para se reciclar. Uma situação difícil, mas, que eu saiba, a política de subsídio/incentivo da meia entrada não foi feita para ela.

O fato é que a grande maioria dos detentores de carteirinhas de estudante acima de 25 anos é de pessoas que trabalham e poderiam bancar seu ingresso integralmente. Pelo menos na teoria, este valor deverá cair agora, já que a explicação para o preço alto era a enxurrada de meias entradas.

Então vamos fazer um trato: discretamente, aposente sua carteirinha falsa, sua cara de pau e as explicações tostines sobre o que veio antes - a inteira para trouxas ou o jeitinho para não ser um deles. Não é este o seu caso? Então convença um amigo a jogar a carteirinha no lixo. Vamos tentar botar ordem na casa. E no cinema, no show, no teatro…

24 de Novembro de 2008

Tênis chinelo Rio de Janeiro

Arquivado sob: Femininas, Comportamento — Marta @ 16:08

Mulheres costumam ter problemas para escolher a roupa. Quanto menos familiar a ocasião – incluindo local e pessoas ao redor -, mais difícil encontrar as peças certas no guarda-roupa. Em uma das ótimas cenas de “Vicky Cristina Barcelona”, a primeira personagem do título troca de blusa meia dúzia de vezes antes de seu encontro romântico e proibido. O detalhe é que as trocas consecutivas se dão apenas entre duas opções. Atire a primeira pedra a mulher que nunca experimentou várias vezes a mesma roupa, variando apenas os ângulos no espelho.

Apesar de a cena descrita acima ser motivo de piada nas rodas masculinas, desconfio que não seria diferente com os homens, se eles fossem tão atentos aos detalhes - e tivessem tantas opções de indumentária - quanto as mulheres. O motivo é um só: ninguém gosta do sentimento de inadequação – salvo, claro, quando a intenção é exatamente chamar a atenção (ou quando se é turista; mas a liberdade da inadequação autorizada a ele é um capítulo, ou post, à parte)

Pois na sexta-feira passei por minha prova de fogo. Tinha levado para trocar na academia uma roupa escolhida com algum critério, para poder sair à noite - um vestidinho longo e informal, sugestão inspirada em uma vitrine ipanemense. Como de hábito, emendaria o trabalho do dia com a balada noturna - se é que podemos chamar assim um jantarzinho básico com amigos acima dos 40, talvez 50 anos.

Suada e feliz com o sentimento da ginástica cumprida, dirigi-me ao merecido banho certa de que não tinha esquecido nada – até o xampu havia me lembrado de repor. Vestido abotoado e cabelo escovado, imaginei que a sexta-feira valia um rímel, providenciamente mantido na bolsa da academia. Aproveitei a incursão na bolsa lotada para pegar a sapatilha, perfeita para dosar a ousadia do vestido longo. Apalpa daqui, afasta a toalha molhada de lá, e nada. Não acreditei. Tinha esquecido a sapatilha em casa.

Teria que calçar o tênis. Justamente o tênis velho, e não o novo, ainda por cima sujo de barro, da trilha feita no fim de semana. Teria que sair dali de vestido longo e tênis sujo. Tentei suavizar a situação mentalmente, ser mais Cristina do que Vicky, mas estava difícil. Não, eu nem mesmo almoçaria no shopping, de tênis e longo, como se estivesse lançando moda. Daria um jeito de passar em casa o quanto antes, e rezaria para não atrair olhares curiosos até lá.

Por coincidência, uma amiga de São Paulo me ligou no dia seguinte desesperada: tinha trazido na bagagem apenas chinelinho de dedo, para ir à festa carioca onde conheceria os amigos do novo namorado. No Rio, chovia a cântaros. Ainda por cima, ela descobrira um convite luxuoso para a tal festa presumidamente informal.

Outra Vicky, coitada, pensei eu… Na próxima encarnação, juro que quero nascer Cristina.

21 de Novembro de 2008

TUDO

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:15

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Tenho um livro em casa que faz o maior sucesso. Não, não é um clássico daqueles que ninguém consegue ler, nem uma raridade literária. Trata-se do Tudo. Deixo-o numa prateleira bem alta, inacessível, e logo alguém comenta: “Nossa, tem tudo mesmo nele?” Pela grossura e pela imponência do volume, nem preciso responder. Basta balançar a cabeça e erguer as sobrancellhas, com ar entre misterioso e galhofeiro.

Houve um tempo, antes da internet, que as possíveis revelações do Tudo rendiam tiradas filosóficas dos visitantes - especialmente se o vinho estivesse rolando junto com o papo. E ele continuava lá, intocado. Alcançar o Tudo não é tarefa fácil; exige escada e alguma ousadia, além de braços fortes para sustentá-lo. Melhor deixá-lo onde está, envolto em mistério e poeira, percebiam todos.

Mas outro dia minha filha me fez pegá-lo. Como ela acaba de descobrir que papai noel não existe, pensei que talvez não se decepcionasse de todo com o conteúdo do Tudo. No final, quem se deliciou fui eu, ensinado-a os truques para conseguir “navegar” (ops) por uma velha enciclopédia. Depois, decidi que jamais me disfarei dela. Como algumas pessoas guardam discos de vinil, esperarei o meu livro engraçado tornar-se preciosidade de época, quem sabe passada para filha e netos.

14 de Novembro de 2008

O de sempre

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:57

Você adora determinado prato de um restaurante, ao qual não vai com a freqüência que gostaria. Depara-se, afinal, com a oportunidade. Senta-se à mesa e segue-se o dilema: deve repetir, pela enésima vez, o mesmo pedido?

Com o cardápio em punho, tenta levar a sério as demais opções. Percebe que há novidades no menu - geralmente há. Os olhos, no entanto, não se fixam nelas. São atraídos pela linha onde parece piscar um farol. Ali está ele, o prato de sempre. Trata-se do porto seguro das refeições, a promessa do aconchego dos sabores perfeitos somado à familiaridade das experiências passadas. Sem supresas, é verdade; mas quem precisa de aventuras se a satisfação está garantida?

Nesses tempos em que a gastronomia ganhou reconhecimento de arte, escolher sempre o mesmo prato pega mal. É verdade que se pode evocar a tradição, ou qualidades pessoais como a coerência e a fidelidade. Mas o fato é que quem não arrisca não petisca. Se não variar, você jamais irá aperfeiçoar paladar e olfato para se habilitar ao sofisticado mundo da gastronomia. Além do que, vai parecer um chato.

Há a possibilidade de dividir o peso da decisão com a sua companhia à mesa (quem sabe ela promete uma degustação do excitante prato que escolheu e alivia a sua culpa) ou mesmo conversar com o maitre. Alguns deles juram ter visto clientes ligando para a mãe ou até para o analista, na hora de escolher o prato. Portanto, não se sinta mal se demorar cinco, dez minutos até uma decisão.

Eu já paguei muito esse mico (o de demorar, não o de telefonar para o analista). Mas hoje, sexta-feira, me antecipei e resolvi: vou no de sempre - e já estou aguando por ele.

10 de Novembro de 2008

Lifestyle carioca

Arquivado sob: Rio — Marta @ 17:51

Por conta de uma dessas voltas que a vida dá - especialmente a de jornalistas livres, leves e soltos como eu -, saí diretamente de um livro ambientado no meio do cerrado para a cobertura do Rio Summer, evento de moda no Rio.

Com algum distanciamento, os tipos em um evento desses são tão curiosos quanto os sinhozinhos que tinha entrevistado antes.

O que mais ouvi no Rio Summer, organizado por paulistas, foram comentários sobre o “lifestyle carioca”. Era engraçado pescar diálogos entre aquelas pessoas, que tentavam vestir modelitos descolados (gíria paulista, por sinal) para ficar parecidas com as garotas e os garotos de Ipanema.

- Esse desfile vai ser na Casa das Canoas. Onde é?

- Parece que é na Niemeyer, uma estrada aí. Vou ver direitinho onde fica.

- Também estou perdidinha. Falei que ia para a República do Líbano, mas aqui no Rio a rua é República do Peru.

No final, foi tudo divertido, civilizado e charmoso, graças à organização paulista e ao cenário deslumbrante carioca. Rivalidades foram esquecidas, em nome da moda e dos negócios. Certo? Sei não. Rolavam umas piadas, de um lado e de outro.

Ressalvando que sempre fui vista como um pouco paulista pelos cariocas, vou dar o meu pitaco: estava meio “Oba Oba”, aquele espetáculo de mulatas onde todo mundo sorri para tirar dinheiro dos “gringos”. Sobre o tal lifestyle carioca, o Ancelmo diria: “lifestyle é o cacete”.

Mas, afinal, o que é o estilo carioca? Certamente não tem nada a ver com meninas de chinelinho e muita maquiagem, em plena luz do dia. Talvez a alma carioca seja resumida pela relação com o dinheiro: para permanecer no Rio é preciso não ligar tanto assim para ele. Ou ter tanto a ponto de poder ficar por aqui.

8 de Novembro de 2008

Cidade (ainda) dividida

Arquivado sob: Rio — Marta @ 18:05

Cerimônia de lançamento da candidatura do Rio a Patrimônio da Humanidade, hoje de manhã. O governador Sérgio Cabral chega acompanhado de seu pupilo Eduardo Paes, prefeito eleito. Paes usa uma camisa azul clara, ainda com jeito de candidato em campanha na Zona Oeste. Cabral ousa mais, com uma pólo em cor vibrante.

Explico os detalhes estilísticos. Estávamos no Rio Summer, novo evento de moda do Rio, no Forte de Copacabana. As autoridades começaram a se acumular nas cadeiras reservadas junto ao palco. Teoricamente, representantes de entidades da sociedade civil, que precisa se mobilizar para uma candidatura dessas. O empresário Olavo Monteiro de Carvalho, uma espécie de embaixador do Rio, discursava, quando Fernando Gabeira chegou. De camisa vermelha estampada.

Pego de surpresa, Monteiro de Carvalho exclamou: “Ih, o nosso quase prefeito!”. Gabeira recebeu a maior salva de palmas do evento, com direito a uhuus. Os discursos continuaram, e as autoridades foram chamadas ao palco, para o apoio formal à candidatura. O apresentador Zeca Camargo já tinha acabado a lista, quando alguém cochichou para ele chamar “o deputado federal Fernado Gabeira”.

Impossível não comparar as palmas dedicadas aos dois políticos. Paes tentava disfarçar com sorrisos seu constrangimento. A situação piorou na hora do foto do grupo - bem umas 20 pessoas. Assessores pediram para alguns se abaixarem, para todos caberem na foto. Paes, humilde, se abaixou, e ficou quase embaixo de Gabeira, ereto e pimpão.

***

Depois fiquei lembrando de uma declaração de Eduardo Paes no Globo de hoje, de que continuaria a freqüentar os barzinhos de sempre como prefeito. “Imagine se eu vou parar de andar na Zona Sul. Ainda tem 30% lá para me defender.”

Meu resumo da ópera: a cidade ainda está dividida, e Gabeira não vai sair de cena para facilitar as coisas. Paes está visivelmente magoado com sua nova condição de candidato que só venceu por causa da periferia-pobre-massa-de-manobra. Afinal, ele cresceu no Leblon, estudou no Santo Agostinho, e era filhinho de papai da Zona Sul até outro dia.

Tomara que não seja vingativo na hora de governar a cidade.

5 de Novembro de 2008

Hoje é dia de Obama

Arquivado sob: Opinião — Marta @ 14:50

Não sei você, mas eu fiquei sinceramente emocionada com a eleição de Barack Obama. Dei-me conta que, nos últimos oito anos, todos nós vínhamos nutrindo uma antipatia profunda por tudo que dissesse respeito aos Estados Unidos, personificados na pele de George W. Bush. Pensando bem, é como julgar os cariocas por César Maia, ou os fluminenses pelo casal Garotinho.

Pois chegou a hora de revermos o nosso anti-americanismo, e darmos uma chance para os pobres (!) americanos, que agora precisam tanto do terceiro mundo (os emergentes) para sair da crise… Viva os novos tempos, viva Obama e, por que não, viva os Estados Unidos da América.

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