Uma das curiosidades sobre ultrapassar a barreira dos 40 é que começamos a ter outra percepção da importância e da relatividade da memória. Conversando com pessoas da mesma faixa etária, percebo que as lembranças, com o tempo, não só ficam seletivas como podem ser recriadas. Essa reconstrução do passado acontece a partir de uma mistura de materiais - sentimentos, fotos, relatos e, vá lá, lembranças.
Na medida em que a memória vai falhando, os buracos são preenchidos por fantasias e suposições - cimentados cada vez que recontamos a tal história. Os vôos da imaginação costumam ser contidos por registros, como fotos e cartas, além de relatos de outras pessoas que viveram o mesmo momento. Ainda assim, não é incomum duas pessoas recontarem a mesma história, de 20 anos atrás, de forma completamente diferente.
Estou trabalhando numa pesquisa que remete a memórias de 30, 40, até 50 anos atrás, e tenho me deparado com situações inusitadas, como a de uma senhora que jurava ter acontecido, no dia de seu casamento, um fato importante na sua cidade, que na realidade só ocorreu dois dias depois. Ela não estava mentindo, simplesmente havia juntado, na sua lembrança, dois acontecimentos tão marcantes que talvez devessem ter sido simultâneos. Mas não foram. Sinto-me quase constrangida de não poder endossar sua fantasia.
Uma matéria do New York Times, publicada hoje no caderno Digital do Globo, mostra pessoas que estão optando, conscientemente, por recriar a própria memória, manipulando os registros do passado e sendo feliz para sempre. Sim, é a cara do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Só que pra valer.
Você insere na foto do seu casamento o primo que não pôde ir, tira a sirigaita que namorava o tio na época, e que hoje não tem a menor importância, aproveita para afinar a própria silhueta e pronto: lá está a data memorável, do jeito que você vai imaginar no futuro. Daqui a dez anos, quem se lembrará dos retoques? E você ainda vai jurar que seu primo estava lá, veio do Canadá especialmente para a cerimônia.
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Essa reflexão toda é útil para a gente tentar criar, de verdade, os tais momentos inesquecíveis nas nossas vidas. Aqueles que não precisarão de foto para serem lembrados, e ficarão a salvo da tentação do photoshop. Talvez a dica esteja nas cenas difíceis de serem apagadas de “Brilho eterno”, filme que merece ser visto e (por via das dúvidas) revisto.