Viva Sampa
Estive em São Paulo esta semana, tipo vapt-vupt, naquela correria que combina bem com a cidade. Sempre me impressiono com a mistura de caos e organização, com o equililíbrio prestes a ser quebrado e com o final feliz, ufa, quando tudo dá certo, funciona e você pode voltar para casa. É muita gente, muito carro, muita cidade para transpor, dirigir, digerir, aproveitar.
São Paulo só funciona por conta de um esforço coletivo louvável. A cordialidade das pessoas sempre me encanta, já que estou acostumada à, digamos, espontaneidade do atendimento e dos serviços cariocas, se é que você me entende. A eficiência se impõe quase que por falta de opção, afinal, São Paulo não pode parar. Além disso, é preciso compensar o gigantismo com alguma gentileza.
Mas esse pacto coletivo também tem outro motor: a oportunidade. Em meio à confusão, elas pululam. Agora, mais do que antes. Essa é a grande diferença de hoje para os anos em que vivi ali. O motorista do táxi conta a história do colega que abandonou o carro de praça para voltar ao ramo de seguros. Ao celular, no saguão do aeroporto, um rapaz diz ao seu interlocutor que está recusando trabalho, de tanta fartura.
São Paulo sempre foi a terra das oportunidades, democráticas, para quem quer trabalhar e tem talento. Mas, nos anos 90, a coisa estava preta. Lembro-me das coletivas de imprensa no Dieese, em que era divulgada a pesquisa mensal de emprego, que eu cobria todo mês. Sempre saía de lá com um recorde, uma matéria candidata à manchete, ou pelo menos um alto de página.
O que mais me impressionava era o chamado, tecnicamente, desemprego pelo desalento. Ao contrário da pesquisa do IBGE, mais “chapa branca”, aquela conseguia captar o número de pessoas que sequer buscavam as vagas, porque sabiam que encontrariam as portas fechadas. Ficava imaginando o sujeito desanimado, sem conseguir sair da cama, com a carteira de trabalho na mão.
O desalento, somado à confusão, fazia de São Paulo uma cidade hostil. Mesmo assim, eu gostava. Agora, para quem quiser encarar, deve estar melhor ainda.
