Quando eu tinha uns 13, 14 anos, meu pai me encheu de livros que gravitavam em torno da ditadura militar. Estávamos no fim dos anos 80, ainda sem eleições livres, e por algum motivo ele achou que era hora de eu saber das coisas da vida.

Lembro-me de ter ficado bastante impressionada com a questão da tortura. A partir dessa época, por uma estranha lógica que desenvolvi internamente, comecei a decorar versos. A idéia era que, se algum dia eu ficasse em uma situação de isolamento e dificuldade, teria textos na cabeça para me fazer companhia.

Como não era exatamente devoradora de poesia, passei a contentar-me em colecionar mentalmente letras de músicas. Era o tempo das rodinhas de violão, o que facilitava bastante as coisas. Quando a hipótese de um cativeiro, motivado pela militância política que eu nem tinha, parecia remota, arranjei outro motivo para justificar a decoreba: a iminência de uma hecatombe nuclear, outra paranóia da época. Caso eu ficasse presa em um abrigo, cercada de radioatividade…

Isso tudo me veio à mente outro dia quando vi o filme “O escafandro e a borboleta”. O personagem principal encontra-se numa situação absurda de encarceramento - dentro do próprio corpo, conseguindo expressar-se apenas por piscadelas do olho direito - quando é visitado por um amigo que sobreviveu a um longo seqüestro.

Havia motivos para ressentimentos por parte do sequestrado, que sequer recebera um telefonema do amigo quando retornara de seu suplício. Mas a cumplicidade fez-se mais forte. Ele arrisca, então, um conselho, baseado na sua terrível experiência: para sobreviver, agarre-se ao que resta de humanidade dentro de você.

Hoje nem penso em tragédias desse tipo, mas fiquei feliz por ter mantido o hábito de guardar versos. Ainda hoje, flagrei-me cantarolando na carro, tentando decorar as letras do novo CD da Adriana Calcanhoto, que é maravilhoso.