2 de Setembro de 2008

Viva o povo brasileiro

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 18:03

Jornalistas e publicitários costumam cultivar o bate-papo com motoristas de táxis, como uma espécie de termômetro do senso comum sobre temas políticos, econômicos etc. Nós, mulherzinhas que fazemos as unhas (quase) toda semana, contamos também com as manicures.

Em vez de começarmos comentando o trânsito ou o tempo, iniciamos a conversa falando de nossas crianças. As craques do alicate costumam ter algumas em casa, vigiadas por uma vizinha, enquanto trabalham duro no salão e chacoalham por horas no trem ou no ônibus.

Mas a minha manicure não sofria com esse transtorno. Morava pertinho, na Rocinha. Perguntei se tinha filho sem muita convicção, porque ela aparentava uns vinte e poucos anos. “Tenho quatro”. Pronto, logo eu teria que disfarçar meu desalento diante de mais um caso perdido, pensei.

Mãe aos 15, dez anos depois ela já tinha dois meninos e duas meninas. “Do mesmo pai?” “Comecei a namorar meu marido aos 12 anos. Digo sempre para a minha mais velha, de 10 anos, não seguir o meu exemplo, porque comecei cedo demais. Mas agora liguei as trompas.”

Por via das dúvidas, a mãe zelosa enche os filhos de atividades e evita que fiquem à toa na favela. “Atividades?”, estranhei. Sim, a maior faz curso de inglês e de informática, na Rocinha mesmo. Depois da escola, tem balé, no Clube do Flamengo, junto com a irmã menor. Os meninos também fazem aulas de natação no clube.

Fiquei com a impressão de que as aulas eram gratuitas ou subsidiadas, porque dinheiro parecia não ser problema. Alguns minutos e unhas depois, eu já estava achando que aquela mulata bonita, de sobrancelhas bem feitas e cabelo impecável, era a mulher-maravilha dos comerciais de internet banking. Só que, em vez de executiva, é manicure e mora na Rocinha.

Tinha batido a meta do mês, graças aos muitos tratamentos de “esfoliação e embelezamento das mãos”; conseguia gerenciar pelo celular a vida dos quatro filhos e ainda cuidava do casamento, seguindo as dicas das revistas femininas espalhadas pelo salão. Bacana, não? Viva a ascensão da classe C brasileira.

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