Agosto 2008
Arquivo Mensal
Dicas, atualidades e assuntos para o café
Arquivo Mensal
Publicado por Marta em 29 Ago 2008 | sob: Cotidiano
Estou em fase de adaptação. Mudei há duas semanas de escritório, para um prédio no mesmo quarteirão de Ipanema. A recepção foi estranha. No meu primeiro dia, subindo no elevador quase lotado, o ascensorista conseguiu falar, no percurso de quatro andares:
- Então foi a senhora que comprou aquela sala? A senhora deve ser dentista, não? Desculpa perguntar, mas quanto a senhora pagou?
Andei evitando o elevador, só para não me expor à indiscrição absurda do sujeito. Mas eis que ontem, antes que eu pudesse chispar pela escada, uma vizinha de andar resolve me abordar, depois de se apresentar rapidamente:
- Desculpa perguntar, mas quanto você pagou por essa sala? É que um amigo meu, que também é dentista, está interessado em se mudar para o prédio…
Pelo visto, começando a frase com “desculpa perguntar”, pode-se matar a curiosidade sobre qualquer assunto. Desculpa perguntar, mas você é gay? Perdão, mas qual é o seu salário? Não sei você, mas eu fico totalmente desconcertada nessas horas.
Aliás, desculpa perguntar, mas ascensorista e dentista não são as piores profissões do mundo? Depois, fico com fama de antipática.
Publicado por Marta em 28 Ago 2008 | sob: Comportamento
A pressa é inimiga da gentileza. Como todo mundo hoje vive na correria…
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Mulher vive reclamando da falta de gentileza dos homens. Ontem, observei como elas podem ficar abusadas diante de um homem sempre gentil, tratando-o como se fosse seu empregado. Depois, vem a fama de gostar de cafajeste.
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Pior que mulher abusada, só mesmo mulher abusada com pressa. Elas são capazes de furar fila, avançar o carro sobre os pedestres, destratar o garçon. Mas não eram os homens, os grosseirões?
Publicado por Marta em 25 Ago 2008 | sob: Diversão e arte, Comportamento

Uma das curiosidades sobre ultrapassar a barreira dos 40 é que começamos a ter outra percepção da importância e da relatividade da memória. Conversando com pessoas da mesma faixa etária, percebo que as lembranças, com o tempo, não só ficam seletivas como podem ser recriadas. Essa reconstrução do passado acontece a partir de uma mistura de materiais - sentimentos, fotos, relatos e, vá lá, lembranças.
Na medida em que a memória vai falhando, os buracos são preenchidos por fantasias e suposições - cimentados cada vez que recontamos a tal história. Os vôos da imaginação costumam ser contidos por registros, como fotos e cartas, além de relatos de outras pessoas que viveram o mesmo momento. Ainda assim, não é incomum duas pessoas recontarem a mesma história, de 20 anos atrás, de forma completamente diferente.
Estou trabalhando numa pesquisa que remete a memórias de 30, 40, até 50 anos atrás, e tenho me deparado com situações inusitadas, como a de uma senhora que jurava ter acontecido, no dia de seu casamento, um fato importante na sua cidade, que na realidade só ocorreu dois dias depois. Ela não estava mentindo, simplesmente havia juntado, na sua lembrança, dois acontecimentos tão marcantes que talvez devessem ter sido simultâneos. Mas não foram. Sinto-me quase constrangida de não poder endossar sua fantasia.
Uma matéria do New York Times, publicada hoje no caderno Digital do Globo, mostra pessoas que estão optando, conscientemente, por recriar a própria memória, manipulando os registros do passado e sendo feliz para sempre. Sim, é a cara do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Só que pra valer.
Você insere na foto do seu casamento o primo que não pôde ir, tira a sirigaita que namorava o tio na época, e que hoje não tem a menor importância, aproveita para afinar a própria silhueta e pronto: lá está a data memorável, do jeito que você vai imaginar no futuro. Daqui a dez anos, quem se lembrará dos retoques? E você ainda vai jurar que seu primo estava lá, veio do Canadá especialmente para a cerimônia.
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Essa reflexão toda é útil para a gente tentar criar, de verdade, os tais momentos inesquecíveis nas nossas vidas. Aqueles que não precisarão de foto para serem lembrados, e ficarão a salvo da tentação do photoshop. Talvez a dica esteja nas cenas difíceis de serem apagadas de “Brilho eterno”, filme que merece ser visto e (por via das dúvidas) revisto.
Publicado por Marta em 21 Ago 2008 | sob: Comportamento
Você já comprou uma roupa que nunca usou? E um livro que nunca leu? Não sei você, mas, a mim, dá uma culpa enorme. Nada mais constrangedor do que, depois de um piti por “estar sem roupa”, encontrar uma blusinha com a etiqueta no armário.
Em relação a roupas, guardo o nome da loja e fico atenta se não rola alguma armadilha. Provavelmente eles têm algum truque para você levar o que não precisa ou jamais ficará bem. A outra hipótese é você ter tido um surto consumista, e nessa hora é bom aprender a lição.
Mas, no caso do livro, a culpa sempre é sua, que não arrumou tempo para algo importante (ler um livro sempre é mais importante do que a maioria das coisas banais que você faz). Começar um livro e parar no comecinho dá uma sensação terrível de falta de persistência. Afinal, quantos deles só ficam maravilhosos lá pela metade?
Então a pilha de livros na mesinha de cabeceira vai aumentando, porque me nego a colocá-los na estante, não lidos, onde ficarão semi-esquecidos.
Fiquei curiosa sobre como as pessoas se sentem a respeito disso quando soube, entrevistando uma agente literária para uma matéria, que o mercado editorial não se importa tanto se os livros são lidos, contanto que sejam comprados. “Como assim?”, perguntei. Ela me explicou que já existem pesquisas lá fora, não muito conclusivas, sobre títulos com boas vendas, mas que não são lidos por seus compradores. Não é estranho? Será que as pessoas não se sentem mal a respeito?
Certamente tudo isso tem a ver com o tal consumismo desenfreado. A melhor definição que já ouvi sobre o assunto foi a da “síndrome dos dez martelos”, diagnosticada, claro, nos Estados Unidos. Trata-se do comportamento do sujeito que, quando precisa fincar um prego na parede, vai feliz da vida numa loja comprar um martelo. Quando termina o trabalho e precisa guardar a ferramenta na garagem, encontra lá nove martelos igualzinhos.
A esquisitice foi detectada a alguns anos, o que me leva a crer que hoje já deva ser chamada de “síndrome das dez furadeiras”. Ou seja, são coisas que compramos apenas pelo prazer, ou pela compulsão, de comprar. Feio, né? Acho que vou fazer um esforço para baixar a pilha na minha cabeceira, antes de comprar mais livros.
Publicado por Marta em 18 Ago 2008 | sob: Opinião
Faço minhas as palavras de Marcelo Tas:
“Claro, é emocionante ver Cesar Cielo se tornar campeão olímpico, o homem mais rápido de Pequim nos 50 m. Um grande atleta, patrocinado por sua abnegada e honrada família de Santa Bárbara do Oeste, interior de São Paulo.
Triste demais é ver as patéticas comemorações galvãobuênicas na TV. Como se, de um momento para outro, o Brasil através de Cielo se tornasse uma potência no esporte. A barulheira boboca tenta, mas não esconde, a tragédia que é o esporte brasileiro. Cielo só conseguiu seu feito histórico porque está há três anos treinando nos Estados Unidos. É um talento que se desenvolveu justamente porque se isolou da mediocridade que é a política pública para o esporte olímpico verde-amarelo.
A dura realidade é que antes de Cielo estávamos em 38º, atrás de potências como o Vietnã, no quadro de medalhas. Agora, com esse ouro isolado, estamos em 27º, atrás de “gigantes esportivos” como Mongólia e Romênia. Pessoal, vamos combinar: O Brasil é um vexame olímpico! Cielo, uma exceção e não produto da “pujança esportiva” brasileira, como querem os eufóricos locutores berradores e bobocas.”
Essa foi tirada do Blog do Tas, mas hoje certamente teremos outras boas sacadas diretamente de Pequim no Custe o Que Custar (CQC), às 22h, na TV Band.
Publicado por Marta em 15 Ago 2008 | sob: Cotidiano
Ele era peão da obra, quando a balsa que atravessava o rio virou com uma carreta. Pergunta dali, pergunta daqui, e alguém lembrou que Benedito havia sido da Marinha, e mergulhava. Arrumaram um escafandro e durante 40 dias ele mergulhou, tateou na água barrenta e içou os equipamentos puxados à superfície por um trator.
Os anos eram os 60, e a profundidade, 45 metros. Encerrado o trabalho, parabenizaram-no e informaram que seria contratado como “encarregado da balsa”.
- Eu não sabia o que era “encarregado”. Achei que fosse carregar alguma coisa. Depois, descobri que ia ser chefe. Pensei: “Ah, bão. Aí a coisa muda de figura.”
A historinha aí de cima, narrada com o delicioso sotaque mineiro, faz parte do novo livro que estou escrevendo, para uma empresa. Quando puder, dou mais detalhes. Por enquanto, quem está imersa sou eu, nas gravações das entrevistas.
Publicado por Marta em 15 Ago 2008 | sob: Cotidiano
Achei que era só eu. Mas hoje, quando o professor anunciou que Rodrigo Santoro estava ali atrás, a mulherada toda desdenhou.
Deixa eu explicar melhor. Claro que o ator é bonito, interessante etc. Mas daí a achar que todas as mulheres do mundo vão suspirar ou passar mal porque o galã está malhando ao lado…
- Já passei dessa fase – disse uma das quarentonas (mas inteiraça) presentes - Se ainda fosse alguém próximo, que eu conhecesse de verdade.
Mas pode ser que a minha turma de ginástica só seja assim tão blasé porque convive, dia sim dia não, com Reynaldo Gianecchini na academia.
Publicado por Marta em 13 Ago 2008 | sob: Opinião
A China vai se adaptar ao mundo ou o mundo se renderá à lógica chinesa? Foi o que pensei ao saber dos bastidores da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. A menininha que cantou no estádio era uma farsa, a transmissão ao vivo escondia uma cuidadosa montagem e até torcedores fakes estão sendo colocados em espaços vazios das arquibancadas.
Lá, na China, a revelação não é um escândalo. Afinal, o caminho do crescimento deles passou por copiar, reproduzir, ignorar individualidades (como a da menina que ganhou o concurso de canto, mas foi dublada porque tinha os dentes tortos) em nome do bem coletivo. Nós, nos países democráticos e ocidentais, ficamos espantados. Ou seria falsamente espantados?
Na verdade (ops), estamos nos acostumando a relevar alguma dose de farsa, em nome do entretenimento. Nos reality shows, pessoas representam personagens, fingindo ser elas próprias. Nas revistas, bundas ficam sem celulite e rugas são eliminadas por fotoshop, enquanto celebridades posam em salas decoradas como se estivessem em suas casas. Na nossa internet, tão livre, proliferam perfis falsos e vírus travestidos de mensagens inocentes. Em todas as mídias, departamentos comerciais pressionam as áreas de jornalismo e entretenimento para inserir da forma mais disfarçada possível a publicidade e o interesse do cliente.
Já percebi que a geração mais nova não se importa tanto se algo “é de verdade” ou apenas “parece ser de verdade”. O importante é garantir o show, a diversão, as emoções que rapidamente serão substituídas por outras. A celebridade toma realmente aquele refrigerante ou foi paga para exibi-lo? A foto espetacular é uma montagem? Que importa, dirá um adolescente descolado.
Talvez os chineses, apenas, não tenham percebido as nossas regras para tornar tênue essa fronteira, por desconhecerem o protoloco de falsificação que vigora do lado de cá do planeta. Definitivamente, não precisavam ter distribuído um press-release afirmando que a menina de dentes perfeitos ganhara o concurso de canto, disputado por mil garotas. Mentira assim, deslavada, pega mal por aqui.
Publicado por Marta em 11 Ago 2008 | sob: Jornalismo
Adoramos rankings. Já existem até rankings de rankings, tão grande é o nosso fascínio por este tipo de hierarquização. Por isso não me conformo quando leio que alguém já é o terceiro lugar em alguma coisa, e ponto final. Ultrapassou quem? Quais são o primeiro e o segundo colocados? Neca de pitibiriba de informação, porque afinal não era esse o tema principal da matéria.
Juro que tento não usar este espaço para fazer uma crítica da imprensa, porque já tem gente boa fazendo isso por aí. Mas, nesse caso, me senti perseguida, quase punida, por ser mais curiosa que os repórteres de plantão.
Está no Globo de hoje: “Veja como o capitalismo por aqui cresceu e se multiplicou. O Brasil é hoje o terceiro país do mundo com maior número de empresas de capital aberto nas Bolsas de Nova York e da Europa.” E no de ontem: “O país já é o terceiro maior consumidor mundial de produtos para alisamento de cabelo.”
Ok, dá para imaginar que os Estados Unidos lideram os dois rankings. Digamos que a informação foi omitida para não subestimar os conhecimentos do leitor. Mas os segundos colocados não são tão óbvios assim. Além disso, nestes tempos de olimpíadas, não dá uma vontadezinha de conhecer o quarto lugar, para saber quem ficou para trás e gritar “Brasil-il-il”?
Pior é que não achei as respostas no Google, para dar o fecho certo para este post. Também, quem manda ter interesse pelo mercado de capitais e pela indústria de cosméticos ao mesmo tempo?
Publicado por Marta em 08 Ago 2008 | sob: Comportamento
Fiquei chocada com uma cena que presenciei na academia, onde tomo banho antes de ir para o trabalho. Uma menina de uns 5 ou 6 anos, depois da aula de natação, era obrigada pela mãe a passar por uma sessão de … escova!
A menina dizia “Mãe, tá quente!”, tentando escapulir do secador que a mulher mirava no couro cabeludo da coitadinha. A mãe respondia, em tom carinhoso, mas sem dar trégua: “Só mais um pouquinho” ou “Já está acabando”.
Nem preciso dizer que a mulher tinha um cabelão, que eu juraria ser superliso de nascença, se não relacionasse os fatos. A menina também tinha cabelo comprido, provavelmente ondulado demais para o gosto da progenitora. E dá-lhe baforadas quentes, bem no comecinho do cabelo, que é o segredo da escova bem feita, para quem não sabe.
Essa história de mulheres que tentam fazer das filhas uma espécie de miniatura de si próprias, a qualquer custo, sempre me intrigou. Não é muito mais interessante observar uma personalidadezinha própria aparecendo na sua frente, como mágica? Mas não. Pais e mães adoram relacionar as características do filho às suas. “Igualzinho à mãe”, “Igualzinho ao pai”. E a criança vai ouvindo aquilo, aprendendo que deve ser assim ou assado, para não decepcionar os adultos que mais ama.
Quando eles chegam ao ponto de colocar-lhe roupas desconfortáveis, e até torturá-la com secador, como se a criança fosse um objeto decorativo, aí dá para pensar se essa campanha para não ter filhos não veio em boa hora. Quem tem filho para exibir ou fazer companhia pode tranqüilamente escolher outras fontes de prazer - se a maternidade deixar de ser uma obrigação e passar a ser uma opção.
O assunto está bombando na imprensa desde que foi lançado no Brasil o livro “Sem filhos – 40 razões para você não ter”, da psicanalista Corinne Maier. Quem ainda não esbarrou com artigos por aí pode ter uma dimensão da polêmica no blog Contemporânea, da Carla Rodrigues. Trata-se de uma discussão das boas.
Confesso que já me flagrei tentando convencer amigos inseguros a ser pai ou mãe, por achar que vão curtir a experiência (como eu) e desempenhar relativamente bem o papel (como eu!). Ao mesmo tempo, já pensei também: “Por que diabos essa pessoa teve um filho?”. Foi, aliás, exatamente o que me ocorreu no banheiro da academia, hoje de manhã.
Publicado por Marta em 05 Ago 2008 | sob: Comportamento, Opinião
A foto acima, divulgada hoje pela agência Reuters, me fez lembrar um diálogo que escutei na semana passada.
Ela, infinitamente mais jovem e bonita que a Cristina Kirchner da foto, mas com boca igualmente carnuda, retocava o gloss da Victoria’s Secret, sem ajuda de espelho. No fim, perguntou se tinha ficado ok. No que ele respondeu:
- Está ótimo. Parece que você acabou de comer um javali.
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Por falar em Cristina Kirchner e Mercosul, que é o assunto dos jornais, convenhamos que dá um certo desânimo acompanhar esse noticiário, depois de páginas e páginas sobre a Rodada de Doha, que não deu em nada.
Publicado por Marta em 01 Ago 2008 | sob: Viagens
Baixando as fotos da viagem, lembrei do dia em que presenciamos os famosos bombeiros de Nova York em ação. De verdade. O acidente não era grandes coisas: uma caminhonete adentrou a portaria de um prédio na Little Brazil Street, esquina com Fifth Avenue, aparentemente sem feridos. Foi o suficiente para uma pequena multidão se instalar ao redor, com celulares em punho para a foto do dia.
Os homens do FDNY (Fire Department New York) tornaram-se exemplo maior de heroísmo depois do 11 de setembro, quando 200 deles morreram tentando resgatar as vítimas do atentado. Continuam brilhando nas manchetes por motivos mais prosaicos, como o calendário que estrelam anualmente e causa alvoroço entre a mulherada. No ano passado, um vídeo erótico com um deles foi divulgado na internet, e o calendário chegou a ser suspenso.
Eu confesso que entrei no clima da tietagem. Descia a pé a Quinta Avenida quando percebi a confusão. Entrei na multidão e tirei minha foto. Parecia parte do tour.