Fiquei chocada com uma cena que presenciei na academia, onde tomo banho antes de ir para o trabalho. Uma menina de uns 5 ou 6 anos, depois da aula de natação, era obrigada pela mãe a passar por uma sessão de … escova!

A menina dizia “Mãe, tá quente!”, tentando escapulir do secador que a mulher mirava no couro cabeludo da coitadinha. A mãe respondia, em tom carinhoso, mas sem dar trégua: “Só mais um pouquinho” ou “Já está acabando”.

Nem preciso dizer que a mulher tinha um cabelão, que eu juraria ser superliso de nascença, se não relacionasse os fatos. A menina também tinha cabelo comprido, provavelmente ondulado demais para o gosto da progenitora. E dá-lhe baforadas quentes, bem no comecinho do cabelo, que é o segredo da escova bem feita, para quem não sabe.

Essa história de mulheres que tentam fazer das filhas uma espécie de miniatura de si próprias, a qualquer custo, sempre me intrigou. Não é muito mais interessante observar uma personalidadezinha própria aparecendo na sua frente, como mágica? Mas não. Pais e mães adoram relacionar as características do filho às suas. “Igualzinho à mãe”, “Igualzinho ao pai”. E a criança vai ouvindo aquilo, aprendendo que deve ser assim ou assado, para não decepcionar os adultos que mais ama.

Quando eles chegam ao ponto de colocar-lhe roupas desconfortáveis, e até torturá-la com secador, como se a criança fosse um objeto decorativo, aí dá para pensar se essa campanha para não ter filhos não veio em boa hora. Quem tem filho para exibir ou fazer companhia pode tranqüilamente escolher outras fontes de prazer - se a maternidade deixar de ser uma obrigação e passar a ser uma opção.

O assunto está bombando na imprensa desde que foi lançado no Brasil o livro “Sem filhos – 40 razões para você não ter”, da psicanalista Corinne Maier. Quem ainda não esbarrou com artigos por aí pode ter uma dimensão da polêmica no blog Contemporânea, da Carla Rodrigues. Trata-se de uma discussão das boas.

Confesso que já me flagrei tentando convencer amigos inseguros a ser pai ou mãe, por achar que vão curtir a experiência (como eu) e desempenhar relativamente bem o papel (como eu!). Ao mesmo tempo, já pensei também: “Por que diabos essa pessoa teve um filho?”. Foi, aliás, exatamente o que me ocorreu no banheiro da academia, hoje de manhã.