Filosofadas de viajante
Publicado por Marta em 26 Jul 2008 | sob: Viagens
Conheço pessoas que não gostam de viajar. Trata-se de gente quieta, que não alardeia por aí sua preferência pelo abrigo familiar, e talvez nem admita para si própria o desconforto em dormir fora de casa. Mas eles são muitos, e em geral justificam as poucas viagens do currículo com motivos verossímeis - falta de tempo, de dinheiro.
Ok, mas sabemos que quem gosta mesmo de viajar dá um jeito. O viajante apaixonado, mesmo duro, põe mochila nas costas, economiza, deixa de comprar ou trocar de carro. Se tem filhos, abre mão da casa de praia, uma espécie de âncora no pé do viajante, e acostuma os pimpolhos desde cedo com a canseira da estrada ou dos aeroportos lotados, nas férias escolares.
Viajar é a aventura que nos resta. Adoro. Sofro também, e gosto de voltar para casa. Mas logo estou programando a próxima. Não consigo imaginar um futuro sem viagens a lugares novos, desconhecidos. A sensação de ser estrangeira é inquietante, quase angustiante, e ao mesmo tempo libertadora. Vicia.
A idéia de ser intruso e voyer de outras culturas, sob a fachada consentida de turista, é excitante. Às vezes, caminhando sozinha numa rua estrangeira, tenho a fantasia de que serei descoberta: “Ei, você aí. Deleitando-se com a diversidade da natureza humana, hein? Aproveitando para esquecer da sua vida, enquanto investiga a nossa… Peguei você, minha cara.”
Essa quase culpa pelo prazer de viajar talvez revele uma outra faceta minha: não sou a turista mais desencanada do mundo, como gostaria. Preocupo-me um pouco; canso, muito. Sempre planejo que relaxarei, e dormirei, mais na próxima viagem. Mas, em geral, volto exausta, com sono atrasado. Desfaço as malas e preciso ficar um, dois dias me refazendo.
Mas a vida é mesmo assim - aprendemos na escola e na nossa cultura cristã. Vivências emocionantes e realizações verdadeiras parecem cobrar sempre uma taxa em sofrimento, em concessões. Viajar, assim como criar um filho, exige dedicação. E também está no rol das coisas que dão sentido à vida, sabe-se lá por quê.
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