Farsa em Pequim
Publicado por Marta em 13 Ago 2008 | sob: Opinião
A China vai se adaptar ao mundo ou o mundo se renderá à lógica chinesa? Foi o que pensei ao saber dos bastidores da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. A menininha que cantou no estádio era uma farsa, a transmissão ao vivo escondia uma cuidadosa montagem e até torcedores fakes estão sendo colocados em espaços vazios das arquibancadas.
Lá, na China, a revelação não é um escândalo. Afinal, o caminho do crescimento deles passou por copiar, reproduzir, ignorar individualidades (como a da menina que ganhou o concurso de canto, mas foi dublada porque tinha os dentes tortos) em nome do bem coletivo. Nós, nos países democráticos e ocidentais, ficamos espantados. Ou seria falsamente espantados?
Na verdade (ops), estamos nos acostumando a relevar alguma dose de farsa, em nome do entretenimento. Nos reality shows, pessoas representam personagens, fingindo ser elas próprias. Nas revistas, bundas ficam sem celulite e rugas são eliminadas por fotoshop, enquanto celebridades posam em salas decoradas como se estivessem em suas casas. Na nossa internet, tão livre, proliferam perfis falsos e vírus travestidos de mensagens inocentes. Em todas as mídias, departamentos comerciais pressionam as áreas de jornalismo e entretenimento para inserir da forma mais disfarçada possível a publicidade e o interesse do cliente.
Já percebi que a geração mais nova não se importa tanto se algo “é de verdade” ou apenas “parece ser de verdade”. O importante é garantir o show, a diversão, as emoções que rapidamente serão substituídas por outras. A celebridade toma realmente aquele refrigerante ou foi paga para exibi-lo? A foto espetacular é uma montagem? Que importa, dirá um adolescente descolado.
Talvez os chineses, apenas, não tenham percebido as nossas regras para tornar tênue essa fronteira, por desconhecerem o protoloco de falsificação que vigora do lado de cá do planeta. Definitivamente, não precisavam ter distribuído um press-release afirmando que a menina de dentes perfeitos ganhara o concurso de canto, disputado por mil garotas. Mentira assim, deslavada, pega mal por aqui.
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Marta, o que fizeram com uma criança pode ser considerado um fator cultural,ou eufemisticamente falando a tal lógica oriental, eles não vêem isso como uma discriminação, o que é realmente uma loucura nos nossos padrões. Mas o que é interessante é observar que não houve ontem entidade feminista no ocidente ou ainda de defesa dos direitos das crianças, como a Unicef, que se levantasse contra o absurdo do uso da imagem da criança que deixou de ser anônima para ser conhecida como gorda e feia! Quantos anos de análise para aquele menina, se ela morasse no ocidente… Pelo contrário, a menina da voz lindinha foi representada pela professora que afirmou, categórica, que ela estava feliz por ajudar ao país. Isso me lembrou a Pequena Miss Sun Shine. Será que a ausência de polêmica se dá por causa do negócio milionário da transmissão dos jogos? Ou será que ser mulher e criança não tem importância mesmo???
Mônica, você está cheia de razão, mas acredito que essa história ainda vai gerar muita polêmica. Pelo menos no território livre da internet, já devem existir até comunidades em defesa da menina preterida. Aí a imprensa vai ter que correr atrás, tentar driblar o governo chinês etc.